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::50 = 30 x 10::

17/01/2007

Uma das fichas que mais demoraram pra cair, no meu caso, foi o limite de velocidade aqui na Alemanha. Ainda mais para uma brasileira como eu, que lê o que está escrito mas costuma colocar em dúvida o indubitável. Assim, o limite máximo de 80 km/h sempre virava 100 km/h na minha cabeça, e 30 km/h sempre significaram 50 km/h (completados pela pergunta do meu subconsciente “como é que um carro pode andar a 30 km/h sem ficar parado?!?”).

30er ZoneTudo começou quando eu tentei dirigir aqui pela primeira vez, em 1993. Achei que bastava dar a seta e ir entrando, mudando de via… Ledo engano! A preferência e as regras de trânsito existem E são colocadas em prática, isso eu pude constatar no minuto seguinte.

Algum tempo depois, a decepção: apesar de já ter carteira de motorista do Brasil, tive que começar do zero e fazer todas as provas para retirar a carteira de motorista alemã. Tudo por causa de uma informação incorreta que me fez perder o prazo para transferir a carteira de lá pra cá… Mas tudo bem, as aulas me deram mais preparo para dirigir “do jeito deles” aqui e, venhamos e convenhamos, as placas são sim, em sua grande maioria, iguais, mas entre saber ler placas e saber dirigir, saber ir de “A” para “B” e saber ser parte integrante de um determinado trânsito, há uma grande diferença.

Ainda me lembro do dia em que fui fazer o exame prático: meu ex-marido me disse para ir de saia. Eu fiquei meio sem entender por que, mas meio que atendi seu pedido e fui pro exame de vestido, um pouco solto e acima do joelho, de um material leve. Aqui o instrutor senta-se ao lado do aluno durante a prova e no banco de trás se encontra aquele que decide pelo “sim” ou pelo “não”, o examinador. O meu tinha óculos escuros espelhados e depois de ouvir que eu já dirigia há 7 anos se limitou a conversar comigo sobre viagens, milhas, Brasil e…. pernas! Ele quis saber se toda mulher no Brasil usava saias curtas como a minha. Eu respondi que aquela não era uma mini-saia (“era um vestido!…”), que uma mini-saia poderia ser tão curta até o começo da coxa. Conversa vai, conversa vem, eu terminei a prova e nem fiquei tão fixada no meu grande problema (“de canhota?” “de mulher?”) de confundir norte com sul, esquerda com direita… saí do carro e vi o examinador já assinando minha carteira. Abri um grande sorriso, ainda vi de relance seus lindos olhos verdes e do outro lado da rua já vinham meu ex e minha sogra, com flores nas mãos para me dar os parabéns.

Mas deixando os olhos verdes e as flores de lado, e voltando ao assunto do limite de velocidade, este já me custou muita raiva e dinheiro dado de presente aos cofres públicos. Só no ano passado, consegui gastar uns 120 euros com uma multa, cujo limite era de 80 km/h e eu dirigia a 100 km/h, e com outras duas onde o limite era de 30 km/h e eu continuava a interpretá-lo de 50 km/h (“como é que um carro pode andar à tão baixa velocidade?”). Depois da terceira multa do ano, eu comecei a mudar. Comecei a pensar, a aceitar, a tentar compreender, que o limite de 30 km/h realmente significa 30 km/h e não outro número qualquer… Dizem que para se entender, tem que doer no bolso. No meu doeu.

Einfach die Welt verändernMas não ficou por aí não. Hoje, caiu na minha mão um livrinho muito dos bons, daqueles que pode ser dado a qualquer pessoa de presente e que praticamente todo mundo iria pelo menos folhear e ler, pelo menos umas páginas. Chama-se “Einfach die Welt verändern” 50 kleine Ideen mit großer Wirkung (“Mudar o mundo simplesmente” 50 pequenas idéias com grandes conseqüências) e nele eu vi, por exemplo, a expressão matemática que deu nome ao meu texto, 50 = 30 x 10. E ao lado dela, o seguinte texto: “Se corre o risco de atropelar uma pessoa dirigindo a 50 km/h, a probabilidade de matá-la será 10 vezes maior do que se estivesse dirigindo a 30 km/h”. Pronto. Se ainda estava faltando algum último argumento para que a ficha caísse de vez, isso aconteceu agora há pouco.

Mas voltando pro livro, que vale super a pena mesmo, dando dicas de como “ser a mudança que você espera do mundo” (Mahatma Gandhi), lá você vai achar boas idéias e dar boas risadas, e talvez já sair colocando em prática algumas delas e… dirigir aqui respeitando o limite de velocidade, pelo seu bem e pelo bem do próximo.

Para maiores informações sobre o projeto deste livro, clique no site http://www.wearewhatwedo.de/

::Pergunta::

04/01/2007

Pergunta

Todos nós, brasileiros que moramos no exterior chegamos a conclusões sobre diferenças, similaridades, gostos, desgostos, tudo fruto de nossas experiências com o passar do tempo. Eu definitivamente tenho algumas comigo, todo mundo tem. Pergunta: o que você gostaria de ter sabido (ou qual informação te faltou) ANTES de sair do Brasil pra ir morar no exterior?

De todas as respostas, a que mais me chamou a atenção (e confere com a realidade em terras germânicas) foi esta aqui, publicada em anônimo na minha coluna no Viver no dia 07.02.2008:

Eu gostaria de ter me informado mais sobre o país, o povo e os costumes alemães. Isso teria evitado muitos aborrecimentos, desentendimentos, mal-entendimentos e brigas. Um “cursinho” como se faz quando se vai a trabalho para países árabes muçulmanos (parece-me que para lá é até mesmo obrigatório).
Assim teria evitado alguns vexames como um que dei depois de 6 meses de casada (cansada de ficar lavando, limpando, passando, cozinhando e tirando pó). Um dia, já de saco cheio de ser a “gata borralheira”, botei as mãos na cintura, dei uma reboladinha, me enchi de gás e soltei: “quando é que você vai finalmente arranjar uma empregada pra nós?”. Meu marido olhou-me como se estivesse vendo-me pela primeira vez em sua vida. Aí ataquei o resto: “vc não está achando que passei anos esquentando banco universitário para vir aqui limpar banheiro pra vc, né? Nem das unhas posso cuidar”
Ao que ele respondeu meio aturdido: “Endoidou, é? E nós somos lá milionários para ter empregada?”.
Depois que li numa reportagem sobre uma Ministra de Estado que depois que chegava do trabalho ainda ia passar roupa e limpar banheiro… perdi minhas últimas esperanças de ser “aliviada” do meu fardo. Hoje eu pinto parede e lixo até móvel mas me recuso a levantar cedo para tirar neve da calçada e a cortar grama do jardim. E sempre que tenho chance mando o marido para a cozinha (ele gosta de cozinhar e eu odeio). E as unhas? Faço no Brasil quando vou lá a cada 2 ou 3 anos.
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