::Diversidade e inclusão: é normal ser diferente!::

Há um tempo atrás fui numa palestra de uma pedagoga alemã incrível chamada Prof. Dr. Jutta Schöler, que discursou sobre a inclusão dentro de escolas alemãs.

34 escolas no país, dentre elas a escola do meu filho, estarão virando escolas de inclusão a partir do próximo ano letivo por decisão governamental e por obrigação também, porque a Alemanha assinou o artigo 24 da Convenção da ONU, que afirma o direito de educação inclusiva para crianças deficientes.

Mas acontece que a Alemanha ainda tem um sistema educacional muito divisor e por que não dizer segregador, onde muitas crianças (por mil e um motivos e às vezes até por nenhum motivo realmente existente) são retiradas das escolas normais e são colocadas em escolas especiais, chamadas aqui de “Sonderschule“. Em geral trata-se de crianças com algum tipo de deficiência ou uma combinação delas (visual / motora / audição, dificuldade emocional, de aprendizado, etc.), mas em alguns casos o problema é mais dos adultos do que das crianças. Estima-se que 60% das crianças alemãs tenha alguma deficiência no aprendizado(!), o que demonstra um certo desrespeito ao desenvolvimento individual. Enquanto que a Dra. Schöler acredita que somente 1/4 das crianças ditas deficientes sejam realmente deficientes! Ela notou muito bem que na maioria das vezes existe um problema com uma criança na escola principalmente quando dois adultos (no caso a professora/diretora e o pai/mãe) não se entendem. A Dra. Schöler afirma, e com muita razão, que “não devemos ver limites nas crianças, mas sim em nós adultos no que diz respeito à nossa capacidade de cooperação”. Ela mostrou através de vários exemplos que quanto maior for a deficiência da criança, maior será a necessidade dela de viver com outras crianças sem deficiência. Ela alerta para que uma criança não seja transferida a uma escola especial sem que os pais estejam de acordo com esta medida.

Levando-se também em consideração que a cultura alemã é a cultura da análise da falta (enxerga-se sempre o meio copo vazio e não o meio copo cheio), sempre haverá motivo de crítica e de expectativa com relação às crianças, ainda mais tratando-se de crianças estrangeiras ou mesmo alemãs, MAS filhas de estrangeiro(s). Escrevi “mas” com letras maiúsculas, porque para isso existe até um novo termo no vocabulário alemão: Menschen mit Migrationshintergrund (pessoas com passado migratório). Cabe a nós, pais, acompanhar nossos filhos e investir muito em carinho, elogios, observando aquilo que, dentro do nível de desenvolvimento do nosso filho, já melhorou e analisar o que mais pode ser feito para auxiliá-lo adequadamente. A sorte é que as terapias sugeridas (p.ex. fonoaudiólogo, ergoterapeuta, etc.) são todas pagas pelo seguro de saúde alemão através de guia médica expedida pelo pediatra da criança. O negócio é correr atrás! Em algumas cidades alemãs já é possível que os terapeutas visitem as escolas e ofereçam seus serviços em ambiente escolar, o que facilita a interação escola-aluno-terapeuta.

Na palestra aprendi um novo termo maravilhoso, que quero dividir com vocês e que aliás já faz parte do vocabulário norte-americano há muito tempo: inclusão x integração, termo último que é o ainda muito discutido aqui na Alemanha no momento. Mas qual é a diferença entre os dois termos?

A integração é a “teoria dos dois grupos” e parte do pressuposto de que a cultura vigente é superior às demais, e deve, no máximo, tolerar as demais culturas com quem convive. A inclusão, no entanto, parte do pressuposto de que todos são iguais com capacidades diferentes, que as as culturas são igualmente valiosas e nenhuma é maior ou mais importante do que a outra. Dentro desta linha de pensamento, é natural que cada indivíduo seja capaz de adicionar valor à comunidade e ao meio em que está inserido. Fantástico!

Ainda ontem a chanceler Angela Merkel se reuniu com representantes estrangeiros/filhos de estrangeiros de várias partes do país e estes por sua vez sugeriram que os meios de comunicação na Alemanha passem várias imagens de imigrantes, e não só a do ladrão, do corrupto, do malvado. A televisão deveria se esforçar para incluir em seus problemas mais pessoas de outras culturas, e os jornais/revistas deveriam noticiar também sobre bons exemplos de estrangeiros que deram certo no país e contribuem de forma positiva para a comunidade.

Minha prima Ciléia, que é interculturalista e faz um trabalho lindo nos EUA (St. Louis) promovendo a cultura latino-americana, passou-me um entrevista muito valiosa hoje da qual tirei o seguinte:

“Diversity without inclusion is like adding a few drops of vinegar to oil and calling it a great dressing. How can new people be expected to fit into old models and drive new value? The power of diversity shines in a culture of inclusion, where differences are valued and encouraged. Common values are the foundation, but different perspectives and behaviors lead to new understanding, ideas and growth”.
Erby L. Foster Jr. Diretor de Diversidade e Inclusão da The Clorox Company

Aqui a tradução: Diversidade sem inclusão é como jogar uns poucos pingos de vinagre no azeite e chamar a mistura de “molho excelente”. Como pode-se esperar que novas pessoas caibam em estruturas pré-existentes e adicionem valor a elas? A força da diversidade aparece através da cultura da inclusão, onde diferenças são reconhecidas e encorajadas. Os valores comuns são a fundação, mas perspectivas e comportamentos diferentes levam a novos entendimentos, ideias e crescimento.

