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:: Diferenças culturais::

12/08/2005

Chegar aqui e se sentir um peixão fora d’água é fácil. Difícil é descobrir as regras de boa convivência que não estão escritas em lugar nenhum e que permeiam a convivência deste povo nesta cultura. Vamos lá a alguns exemplos:

– Altura da voz: um brasileiro facilmente chamará a atenção pela altura em que fala, como e quanto(!) fala, e como fala! Aqui a maioria das pessoas são reservadas, perguntam pouco, falam o necessário.

– Barulho: sair do Brasil e voltar pra Alemanha, principalmente no verão do Brasil e no inverno daqui, é um exercício de “como tentar não ficar depressivo em um minuto”. O Brasil é um país barulhento, musical, interativo. Tudo emite sons: o vizinho, a rua, os automóveis, as pessoas… Se eu faço barulho, tolero o barulho do vizinho. E se quero fazer festa até tarde, convido o vizinho para participar da mesma e na próxima festa dele também serei convidado. Pronto. É isso. Aqui não tem disso não. Buzina, por exemplo, só é usada em situações excepcionais. E o inverno não tem barulho, ele é a ausência total de barulho. Ssssssilêncio!

– Limpeza: desculpem-me, mas tenho que tocar neste assunto. Quando eu morava no Brasil a desculpa generalizada para a sujeira das cidades era “eu jogo lixo no chão porque todo mundo joga”. Ora bolas, se eu não jogasse, e se o outro tomasse a mesma decisão, viveríamos em cidades mais limpas, não é mesmo? Mas aqui é super limpinho e os jardins, tanto privados quanto aqueles comunitários, são lindinhos e bem cuidados. Portanto, caso você ainda não faça, contribua para a beleza e limpeza das ruas, não importa onde quer que você esteja. Não deixe para amanhã se esse pequeno grande ato pode ser feito hoje.

– Mania de ar puro: alemão tem mania de sair para dar um passeio para respirar um ar puro, mas odeia ficar em ambientes com janelas abertas, odeia carros com janelas abertas, pois odeia correntes de ar. Portanto, saiba que ar puro é só lá fora!

– Falar do tempo: no começo de Alemanha eu mal suportava essa mania nacional, mas agora já me acostumei. Alemão adora falar – e reclamar – do tempo! Se está frio, está frio demais, se está quente, idem. Muitas conversas se iniciam através da troca de informações sobre o tempo e o alemão, em geral, se informa muito bem a este respeito. Estar por dentro das previsões metereológicas é, portanto, uma boa idéia se você quer participar ativamente do início de um “small talk” pelas bandas de cá.

– Segurar a porta: se você passa por uma porta primeiro, lembre-se de segurá-la para a próxima pessoa que está atrás de você. Isso é feito por homens e mulheres, aliás aqui não há muito cavalheirismo, pois muitas mulheres não aceitam e tanto homens quanto mulheres são educados para serem gentis entre si.

– Perguntas: alemão praticamente não pergunta muito sobre você ou sua vida pessoal, pois isso poderia significar uma invasão à sua privacidade. Do contrário, no Brasil quase deixamos um estrangeiro “nu por dentro” de tantas perguntas que colocamos, de tanta coisa que queremos saber. Portanto, se poucos aqui colocam questões pessoais para você, não estranhe e aceite.

– Encostar enquanto se fala ou a distância entre as pessoas ao falar: existem estudos que mostram que cada povo mantém uma distância ao interagir com outras pessoas. A verdade é que a nossa distância no Brasil é definitivamente menor do que a do alemão. Por isso, se estiver falando com um alemão e, sem perceber, encostar nele (como de costume no Brasil) ou chegar muito perto dele, e ele automaticamente se afastar um pouco, não o siga, mas fique onde está. Isso pode significar que ele tenha chegado à distância em que está acostumado a manter de outras pessoas.

– Outras regras? Sei lá, agora não me vem nenhuma mais à cabeça. Existem mais mil e uma, com certeza. Qual é a sua?

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::Quando tiver pressa, ande devagar::

10/08/2005

Um dos textos mais interessantes que li hoje à tarde foi sobre o fato de que hoje em dia todo mundo corre pra lá e pra cá, o estresse é enorme e muitas pessoas se sentem como se fossem bombeiros da própria vida, apagando os fogos que vão aparecendo sem ter a possiblidade de planejar sua vida e definir o que é bom para ela, e o que absolutamente não é.

As razões para que todos achem que correr é a melhor estratégia estão em todos os noticiários: há muitos desempregados, a crise econômica está atingindo todos os setores e quem tem um emprego tem medo de errar, de não funcionar, de não atender às expectativas.

Aqui na Alemanha dois milhões de empregos desapareceram entre 1995 e 2002. Em contrapartida, o uso de antidepressivos e calmantes cresce, a cada ano, em 10%. As doenças mais comuns aqui são cancer, depressão e problemas relacionados ao coração e à circulação.

O dia-a-dia é preenchido pelas atividades de otimizar e comparar. Aonde posso comprar mais barato? O que posso fazer mais rápido? Como colocar mais atividades dentro de um dia só?

Quando tiver pressa, devo andar devagar. A que fim vim parar neste mundo? Qual é o sentido da minha vida? O que quero alcançar? O que é importante pra mim? Quem é importante pra mim? O que é, na minha opinião, uma vida com qualidade? No meio do estresse e das responsabilidades do dia-a-dia, páro e penso com frequência sobre o mundo, sobre mim, sobre Deus, sobre o sentido da vida.

Eu sei o que me faz bem e sei o que quero alcançar. Meus objetivos não foram impostos por ninguém, foram pensados e repensados por mim. Acho que principalmente as mulheres pensam e raciocinam, fazem mil e uma conexões na cabeça o tempo todo, praticamente sem parar. Eu repenso meus objetivos a cada vez que devo ou posso escolher uma nova direção na minha vida. Tenho dúvidas, muitas vezes não estou certa do que fazer, como fazer, quando fazer.

Eu não quero viver para trabalhar, eu não vivo hoje para trabalhar. Consigo me desligar automaticamente dos problemas do trabalho assim que deixo a porta da empresa aonde trabalho. Saio de lá todos os dias antes das cinco da tarde, chego às oito. Na ida, canto com minha filha no carro, uma pequena aula de inglês. Na volta, pergunto como foi seu dia e sobre as novidades da escola.

Gostaria que meu dia tivesse mais horas para poder fazer tudo o que me interessa, ler todos os livros que gostaria de ler, escrever tudo o que tenho pra escrever, ouvir músicas, fazer passeios, rodar o mundo… Eu também me pego, muitas vezes, correndo atrás da vida e não a acompanhando, vivendo.

Eu nunca achei que deveria cuidar demais da minha beleza, não quero ser escrava do meu corpo, mas tenho que suportar comentários de que isso ou aquilo no meu corpo não está 100% de acordo com as expectativas externas. Eu sempre quis ser uma mulher de negócios (talvez vou virar uma mais tarde), mas hoje virei assistente de um homem de negócios e muitas vezes entendo o fato do meu chefe não conseguir dormir bem durante a noite. Eu já tive vários sonhos que morreram no meio do caminho, adotei novas direções, continuei minha caminhada, encontrei novos sonhos. O certo é que quero constantemente sentir que estou crescendo, tanto como pessoa, como como profissional.

Estou em busca do meu meio, do meu centro.


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