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::A relativa democratização da escrita – ou a nova era da escrita::

14/08/2004

Hoje estou sem filha em casa. A tia dela está fazendo aniversário e porque ela mora numa cidade não muito perto daqui, minha Tatá foi pra lá com os avós e volta um pouco tarde, dormindo então na casa deles.

Quando cheguei em casa, por um “acaso” comecei a mexer numa lata que tenho, que é cheia de cartões. Da última vez que minha irmã arrumou parte de minhas coisas (e como ela sabe arrumar bem!), ela separou os cartões muito bravamente em tópicos, para ficar mais fácil de achar o que se quer… E debaixo dos cartões novos, achei alguns velhos, enviados pra mim há tempos, cartões postais, cartas de amigos e da família… E muitas recordações vieram à tona! Eu adoro a Internet e não consigo imaginar minha vida mais sem ela, mas que esse tempo de cartas escritas a mão e com muitos toques pessoais do remetente tinham toda sua nostalgia e mágica próprias, isto sim!

Resolvi um pequeno-grande dilema: será que sou viciada em Internet? Não, eu sou viciada pela comunicação, pela troca de idéias, pelos idiomas, pela capacidade de crescer enquanto pessoa, de dar e receber carinho, apoio, compreensão, amizade, amor, tudo através da linguagem.

Desde que me conheço por gente escrevo muito e leio demais. Quando era menina, trocava cartas com minha prima de Ipatinga, Denise. Depois arrumei uma “pen friend” no Canadá, lembro que se pagava pelo serviço e eu era capaz de ir à caixa de correios várias vezes durante o dia pra ver se tinha carta pra mim; afinal, podia ser que o carteiro naquele dia estivesse atrasado, né? 😉 Depois das minhas primeiras visitas à Europa e também logo depois que minha melhor amiga se mudou de vez pra Alemanha, comecei a receber cartas daqui, vindas de amigos, de admiradores… Na época, eu e minha amiga Lu desenvolvemos um plano “infalível” para usar o mesmo selo várias vezes (a razão de ser do plano era única e exclusivamente a falta de grana enquanto estudante): bastava passar cola em cima do selo, esperar secar, e colar o selo normalmente… e a cola evitava que o carimbo o marcasse definitvamente. Assim, era só retirá-lo do envelope, lavá-lo e colocá-lo pra secar, depois ele voltava pra onde tinha vindo através de outra cartinha e a brincadeira começava do começo…

Pode-se realmente dizer que a Internet democratizou a comunicação e institucionalizou uma nova era na escrita. Antes a gente lia determinados autores ou colunas de revistas e jornais, discutia sobre eles, trocava idéias em cima de suas idéias. Agora escrevemos nossas próprias idéias, mas não deixamos de ler. Só acrescentamos o exercício de pensar também através da escrita, como eles.

Infelizmente esta “democracia” só pode ser acessada por uma parte da população mundial, esta é a verdade. Uma pena. A utopia declarada pelos países ricos de acabar com a pobreza no mundo até 2015 vai, na minha opinião, continuar uma utopia por muitos e muitos anos. Decadas? Centenas de anos? Milênios? Uma grande tristeza, mas somente reflexo da tendência capitalista de deixar que os ricos sejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Além da desigualdade social, ainda há o fato de que a Internet só atinge determinados grupos de pessoas e gerações. Quem é jovem, hoje em dia, cresceu já surfando e estão por dentro das últimas novidades tecnológicas. Por outro lado, pessoas como meu chefe, de 50 anos, descobriram há pouco esse “novo mundo” e vão sempre se sentir meio que um peixe fora d’água nele.

Aqui na Internet, assim como na RL (real live) também vale aquela máxima de George Orwell: “todos os seres humanos são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.

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