Archive for the ‘Quotidiano’ Category

::A insegurança nossa de cada dia::

24/07/2017

Prometi pra mim mesma que vou voltar a escrever no blog com mais frequência. Logo hoje que comecei a observar que passavam muitos helicópteros na minha cabeça, durante o trabalho, e logo depois um colega veio me contar que um homem tinha invadido uma seguradora com uma motosserra, agredido cinco pessoas, deixando uma delas gravemente ferida. E isso bem perto da cidade onde trabalho.

Em poucos minutos eu já sabia detalhes do acontecido. O tragicômico é que se você busca por notícias em vários idiomas e em vários países, fica sabendo de detalhes diferentes da mesma notícia. Aqui na Alemanha ou na Suíça, por exemplo, muitas vezes não se anuncia o nome de uma pessoa que cometeu um crime, ou somente o nome com uma letra adicional do começo do sobrenome. Agora que estão buscando abertamente pelo foragido, decidiram anunciar o nome completo dele, data de nascimento, o máximo de informação de que dispunham. Mas antes disso na CNN o nome completo dele já estava sendo divulgado. Outra coisa curiosa foi como as primeiras pessoas ficaram sabendo do acontecido, lá no trabalho. Um colega, cuja mãe mora no Canadá, foi contatado por ela perguntando se estava tudo bem. Pouco tempo depois, o marido de uma colega francesa ligava preocupado.

Vi a foto da pessoa que tinha sido a autora daquela loucura, que foi fortemente informada como não ser um ataque terrorista. Ele estava foragido, fiquei sabendo da marca, cor e modelo do carro que dirigia, mostraram umas fotos suas, dizendo que ele tinha cortado os cabelos e estava careca. Ouvi uma representante da polícia dando detalhes do crime, e fiquei até um pouco orgulhosa de entender tudo, pois se tratava de alemão suíço, outro departamento pra quem fala alemão padrão.

Por um milisegundo pensei se poderia ir embora pra casa, se os trens não teriam parado de circular. Antes de sair, a notícia que eu não queria ler: talvez o foragido estivesse indo pra Alemanha… Exatamente pra onde eu estava indo!… Acabei tendo uma sorte danada, pois ao deixar o escritório, me encontrei com um colega, que me acompanhou até a estação de trem. Lá chegando, encontrei com um outro colega, que na realidade é meu vizinho e me acompanhou até eu chegar em casa. As reações, durante o caminho, foram mesmo assim inevitáveis: uma pessoa passou por mim correndo, fazendo esporte como mil e outras pessoas sempre fazem à beira do rio Reno, mas eu me assustei com ela. No caminho, começamos a conversar sobre o meu spray de pimenta e eu não o localizei na minha bolsa, mas imediatamente depois que entrei dentro de casa, e ele voltou pra dentro dela, por precaução. Dentro do trem e ainda na estação, eu observei todos os passageiros. E assim que cruzamos a fronteira, procurei pelos policiais alemães. Ao achá-los, com roupas à prova de bala e armas bem grandes, um alívio interno e um sentimento (falso) de segurança se instalaram. Na Suíça, a decisão da polícia tinha sido de ficar à paisana, para não afugentar o foragido, que era considerado perigoso e já tinha tido problemas por porte de arma ilegal por duas vezes nos últimos anos, mas que ainda não cumpriu pena, pois não tem endereço fixo e mora nas florestas…

Assim que coloquei a chave no cadeado da minha porta e entrei em casa, veio aquele alívio final: lar, doce lar!…

::Paixão alemã::

25/10/2016

tigre

Lá pelos idos do ano de 2000, depois que cheguei a ter medo de que o mundo iria acabar na virada do ano, ao voltar de uma viagem do Brasil fui intimada pelo meu marido de outrora para ir escolher um gato pra nossa família. Até então, gato não era o que eu exatamente poderia chamar de “amigo”: tinha tido alergia a gatos quando criança e não consegui me aproximar de animal nenhum durante toda a minha infância e adolescência – eles lá, eu cá. Tinha aprendido que nós, humanos, estávamos (muito!) acima deles.

Os gatos chegaram na nossa casa, irmãos, bem nenenzinhos, e como dupla permaneceram por muito pouco tempo, pois um deles morreu em seguida. Por ter pena do gato sozinho, tentamos arrumar companhia para o gato principal, mas a primeira tentativa não deu certo. Perdi meu peso na consciência depois de entender que gato gosta de ficar sozinho e, além do mais, dorme durante grande parte do dia. Durante esse período de peso na consciência, chegamos a tentar levar o gato, que era essencialmente de apartamento, pra passear, mas não funcionou. Nem coleira, nem passeio. O gato rastejou no chão e parecia carregar mil livros no lombo… Quando queria passear, ele subia no telhado da casa e poderia ser visto do outro lado, tomando sol ou caçando passarinhos…

Nosso gato principal viveu vários momentos legais conosco. Foi fantasiado numa festa de Halloween e ganhou uma lanterna na cabeça pra correr atrás do próprio ponto de luz. Corria e batia na parede atrás de um reflexo de relógio e foi lançado da cama para nosso armário no quarto quando meu marido se sentiu incomodado por ele (e eu cheguei a pensar que era nosso filho voando pelo quarto)…

Meditava e tomava muito sol. Soube aproveitar a vida, ao lado de muitos que o amaram. Fazia massagens e praticava reiki. Era terapeuta! Antes mesmo de sabermos de um ponto que doía no nosso corpo, ele mostrava o local, fazia massagem e aplicava energia curativa.

Junto de um novo gatinho que recebemos depois que ele já era vovô, fez cocô pela casa toda, até no meio dos colchões da minha cama de casal e debaixo do tapete que tinha ganhado de presente de casamento. Os dois pintaram o sete, fizeram xixi por todo canto, espalharam partes do lixo pela casa e destruíram parte dos meus móveis. Depois de destruir grande parte deles, o Tigre, Tigrinho, “Tigger” ou Tiggi em alemão, ganhou um novo local para afiar suas unhas…

Ficou traumatizado depois que o levamos no veterinário pra ser castrado. Teve duas casas. Acompanhou muitas mudanças, altos e baixos, achou que tinha ficado sozinho pra sempre toda vez que viajamos, viu um neném vir ao mundo e fez greve de fome porque não queria aceitar dividir a atenção de sua dona com ele (ou será que ele era o verdadeiro dono do pedaço?). Passou vários anos em pé de guerra com meu filho e depois de uns cinco anos os dois finalmente fizeram amizade.

Teve uma saúde de ferro, que só foi abalada por um livro grosso que, por azar, caiu nas suas costas e machucou seus nervos. Lutou contra a homeopatia prescrita pela dona, cuspindo cada bolinha dificilmente enfiada em sua boca, e, sem querer, quase foi morto por Paracetamol. Por sorte olhei antes no Google: gato + Paracetamol = morte.

Foi e sempre será um gato insubstituível, companheiro de meus filhos e de toda a família, leal, caridoso, sábio, terapeuta, zen. Tem cadeirinha cativa na primeira fileira do meu coração e pra mim vale muito, muito mais do que muitos seres de duas patas, senhores de si, espalhados por este mundo lindo e cruel.

Mostrava o caráter das visitas. Recepcionava meu filho na porta de casa. Esquentou as mãos da minha irmã por vários dias seguidos no inverno. Cuidava da gente quando estávamos em casa. Sentava em cima do celular ou do teclado pra ganhar carinho. Refazia a energia do ambiente. Sumia quando lhe dava na telha. Caiu do telhado ou fugiu pela porta algumas vezes, mas sempre voltou pra casa.

Viveu por 17 anos e nos acompanhou por quase 16 anos e meio, durante quase toda a minha vida na Alemanha. Morreu de morte natural, depois que conseguiu se despedir de todos os cantos da casa e de todos os integrantes da família, e vai viver pra sempre na nossa memória. Somos muito gratos por sua existência e por termos podido dividi-la com ele! Que ele esteja em um lugar especial reservado aos bons, quer sejam homens, quer sejam animais.

°°°

Aqui um pouco mais de suas peripécias. Aqui algo para rir um pouco, especialmente para aqueles que têm gatos em casa.

