Archive for fevereiro \28\UTC 2006

::Álcool – Na onda do país do Oktoberfest::

28/02/2006

Aqui na Alemanha salta aos olhos o número de pessoas que bebem (e, aliás, também fumam) com frequência. Sempre que possível, em vários momentos de lazer, de frente para os filhos e família e/ou junto de amigos, a nação está bebendo.

Também o que não faltam são momentos para tal. Para começar, toda data comemorativa é motivo para beber: Natal, Ano Novo, Dia dos Pais (data tradicional da bebedeira masculina), carnaval… As festas tradicionais do país também convidam ao consumo exacerbado de bebidas alcóolicas, tais como a “Kirmes“, um grande parque de diversões geralmente montado num local central da cidade, ou as “Erntedankfeste“, festas de agradecimento pela colheita, ou até mesmo o famoso Oktoberfest. Nos finais de semana, tudo e qualquer coisa é desculpa ou motivo para beber, do café-da-manhã (regado a champanhe ou até mesmo o ” Weißwurstfrühstück ” que consiste na Baviera de um café-da-manhã composto por cerveja e salsicha, que por tradição deve acontecer antes das 11:00h da manhã), aos passeios nas festas das cidades durante à tarde, até às idas a uma discoteca ou a um barzinho à noite. No país, também é comum que os tradicionais clientes de um barzinho (invariavelmente homens) se encontrem aos domingos, logo de manhã, para o “Frühschoppen“. Eles chegam geralmente da igreja, da missa das 10:00h da manhã e se reúnem para… beber cerveja, além de “discutir sobre política e filosofar sobre a vida”.

O que salta aos olhos é o orgulho de quem bebe. Geralmente contam episódios sobre a bebedeira, como foi, quando tempo estiveram bêbados, consequências, etc… Por outro lado, falando-se em geral, há uma grande aceitação social desse vício público, assim como do cigarro, que infelizmente ainda é permitido em muitos locais públicos. E ambos os vícios já são treinados, em muitos casos, desde muito cedo,logo no começo da adolescência.

Quando estive no Oktoberfest em Munique constatei que só poderia (ou deveria) visitar a festa durante o dia, quando as pessoas ainda estavam relativamente normais, no que diz respeito ao consumo de álcool. À noite, tive que me desviar de vários bêbados que literalmente caíam sobre outras pessoas, presenciei brigas e quebradeira… Nada interessante!

Ouvi dizer que a novidade aqui por estas bandas é a “flat rate” das discotecas, que consiste em se pagar um só valor para poder beber por, por exemplo, 2 horas seguidas no começo da noite. A bebedeira, que já é o motor principal de um estabelecimento como estes, fica ainda mais certeira com uma promoção dessas. Depois de passadas as duas horas, muitas pessoas continuam bebendo até que o dinheiro acabe.

Assisti a uma reportagem agora há pouco na tevê afirmando que a Alemanha um dos países do mundo onde mais se consome bebidas alcóolicas. Segundo esta reportagem, existem aqui 9 milhões de alcóolatras, dos quais 240.000 são jovens abaixo de 18 anos. Para um total de 80 milhões de habitantes, esses números são altamente preocupantes. Na denn Prost !…

Anúncios

::Sociedade de consumo::

05/02/2006

Não é exagero dizer que a igreja dos alemães são as lojas, onde eles se encontram, se observam, comentam um do outro, correm atrás da mercadoria melhor, da pechincha melhor, e acham que estão felizes quando voltam para suas casas. Como diz a propaganda da loja de aparelhos eletronicos Saturn: “Geiz ist geil” (pechinchar é um barato).

Aqui o que reina é o consumismo exacerbado, principalmente quando se trata de crianças. O efeito do consumismo é a falta da felicidade, ou a busca eterna da felicidade inatingível, pois quando criança, um novo brinquedo faz com que ela fique feliz e ocupada por dois minutos, e quando adulto, fica-se ocupado e feliz com a nova compra do dia também por alguns minutos. Passados esses momentos de felicidade, parte-se em busca da nova compra, do novo momento de felicidade.

Tudo é possível, não há limites. Cresci no Brasil com o limite de três presentes por ano: aniversário, dia das crianças e Natal, e às vezes um presentinho depois de me comportar bem no dentista. Enquanto que aqui na Alemanha, em termos de presentes, nao há limite. Se presenteia na Páscoa, no aniversário, no dia do Nicolaus, no Natal, na Comunhão (sim, Comunhão aqui é sinônimo de ganhos financeiros para muitas crianças), também como compensação por boas notas ou para a criança ficar quieta num final de semana, durante um passeio, por exemplo, e ficar satisfeita “só” com um presentinho… E um presente é pouco: é comum dar-se 3, 4 presentes ou mais para as crianças, que por sua vez acham tudo “normal” e “possível”.

A máxima da constatação de que aqui os presentes sao mais do que indiscutíveis e devem ser ilimitados aconteceu com a minha filha. No final do ano passado, foi feito um amigo oculto na escola dela e o valor a ser gasto com o presente foi definido em 3 euros. Pois bem, algumas crianças da classse gastaram esta quantia, enquanto que algumas outras compraram presentes muito acima deste valor. Resultado: na hora da troca dos presentes, umas crianças se sentiram “mal presenteadas”, em detrimento de outras, que ganharam canetas de marca, brinquedos eletrônicos, etc. Houve até criança que resolveu devolver o presente ganho, pois ele não era “bom o suficiente” na sua opinião e por fim ela disse não acreditar “que a família da outra criança nao tivesse dinheiro o suficiente para comprar um presente razoável”… Neste caso eu conversei muito com minha filha, disse pra ela que acreditava que tenha faltado educação na casa dessa criança e expliquei que presente é presente e não se pode colocar juízo de valor nele e muito menos expectativa. O ditado alemão já diz: “Einem geschenkten Gaul schaut man nicht ins Maul” (não se deve analisar a boca do cavalo ganho de presente*). E o mais importante na ocasião, o verdadeiro espírito natalino, foi esquecido no meio desse caminho…

No final das contas, os efeitos da globalização não são um acontecimento isolado aqui da Alemanha, mas que infelizmente é típico do nosso mundo capitalista atual, nao importa o país onde estejamos vivendo. Mas o que se nota é que isso está piorando de geração em geração, de ano em ano, a cada dia que passa… Fica aqui a responsabilidade dos pais de transmitir aos seus filhos os verdadeiros valores, aqueles que realmente importam, e de pelo menos tentar deter um pouco o consumismo das nossas crianças.

* em português – “Cavalo dado não se olha os dentes!”


%d blogueiros gostam disto: