Archive for outubro \20\UTC 2013

::Legado – Alessandro Uccello::

20/10/2013

Qual é o sentido de nossas finitas vidas
senão tornar outras vidas mais bonitas?

Deixar filhos, deixar versos, deixar quadros
deixar filmes, deixar livros, deixar flores
deixar fotos, deixar músicas, deixar pratos
deixar obras, deixar marcos, deixar cores

E então, deixar a vida
deixando na vida mais vida
deixando a vida de quem fica
mais rica e mais bonita

Autoria: Alessandro Uccello – Tirado do mural do Facebook da minha amiga Flavia Migray – 20.10.13

°°°

Sfida la vita con la migliore arma, sfidala avendo un sogno.
“Termine a vida com a melhor arma, termine-a tendo um sonho.”
— Alessandro Uccello da PensieriParole

::Novas tecnologias::

20/10/2013


Estou blogando pela primeira vez direto do meu laptop, direto do Microsoft Office 2013 e escrevendo desta vez com um teclado brasileiro. Vamos ver se consigo publicar esse texto, é esperar pra ver! Ontem publiquei um texto deitada na minha cama, usando meu iPhone e o app da WordPress. Também uma maneira bem confortável de blogar!

Cresci absolutamente sem internet. A universidade pra mim foi sinônimo de filas e mais filas pra tirar cópias xerox praticamente ilegíveis, dado que só existia um exemplar de um determinado livro pra todos os alunos, de todos os turnos de toda a universidade. A internet existe pra mim desde 1993, quando, aqui na Alemanha, como que por milagre passou a ser possível receber as manchetes dos jornais brasileiros no meio acadêmico e isso já era fantástico demais. Desde 1995 passei a trabalhar diariamente com a internet e em seguida já tinha computador em casa, aproveitando de todas as facilidades do mundo moderno. Há 10 anos atrás, quando comecei a blogar, muita coisa ainda era restrita, nova, desconhecida. Hoje todo mundo anda com um smartphone nas mãos, tendo toda a facilidade de pesquisar e se informar sobre o que quiser num passe de segundos, de entrar em mil e um programas e aplicativos, de pedir ajuda ao mundo desconhecido e impessoal da net. Muitas pessoas preferem buscar por uma resposta sobre, por exemplo, onde fica uma rua usando a internet, do que perguntar pra um desconhecido e por consequência pedir ajuda para um ser humano, mesmo se estiver bem pertinho da rua procurada. Antes tínhamos dúvidas e ligávamos pra nossa mãe ou nosso pai, mas a tendência de hoje é perguntar pra “mamãe Google” o que fazer.

Mesmo tendo lidado com muita tecnologia tanto na vida privada como na profissional, me sinto correndo atrás de ficar atualizada, pois hoje sinto como se vivesse na época do “tudo ao mesmo tempo agora”. Sinto também que as gerações anteriores à minha estão bem mais à vontade no que diz respeito às novas tecnologias. Eu, hoje com meus 43 anos, sinto-me como um divisor de águas: acima da minha idade estão, em grande maioria, aqueles que lutam pra acompanhar os avanços tecnológicos e abaixo de mim estão aqueles que têm facilidade exacerbada pra coisa. Enquanto isso, eu vou nadando no turbilhão…

É muita coisa pra aprender. Mal se domina um programa, surge outro, ou uma nova versão do então dominado. Com algumas exceções eu vou morrer sem saber por que alteram tanto programas que já estão funcionando tão bem. Aquilo que funcionava tão bem deixa de existir, e todos têm que começar de novo do começo. Somos uns eternos aprendizes. Por outro lado, também não ficamos parados no tempo e por mudarmos de emprego, por exemplo, arrumamos mais sarna pra nos coçar, como no meu caso…. Bom, mas vamos que vamos, porque atrás vem gente. E como esse povo não se cansa de novidade, na nossa frente vêm vindo mil e um programas esperando por chamar nossa atenção!…

 

 

::Brasil: muito ainda a melhorar::

19/10/2013

Apesar ser um dos principais países receptores de Investimento Estrangeiro Direto (IED), o Brasil apresenta problemas estruturais em vários quesitos essenciais para atrair o capital internacional. É o que aponta uma pesquisa realizada pela consultoria Maksen, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

De acordo com o estudo, o Brasil está na 11ª posição entre os países que mais recebem investimentos estrangeiros no mundo. Contudo, ao avaliar 13 itens fundamentais para o recebimento de IED, a consultoria apontou que o desempenho nacional é crítico. No quesito eficiência do mercado financeiro, o Brasil ocupa a 46ª posição. Quando é avaliada a eficiência do mercado de consumo, o Brasil fica na 104ª colocação, bem distante de Cingapura (1ª posição), Hong Kong (2ª), Suíça (7ª) e Alemanha (15ª colocação).

O estudo destaca que a infraestrutura no País está na 70ª posição, enquanto no quesito instituições o País ocupa o 79º lugar. A educação do Brasil ocupou o 88º posto, bem distante dos principais receptores de IED, como Alemanha (2ª posição), Cingapura (3ª) e Suíça (5ª ).

“O Brasil tem recebido todo esse investimento pela dimensão do mercado interno porque os outros mercados estavam em crise e por todo o marketing envolvido recentemente, tendo em vista os eventos esportivos no País, como é o caso da Copa”, diz Sérgio do Monte Lee, o principal dirigente da consultoria Maksen no Brasil. “O fato é que não há infraestrutura para sustentar essa posição se nada for feito para construir uma marca forte para o País.”

Fonte: Artigo “Estudo aponta desempenho crítico do Brasil para IED”, Diário do Grande ABC, 15/10/13

::E como foi a ida à Feira de Livros de Frankfurt?::

15/10/2013

Foi legal demais! Primeiro, meu plano era ir pra feira na sexta e voltar no domingo. Depois, meu primo me escreveu dos EUA anunciando que me visitaria até a sexta, o 1° dia em que queria ir pra feira. Daí comecei a procurar uma viagem pra ir no sábado e voltar no domingo. Olhei várias opções para transporte e pernoite. Entrei em contato com pessoas variadas e no final já tinha algumas ideias de que poderia p.ex. dormir em Mannheim, onde uma amiga mora, ou me hospedar num hotel ou num apartamento mobiliado numa cidade por perto da feira. Depois de tanto planejar, tudo mudou, como tudo sempre muda na vida: meu primo cancelou sua viagem, eu tive um treinamento na sexta, não podendo ir pra feira naquele dia, eu consegui marcar viagem pra feira junto da livraria da minha cidade, e por fim fiquei doente e na véspera nem tinha muita certeza se poderia ir à feira ou não.

A vantagem de ir com a livraria da minha cidade é que o ônibus sai daqui de pertinho de casa, me leva até à porta da entrada da feira, me traz de volta pra casa e me enche de vales que podem ser trocados por presentes, e, lógico, muitos e muitos livros durante a feira. Além dos vales, eu tinha comigo 10 exemplares do Mineirinha n’Alemanha pra trocar e dar de presente na feira. Como já tinha ido há alguns anos pra feira e sabia do tamanho do local e como é cansativo ficar andando o dia inteiro por lá, e sabia do peso dos livros, ainda tive o cuidado de levar uma malinha com rodinhas.

A viagem foi tranquila e chegamos na porta da feira no sábado passado às 10 horas da manhã. No caminho o dono da livraria deu a todos uma ideia geral da feira, das atrações, falou do Brasil como país-destaque, distribuiu material informativo, inclusive o catálogo brasileiro da feira, um mapa dos pavilhões e depois colocou um vídeo sobre a feira. Chegamos lá mais do que super bem informados!

Da última vez que fui à Feira de Livros troquei lá, também por um Mineirinha n’Alemanha, um diário todo doido de lembranças felizes. Ele é um barato e é usado só pra anotar dias e acontecimentos representativos da vida da gente. O legal é rever o escrito e conseguir fazer um amontoado interno de coisa boa. Faz um bem danado! Desta vez levei, então, os 10 exemplares do Mineirinha, pra ver o que iria acontecer com eles. Ainda mais porque a Feira de Frankfurt, que é a maior feira de livros do mundo, não vende livros no sábado, só no domingo.