Alguns links muito interessantes:
– Uma biblioteca de pedagogia inclusiva, na qual constam vários textos, dentre eles muitos da pedagoga Jutta Schöler.
– A íntegra da palestra de Jutta Schöler na minha cidade está aqui (clique em “Vortrag: Inklusion in der Schule”).
Campanha da ONG Caritas Kein Mensch ist Perfekt (Nenhum ser humano é perfeito).

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12 Respostas to “::Diversidade e inclusão: é normal ser diferente!::”

  1. Patricia Says:

    Tania,
    Ola Sou Patricia, coordenadora e fundadora do Instituto MetaSocial responsavel pela campanha Ser Diferente eh Normal.
    Estou morando na Holanda, portanto vizinhas! Sou mae da Tat que tem Sindrome de down e fazemos aqui dentro do trabalho na ONG o Programa Ser Diferente. Segue o link do ultimo programahttp://www.youtube.com/watch?v=38fuVwTZ_0s&feature=youtu.be)
    Poderiamos nos falar por email? Gostaria de saber mais sobre inclusao na alemanha.

  2. juliane Says:

    Oi Sandra, adorei o seu texto! concordo muito com você. Só queria te perguntar uma coisa: onde você encontrou essa distincao entre integracao e inclusao? é que a temática me interessa muito. Sou professora nos cursos de integracao aqui na Alemanha e pesquiso o assunto da intregracao agora com mais afinco. Se tiver uma referência bibliográfica me envie por favor, eu ficaria super grata! pode enviar pro meu email ou no meu facebook. Estou nos seus contatos. Beijo e até a próxima!

    • Sandra Santos Says:

      Oi Juliane,
      A explicacao entre integracao e inclusao foi feita pela própria palestrante, veja no final do post o link para sua apresentacao de Powerpoint com os desenhos ilustrativos dos dois conceitos. Sugiro também que visite o outro link, pois dele poderá tirar bastante material da palestrante para ler, e o melhor: de graca!
      Que legal seu trabalho! Onde vc oferece cursos de integracao? Se quiser contar um pouquinho mais disso pra mim, adoraria ouvir, isto é, no meu caso: ler! 🙂
      Um beijo,
      Sandra

      • juliane Says:

        obrigada Sandra, vou conferir! Depois te conto mais sobre o meu trabalho, sao os cursos oferecidos pelo BAMF, já trabalho com isso há 6 anos, e gosto muito! Agora quero me preparar pro doutorado sobre integracao de refugiados na alemanha e no brasil. Nos falamos mais, estou na correria! Beijo!

  3. Flávia Says:

    Sandra,
    Que acadêmicos discutam o tema, é valido. Mas até que algo aconteça concretamente nas escolas, demorará muito. Estou pra defender a tese, que analisei 30 famílias, de como lidam com a biculturalidade e o bilinguismo dentro de casa e os efeitos no sucesso e fracasso escolar dos filhos.

    POsso dizer que nosso grupo também comete faltas enormes, muitas conterrâneas delegam seu papel de educar à sociedade alemã, não enxergando a consequência de seus atos.

    • Sandra Santos Says:

      Oi Flávia,
      Adoraria poder ler sua tese, ou pelo menos conhecer um resumo da mesma.
      A educadora alema finalizou a palestra mostrando a 1a. escada rolante instalada em um metro de Berlim há muitos anos atrás. Segundo ela, foram anos de luta, pois muitos se opunham argumentando que o deficiente poderia entrar no metro mas nao teria como sair em outra estacao, entao ela nao era necessária. Ela fez um paralelo muito bonito com a inclusao: hoje vários podem argumentar que dá trabalho, que nao é necessário mudar estruturas já existentes, mas com o passar dos anos o lado positivo certamente mostrará que valeu a pena seguir o caminho do respeito pela dignidade de cada ser humano.
      Eu educo fazendo a minha parte, mas acreditando firmemente no ditado africano que diz mais ou menos seguinte: para educar é necessária a ajuda de uma cidade inteira. E isso é verdade, pelo menos para mim. Educamos nossos filhos para o mundo e nao somos as únicas influencias que nossos filhos terao na vida. Claro que coordeno tudo isso, mas vejo a co-educacao de forma positiva, dentro do que para mim é válido e positivo.
      Aguardo seu contato!
      Um beijo,
      Sandra

  4. Meire-Brasil Says:

    Oi Sandra, adorei o seu texto. Concordo com você.

    Um grande abraço.

  5. Luciana de Souza-Saam Says:

    Oi Sandra
    gostei muito do seu texto só acho que a questao inclusao x integracao aqui na Alemanha tem uma realidade muito diferente do que a dos Estados Unidos.
    Ah eu gostaria do contato da Flávia também faco analise de educacao bilingue. Obrigada e tenha um bom domingo!!!

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