::Uma história de vida e de morte::

Desde que entrei de quarentena, e já estou começando agora na minha quarta semana, algo que entrou na minha vida foi o uso constante de tecnologias para me conectar com pessoas, dentre elas o WhatsApp e o Zoom. Uso ambas na maioria das vezes com vídeo, e assim falo e vejo pessoas espalhadas por todo o mundo. Tenho que dizer que desde então estou tendo mais contatos, e com um número bem maior de pessoas do que antes. Nem quero imaginar como seria uma quarentena sem meios de comunicação como os atuais.

“Por acaso”, através de um convite em uma newsletter, me conectei com pessoas desconhecidas espalhadas por toda a Europa, que trocam entre si a solidão de estarem confinadas às suas quatro paredes, muitas delas realmente sozinhas. Alguma delas não vêem seres humanos durante 10 dias, até terem de ir ao supermercado para comprar alguns alimentos e voltar ao seu confinamento. Algumas delas só têm a permissão de fazer compras no máximo a 1.000 metros de suas casas e disseram se sentirem felizes ao ouvir que o supermercado da esquina estava fechado e que assim puderam ir a um supermercado maior e um pouco mais longe de suas casas. Esse tipo de limitação de só poder sair a 1 km da minha casa não existe aqui na Alemanha.

Neste grupo, temos encontros recorrentes por Zoom. No encontro de hoje, uma mulher contou que seu irmão esteve internado em um hospital por ter sido infectado com o coronavírus. Ele dividia seu quarto com um senhor de 80 anos que estava em situação muito pior do que a dele e que não conseguia passar uma noite sem a ajuda constante de enfermeiras, que tinham que visitá-lo a cada 1-2 horas.

Em algum momento, uma enfermeira disse que sua esposa tinha ligado para o hospital e mandado um recado para ele. O senhor de 80 anos pronunciou o nome de sua esposa e esta única palavra mudou por completo os sentimentos do irmão da minha nova conhecida. O nome da esposa transmitia todo o amor, todo o companheirismo e todas as experiências e anos vividos juntos, toda uma vida passada a dois. O companheiro de quarto passou a não ficar mais incomodado com o fato daquele senhor precisar de tantos cuidados, pois ele lhe tinha ensinado com uma única palavra muito mais do que ele podia imaginar. Ele era um professor universitário, que vivia viajando para muitos países, que não tinha tempo para parar e refletir muito sobre a vida, até que a doença o obrigou a parar.

Naquela noite, a enfermeira entrou no quarto e o avisou que o senhor de 80 anos talvez não fosse suportar as próximas horas. Deu-lhe um sedativo ou algum remédio paliativo e ambos dormiram. No outro dia, ele acordou e notou que o senhor não respirava mais. Ele tinha ido em paz. O irmão da minha nova conhecida, com 63 anos, recebeu alta em seguida e foi para casa, tendo aprendido qual era realmente o sentido da vida.  

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Uma resposta to “::Uma história de vida e de morte::”

  1. Juliana Vianna da Nobrega Says:

    Pelo que eu li no site ntv.de os medicos estao escolhendo quem vai viver ou morrer no sul da Franca e tambem em Tübingen iriam comecar a sedar os pacientes com mais de 80 anos. Nao sei se esse senhor nao suportou mesmo ou foi apenas essa nova política dos hospitais 😦

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