::De volta pra casa::

Nossa! Há muito tempo não me sentia tão bem como no curso que fiz em Munique na semana passada! Dormia bem, não sentia dores no corpo (marcas do cansaço dos últimos tempos…) e levantava da cama todos os dias super bem disposta e animada para mais 12 horas de aprendizado intensivo. Aprendi muito, anotei muitas dicas, e pra minha felicidade também recebi elogios de gente que tem 20-25 anos de experiência no mercado. Pra coroar a semana deliciosa, minha mana (obrigada, Rê!) ainda cozinhou cada jantar mais gostoso e bonito de se ver, eu pude brincar com meu sobrinho “Bärlie”, ouvir as músicas lindas do Rô (meu cunhado), visitar uma feira de livros, conhecer a família binacional lindinha da Paola, rever a Rosanna Gebauer num encontro do Conselho de Cidadãos feito no consulado brasileiro em Munique e, de quebra, ainda conheci uma pessoa lindíssima, a Zahira, que tinha me achado na internet e que me encheu, assim de graça, de presentes e me fez sorrir tantas vezes… Ah… quase esqueci de contar: fui daqui de casa até Munique batendo papo no trem: a cada novo trem que pegava (3 conexões), conhecia novos viajantes cheios de história pra contar. Assim o tempo foi passando e só 15 minutos antes da chegada a Munique é que percebi que a viagem tinha chegado ao fim… Foi um barato mesmo! Eu estava totalmente no meu centro, todos os dias, e aproveitei ao máximo, enquanto o Matthias tomava conta da casa e dos meninos (obrigada, Xuxu!). Tudo estava ótimo, a não ser em um lugar: na U-Bahn (metrô subterrâneo) de Munique…

É debaixo da terra que eles perdem suas almas…

Lá no metrô subterrâneo de Munique parece mesmo que as pessoas perderam suas almas, ou pelo menos elas parecem as terem esquecido em casa. Todos andam pálidos, super apressados, apáticos, parecendo ser comandados por uma “força maior” que os faz andar pra lá ou pra cá. Toda a hora me vinha aquela música na cabeça: “Eh, oh, oh, vida de gado… povo marcado, eh, povo feliz!” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho). É o Brasil na Alemanha:

Você olha pro rosto de uma pessoa e ela desvia, acho que deve ser a “síndrome do elevador”. O sentimento pelo menos é o mesmo. A partir do segundo dia eu passei a ganhar um jornal ótimo de graça, logo na entrada do metrô, o Welt Kompakt. E como o conteúdo do jornal era jóia, ele fez com que as viagens por lá ficassem menos incomodantes, mas mesmo assim passei de segunda a sexta analisando as pessoas “debaixo da terra”.

Pensei naqueles que moram sozinhos em Munique. Como deve ser sair de um trabalho (ainda mais se for chato e as pessoas do tipo pouco ou quase sempre pouco falantes), entrar na U-Bahn e cair num apartamento sem ninguém a não ser você mesmo? Pelo menos aqueles que têm famílias chegam em casa e acham suas almas de novo: seus filhos, suas esposas, sua vida. Tudo bem que Munique tem muito para oferecer, mas a não ser pelo fato de que a U-Bahn leva tanta gente de um canto pro outro de forma rápida e prática, você tem que estar de acordo com “as regras do anonimato” se quiser ir passear por lá… He he he he…

Os sinais da viagem

Eu tive mesmo a oportunidade de conhecer pessoas ótimas durante a viagem. Não só no curso em si, mas também fora dele. Foram vários sinais, se você me entende (se é uma pessoa que acredita neles). 🙂

Apesar de que houve um contratempo: na volta de Munique pra casa desci sem querer, atordoada pela neblina e pela escuridão da noite, uma parada antes daquele que era pra ser meu antepenúltimo trem e acabei perdendo o último trem pra minha cidade. Peguei um taxi, ainda tentei pegar o trem, corri igual a uma desesperada, mas não teve outro jeito: tive que ligar e pedir pro Matthias ir me buscar (coitado: quase não dava pra ver nada na estrada de tanta neblina!…). Por falta do que fazer, enquanto esperava por ele, estava sentada na entrada da estação de trem da cidade lendo um livro de psicologia. Estava um puta frio e eu estava sentada num jornal (pra bunda não congelar), com as mãos fechadas por baixo do livro de uns 5 cm de espessura, com um casaco bem fechado e com os cabelos quase tampando o rosto e o escondendo até o nariz para dentro do cachecol, tentando deixar sair o mínimo de calor pra fora… e de repente, meia noite e meia na entrada desértica da estação uma pessoa pára na minha frente e pergunta, em inglês:
Can you read my mind? (Você pode ler minha mente?)
Eu respondi:
– Não, a única pessoa que pode ler sua mente é você mesmo.
– Você pode fazer com quem eu sorria?
– Eu posso fazer perguntas para que você encontre um sorriso dentro de você. Mas a única pessoa que pode fazer você feliz é você mesmo.
– O que você está lendo?
– Um livro de psicologia.
– Você está estudando para se tornar uma psicóloga ou já é uma psicóloga?
– Nem um, nem outro. Estou estudando para me tornar um coach?
– Coach? Para quem?
– Para estrangeiros. Where do you come from (de onde você vem)? – foi a última pergunta que fiz em inglês. Ele respondeu:
– De Moçambique.
– Ah, então podemos conversar em português!
Ele deu um passo pra trás e pôs a mão no coração. Comentou:
– Nossa, eu nem acredito! O meu nome é Carlos. Me desculpe, minha mão está fria – estendendo sua mão para me cumprimentar, satisfeito. Continuou:
– Eu nem sei por que comecei a conversar com você… Estava indo para pegar meu “comboio” (trem) e vi você, senti vontade de puxar papo… Se você não tivesse dado papo, teria continuado meu caminho até a plataforma…
– E como você sabia que eu falava inglês?
– Não sei responder… Mas você me recebeu com um sorriso aberto, você é uma pessoa de bom coração. Há outras pessoas… ah, deixa pra lá!
– Eu sei, tem pessoas que nos recebem de cara fechada. Mas eu não desisto de receber as pessoas com um sorriso no rosto!
– Nossa, é isso. Outro dia estava mexendo na minha música, e achei no meio dos meus cassetes uma fita do Djavan, você sabe quem ele é?
– Claro, eu gosto muito da música dele. Como você veio para a Alemanha?
– Ah, se eu for contar, vou ficar falando umas 24 horas sem parar…
– Você tem um emprego?
– Tenho. Tenho um emprego, uma cama, uma cozinha, minha música, três amigos com quem posso conversar sobre tudo, tenho a Deus, o ar que respiro…
– Então está ótimo, eu fico feliz por você!
Nos despedimos. Ele levou o endereço da minha página. Quem sabe ele aparece aqui um dia desses? 😉 Depois de tê-lo conhecido, entendi que até o fato de eu ter perdido o trem fez sentido. Uma viagem perfeita, do começo ao fim.

P.S.-Dica para quem for passar uma semana em Munique e precisar usar transporte público como eu usei: compre um “IsarCard” para poder passear uma semana (ou um mês) despreocupado por Munique (o cartão pode ser também usado por outras pessoas).

Anúncios

Tags: , , , , ,

16 Respostas to “::De volta pra casa::”

  1. ceci Says:

    meu Deus, quantas emoções! Onde você passa, deixa uma marca pelo caminho… a marca da felicidade, alegria e paz que passa para outras pessoas e estas por sua vez passarão para outras! boa noite Mineirinha! beijo de sua amiguinha, quase vizinha ;D

  2. Mary Silva Says:

    De vez em qdo acho q nada é por acaso. Tem cada uma q passo, aí aparece gente q nem esse moçambicano e meu mau humor com as coisas q deram erradas passam!

