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::Mais uma vez sobre preconceitos::

26/07/2004

Vou voltar a bater nessa tecla porque acho o assunto muito importante. Se espero que pessoas estranhas tenham o interesse de me conhecer, de dividir comigo bons momentos, de trocar idéias e interagir comigo e se desejo fazer amigos por aqui não posso ficar de braços cruzados em posição de defesa, como se eles é que tivessem que se adaptar a mim e não eu a eles (logicamente sem deixar meus costumes e tradições para trás). Não posso cometer o erro que muitos cometem, primeiro tirando uma conclusão baseada em preconceitos de que todos os alemães são iguais, deixando assim que todos os acontecimentos reconfirmem minhas crenças, piorando a coisa ainda mais, perdendo tantas boas oportunidades de interagir positivamente com a cultura onde estamos inseridos.

Explico: ouço de muitos brasileiros que moram aqui na Alemanha muitas reclamações, de que o alemão é isso, é aquilo, é assim, é assado. Tudo bem, generalizações e pré-conceitos são mecanismos de todo o ser humano com o fim de tornar mais simples a percepção do mundo complexo que nos rodeia. Tudo bem, lidar com alemão nem sempre é fácil, é verdade. Não dividimos a mesma cultura, não temos os mesmos costumes. Eles não falam a nossa língua e nem nos entendem só através de um gesto ou de um sorriso. Algumas coisas que para eles são normais, para nós podem ser absurdas (tipo assoar o nariz à mesa ou ir à sauna pelado). E vice-versa. Nem sempre a comunicação verbal significa entendimento e a comunicação não-verbal também pode ficar cheia de maus entendidos.

Mas se eu não dou uma chance para o outro e acima de tudo para mim mesmo, como vou ter a chance de conhecer pessoas legais aqui do outro lado do mundo??? É muito fácil me colocar na posição de vítima, dizer que todos os alemães sao frios ou fechados e procurar viver aqui como se estivesse no Brasil, tendo somente contato com brasileiros, não me integrando na cultura e nos costumes locais, não aprendendo a língua alemã de forma razoável, como tantas outras nacionalidades fazem tão bem por aqui. Não é todo alemão que está interessado em integrar um estrangeiro ao seu meio, isso é certo, mas há outros que se interessam pelo ser-humano atrás do estrangeiro e por outro lado há muitos estrangeiros interessados em continuar morando aqui como se ainda estivessem em seu país de origem. Tudo é uma troca, uma questão de decisão e de postura. Mas é uma troca muito mais bonita e válida para ambas as partes se decido, a cada dia, ser simpática para com o meu semelhante, mesmo que ele nem sempre seja simpático comigo. Não se engane, se um alemão quer ser antipático e seco, ele será com a primeira pessoa que aparecer na sua frente, não importa quem ela seja, estrangeira ou não. Muitas vezes o pior problema é a intepretação que tiro de um acontecimento, não o acontecimento em si, isolado. E se alguém foi chato comigo ontem, nada o impede de passar a ser simpático comigo amanhã.

Nestas linhas não estou deixando o alemão preconceituoso de fora. Os que são preconceituosos e nos dizem o que pensam de frente ainda têm como trocar idéias conosco e ver que não é bem assim. Piores logicamente são aqueles que nos tratam super bem e por trás ou na hora « H » nos deixam na mão. Mas temos que saber separar o « joio do trigo » e saber reagir a problemas, aprender a reclamar por nossos direitos, a denunciar atos preconceituosos, a enfrentar situações incômodas, tudo com muita delicadeza e a certeza de que não sou nem pior nem melhor do que o outro, só diferente dele, mas tão digno de respeito quanto ele é. Muitos alemães precisam testar o território para saber até onde podem ir com determinada pessoa, e temos mesmo às vezes que mostrar que exigimos respeito e não aceitamos determinadas situações. Temos que impor respeito. Há muitas situações que nos cansam a idéia e nos levam a pensar que lá do outro lado do oceano nesse sentido é bem mais fácil. Mas será que é mesmo??? Não será também outra generalização???… Lá o primeiro contato pode ser muito mais simples, mas tanto lá como aqui existem pessoas de bom coração e outras pilantras, umas corretas e outras corruptas, enfim seres humanos de todos os tipos e cabe a nós descobrir o que vem no coração de cada um que passa por nossa vida.

Realmente, nem tudo são flores. Fazer amizade aqui é uma coisa demorada, que requer muito tempo, paciência e tolerância. Mas temos que manter os olhos abertos, o coração em prontidão e um sorriso nos lábios para podermos aproveitar as chances que nos são tão bondosamente colocadas em nossas vidas para encontrar pessoas especiais, não importa de onde quer que elas venham. O pior preconceito é o preconceito saído de nós mesmos.

::Vida de estrangeiro – ou – alguns mitos e verdades sobre morar no exterior::

12/07/2004

Parei uma vez de frente para uma igreja. Nela, um quadro de avisos, e nele, uma verdade: “Onde quer que você esteja, sempre irá levar na sua alma suas inquietações, suas dúvidas, sua história”. Verdade absoluta.

Tem gente que vem pro exterior pra fugir de algum problema, acha que pode deixar preocupações para trás. Mero engano. As preocupações vão nos acompanhar, não importa onde quer que estejamos.

Posso sair do meu país com a ilusão de que lá fora tudo é perfeito e altamente organizado. As pessoas lá só agem sob as leis da ética. Tudo funciona. Outro engano. Os seres humanos são múltiplos e, bons e maus, preguiçosos ou eficientes, povoam todos os países deste mundo. Se no Brasil o político rouba descaradamente, aqui na Alemanha ele rouba por debaixo do pano, se achar que roubar é uma boa. E aqui muitas leis são seguidas não porque as pessoas são responsáveis o suficiente para segui-las, mas sim porque se não o fizerem, vão perder muitos e muitos euros pagando multas.

Tem gente que acha que tudo lá fora é melhor, até as pessoas são melhores. Na realidade não somos nem melhores nem piores que os outros, somos tão humanos quanto eles, com nossas qualidades e defeitos. No exterior existem muitos erros, muitos acertos. Muitos setorem onde estão avançados tecnologicamente, outros nem tanto. E nem só de bens materiais vive o homem…

Lá fora é que muitos ficam conhecendo melhor o país onde nasceram. Eu mesma fui uma que, através da liberdade de imprensa e da maneira direta de expor idéias dos alemães, praticamente sem meios-termos, conheci e li muito sobre o Brasil estando fora do meu país. Às vezes a gente tem que estar longe das nossas origens pra conhecer bem o lugar de onde viemos e quem realmente somos.

Uma coisa é certa: depois que tomar a decisão de sair do meu país, nunca mais voltarei a ter uma pátria, no sentido mais profundo da palavra, um lugar pra chamar de “meu”. Nunca mais vou me se sentir 100% bem, onde quer que eu esteja. Quando estou aqui, me falta o pedaço de lá. Se estou lá, me falta o lado de cá. Se estou aqui, sou brasileira. Lá, sou chamada de “alemã”.

Somos cidadãos do mundo e temos, afinal, o direito relativo de ir e vir. Escolhi um canto pra mim onde me sinto bem, dentro do possível, apesar dos pesares, e gosto de viver aqui. Que cada um de nós encontre um lugar onde sinta que leva uma vida com qualidade, ao lado de pessoas com as quais valha a pena dividir a vida, mesmo tendo que abdicar de muita coisa pra conquistar isso. A vida é feita de escolhas.


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