::Sistema educacional na Alemanha::

O sistema educacional alemão é pra lá de complicado. Basicamente, em termos de 1° e 2° graus, há três tipos de escola, a Hauptschule, a Realschule e o Gymnasium. Falando de forma bem simplória, na 4ª. série as crianças são avaliadas e recebem uma sugestão de que escola deveriam cursar a partir dali, o que de certa forma já define o caminho de sua vida, a princípio. Aqui no estado de Baden-Württemberg há poucos anos atrás a decisão era unilateral por parte da escola e se os pais eram contra essa decisão, a criança teria que fazer uma prova para poder estudar em outro tipo de escola que não o recomendado pelos educadores. Mas isso felizmente mudou e a decisão foi colocada nas mãos dos pais.

Crianças com notas mais baixas, principalmente em matemática e alemão, são indicadas para cursar a Hauptschule, crianças com notas médias irão para a Realschule, podendo depois se candidatar para cursos profissionalizantes, e as crianças no Gymnasium serão, em regra, aquelas que farão um curso universitário. Isso falando de forma bem generalizada, porque na prática pode acontecer, ainda que seja uma exceção, que uma criança acabe a Hauptschule, passe pra Realschule e chegue até o nível do Gymnasium, podendo então cursar uma universidade. A ideia básica deste tipo de ensino é dividir as turmas em grupos mais ou menos homogêneos e assim, também as expectativas do que essas crianças tenderão a ter mais tarde na vida adulta. O sistema está também apoiado nos pais, o que já foi comprovado através de várias pesquisas, mesmo sendo uma forma de preconceito, pois filhos de pais que cursaram uma universidade têm bem mais probabilidade de receber uma indicação para o ginásio do que um filho de operários.

As notas na Alemanha vão de 1 a 6, sendo que 1 é a melhor é 6 a pior. O engraçado é que não é necessário acertar a prova inteira para tirar uma nota 1. A partir de 93% das respostas corretas, a nota será 1. Às vezes o professor pode também oferecer testes extras que poderiam melhorar a nota final, e se a criança acertar tudo, as questões básicas e as extras, ela recebe um 1***,  portanto ultrapassa os 100%.  Pra complicar mais um pouquinho, a partir da Oberstufe do Gymnasium (que são os dois últimos anos do ginásio, anos 11/12) as notas vão de 15 a 0, sendo 15 a melhor nota e 0 a pior, claro. Aqui tem umas tabelinhas tentando explicar as notas na Alemanha.

Cada estado alemão decide independentemente sobre as notas dadas nas escolas, sendo que o que substitui o vestibular na Alemanha, a nota do Abitur de Baden-Württemberg e de Bayern (Baviera) são os mais respeitados no país. Existem também vários tipos de ginásio, humanistisches Gymnasium, Sport- und Skigymnasium, Musikgymnasium, Technisches Gymnasium und Wirtschaftsgymnasium (Oberstufe anos 11/13, ginásios especializados em ciências humanas, exatas, esporte, música, etc.), enquanto que o ginásio normal vai até os anos 11/12. Isso significa que quem chega ao nível do ginásio vindo de outro tipo de escola vai precisar de um ano a mais para chegar ao Abitur.  Também existe um Abendgymnasium, um ginásio à noite, geralmente para quem está  terminando o 2° grau para mais tarde poder estudar na universidade, geralmente adultos que trabalham durante o dia e estudam à noite.

Bem nova é a idéia da Gesamtschule ou Gemeinschaftsschule, que reúne os três tipos de escola em um só grupo, como no Brasil, até a classe 10. As aulas são o dia inteiro e as crianças não têm aula frontal o tempo todo, se acostumam a trabalhar em grupo, ajudar outros colegas e podem receber tratamento individual para se desenvolverem de acordo com suas habilidades. As notas são mais inteligíveis, pois o máximo é 100, e no fim do ano 10 as crianças podem continuar em um ginásio até atingirem o Abitur, se quiserem estudar em uma universidade na Alemanha.