Tinha marcado pra encontrar com a Neusa, autora do Um Paraíso sem Bananas, às 14 horas e até lá teria tempo de rodar alguns pavilhões e de trocar os vales. Dito, feito. Alguns estavam tão cheios que ficava difícil andar sem ficar com a malinha agarrada em alguém atrás de mim ou sem passar em cima de algum pé atrás de mim.

Logo de entrada, tive vontade de oferecer meu livro pra ser trocado por um diário-agenda do Paulo Coelho pra 2014. Consegui! Dei um livro para uma moça de uma editora, pois fui parar no estande dela por engano e ela disse pra mim que sempre está à procura de novos talentos e que não acredita em acaso.

Ao ver a Neusa, que aliás é uma pessoa com a qual me sintonizei desde o 1° instante e que já conhecia há anos, apesar de só virtualmente, comecei a conhecer mil e um outros escritores brasileiros espalhados pelo mundo. Troquei e ganhei vários livros com eles também, foi a maior farra, festejada à base de muitos livros e de muitas, muitas fotos.

Éramos três escritores, além das filhotas fofas da Neusa, almoçando juntos no restaurante brasileiro, quando conhecemos dois meninos que trabalham aqui na área de Informática. Depois de um papo legal, e de lembrar que sempre doo um livro por ocasião do BookCrossing blogueiro, dei um livro de presente pra eles, como forma de participação antecipada. De lá, fomos pro Forum, o pavilhão todo feito de papel do Brasil, muito puro, muito calmo, muito chique no simples. Adorei. Entramos: no meio, uma livraria vendia livros em português, à direita, haviam vários livros em alemão cujo tema era o Brasil. De frente pros livros, vários almofadões convidativos pra descansar e ler. Andando um pouco mais, via-se um canto separado do pavilhão onde estavam acontecendo apresentações de livros, entrevistas, discussões, etc. De lá, viam-se umas bicicletas com telões mostrando partes de livros, logo depois um monte de redes pro povo deitar, ler, ouvir e descansar. Uma outra atração mostrava várias cenas típicas de cidades ou da natureza brasileira, enquanto partes de livros eram narrados em português, inglês e em alemão. Uma última atração tinha várias colunas, mostrando personagens típicos ou os escritores de muitos clássicos brasileiros e ao aproximar-se da coluna, via-se que se poderia retirar uma folha dela que continha uma pequena parte do livro com tradução, de novo em inglês e em alemão. Um barato!

Já íamos saindo do Forum quando vi o Luiz Ruffato passar por mim. Fui atrás dele e puxei papo com ele. Queria dar-lhe um livro meu de presente, de Mineirinha pra Mineirinho, mas qual não foi a minha surpresa ao perceber que não tinha mais exemplares do livro pra presentear!!! Ele ganhou livos de presente dos outros escritores, enquanto que eu tive que anotar seu endereço e vou fazer questão de enviar-lhe um livro meu. Todos nós contamos pra ele que também somos escritores brasileiros, demos parabéns ao Ruffato pelo discurso da abertura da feira, e depois de ficarmos sabendo que ele infelizmente não tinha trazido livros seus em português pra Alemanha, eu confessei que meu último objetivo na feira era encontrá-lo ou trocar um livro com ele. O finalzinho da tarde foi fechado com chave de ouro com fotos tiradas com outros escritores e muitas outras com jovens aficcionados pela arte animé, que estavam todos em fantasias à caratér e enriqueciam, assim, a feira de forma visual, desafiando o frio do outono alemão, uns até descalço, se a fantasia assim o exigisse.

Bebemos vinho de Portugal, rimos mais um pouco pelos corredores da feira, já pertinho do pavilhão internacional, onde vários editores se reuniam, e conheci mais um bocado de escritores brasileiros.

