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:: Alemão::

19/02/2005

Alemão é uma linguinha pra lá de complicada mas também muito bonita, muito certinha, admirável na sua exatidão.

Em alemão é possível falar muito com poucas palavras, é uma boa língua para filósofos. Não é a toa que vários filósofos famosos nasceram aqui.

Há tantos exemplos: um deles, o verbo cortar. Em alemão existem vários tipos de verbo que significam cortar, cada um com seu significado específico. Existe o “schneiden” que significa cortar, o “abschneiden” que significa cortar e separar o pedaço do resto, o “durchschneiden” que é o cortar passando pelo centro do que está sendo cortado, por exemplo um pão. E por aí vai…

Existem palavras muito bonitas também nesta língua, pra mim elas também tem a haver com o significado positivo, bonito: “Schmetterling” é borboleta, “süß” significa doce, “nett” é simpático (note que pra pronunciar esta palavra a gente é obrigado a dar um sorriso!).

Há também o significado dentro da palavra, por exemplo “Willkommen” que significa bem-vindo. “Will” vem do verbo querer e “kommen” é do verbo chegar, poeticamente querer-chegar. Mas também há palavras que assustam qualquer estrangeiro, como por exemplo “Staatsangehörigkeit” que significa nacionalidade. “Staat” é país, “angehörigkeit” é pertencer. Pentencer a um país = nacionalidade.

Em alemão, pra início de conversa, existem três tipos de substantivos: o feminino, o masculino e o neutro. Lembro-me da primeira aula de alemão no Instituto Goethe de Belo Horizonte, achei que quem tinha inventado essa língua era um louco! “Die Sonne” significa A sol, “der Mond” é O lua, “der Tisch” é O mesa. Já deu pra entender porque um alemão facilmente embanana o gênero dos substantivos em português!… Pra piorar e filosofar “das Mädchen“. “Das” é o gênero neutro, “Mädchen” significa moça. E como é que uma moça pode ser neutra???

Aí vêm as declinações: vários verbos “pedem” verbo direto ou indireto, e com isso você tem que sair declinando todo o resto da frase, adjetivo, substantivo e por aí vai. Uma beleza. Lembro-me daquela propaganda que passava na televisão quando eu era uma menina: “Você tem mil maneiras de fazer Neston, invente a sua!”

E os números? Ah, os números! São falados todos “ao contrário”: 69 é 9 e 60, um número de telefone, por exemplo 941463, pode ficar assim: é 4 e 90, 14 (que é quatro-dez) e 3 e 60. Os estrangeiros se habituam a escrever esses números de trás pra frente pra não errar, mas a mente alemã acha esse “nó cerebral” bem natural e eles conseguem fazer altas contas matemáticas de cabeça. Inacreditável.

Pra ninguém ficar achando que todo alemão domina sua língua, pra complicar mais um pouquinho há pouco tempo foi feita uma reforma no idioma e agora existem muitas regras que uns sabem, mas outros não, e assim todo mundo erra. As crianças na escola aprendem as novas regras, enquanto os adultos aprenderam as antigas… Mas tudo o que é escrito nos jornais, livros, tudo o que é impresso tem que observar as novas regras do idioma.

Conta a história que na época da Reforma e mais tarde com as fábulas dos irmãos Grimm é que foi definido o alemão que hoje é o alemão padrão. Cada cidade falava (e fala até hoje) um dialeto diferente, cada um usava regras diferentes. Foi o Martinho Lutero, segundo estou informada, quem começou a “escolher” as regras gramaticais desta língua. O alemão padrão é a língua dos negócios, da televisão, das revistas, dos jornais e dos noticiários. Mas os dialetos não morrem, eles existem também na forma escrita. No jornal da minha cidade toda semana sai um artigo escrito no dialeto daqui. Alemão tem orgulho de tradição e da cidade onde nasceu.

Quando entrei pra faculdade aqui, me asssutei com o fato de que o próprio cidadão alemão vem a ter dificuldade de comunicação dentro do seu país. Conheci um estudante que só falava dialeto e ele teve dificuldade, no princípio, de entender os próprios professores, que falavam só o alemão padrão…. Situação impensável para nós no Brasil, não é? E ainda existem várias combinações, como por exemplo a conversa entre duas pessoas que falam dois dialetos diferentes… Também há pessoas que entendem o dialeto, mas falam só o alemão padrão. Quando meus sogros conversam com pessoas da região, que só falam dialeto, entendo o que eles falam, mas não o que as pessoas respondem. Uma sorte é que até hoje só trabalhei com pessoas que dominam o alemão padrão, por isso praticamente não tive problemas neste sentido.

Por isso tudo é que eu, depois de 10 anos de Alemanha, comprei hoje um livro com o resumo da gramática alemã e outro com as declinações pedidas pelos principais verbos. Alemão é complicado mesmo e eu fico na maior dúvida por muitas vezes ao escrever, principalmente no ambiente do trabalho. Eu gostaria de cometer menos erros, aperfeiçoar o que já aprendi, por isso decidi estudar mais um pouquinho por conta própria.


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