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Há dois meios de refúgio contra as misérias da vida: música e gatos.
Albert Schweitzer

Gatos são poemas ambulantes.
Kligerman Murray

Eu conheci muitos pensadores e muitos gatos, mas a sabedoria de gatos é infinitamente superior.
Hippolyte Taine

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção.
Artur da Távola

No princípio, Deus criou o homem, mas ao vê-lo tão fraco, deu-lhe o gato.
Warren Eckstein

De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.
Mark Twain

Mulheres e gatos agem como bem entendem. Homens e cães deveriam relaxar e acostumar-se com isso.
Robert A. Heinlein

::10 Confissões de Terça-Feira::

25/10/2016

corazonseco_1

Já saí em matéria de jornal no Japão

Tenho vários amigos virtuais (e reais!) pelo mundo

Tinha um gato sábio e terapeuta (ele me tinha em seu reino)

Conheço gente que vê aura (de várias cores e tamanhos)

Às vezes, penso numa pessoa e ela aparece

Já encontrei por acaso uma chinesa que conhecia, totalmente sem planejar, num parque em São Diego nos EUA (logo depois de ter pedido pra escrever os nomes do povo daqui de casa em chinês pra uma outra chinesa desconhecida…)

Vejo sinais em borboletas, borboletas como sinais

Abro livros no meio, procuro e leio “recados”

Leio vários livros ao mesmo tempo

Minha multiplicidade me faz ser voada (e aceitar que sou um simples ser humano cheio de pontos enigmáticos e erros diários)

 

::Saudade::

20/04/2016

Saudade é uma palavra densa

Profunda no significado

Quanto menos a gente pensa

Se vê por ela fisgado

 

Uma noite, tudo em paz

Tudo por mim conhecido

Em menos de um segundo

Vejo-me pego e vencido

 

Um sentimento de perda

Um vão, um adeus

Invariavelmente aquela cerca

Dita o que é de Deus

 

Uma lágrima no olho

Doces lembranças

Parte do meu miolo

Muitas esperanças

 

Inspirada por Rainer Maria Rilke

::Angela Merkel e a condição feminina no mundo::

11/12/2015

US-GERMANY-POLITICS-MEDIA-TIME

A Angela Merkel foi escolhida como a „Pessoa do Ano“ da revista americana Time. A Hillary Clinton, por exemplo, a citou e deu parabéns a ela como uma mulher, a primeira mulher também chanceler alemã, a ter recebido o prêmio, sendo que a Hillary, claro, gostaria de ser a primeira mulher a presidir os EUA. Pena que o prêmio da Time também tinha sido cogitado para o desumano do Donald Trump. Fiquei aliviada ao entender que esse prêmio não carrega em si um juízo de valor, mas sim tenta exprimir a importância de uma determinada pessoa no mundo, seja ela positiva ou negativa. Até o Hitler já ganhou esse prêmio, e se Donald Trump tivesse o recebido dessa vez, teria sido por sua idiotice completa e péssimo exemplo para o mundo. Eu tenho uma imensa vergonha alheia de tudo o que ele representa e desejo que sua imagem suma, com o avançar da campanha política nos EUA, no esquecimento daqueles que não merecem nenhum segundo de atenção. Como mau perdedor, ele comentou que quem levou o prêmio este ano foi uma pessoa que está destruindo a Alemanha…

Mas então, voltando ao assunto principal, a Angela Merkel, denominada pela revista Time como a “chanceler de um mundo livre”, ganhou o prêmio pelo papel de liderança que exerceu em 2015, tanto nas negociações ligadas à crise financeira da Grécia com a Comunidade Europeia quanto com relação à atual crise dos refugiados. Aqui na Alemanha a revista alemã Der Spiegel acha estranho o fato de outras personalidades que lutam pela igualdade de direitos no mundo (Emma Watson) e revistas femininas (Vogue) terem chamado a atenção para o fato de que uma mulher ganhou o prêmio da revista Time. Diga-se de passagem, dentro dos últimos 29 anos. A última mulher a ter recebido esse prêmio tinha sido Corazon Aquino, a primeira presidenta das Filipinas, em 1986.

Por que não concordo com a revista alemã e fico do lado da posição feminina com relação a esse prêmio? Primeiro, óbvio, sou mulher. Segundo, feminista. Terceiro, vejo o mundo sob a ótica de uma estrangeira dentro de uma sociedade que dá, sim, lugar à mulher, mas ele tem que ser arduamente conquistado. Quarto, porque cresci estudando HIStory, a História dos homens, para mais tarde descobrir aqui e ali, e isso inúmeras vezes, que a mulher também fez e faz História, mas ela não é citada pelos livros, porque a História que estudamos foi feita pelos homens. Quinto, porque se hoje em dia ainda precisamos de ter o Dia Internacional da Mulher e movimentos na internet tais como o #meuamigosecreto (descrever quem me sacaneia como mulher) e  ainda vemos tanta agressão à condição feminina no dia a dia como no caso de propagandas, por exemplo, ainda há muito a ser conquistado. Sexto, porque segundo estudos da Organização Mundial de Saúde uma em cada três muheres já foi violentada de forma física ou psicológica. Esses dados são os oficias. Quanta violência existe no dia a dia com relação à mulher? Dentro de quatro paredes? No trabalho? Quantas mulheres sofrem situações indesejáveis e se sujeitam a condições que elas não desejam para suas vidas? Quantas mulheres fazem o mesmo trabalho masculino e recebem um salário menor? Quantas poderiam assumir cargos de maior responsabilidade ou poderiam exercer uma posição de liderança muitas vezes protegida por homens? Quem leu a reportagem da ex-funcionária da Nestlé que entrou na Justiça contra a empresa depois de sofrer assédio moral por vários anos seguidos por lá?

Merkel

Mesmo que uma mulher não lidere colocando sua condição feminina em destaque, como no caso da Angela Merkel, por todas as perguntas acima e muitas que podemos nos colocar, quando ela ganha um prêmio como esse e é reconhecida pela revista Forbes como a mulher mais influente do mundo, vale a pena citar que sim, uma mulher ganhou o prêmio da revista americana Time.

P.S.-Adoraria começar aqui no blog uma série de mulheres que fazem ou fizeram a diferença no mundo. Se você quiser contribuir com um post, fique à vontade. Eu – e os demais leitores do Mineirinha – agradecemos desde já!

Fontes: artigo da revista Der Spiegel de 10/12/15, artigo da Time, reportagem do jornal Zeit de 27/05/15.

::Propósito::

10/06/2015

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Falando com um amigo agora há pouco ao telefone, me veio uma pergunta, que coloco aqui para todos: se descubro meu propósito e posso fazer bem ao mundo, quanto poderei fazer de bem se achar o melhor lugar para atuar com esse propósito?

Procurando uma foto para este post, achei o seguinte aqui, que combina perfeitamente com o pensamento acima:

6 Dimensões do Bem-Estar

1. Bem-estar social: como vc age e se relaciona com outras pessoas e com a comunidade. Atividades que o farão desenvolver esta qualidade seriam novos relacionamentos e trabalho voluntário.
2. Bem-estar espiritual: envolve desenvolver o senso da força maior e dos seus valores morais. Para encontrar o significado na vida neste quesito, pode visitar uma igreja, participar de aulas de filosofia ou aprender ioga.
3. Bem-estar intelectual: envolve a expansão do seu conhecimento e sagacidade mental. Qualquer experiência que lhe fizer aprender coisas novas ou aumentar sua perspectiva com relação a algo, como trabalhar na direção de um objetivo ou visitar uma escola fará com que você desenvolva este quesito.
4. Bem-estar ambiental: tem a ver com a maneira como você se relaciona com o meio em que está inserido. Para aumentar seu propósito de vida neste quesito, participe de atividades tais como reciclagem, montanhismo ou jardinagem.
5. Bem-estar físico: está relacionado à sua saúde e atividades físicas. Desenvolva este quesito através de exercícios físicos e comendo comida saudável.
6. Bem-estar emocional: está relacionado com sua autoestima e como você lida com os fatores estressantes da vida. Para desenvolver seu bem-estar emocional, conecte-se com seu eu interior meditando ou aconselhando/sendo aconselhado.

Gostaram dessas ideias tanto quanto eu? O que lhes vem à mente depois de ter lido essas poucas linhas? Lembrem-se: “um objetivo é um sonho com pernas”.

::Nova Era – Leitura em Frankfurt::

30/05/2015

::Nova Era::.

Gente, eu me repito. Pelo menos posso afirmar que continuo comigo, sou autêntica naquilo que penso e como vivo. Estou comigo aqui e agora.

A leitura do “Mineirinha n’Alemanha” em Frankfurt foi a mais gratificante de todas as que já tinha feito antes. Fico muito grata à Imbradiva e à TFM pelo convite! Casa cheia, muitas perguntas, muita troca, público interessado e muito interessante. Vieram leitores de Marburg me ver! Fiz novas amizades!  Há presente maior que um livro possa te dar?!? Pra mim não! Escrevo pela troca, pra mim, por mim, pra todos, por todos. Quem quiser, pode ver fotos do evento no Facebook aqui.

Frankfurt foi a primeira cidade que visitei quando vim à Alemanha em 1991. Foi emocionante pisar nos mesmos lugares depois de 24 anos. Saiu até um poeminha, que eu li no começo da leitura do livro na TFM, dia 22/05/15:

Frankfurt (poeminha feito durante meu almoço na Hauptwache em 22/05/15, inspirada pelo saxofone que ouço, misturado a uma violinha clássica vinda do outro lado da praça, inspirada também por Fernando Pessoa. À minha frente, gente do mundo perambulando pela cidade, uma igreja e muito arranha-céu)

 

É uma verdadeira

Torre de Babel

Cheia

De letreiros, de papel

 

Gente

De todo canto

Músicas, sons

Até com espanto

 

Tem chinês,

Brasileiro,

Estrangeiro do Havaí

E até português!

(Se bobear, até um alemão

Vai ser achado por aqui!)

 

Tanta língua

Tanta gente

Velho e novo

Cidade contente

 

Primeira cidade alemã

Que eu conheci

Pena que fico aqui

Só até amanhã!…

::Como eu mudei depois de mudar para a Alemanha::

19/04/2015

Inspirada no texto que republiquei no meu mural do Facebook, pensei que seria uma boa ideia escrever um texto meu sobre como eu mudei depois de morar na Alemanha. Claro que esta avaliação será só pela metade, porque depois de meia vida aqui talvez já tenha incorporado tanta coisa que já me parece normal, que não a notaria sem que me alertassem deste fato, tirando claro os cabelos grisalhos, as rugas e o ganho de peso com a idade. Portanto, se me conhece e quer me lembrar de algum aspecto que porventura não tenha comentado aqui, deixe seu comentário abaixo, ok? Pois então vamos lá!

Beijinhos e cumprimentos

Com certeza eu beijo menos no rosto e cumprimento muito mais falando do que pegando nas pessoas. Deixei também de encostar nas pessoas ao falar com elas, o que logo de princípio irritava muito meu namorado na época.

Lanches e usados

Fazer “farofa”, levando comida ou lanches ao sair de casa, era inaceitável lá em casa. Vivendo na Alemanha passei a ver que esta atitude é louvável, economiza dinheiro, faz com que nos alimentemos de coisas mais saudáveis e na hora que bem quisermos.

Não cresci em um meio onde a compra ou troca de usados fosse normal. Hoje em dia já participei de várias festinhas onde o único objetivo era a troca entre amigas de roupas e acessórios, sem gastar dinheiro nenhum. Acostumei-me a vender e comprar roupas usadas para meus filhos. Faço também muitas doações aqui, o que já era normal no Brasil, mas aqui às vezes é mais difícil achar pra quem doar.

Espiritualidade

Cresci como católica, mas aqui aprendi a conhecer e respeitar todas as religiões. Aprendi que um ateu que age com civilidade e respeito é mais religioso do que um evangélico ou católico que cumpre o que sua religião exige, mas desrespeita o próximo na primeira oportunidade possível.

Origens e nacionalidades

No Brasil nunca ficamos refletindo sobre a origem das pessoas, sobre a nacionalidade de suas famílias, mas isto aqui na Alemanha é imperativo, pois todos querem saber. Também porque o método de tratamento formal é feito só pelo sobrenome, o que leva as pessoas a colocarem perguntas sobre as origens, o marido (se se tratar de uma mulher casada que tenha trocado o nome) e até se a pessoa for alemã, querem saber de que parte da Alemanha a pessoa vem.

Cidade grande x bicho do mato

Morava em uma cidade com 3,5 milhões de habitantes e para mim era impossível pensar em viver no interior. Hoje moro em uma pequena cidade pertinho de um lago lindo no sul da Alemanha e gosto das vantagens de morar assim, porque tudo é pertinho, gasto pouco tempo me locomovendo para a escola, trabalho, etc., vivo mais próxima à natureza, respiro um ar mais puro e tenho acesso a tudo o que preciso para viver, mesmo tendo feito a opção ser “bicho de mato”.

Preconceitos

Eu não sou livre de preconceitos (quem me dera!), mas no Brasil era definitivamente mais preconceituosa do que aqui. Com certeza porque aqui tenho a oportunidade de conviver e interagir com pessoas de muitas partes do mundo, provar de comidas diferentes e refletir sobre meus preconceitos e os preconceitos de outras pessoas.

Introspecção e (in)tolerância ao barulho

A Alemanha é muito silenciosa, com pouquíssimos barulhos em locais públicos, as pessoas falam mais baixo, a buzina só pode ser usada em caso de emergência… Tudo isso pode incomodar demais um brasileiro em busca de agitação. Eu, da minha parte, faço uso do meu lado introspectivo e aprendi a gostar do silêncio. Mas quando uma festinha boa aparece por aí, com ou sem música, eu adoro também!

Direitos do cidadão e conceito de cidadania

Lembro de andar em Belo Horizonte com o direito do consumidor debaixo dos braços para tentar fazer valer meus direitos em uma loja de sapatos, sendo quase vista como uma ET por agir assim. Aqui todos conhecem seus direitos e costumam fazer uso deles com frequência.

O conceito de cidadania é bem visível aqui. Os bens públicos são conservados e ninguém costuma deixar lixo em lugares públicos. Acho isso o máximo!

Brasil e o valor dos mais simples

Morando na Alemanha, passei a conhecer mais do Brasil além do que conhecia. Vi e li muita coisa que me fez repensar sobre vários conceitos antes ganhos sobre meu país. Passei a ver coisas que para mim antes eram normais, desde que moro aqui como equivocadas, como p.ex. o tratamento às empregadas (almoço em mesas separadas, elevador de empregada, etc.). Sendo obrigada a colocar a mão na massa, cuidar da casa e fazer tudo sozinha, aprendi a ter respeito com cada ser humano e pela função que ele exerce na sociedade. Voltando ao quesito preconceito, aprendi que muitas vezes os mais simples podem ter melhor caráter do que os mais cultos.

Simplicidade

Na Alemanha o esbanjamento é bem diferente do visto no Brasil. Praticamente não há casas planejadas por decoradores, as festas são simples (e ainda assim muito caras), mas investe-se p.ex. em bons carros e em viagens. Mesmo assim, há uma tendência grande da nova geração de consumidores alemães de optar conscientemente contra a compra de um carro, e se for possível de usar os meios de transportes públicos. Isto menos pela falta de recursos, mas mais pela consciência ecológica.

Animais

Eu não tinha ligação nenhuma com animais no Brasil. Hoje vivo com dois gatos em casa e respeito aqueles que cuidam e lutam pelos direitos dos animais. Aprendi com uma amiga minha que disse que se só houvessem pessoas que se importam com pessoas, quem cuidaria dos bichinhos e bichanos? É bom que cada um tenha interesses diferentes, assim todos são considerados. Vivendo e aprendendo!

::Comemoração do Dia Internacional da Mulher – Evento Mulheres pela Paz em Augsburgo::

12/03/2015

paz

Participei no sábado passado, dia 07/03/15, pela segundo ano consecutivo, do evento em comemoração ao Dia Internacional da Mulher em Augsburgo, organizado pela escritora brasileira infanto-juvenil e Embaixadora da Paz Alexandra Magalhães Zeiner. O tema desta vez era Mulheres pela Paz.

Enquanto as crianças se divertiam com atividades recreativas, o chefe do Departamento de Meio Ambiente, Integração e Intercultura, Reiner Erben, representante da cidade de Augsburgo, explicou que há 365 anos comemora-se naquela cidade da Baviera a Festa da Paz (Friendensfest). De acordo com a programação enviada pela curadora do evento, dentre as grandes cidades alemãs, somente em Augsburgo existe um feriado para festejos sobre a  PAZ! Assim em 2015 este foi o tema escolhido para celebrar o Dia Internacional da Mulher: Mulheres pela Paz – Frauen für den Frieden. Apresentaҫões e exposições sobre o tema escolhido fizeram parte do programa, com a presenҫa de mulheres, crianças e também de alguns homens, de escritoras vivendo em várias partes do mundo e de associações internacionais que divulgam a cultura brasileira no exterior.

Um dia antes, 06/03/15, as celebraҫões tinham sido iniciadas com um Sarau da Paz, que ocorreu na biblioteca municipal de Göggingen, onde artistas e escritores convidados apresentaram seus trabalhos para a comunidade local. Infelizmente não pude estar presente a este evento, mas ouvi dizer que tinha sido um sucesso.

No evento do sábado passado, enquanto as crianças presentes se divertiam com atividades recreativas, a escritora e embaixadora do Panamá na Áustria, Gloria Young, falou tão bem do papel da mulher latino-americana, as conquistas políticas, comentando que atualmente quatro mulheres ocupam os cargos de presidência em seus países latino-americanos e também citando vários exemplos de movimentos sociais liderados por mulheres. Ela deixou bem claro que a busca por participação social não deve ficar na cúpula do poder, mas deve ser buscada a cada dia, no local onde a mulher se encontra inserida. Já a terceira palestrante, Rosemarie Mantel, professora de música clássica em Augsburgo, falou sobre o tema Artes e Paz interior. Ela citou o exemplo de sua mãe, que cresceu em uma família erudita, que tocava piano e fazia saraus de literatura e música, quando a Segunda Guerra a fez ter que recomeçar uma nova vida em uma pequena cidade da região de Allgäu, naquela época já com sua própria família de 7 cabeças, afirmando que o fato de ela ter mantido o hábito de tocar piano a fazia ter consciência da necessidade de ter, a cada dia, um momento reservado só para si, quando ela recarregava as baterias, não tinha que se ocupar em dar desculpas por não estar cuidando de outra coisa que não dela mesma como ser humano, e do hábito permitir que a família respeitasse seu limite auto-imposto na busca da paz interior.

Depois da pausa, onde saboreamos vários salgadinhos brasileiros feitos pela também mineira Marlice Boese, que por sinal estavam muito gostosos, tivemos três mesas de discussão, a saber:

– Artes e Paz (Marcia Mar, atriz e escritora, de Londres);

– Educaҫão (Casa Brasil de Lichtenstein e a Imbradiva de Frankfurt);

– Empreendedoras (Rosani Erhart Schlabitz, de Munique).

Escolhi o tema da Educação e achei muito interessante a discussão tomada na nossa mesa. A intenção era analisar qual era o papel da educação na busca da paz, não só a paz na sociedade, mas também a paz interior. No final, chegamos a uma conclusão bonita, que fechou bem nosso dia: toda mulher precisa do seu próprio “piano”, de algo que a descanse, seja só dela, onde ela possa recarregar as baterias e se permita estar só consigo mesma, sem culpa. Quem se dá esta permissão, está em paz consigo mesmo, e por consequência, estará apto a buscar a paz a um nível mais amplo.

Eu acabei demorando alguns dias para escrever este texto, e por coincidência ganhei hoje um presente com relação ao meu “piano” principal, a escrita e leitura, que combina bastante com o tema do evento. Uma leitora, a Keila, deixou uma mensagem linda, que me honrou muito, e que pra mim é um verdadeiro presente de final do dia:

“…Querida Sandra, por favor um pão de queijo e uma xícara de café 🙂 Obrigada!!!! Não existe expressão maior que eu possa começar esse comentário, que não seja: Muito obrigada!
Seu livro esteve comigo durante alguns meses, recebi, e o guardei em minha gaveta, porque atualmente tenho algumas prioridades estabelecidas, dentre elas, renovar em mim o hábito da leitura. Tenho 3 filhos, a rotina de mãe integral não me permite tanto tempo à minha própria disposição, a maternidade é algo muito sério pra mim. Mas confesso que sinto falta de um mundo particular, por algumas vezes. Por essa razão, estou reorganizando minha rotina, tentando redescobrir como posso ser um pouco de mim, mesmo após 3 filhos na Alemanha. Foi nesse processo, que fiz um desafio particular, comigo mesma de ler e escrever, como fazia antes do casamento e tantas mudanças que aconteceram em mim após embarcar pra Alemanha. Nessa busca por tempo, finalmente consegui abrir minha gaveta, que guarda algumas de minhas prioridades como leitura. Nessa semana na segunda-feira, comecei com você. Em cada página, a leitura se tornava mais e mais convidativa, e emocionante, porque ler sempre fez parte de mim, mas hoje minhas prioridades estão direcionadas quase que totalmente aos filhos. Lamentavelmente, li seu livro em pouco menos que 24 horas, foi incontrolável não se emocionar contigo, e mesmo comigo por ler e ter um tempo pra si outra vez. Que venham mais livros, mais capítulos em forma de mais páginas, porque sua linguagem singela, alcança de forma única o coração do leitor. Um abraço de uma manauara na Alemanha, Keila”

Não é linda esta mensagem? E foi um sentimento parecido que tive como escritora durante o evento do sábado passado. Vendi e troquei todos os livros que levei, vendi até livro a mais do que tinha levado, sobraram comigo só as propostas de capas para meus próximos livros que tinha levado para mostrar no evento, conheci outras escritoras lindas, recebi convites para apresentar meu livro em Frankfurt, com a Imbradiva, e em Lichtenstein, com a Casa Brasil. Foi muito proveitoso mesmo! Conheci e revi muita gente fina. Como num momento mágico, ouvi de relance o nome de uma cidade mineira onde tenho família, Ipatinga. Comentei que tenho família lá, no Horto, uma prima tem uma floricultura, meus primos são dentistas. E qual não foi minha surpresa quando a Polliana perguntou se a Denise era minha prima! Achei no meio da Alemanha uma amigona da minha super amigona-prima Dê! Não é incrível?!? Tiramos uma foto juntas e mandamos pra ela conferir!… O dia continuou com coincidências porque comprei uma revista qualquer pra ler e dei de cara com um dos melhores artigos que já li sobre a busca do eu interior, e portanto da paz interior. Eu e Daniel encontramos na viagem de volta com algumas famílias que tinham vindo nos mesmos trens para Augsburgo, agora esperando pelo mesmo trem que nos levaria de volta para casa. Dentro do último trem, a última supresa do dia: dentre tantos vagões, caímos por acaso em um onde duas brasileiras estavam ao nosso lado, que logicamente conheciam alguém que eu conheço… O mundo é um ovo. A paz pode estar em todo lugar, mas tem que ser buscada, com afinco e dedicação, todo dia, o tempo todo.

Alexandra, muito obrigada novamente pelo convite! Já estou feliz hoje pelo evento do ano que vem!

P.S.-Quem tiver ficado curioso sobre o evento, pode dar uma passada na página da Mineirinha n’Alemanha no Facebook e dar uma olhada nas fotos.

::Pensamentos de fim de ano::

24/12/2014

Eu tenho uma amigona, a Chris, que prefere bichos ao ser humano. Primeiro, quando a conheci, eu achava isso intrigante, mas com o passar do tempo vou chegando à conclusão que ela tem razão.

Primeiro, porque somos bichos muito complexos. Já nascemos complexos, trazendo uma bagagem não sabe-se de onde, acumulando sabedoria, chatices e manias ao longo da vida… Mais cedo ou mais tarde, descobrimos que somos uma ilha. Percebemos que não conseguimos nos explicar para o mundo lá fora. Decepcionamo-nos ao nos perceber aquilo que somos, imperfeitos. Temos grande dificuldade de achar outros loucos que nos entendam. E padecemos na nossa solidão diária, mesmo que tenhamos muitos contatos ao longo de um dia-a-dia todo atarefado, todo atribulado, todo louco e estressante.

Segundo, porque temos uma mania imensa de achar que o mundo roda em volta do nosso umbigo. Meu filho de 9 anos, que é doido por astronomia, estava outro dia vendo uma reportagem sobre o buraco negro e eu perguntei onde é que o tal do buraco negro ficava. Ele, seguro de si, me disse que ficava no centro. No centro de onde, quis saber eu, no centro fica o sol, afirmei. Ele veio com um dos seus livros sobre astronomia e me mostrou nosso sistema solar como um ínfimo ponto no meio da galáxia onde estamos inseridos, entre tantas outras no universo, e no meio dela, claro, o buraco negro. Preciso de pensar nesta figura toda vez que correr o risco de me ensimesmar demais.

Terceiro, porque nós, seres humanos, somos verdaeiros idiotas, uns egoístas de marca maior, seguros de nós e de nossas verdades. Qualquer passarinho é mais inteligente do que nós. Eles voam para onde bem entendem, para onde está quente, para onde acham comida. Nós, seres altamente inteligentes, decidimos colocar linhas imaginárias nas terras e dividir a raça humana em grupinhos, discutindo qual é melhor, porque grupo A não combina com B, porque o povo do grupo A incomoda o B, e por aí vai. Somos verdadeiros idiotas. Habitamos um planeta onde, HOJE, seria possível viver em paz, com comida para todos, com oportunidades para todos, com a possibilidade de todos sermos felizes numa verdadeira aldeia global. Se não fosse, ah, se não fosse… a raça humana que divide, segrega, julga, tudo sob o ponto de vista de cada um. E quando está tudo analisado, recomeça a análise, num interminável processo de separação. Somos ilhas no universo.

Mas hoje é Natal. Tempo de confraternização, de amor ao próximo, de agradecimento. Lembramos do tsunami de 10 ANOS atrás (estamos mesmo ficando velhos!) e realizamos que, em um segundo, toda a nossa vida, tudo aquilo que temos e somos, pode sumir do mapa. Pedimos um pouco mais de humildade, para nós mesmos, para nossos semelhantes. E queremos lembrar de fazer de todo dia em 2015 um dia de Natal.


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