::Estudo acusa pessimismo e solidão entre crianças alemãs::

Ia traduzir e comentar este artigo, que tinha lido no jornal da minha cidade, mas acabo de achá-lo já traduzido no site da Deutsche Welle. Indico como leitura para quem tenha interesse por assuntos atuais da Alemanha, mais especificamente as crianças alemãs.

Os pontos-fortes das observações baseadas na pesquisa são os seguintes:
A gerente da UNICEF na Alemanha, Regine Stachelhaus, diz que “os jovens na Alemanha veem suas perspectivas de futuro de maneira muito mais pessimista que os de outros países industrializados. Quase 25% dos meninos e meninas de 15 anos de idade acham que só conseguirão trabalhos pouco qualificados após se formarem. E isso significa que um em cada quatro jovens vê seu futuro profissional de forma bastante pessimista.” Stachelhaus nota que muitos jovens na Alemanha se consideram marginalizados. Um número alto de estudantes no país afirmou se sentir deslocado, e cerca de um em cada três jovens de 15 anos se sente só. Quanto à questão da satisfação de vida, crianças e adolescentes alemães se encontram entre os últimos, no 18º lugar (de um total de 21 países). Isto também mostra, acredita Stachelhaus, que uma parcela considerável de adolescentes e jovens na Alemanha não se sente aceita.

Fonte: Artigo da Deutsche Welle.
***
Conversando com minha filha, de 14 anos, e meu marido, ambos confirmaram que acreditam no resultado da pesquisa. Taísa disse que ela conhece muitos adolescentes alemães que não têm um bom relacionamento com os pais, que praticamente não têm assunto nem com a mãe e que praticamente não passam o tempo juntos. Talvez sejam estranhos vivendo dentro da própria casa… Ela disse que conhece poucas famílias onde as pessoas se gostem, respeitem, se aceitem, convivam bem e até brinquem umas com as outras como aqui em casa. Ela percebe que quanto mais dinheiro as famílias têm, mais distantes vão estar seus membros, pois com “muito dinheiro é mais fácil comprar uma televisão e colocá-la no quarto do filho”, ou é mais fácil saciar a necessidade de carinho e atenção com outros métodos. Ela disse que conhece adolescentes que, se tivessem uma geladeira dentro do quarto, não teriam razão para interagir com outros membros da família, já que “tudo o que precisam fica dentro de suas próprias quatro paredes…” Se o contato verbal já é difícil, o contato físico é praticamente inexistente. E quem não sente falta de um carinho?

Eu disse pra Taísa que acho que aqui na Alemanha há muitas vezes um vazio entre as pessoas. Ela observou que esse vazio é maior no caso dos adultos, que querem ter sempre a razão, são orgulhosos, invejosos e têm dificuldade de aceitar seus próprios erros. Ela notou que em brigas de família, muitas vezes a briga já existe há tanto tempo que se as pessoas forem perguntadas por que motivo brigaram, nem elas mesmas saberão responder esta pergunta, ou responderão cada vez alegando outro motivo. Ela nota que os jovens conseguem se desculpar mais rápido, conversam mais entre si, riem mais, são mais abertos e mais flexíveis. Hoje li uma afirmação da Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança morta no terremoto do Haiti, que me deixou altamente pensativa por sua verdade: “Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças.”

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8 Respostas to “::Estudo acusa pessimismo e solidão entre crianças alemãs::”

  1. Claudia Dannemann Says:

    Fico feliz em ler este seu relato e saber como vai a Taísa. Acho que hoje em dia o jovem assim é uma excecao. Nosso vizinho nos perguntou quantas tvs tinhamos em casa. Meu marido respondeu: só uma e o homem ficou abobalhado, argumentando que nao faz nada sem ter a tv ligada em casa. Cruzes! Nós agora preferimos assistir à lareira, todos juntos, deitados no diva – hahahaha! Josephine tem uma amiguinha cujos pais sao separados. A cabecinha dela nao parou querendo saber porque isso acontece e a sua conclusao foi maravilhosa: “eles nao devem ter se comunicado suficientemente, nao é,mamae?”. Beijos e boa semana! Claudia

    • Sandra Santos Says:

      Oi Claudia,
      A Taísa já pediu um milhao de vezes uma tv pro seu quarto, o que eu categorigamente recuso. Durante as férias ela ficou muito no quarto assistindo filmes no laptop. Logo que as férias acabaram eu disse pra ela voltar pra sala, pois a temporada do laptop estava encerrada. Senti falta dela! Ela nao achou ruim e acatou minha decisao, mais tarde me disse que prefere ficar na sala também conosco, onde passamos a maior parte do tempo.
      Achei a reflexao da Fofoline linda de morrer! Que menina mais inteligente! Dá o maior orgulho, nao é mesmo? 🙂
      Um beijo,
      Sandra

  2. Meire Bagoli-Alemanha Says:

    Já tinha esta impressão da Alemanha. Olho para as crianças/adolescentes daqui e vejo tristeza nos olhos delas. Sempre que vou buscar a minha filha na escola ela sai correndo da sala de aula e grita mãe eu te amo muito e me abraça toda feliz. E as crianças ficam olhando para nós.
    Sandra fico também muito feliz em saber que a Taísa tem uma familia maravilhosa como a sua. Nunca mude este teu jeitinho de tratar os seus filhos. Beijos/Meire

    • Sandra Santos Says:

      Oi Meire,
      Vc que é mae como eu deve dividir comigo esta eterna dúvida se somos boas maes, se participamos o suficiente, se cuidamos o suficiente… Num momento como esse, quando minha filha me deu a resposta comentada neste post, eu pensei comigo que, longe de ser perfeita, consegui passar alguma coisa boa pra minha Tatá. Muitas vezes a acho bastante adulta com seus 14 anos.
      Que bom que vc tem uma filha tao carinhosa! Isso é um “trem” bom “dimais”, né? 😉
      Um beijo,
      Sandra

  3. Dona Flor Says:

    Mas isso nem é de hoje… meu marido é filho único, tem 44 anos e NUNCA conversa com os pais. Simplesmente eles não têm assunto. E os pais também, só sabem ligar ou vir aqui pra criticar algo. Nunca conversam sobre planos para o futuro, sobre amenidades, por exemplo. E eu ligo pra minha mãe todo dia e sempre temos o que conversar e sempre damos boas risadas.

    • Sandra Santos Says:

      Oi Dona Flor,
      Felizmente há família de todo tipo, tanto aqui quanto em outros países. É uma pena mesmo que muitas famílias aqui acabem se afastando por questoes pequenas. Há sempre tanto o que dar e receber, nao é mesmo?
      Um beijo,
      Sandra

  4. Maira Says:

    “Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças.” –> Simplesmente diz tudo!

    Olha a cada dia que passo aqui (nao por ser “aqui”, mas sim por nao ser meu habitat natural), percebo tantas coisas novas e tudo isso gera tantos questionamentos internos. Depois que sai do Br (quase 3 anos atrás), meus referenciais se tornaram múltiplos, pois estou convivendo intensamente nao só com alemaes, mas com estrangeiros do mundo todo e isso tá me deixando doidinha. Quando leio que as criancas alemaes sao assim e assado, nao consigo aceitar como verdade absoluta, embora saiba que essa é sim a impressao que nós brasileiros temos. Os problemas descritos pelo texto e em alguns comentários já vi demais no Br também, mais especificadamente em SP Capital (onde vivi a vida toda). Sei lá, um tópico pra discutir em um café da tarde beeem longo. (((-: Ah! Juro que nao bebi antes de comentar, mas é que eu realmente ando confusa com tanta relatividade nos fatos e jugamentos culturais/existenciais. (((-: Adorei o texto para reflexao e fiquei curiosa pra conhecer sua “pequena”! (((-: Bjks!

    • Sandra Santos Says:

      Oi Maira,
      Estava com saudade dos seus comentários! 🙂 Seja bem-vinda novamente!
      Certamente cada pessoa tem seu mundo próprio, cada ser humano é um “mundo particular”. Nao se pode dizer que uma cultura é só X ou Y, só indicar tendencias. Se vc convive com 60 pessoas, convive com 60 mundos, cada um tem seu próprio código de conduta. Vou escrever mais sobre isso no próximo post, falando do curso que visitei semana passada.
      Tendencias sao, no entanto, logicamente perigosas. Pois se a pessoa se limita só a elas, tende a ver o mundo com preconceitos, passa a “filtrar” tudo o que se passa e processar a partir de seus pré-conceitos. Tendo considerado isso, os dados que citei aqui sao de um estudo representativo. E que foram confirmados por minha filha. Claro que nao há padrao. Nem pra esse tema, nem pra nenhum outro. Felizmente, pois somos humanos! Se tudo fosse assim, seria fácil demais, nao é mesmo? 🙂
      Um beijo e boa noite,
      Sandra

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