Há dois tipos de universidade, a universidade normal, chamada Universität, e a Fachhochschule, uma universidade de ciências aplicadas, sendo mais prática do que o curso mais teórico de uma universidade normal. Quem tem o Abitur, pode estudar tanto em um tipo como no outro de universidade, mas quem só tem Fachhoschulreife só pode estudar na Fachhochschule.

A parte mais interessante desses mil e um caminhos é que as escolas alemãs são gratuitas desde a 1ª. série até o final do segundo grau. Na universidade se paga apenas um pequeno valor (tipo 60 euros) para efetuar a matrícula semestral. No estado onde moro, Baden-Württemberg, as crianças recebem todos os livros no início do ano letivo, tendo só que encapar os que forem novos e colocar o nome do aluno em uma listinha logo na contracapa de cada livro. Geralmente depois de alguns anos de uso consecutivo os livros são doados para os alunos daquele ano e livros novinhos em folha serão postos em circulação.

Na prática, claro, a vida não é tão simples como no papel. Já vi jovens deixando a universidade para tentar uma vaga em um curso profissionalizante, já vi muitos jovens terminando o Abitur e fazendo de tudo, menos universidade. No caso da turma da minha filha, que terminou o ginásio há um ano atrás e era um grupo de 130 pessoas, somente 10 foram estudar em seguida e a grande maioria foi viajar, fazer algum trabalho voluntário ou estágios que pudessem contribuir para eventualmente melhorar a nota do Abitur no processo seletivo para a universidade. Paradoxalmente, a Alemanha carece de profissionais de saúde, mas somente jovens cujo Abitur chega perto da nota 1 conseguem um lugar em uma universidade de Medicina, provavelmente a mais concorrida do país. Tem muito alemão indo estudar em países da Europa Oriental devido às dificuldades de conseguir um lugar em uma universidade alemã, o que não se aplica para todos os cursos.

O estado alemão tem soberania de definir os pilares da educação, as universidades têm soberania individual. O engraçado é que não há nada parecido como um ENEM ou um vestibular na Alemanha, e se o jovem tem interesse em estudar em 15 universidades diferentes, ele tem que se candidatar 15 vezes, e pode ser que cada universidade tenha pré-requisitos bem diferentes umas das outras. Como eu expliquei, a nota do Abitur vai decidir quem consegue uma vaga na universidade, mas há cursos, p.ex. na área criativia, que avaliam a aptidão do candidato além da nota através de trabalhos práticos, criativos, etc. Para cada caso, um caso, uma nova forma de tentar um lugar na universidade, novas regras.

Outros fatos curiosos: não existem uniformes. As crianças e jovens vão para escola como bem entenderem. Em geral celulares são proibidos dentro das escolas, que não têm nenhum muro ou tipo de controle na entrada. Durante o horário de funcionamento da escola entra e sai quem quiser. Se alguma criança é pega usando o celular, ela tem que entregá-lo ao professor e depois ir buscá-lo na secretaria… Não há chamada ou lista de presença, só na hora de entrega das notas de provas. O ano letivo começa em setembro e termina em julho (pode ser um pouco diferente de estado para estado, mas o ano letivo é sempre do meio de um ano até antes do final das férias do verão do ano seguinte).

Fui perguntada se acho que uma criança brasileira pode vir para a Alemanha e continuar os estudos aqui em uma escola alemã. Conheço crianças brasileiras e de várias outras nacionalidades que se mudaram pra cá e foram matriculadas em escolas normais da Alemanha, depois de um curso intensivo de alemão e de uma avaliação de que tipo de escola seria o mais adequado para elas. O mais importante mesmo é que a criança consiga receber uma boa base da língua alemã, para poder ter condições de acompanhar bem as aulas e de se enturmar na classe. As notas de alemão e de matemática são as mais importantes no currículo e ajudarão a decidir qual é o tipo de escola adequado para cada criança, mas se uma criança tem dificuldades de grafia e gramática, perderá notas em todas as outras matérias ao  fazer provas e cometer erros de alemão. Um fato interessante que li aqui e queria incluir neste post é que hoje em dia um terço dos estudantes na Alemanha tem pelo menos um pai de outro país, mas o número de estudantes filhos de imigrantes em ginásios é bem baixo. Na época da minha filha, praticamente só 5% tinham sobrenomes estrangeiros. Filhos de russos, judeus, chineses, coreanos ou vietnameses são matriculados com mais frequência no ginásio na Alemanha do que crianças alemãs, em termos percentuais.

