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::O que é que a baiana tem?::

23/02/2004

Por que será que tantas brasileiras, filipinas, tailandesas, tanta mulher por este mundão aí afora deixa seu país de origem com muito mais facilidade que um homem para acompanhar uma paixão? E por que será que com grande frequência muitos homens vão ao exterior, ou à Internet, e “por acaso” ficam conhecendo uma mulher de uma outra cultura, de um outro país?

Eu mesma já trabalhei numa seção internacional do programa de milhagens da Lufthansa que dá uma idéia das proporções: éramos 50, dos quais 45 eram mulheres estrangeiras aqui na Alemanha, de todos os continentes, o restante eram homens estrangeiros.

Começando pela aparência, logicamente o que foge ao padrão é mais bonito, atrai mais. Tem um sabor de aventura, faz com que a pessoa use mais sua imaginação, sonhe mais. É mais difícil de interpretar, de decifrar, de entender: é misterioso, e por isso acaba prendendo mais.

Por outro lado, acho que o homem tem tido cada vez mais dificuldade de lidar com o sexo oposto. Conheço homens alemães que já afirmaram não querer ter relacionamento com mulheres alemãs, só com estrangeiras. Talvez eles achem as alemãs independentes demais (sobre este ponto escreverei um capítulo à parte !) e acham que a estrangeira vai ser mais fácil de “domar”. Muitas delas, principalmente as que não aprendem a língua do país, ficam literalmente dependentes do parceiro para tudo e acabam virando um misto de donas-de-casa e amantes do marido, verdadeiros artigos de cama e mesa.

A formação pessoal e intelectual de uma pessoa leva décadas. Uma pessoa que se dispõe a vir morar no exterior tem que ter claro em mente que presenciará diariamente choques culturais, mais fortes ou mais brandos, que não acabarão em alguns dias ou meses, mas continuarão a existir mesmo depois de décadas no novo país.

O mesmo ocorrerá com o parceiro, tendencialmente falando. No princípio, a pessoa, a química é o que interessa. Mas com o tempo, será fácil constatar que em muitos pontos as duas pessoas são essencialmente diferentes, ao mesmo tempo em que se constata que a cultura, o meio em que se está é essencialmente diferente do país original. Quanto mais se aprende do país e do parceiro, maior pode ficar a barreira entre os dois. Em geral pode-se afirmar que isto ocorre com todo e qualquer relacionamento, mas no caso de um relacionamento internacional, as barreiras são mais diversas, devido à diversidade cultural das pessoas envolvidas.

Base importantíssima de um relacionamento internacional de sucesso é que tanto o homem quanto a mulher sejam independentes um do outro, tanto financeira quanto psicologicamente; afinal, em todos os sentidos. A mulher deve buscar saber se movimentar o máximo possível, independentemente, dentro do meio onde se encontra, assim como o homem deve procurar não depender da esposa pra comer, se vestir, sair, se divertir… É lógico que um relacionamento é feito de ajuda mútua e cooperação, mas quanto mais o indivíduo for independente, menor a possibilidade dele se apoiar no outro e de perder sua capacidade de se movimentar com suas próprias pernas e decidir com seus próprios meios (erro que pode ser fatal, caso o relacionamento se desmorone mais tarde).

Mas afinal, por que existem muito mais estrangeiras do que estrangeiros aqui, junto do parceiro alemão? Pode ser porque a mulher é mais aventureira, ela aceita com maior facilidade deixar tudo pra trás para seguir um grande amor. Por outro lado, não se pode esquecer que o homem tem, na maioria das vezes, um ganha-pão em seu país, que quase sempre é melhor, monetariamente falando, do que o da mulher. Outro fator importante é que a qualidade de vida (a base para a educação de possíveis filhos, o sistema social, etc.) é maior.

Lógico que existem relacionamentos entre pessoas de origens diferentes, em um mesmo país ou em países diferentes, que dão certo. Um grande pressuposto é que os dois lados se interessem e tentem entender a outra cultura, base da maneira de agir e de pensar do seu parceiro. Outro pressuposto é que, como em todo relacionamento, estas duas pessoas se disponham a aceitar compromissos que façam com que a convivência diária seja algo agradável. Relacionamentos sem estabelecimento de compromissos, em qualquer lugar do mundo, estão fadados ao insucesso.

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::Como comecei a trabalhar na Alemanha::

06/02/2004

Cheguei à Alemanha em 1993, depois de ter terminado os estudos universitários, para fazer um estágio pela AIESEC (Associação Internacional de Estudantes de Ciências Econômicas e Comerciais) na área de importação e exportação. O meu estágio durou um ano, que foi um dos melhores anos da minha vida e ao mesmo tempo um dos mais difíceis. Um dos melhores por ter podido viver sozinha e, pela primeira vez, totalmente independente, por ter vivido a tão sonhada experiência internacional e ter conhecido tantos lugares, pessoas e costumes diferentes. Difícil porque naquela época não existia ainda a internet, as cartas demoravam até seis semanas ida e volta, conseguir ler uma revista ou um jornal do Brasil era uma raridade e telefonar era caríssimo. As saudades e as dificuldades de comunicação eram muitíssimas, tanto com minha família e amigos no Brasil quanto na Alemanha, principalmente nos primeiros meses…

Durante o ano de 1993 fiz na cara e na coragem a prova de alemão PNdS (Prüfung zum Nachweis deutscher Sprachkenntnisse), que na época era necessária para entrar em uma universidade na Alemanha. Essa prova seria hoje equivalente ao teste DaF (Deutsch als Fremdsprache). Passei e me inscrevi inicialmente na Faculdade de Letras, tendo mais tarde mudado de cidade e de curso. Com o fato de ter tido o visto alterado de “estagiária” para “estudante”, obtive o direito de trabalhar oficialmente, por um determinado período de tempo durante cada ano. Lógico que, para viver e me sustentar, fazia de tudo. Já trabalhei, por exemplo, como garçonete em um restaurante e em um bar no período noturno. Foi uma experiência legal, que me dava o que precisava para viver, e, ao mesmo tempo, me permitia frequentar a Faculdade de “International Business” durante o dia.

Entrei com a papelada para pedir o reconhecimento dos meus estudos na Alemanha, mas infelizmente não reconheceram o que eu esperava. Naquela época, somente uma parte do curso de Administração, o Vordiplom (tipo um pré-diploma para o curso, o similar ao nosso bacharelado, já que o curso na Alemanha, na época, só exisitia como curso de Mestrado). Fiquei decepcionadíssima, também por não ter o entendimento das equivalências que tenho hoje! Mais tarde, fiquei sabendo que no começo dos anos 90 costumavam reconhecer na Alemanha apenas cursos de Ciências Exatas e os meus são da área de Ciências Humanas. Junto a isso, como eu disse, não existiam cursos de bacharelado naquela época por aqui, e comparado a um curso de Mestrado na área administrativa, o meu grau (Bachelor of Arts) era o de uma parte do percurso. Isso poderia significar que teria que começar o meu curso do início e precisaria refazer todas as matérias, o que, como estrangeira, significaria ficar na universidade alguns anos a mais do que os estudantes alemães, e, no final das contas, sair com um diploma similar aos dois bacharelados que já tinha na época. Isso estava fora de cogitação! Entrei numa sinuca e naquela época realmente não sabia mais o que fazer.

Mas sempre fui uma pessoa que anda de antenas ligadíssimas e, um belo dia, vi um anúncio de emprego na faculdade procurando por pessoas que falassem, dentre outras línguas, o português como língua pátria! Fui logo lá me apresentar, ou melhor, fui levada pelo meu então noivo, pois não tinha a menor ideia de onde ficava essa empresa, que aliás não era muito perto da minha casa.

Primeiramente, consegui uma colocação como estagiária e como gostei deles (fazia o atendimento de clientes internacionais da Lufthansa) e eles de mim, me ofereceram uma colocação fixa quando casei. Fiquei por lá durante quatro anos. Posteriormente, assumi o cargo de escriturária de exportação em uma outra empresa e depois o de assistente de exportação, trabalhando ao lado do diretor de exportação de uma empresa alemã de médio porte. Esta foi a minha história profissional dos primeiros dez anos na Alemanha.

A história continuou depois de 2005, quando me enveredei pela área de Recursos Humanos ao ser convidada pelo então diretor da empresa onde trabalhava para assumir as responsabilidades pela área. Na ocasião, fiz um curso de especialização completamente custeado pela empresa.

Queria colocar alguns pontos que talvez possam ajudar uma ou outra pessoa na busca de seu lugar ao sol aqui do outro lado do mundo:

– Estudar na Alemanha ou fazer estágios pode ser um trampolim pra quem quer trabalhar e viver aqui. Além da AIESEC, que atende estudantes da área gerencial, ainda há a organização IAESTE, que oferece estágios nas áreas de Ciências Exatas (Engenharia, Biologia, etc.);

– Tente ver seus empregos numa linha cronológica, como parte de um projeto de muitos anos. Não desista se o primeiro cargo “não for lá uma Brastemp”! Se você não está ainda exatamente onde queria estar, busque caminhos (e tente muitos!) para avançar conforme seu desejo;

– Quando me casei, fui buscar minha licença de trabalho (“Arbeitsgenehmigung“) alguns dias depois do casamento. De início, as funcionárias do “Arbeitsamt” (ou hoje “Agentur für Arbeit”) ficaram abismadas e não queriam me dar o tal documento, como solicitado, imediatamente. Tinha ido com meu marido, que entendia bem de leis para estrangeiros, e como não conseguiram encontrar uma razão baseada nas leis pela qual eu não poderia sair de lá sem a minha licença, não tiveram outra alternativa a não ser a de entregar-me o documento!

– Não se veja como um produto “menos qualificado” ou “menos competente” do que o trabalhador alemão ou de muitas outras nacionalidades. Você é um ser único e como tal pode obviamente apresentar pontos negativos para uma empresa (não vai saber falar e se expressar 100% corretamente em alemão, vai cometer erros de gramática, etc.), mas, por outro lado, também tem vantagens (sabe falar outros idiomas, é flexível, tem ideias diferentes de outras pessoas, etc., tudo isso por ter vindo de um outro país e ter passado por uma formação escolar diferente dos nascidos no país). Você é um “produto” para o mercado de trabalho e, como tal, deve se vender da melhor maneira possível, ressaltando ao máximo seus pontos positivos. No dia a dia, tudo vira uma troca: você ajuda seus colegas de trabalho naquilo que pode, e eles vão ajudá-la nas suas dificuldades com a língua. Lembre-se de agradecer sempre por ser corrigida e de oferecer sua ajuda quando puder. Ninguém nasceu perfeito!

– Não se deixe abater por receber respostas negativas e passar por muitas tentativas frustradas na busca por um emprego! A situação do mercado de trabalho está difícil mesmo, até para os próprios alemães, então sua melhor decisão é não desanimar e continuar tentando! É como o velho ditado alemão afirma: tudo tem um fim, só a salsicha é que tem dois! Se você não chegou ainda onde queria, é porque ainda está no caminho na direção do seu objetivo.

– Sempre acompanho as discussões que aparecem aqui sobre a integração de estrangeiros. Tenho uma opinião dividida a respeito: tanto o alemão oferece, muitas vezes, pouca oportunidade para que o estrangeiro se integre, como este frequentemente não demonstra querer se integrar. Se estou no exterior, trago comigo meus valores e minha maneira de encarar a vida, mas tenho que aceitar seguir normas, regras e leis do país que está me recebendo e fazer o maior esforço possível para me comunicar razoavelmente bem na língua pátria vigente. Tenho que contribuir da melhor maneira que puder para a minha própria integração, pois afinal eu é que tenho a ganhar mais com isso!

Boa sorte!!!

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01.08.12 – Veja também uma nota atual sobre o cartão azul UE neste post.


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