Cheguei em casa perto da meia-noite. Cansada, mas feliz. Tinha presentes pra família toda! Uns 40 cm de livros e presentes de todas as cores e formas. A Feira de Livros de Frankfurt de 2013, na qual o Brasil foi o país homenageado, vai ficar na minha memória! Resta-me agradecer à Neusa Arnold-Cortez e filhas, ao Rubens dos Santos e à Eloisa Helena Cavalcanti Barroso pelo carinho e pela ótima tarde passados juntos e desejar que nos encontremos na feira no ano que vem de novo!

Se quiser ver algumas fotos da viagem, clique aqui ou me visite lá no Facebook, ok?

Lembranças complementares de 20/10/13:
-Haviam fotos do Paulo Coelho coladas em todos os microônibus que circulavam dentro da feira. A feira também estava repleta de propaganda dele! Ele foi o autor mais badalado, mesmo sem ter comparecido ao evento!
-Quando cheguei e entrei num desses microônibus, que levam os visitantes de pavilhão para pavilhão, peguei um motorista bem humorado que ia conversando com os passageiros e apresentando as chegadas em alemão, inglês e espanhol. Disse faltar-lhe o português, no que eu o ajudei. Ele, sem me ver, pelo fato do ônibus estar lotado, convidou-me para passar o dia com ele e ficar anunciando os pavilhões para os visitantes do Brasil!…. 🙂

::Discurso na íntegra de Luiz Ruffato na Feira de Livros de Frankfurt de 2013::

11/10/2013

O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora?

Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas.

Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças. O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados elevados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução. O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década.

Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir.

Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra.

Aqui e agora.

Fonte: página da Geledés, post de 09/10/13.

::Relembrando o passado – Maktub::

11/10/2013

Repassando algumas passagens da minha vida, a Alemanha ou sua história sempre estiveram me acompanhando, consciente ou inconscientemente.

Christiane F.

Quando jovem, eu li „Christiane F., drogada, prostituída“, que me livrou de qualquer envolvimento com drogas. Eu sonhava com a Europa e escrevi para todas as embaixadas em Brasília pedindo material informativo dos países. Abria aqueles folhetos bonitos, em papel de excelente qualidade, e ficava horas viajando nas fotos e nas informações, tão difíceis na era pré-internet. Eu morava numa rua cujo nome era tão feio, Felisberta Francisca de Carvalho, que chegava a me envergonhar. Mas, por incrível que pareça, a minha rua era paralela às ruas Alemanha e França, e ficava pertinho de várias outras ruas com nomes de países europeus, tais como Itália e Espanha!… Eu cresci morando na Europa, hehehehe…. Tive um namorado cujo apelido era „Alemão“. Li o livro da „Anne Frank“. Quis defender o socialismo na escola, fui a favor do capitalismo por conselho do meu irmão e acabei fazendo parte do grupo que ganhou a discussão, apesar de ter reconhecido no socialismo um sistema justo. Mais tarde entendi que era um sistema justo só pra alguns, enquanto que mesmo lá alguns eram mais iguais do que outros, como bem descreve George Orwell. Quando descobri que o Muro de Berlim era de verdade mesmo, fiquei abobada com a burrice do ser humano. Quando ouvi dizer que ele tinha caído, senti uma imensa felicidade. A Alemanha foi o 2° país que conheci, ainda na universidade. Foi onde me senti meio em casa, mesmo sem falar direito o idioma. Até que enfim o doce era tão doce quanto eu achava que deveria ser, pois tinha passado 23 anos comendo doce no Brasil tomando muita água, por sempre ter achado os doces brasileiros doces demais. Reconheci neste país algumas coisas das quais não gosto, mas também muitíssimas que admiro: a falta de corrupção, a noção clara de cidadania, a liberdade de ir e vir, a organização, a limpeza, o sistema social, as leis trabalhistas justas, a geografia e a arquitetura que me apetecem, o respeito e amor ao meio-ambiente. Me sinto bem do lado de cá, já há 20 anos. E fazendo esta pequena retrospectiva, percebo que já vivo aqui há quase o mesmo tempo que morei no Brasil. No meu peito batem dois corações.


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