A grande crítica ao sistema de ensino alemão é que na quarta série a vida de uma criança é definida em grande parte, e por outro lado o meio social dos pais influencia de forma considerável nesta decisão. A cultura alemã analisa o que falta, portanto uma criança tende a ser analisada pelo que lhe falta, não pelo que ela traz em abundância. Fico pensando o que é decidido no caso de crianças cujos pais não entendem bem o sistema ou mesmo o idioma alemão. Fico pensando o que teria sido de mim se tivesse crescido na Alemanha, se teria seguido a mesma trajetória que segui no Brasil. Todo ser humano deveria poder conseguir crescer tanto quanto sua potencialidade lhe permita e tentar transpor seus próprios limites.

E quanto a você, qual é a sua experiência com o sistema educacional alemão? Tem filhos que vão à escola aqui? Do que gosta, do que não gosta? Deixe seu comentário abaixo! Eu e os demais leitores agradecemos por sua contribuição!

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10 Respostas to “::Sistema educacional na Alemanha::”

  1. Li Cardoso Says:

    Ja estou tensa! Meu filho vai comecar a escola Alema dia 26, estou preocupada com as dificuldades que ele tera com a lingua, pois chegamos aqui mes passado e ele veio da escola grega, fez a primeira serie la. Meu marido e grego e eu brasileira, Ainda nao entendo a lingua, somente meu marido que veio para ca com 6 anos e foi embora com 19. Segundo fui informada ele devera comecar na segunda serie, ja que ele ja fez a primeira na Grecia e ja tem 7 anos. Tenho um outro filho com 2 anos, acredito que com ele sera mais tranquilo, pq ja comecara a alfabetizacao em Alemao, porem com o mais velho estou bem preocupada!

    • Stefania Mennel Says:

      Olá! Li, estou chegando com meus filhos no mes de julho, em Freiburg. Eles estarão com 10 e 9 anos no início do ano letivo daí. Me conta como foi a adaptação do seu filho de 7 anos. Ele já falava alemão no início das aulas?
      Um abraço e obrigada,
      Stefania

      • Sandra Santos Says:

        Oi Stefania,
        Meus filhos nasceram na Alemanha. Criança aprende rápido e acaba ensinando pra gente! 🙂
        Um beijo,
        Sandra

  2. Rainer Otto Wilhelm Krüger Says:

    Ola Sandra, muito obrigado pelo seu texto, muito informativo. Tenho um filho que esta iniciando a segunda série em Hessen numa escola integral (Ganztagsschule) e inclusiva. O que me chama a atencao é o vies construtivista desta escola, onde nao há notas, e sim uma avaliacao de desenvolvimento pessoal, até a quarta série.
    Mas mesmo assim esta avaliacao para qual escola o aluno vai ir é muito estressante mesmo. O lado positivo é que a preocupacao com a educacao comeca na Kindergarten e nao no 3° ano como muitas vezes acontece no Brasil.

  3. sarah Says:

    nossa melhorou um pouco meu ponto de vista e me encheu de duvidas e medos, eu tenho 15 anos e vou estudar fora , estou com muito medo da língua alemã , e as dificuldades a enfrentar , pois aqui no brasil e teria apenas mais 2 anos de estudo ate a faculdade , já estou com os pensamentos formados e terei que mudar quase toda perspectiva e aprender novas historias , costumes, língua , tradições, geografias e por ai vai, e uma mudança radical , meu padrasto e alemão , mas meu pai biológico e judeu , e eu fico ate um pouco insegura de sofrer abusos por ter uma família
    e sangue hebreu…. me deseje sorte