  3. Evelyne Says:

    Que legal que foi tudo bem do início ao fim.

    Já pensou que é preciso um ambiente com os das estações de trem para que encontros assim aconteçam? 😉

    Beijos!

    • Sandra Santos Says:

      Oi Evelyne,
      É verdade: se ambos saímos de nossa “zona de comforto”, as interacoes sao bem mais fáceis. As dessa viagem foram mesmo fantásticas!
      Um beijo,
      Sandra

  4. Tania Belderrain-Spillmann Says:

    Oi Sandrinha

    Que viagem legal que vc fez!!!! Também adoro conversar com as pessoas que encontro pelo caminho. Pena que aqui na Alemanha a maioria das pessoas ande de cara amarrada!!!!!

    Bjs e muitos abraços do Schwabenland

    • Sandra Santos Says:

      Oi Tania,
      É verdade, mas pra compensar há pessoas também fantásticas, super de bem com a vida e inspirantes/motivadoras. Há de tudo, né? Eu acabo ficando perto deste grupo, pois ele me faz bem. 🙂
      Um beijo,
      Sandra

  5. Roberta von Zastrow Says:

    Eiii Sandrinha!! Nossa, fico feliz por sua viagem ter sido tão agradável! E gostei mto da sua conversa com o rapaz de Moçambique! Eu acredito nisso também, que nada acontece por acaso! Pessoas entram e saem das nossas vidas por algum motivo especial. E as coisas acontecem para que essas boas oportunidades aconteçam! Fora que é bem melhor receber as pessoas com um sorriso né! O mundo seria bem melhor se todos pensassem assim! Aqui, recebi seu postal ontem!!! Ameeeeeei, Sandrinha!! Nossa, muito lindo! Fiquei encantada! Me deixou ainda com mais vontade de ir praí! E seus dizeres atrás também foram lindos! Só tenho a te agradecer por sua atenção e carinho! Te considero como amiga cada dia mais! Ahhhh, e parabénsss pra Taisa! Tudo de melhor pra ela! 🙂
    Beijos :*

  6. Meire Bagoli-Alemanha Says:

    Eita Sandrinha. Com certeza nada acontece por acaso. Você é uma pessoa iluminada por Deus, sempre de bem com a vida, sempre na luta, sempre querendo fazer o melhor de tudo, sempre querendo ajudar o próximo. Por este motivo e outros eu te acho o máximo. Beijos

  7. arletesoffiatti Says:

    Que viagem!!!

    • Sandra Santos Says:

      Oi Arlete,
      Realmente, esta foi uma viagem e tanto! 🙂
      Um beijo,
      Sandra
      P.S.-Gostaria de poder bater um papo com vc ao telefone, talvez com vídeo pelo Skype, que tal?

  8. Laudenice Says:

    Oi Sandra,
    é tao bom uma viagem dessas nao eh!! Mas eu tenho que disser que vc soh conseguiu “entender/compreender” as experiencias pelas quais vc passou pq vc estah aberta a isso. Tem pessoas que passam correndo de um lado pro outro, olhando tanto pro proprio umbigo e pros seus problemas que se esquecem das pessoas e do mundo ao seu redor 🙂 continue sorrindo sempre, eu acho uma das tuas marcas registradas :D:D:D
    quanto ao curso, que curso foi esse? Uma das minhas Vertiefungsrichtung na HS foi Coaching 🙂
    beijos
    Lau

    • Sandra Santos Says:

      Oi Lau,
      Obrigada pelo comentário carinhoso. Eu também corro pra lá e pra cá, mas muitas vezes páro e olho a beleza ao redor…
      O curso é uma mistura de coaching com temas interculturais, estou adorando! Vc tem muito material sobre coaching? Se tiver sugestoes de leitura (ou vídeos), eu agradeceria.
      E como vai o baby?
      Um beijo pros 2,
      Sandra

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: