Posts Tagged ‘agressão’

::Quem deixa a desejar::

10/10/2009

Há umas semanas atrás um empresário foi morto no metrô de Munique porque quis separar uma tentativa de extorsão entre jovens e os agressores resolveram atacá-lo. Várias pessoas assistiram o ocorrido mas ninguém quis entrar na briga ou separar os envolvidos. O empresário ganhou até um prêmio nacional (Bundesverdienstkreuz) por sua coragem, mas esta não foi mais do que uma homenagem póstuma. O governo alemão pediu à sociedade que não fechasse os olhos para atos de violência.

Durante esta semana fui a um encontro de pais. A sala da minha filha está com um problema desde o ano passado com o professor de matemática, que explica mal a matéria, agride verbalmente os alunos e os chama de incapazes, os demotivando para aprender. Na cabeça do professor há grupos dentro da sala: os que sabem e devem participar, os que não sabem e são incapazes e se alguém do grupo dos “incapazes” resolveu este ano estudar mais a matéria e tenta participar mais, o professor não atende nem de longe a expectativa do aluno. Na cabeça dele ele já sabe desde o ano passado quem tem inteligência para participar de sua aula. Por sorte uma grande maioria de pais resolveu reclamar na reunião. Eu disse que pagamos impostos que se tornam o salário deste professor, e não podemos permitir que um professor que não quer ensinar e trata nossos filhos de maneira deplorável continue a atuar da mesma forma sem que seja tomada uma atitude. Os alunos têm medo de uma represália – e nós também – mas mesmo assim resolvemos agir em conjunto contra a atual situação.

Hoje encontro nos jornais duas notícias que me fazem pensar muito. Mais uma vez outro homem foi atacado no metrô de Frankfurt, ao se intrometer numa briga entre três jovens (moças). Este não morreu, mas muitos assistiram à agressão sem mover uma palha. Assim que as autoridades chegaram, essas pessoas se retiraram do local. Ninguém queria se envolver.

Outro artigo que li foi um, no mínimo, revoltante (vejam a foto no link!). Um rapaz foi agredido por 5 outros jovens no caminho pra casa. Bateram nele, chutaram seu rosto, por sorte ele não teve seu olho atingido. Neste caso duas pessoas se envolveram, conseguiram dar um fim à agressão e serviram mais tarde como testemunhas, já que os agressores puderam ser presos. Mas… a justiça liberou os acusados, argumentando que não pode ser possível descobrir durante o processo quem tinha dado o chute no rosto do agredido, e como não foi possível identificar exatamente o agressor maior, ninguém foi punido. O agredido entrará com uma nova ação contra esta decisão da justiça. Ele afirmou que a notícia doeu mais do que as dores físicas da agressão, e eu imagino que isso seja verdade mesmo.

Na minha opinião, existem três grupos na sociedade (em uma empresa ou em qualquer outro grupo, voltado ou não ao trabalho): aqueles que pegam e fazem, aqueles que nunca fazem e aqueles que sempre criticam o que foi feito. Um dos grandes problemas das sociedades capitalistas de hoje em dia é que o número daqueles que se tornaram indiferentes a tudo e procuram o método mais simples, o que dá menos trabalho, o que é mais confortável pra eles, é gritantemente enorme.

Há várias maneiras de se integrar dentro de uma sociedade de forma positiva. Assistir a um ato bárbaro e não deixar que ele prossiga é uma delas, apesar de que eu sei que nem todos teriam força física para tanto, dependendo da intensidade do caso. Olhar pros olhos de outras pessoas ao cumprimentá-las é outro. Sorrir é outro. Se importar com o semelhante é outro. Há um montão de maneiras pra “aquecer” a sociedade, e muitas delas não custam um centavo sequer, só atitude.

Ontem estávamos, eu e duas amigas brasileiras, discutindo sobre tudo o que é jogado fora aqui na Alemanha e poderia servir para outras pessoas em outros países, como no Brasil por exemplo. Gostaríamos de criar meios para ampliar doações deste tipo, assim como incentivar várias outras produções culturais ligadas ao Brasil na região do Bodensee (Lago de Constança). Uma sementinha foi plantada! Que várias outras sementes sejam plantadas em várias outras mentes espalhadas pelo mundo, para que nossa sociedade se torne um pouquinho mais humana, um pouquinho mais amiga e mais solidária.

Fontes: Revista Focus de 04.10.09, Yahoo News de 09.10.09, Jornal Südkurier de 10.10.09

::100% contra nazistas::

25/02/2009

Um bom conhecido meu ficou esta semana de molho em casa, impossibilitado de trabalhar. Ele foi agredido por dois homens, aparentemente de tendência neonazista, na cidade de Constança, durante as festividades de carnaval daquela cidade no final de semana passada. Meu conhecido tem ascendência estrangeira e possui passaporte alemão. Foi indagado pelos agressores de onde vem, e respondeu “da Alemanha”. Os agressores debocharam dele e anunciaram que iriam bater na cara dele, ao que ele respondeu com “e eu vou bater na sua”, em tom de brincadeira, pensando que os dois homens não poderiam estar falando aquilo a sério e notando que não apresentavam nenhuma aparência do neonazista “típico” (careca, botas, roupas escuras, etc. Aliás, pelo que andei lendo, eles não se vestem mais só assim 😦 ). Um deles tentou acertar o rosto dele, ele desviou, ao que o outro, um homem de aparentemente 30 anos e uns 100 kgs. de peso, puxou o braço do meu conhecido até o deslocar por completo do corpo. Enquanto ele me contava do acontecido, disse ter ficado satisfeito por não ter tido seus amigos e sua namorada por perto, pois eles poderiam ter se envolvido em uma briga com maiores consequências para tentar defendê-lo. Ele disse nunca ter tido que passar por uma situação como esta, onde outras pessoas assumem ter o direito de invadir seu espaço e de agredir sua integridade como ser humano. Se mostrou também decepcionado com a polícia alemã, que dado o fato de ele ter um passaporte alemão, não registrou o ocorrido como um ataque racista (o que para as estatísticas oficiais é bom, pois o índice de ataques racistas é reduzido, e por outro lado é ruim, pois não há uma estatística realmente representativa do número de ocorridos por localidade). Ele me contou que saiu do local literalmente “carregando” o seu braço, junto da namorada, pois este estava preso ao corpo só através dos músculos e dos tendões. Eu pedi que ele vá mais uma vez à polícia, pois através de um retrato falado ele pode impedir que esses sujeitos venham a agredir outras pessoas, que eles julgam poder desconsiderar por não caberem em seu padrão de respeito.

Arrepios! Lendo um pouquinho da página do partido de extrema-direita NPD daqui da região, vejo que esse grupo tenta combater os males da globalização dentro do país (criminalidade, drogas, perda de valores, desemprego de jovens, perda de perspectiva, etc.) oferecendo como solução a “união dos alemães” contra a “utopia” de uma sociedade multicultural e tolerante… Esse partido deveria ser proibido de vez dentro da Alemanha! Contra este tipo de pensamento, recomendo, assim como a minha xará Sandra do blog Conectando Europa e Brasil, um DVD gratuito, o “Kein Bock auf Nazis” (Nenhuma vontade de nazistas, ou 100% contra nazistas).

::Brasileira grávida é torturada na Suíça::

12/02/2009

Na segunda-feira passada, dia 09.02.2009, em uma estação de trem nos arredores de Zurique, a advogada brasileira Paula de Oliveira de 26 anos estava falando ao celular com sua mãe no Brasil quando foi abordada por 3 homens aparentemente neonazistas, um deles com uma suástica tatuada na cabeça, e sofreu por 10 minutos uma série de torturas tais como chutes e socos, além de centenas de cortes de estilete em todo o corpo. O corpo da brasileira foi coberto pelas iniciais SVP, que é a sigla de um dos principais partidos políticos suíços (Schweizerische Volkspartei, Partido do Povo Suíço, de tendência nacional-conservativa). Não roubaram nada dela. Como consequência da agressão, a brasileira, que estava grávida de gêmeas, perdeu os bebês em seguida.

No domingo anterior ao ocorrido, quase 60% da população decidiu ser favorável à abertura do país para mais dois países. Antes estrangeiros de 25 países já podiam trabalhar no país e agora romenos e búlgaros também terão livre acesso na Suíça como integrantes da comunidade européia.

A consul-geral brasileira em Zurique, Vitoria Cleaver, explicou que “uma facção do partido SVP tem uma posição muito dura em relação à questão da imigração. Um grupo era contrário ao referendo do domingo”. Em eleição parlamentar de 2007, um cartaz do SVP exibia uma ovelha negra sendo expulsa da bandeira Suíça por três brancas, com os dizeres “Por mais segurança”.

Acabo de ler no jornal “Die Welt” (O Mundo) que a polícia suíça afirmou que a vítima sofreu “cortes leves” no corpo. Pergunta-se como eles devem avaliar os cortes profundos que os agressores deixaram na alma da vítima! Segundo o artigo, a polícia está à procura de testemunhas do crime. Questiona-se por que a polícia ainda nao deu prosseguimento ao interrogatório da vítima e é, no mínimo, revoltante que tenham duvidado da versão da brasileira e tenham perguntado se ela teria feito ela mesma os cortes em seu corpo, e que tenha sido avisada de que se estivesse cometendo falso testemunho, que iria sofrer as consequências cabíveis!!!…

Por enquanto o ocorrido não está sendo tratado de acordo com sua importância. Da última vez que houve um ataque neonazista a um estrangeiro aqui na Alemanha, e que ganhou projeção nacional, os políticos e a polícia alemã elevaram o caso a um “caso de importância nacional” e ele foi amplamente discutido na opinião pública, até o julgamento dos culpados. O governo brasileiro, através de sua consul-geral, juntamente com as associações de brasileiros na Suíça, que são aliás muito bem organizadas, devem se unir no sentido de exigir da polícia e dos políticos suíços uma posição firme perante o caso, fazendo o possível para identificar os culpados, além de ampla cobertura da mídia suíça, européia e mundial, no sentido de abominar um caso de racismo declarado, infelizmente ocorrido no coração da Europa.

Leia mais sobre a notícia, veja vídeos e fotos da agressão na Globo, no Blog do Noblat e na Folha de São Paulo (acesso para assinantes).


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