  4. Ana Cristina Says:

    Eu sou portuguesa e casei com um alemão. Na verdade antes de viver para a Alemanha desconhecia por completo o sistema escolar alemão. Eu tenho habilitações académicas superiores feitas no meu país e estou agora à espera de conseguir uma vaga para estudar enfermagem, pois não tenho outra maneira de me inserir no mercado de trabalho e ganhar o suficiente. O meu marido é um simples canalizador. Tenho duas filhas que estão na Gemeinschaftsschule, mas apesar de tudo esta escola não é o que eu esperava. As minhas filhas não sabem nem metade do que aprendi no meu país. Estou muito preocupada com o futuro das minhas filhas. acho que elas o máximo que vão fazer é a Hauptschule. Acho o ensino muito discriminatório. As minhas filhas foram desde logo no jardim infantil com 4 e cinco anos sujeitas a testes. Depois fui coagida pelos professores a inscrever as minhas filhas na Sonderschule. Aí não se ensina nada, porque as crianças coitadinhas não conseguem aprender. E agora que estão na Gemeinschaftsschule continua a mesma situação. Não dão qualquer oportunidade de elas obterem mais conhecimentos. Uma desgraça!…. Eu estou convencida que as minhas filhas são inteligentes, são completamente normais e podiam obter outro nível de ensino, mas os alemães obrigam os pais das crianças a estarem só nas escolas que eles entendem. Infelizmente existe ainda uma raiz nazista. E assim seleccionam as pessoas conforme entendem, mas sempre de forma coerciva. Eu estou bastante desiludida com a Alemanha e se pudesse regressava já ao meu país. Se eu soubesse disto nunca teria vindo para aqui. Como mãe tudo o que se está passando com as minhas filhas é demasiado doloroso. Felizmente que não fiz a escola cá. Apesar da sua riqueza, as pessoas são frias e desumanas…

    • Sandra Santos Says:

      Oi Ana Cristina,
      Sinto muito pela situação das suas crianças. Se não está satisfeita, pode ter uma conversa com as professoras ou trocá-las de escola. Eu, da minha parte, estou muito satisfeita com a Gemeinschaftsschule. Desejo que em breve vc encontre uma boa escola para suas filhas, onde vc e elas estejam satisfeitas. Não há obrigação de ficar em um tipo de escola. A escolha é sua.
      Um beijo,
      Sandra

      • Ana Cristina Says:

        Como sabes isso não é possível na Alemanha. Os pais não têm opção de escolha. A política de ensino alemã não permite. Os professores decidem o futuro do seu filho.Os pais e a criança não têm opção de escolha. A possibilidade de aprender mais fica restrita a muitas crianças, o que considero injusto e não adequado num país que se diz democrático. A liberdade do indivíduo não existe. A vida de uma criança fica destruída… Cristina

        O Presidente da ONU já fez referência a esta injustiça na Alemanha. A igualdade de oportunidades não existe na Alemanha.

  5. Rogerio Miranda Says:

    Olá Sandra, tudo bem? Nossa… que confusão. Bem, deixa eu explicar minha situação e ver se pode me ajudar. Vivemos no Brasil, mas todos tem cidadania portuguesa e pretendemos ir para a Alemanha março do ano que vem. Meu filho tem 8 anos e quando chegarmos na Alemanha ele já terá 9. Minha idéia é que ele comece a escola já no ano que vem. Ele estudaria alemão esse ano e teria 6 meses de Alemanha pra se adaptar com a língua. Vc acha pouco? É um tempo suficiente? Quanto ao encaminhamento de qual escola ele vai, eu entendo que tenho o direito de escolher junto com a escola, logo, se eu estiver insatisfeito numa, posso mudar pra outra? ou não tem jeito? se vc escolher a Hauptschule vc tem que ir até o final e só depois tentar a gymnasium? Até quantos anos vai a Hauptschule? Não se perde muito tempo se vc tiver que fazer a Hauptschule, depois a Realschule, pra só depois fazer a gymnasium? Eu fiquei meio na duvida com relação a esses tempos de estudo? são tempos diferentes? Grato pela atenção. Um abraço Rogerio Miranda

    • Sandra Santos Says:

      Oi Rogério,
      A escolha da escola depende de onde vc mora e da capacidade intelectual da criança. Se tiver muito na dúvida, a Realschule ou uma Gesamtschule/Gemeinschaftschule é uma boa pedida.
      Um abraço,
      Sandra

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