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::Paixão alemã::

25/10/2016

tigre

Lá pelos idos do ano de 2000, depois que cheguei a ter medo de que o mundo iria acabar na virada do ano, ao voltar de uma viagem do Brasil fui intimada pelo meu marido de outrora para ir escolher um gato pra nossa família. Até então, gato não era o que eu exatamente poderia chamar de “amigo”: tinha tido alergia a gatos quando criança e não consegui me aproximar de animal nenhum durante toda a minha infância e adolescência – eles lá, eu cá. Tinha aprendido que nós, humanos, estávamos (muito!) acima deles.

Os gatos chegaram na nossa casa, irmãos, bem nenenzinhos, e como dupla permaneceram por muito pouco tempo, pois um deles morreu em seguida. Por ter pena do gato sozinho, tentamos arrumar companhia para o gato principal, mas a primeira tentativa não deu certo. Perdi meu peso na consciência depois de entender que gato gosta de ficar sozinho e, além do mais, dorme durante grande parte do dia. Durante esse período de peso na consciência, chegamos a tentar levar o gato, que era essencialmente de apartamento, pra passear, mas não funcionou. Nem coleira, nem passeio. O gato rastejou no chão e parecia carregar mil livros no lombo… Quando queria passear, ele subia no telhado da casa e poderia ser visto do outro lado, tomando sol ou caçando passarinhos…

Nosso gato principal viveu vários momentos legais conosco. Foi fantasiado numa festa de Halloween e ganhou uma lanterna na cabeça pra correr atrás do próprio ponto de luz. Corria e batia na parede atrás de um reflexo de relógio e foi lançado da cama para nosso armário no quarto quando meu marido se sentiu incomodado por ele (e eu cheguei a pensar que era nosso filho voando pelo quarto)…

Meditava e tomava muito sol. Soube aproveitar a vida, ao lado de muitos que o amaram. Fazia massagens e praticava reiki. Era terapeuta! Antes mesmo de sabermos de um ponto que doía no nosso corpo, ele mostrava o local, fazia massagem e aplicava energia curativa.

Junto de um novo gatinho que recebemos depois que ele já era vovô, fez cocô pela casa toda, até no meio dos colchões da minha cama de casal e debaixo do tapete que tinha ganhado de presente de casamento. Os dois pintaram o sete, fizeram xixi por todo canto, espalharam partes do lixo pela casa e destruíram parte dos meus móveis. Depois de destruir grande parte deles, o Tigre, Tigrinho, “Tigger” ou Tiggi em alemão, ganhou um novo local para afiar suas unhas…

Ficou traumatizado depois que o levamos no veterinário pra ser castrado. Teve duas casas. Acompanhou muitas mudanças, altos e baixos, achou que tinha ficado sozinho pra sempre toda vez que viajamos, viu um neném vir ao mundo e fez greve de fome porque não queria aceitar dividir a atenção de sua dona com ele (ou será que ele era o verdadeiro dono do pedaço?). Passou vários anos em pé de guerra com meu filho e depois de uns cinco anos os dois finalmente fizeram amizade.

Teve uma saúde de ferro, que só foi abalada por um livro grosso que, por azar, caiu nas suas costas e machucou seus nervos. Lutou contra a homeopatia prescrita pela dona, cuspindo cada bolinha dificilmente enfiada em sua boca, e, sem querer, quase foi morto por Paracetamol. Por sorte olhei antes no Google: gato + Paracetamol = morte.

Foi e sempre será um gato insubstituível, companheiro de meus filhos e de toda a família, leal, caridoso, sábio, terapeuta, zen. Tem cadeirinha cativa na primeira fileira do meu coração e pra mim vale muito, muito mais do que muitos seres de duas patas, senhores de si, espalhados por este mundo lindo e cruel.

Mostrava o caráter das visitas. Recepcionava meu filho na porta de casa. Esquentou as mãos da minha irmã por vários dias seguidos no inverno. Cuidava da gente quando estávamos em casa. Sentava em cima do celular ou do teclado pra ganhar carinho. Refazia a energia do ambiente. Sumia quando lhe dava na telha. Caiu do telhado ou fugiu pela porta algumas vezes, mas sempre voltou pra casa.

Viveu por 17 anos e nos acompanhou por quase 16 anos e meio, durante quase toda a minha vida na Alemanha. Morreu de morte natural, depois que conseguiu se despedir de todos os cantos da casa e de todos os integrantes da família, e vai viver pra sempre na nossa memória. Somos muito gratos por sua existência e por termos podido dividi-la com ele! Que ele esteja em um lugar especial reservado aos bons, quer sejam homens, quer sejam animais.

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Aqui um pouco mais de suas peripécias. Aqui algo para rir um pouco, especialmente para aqueles que têm gatos em casa.

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Há dois meios de refúgio contra as misérias da vida: música e gatos.
Albert Schweitzer

Gatos são poemas ambulantes.
Kligerman Murray

Eu conheci muitos pensadores e muitos gatos, mas a sabedoria de gatos é infinitamente superior.
Hippolyte Taine

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção.
Artur da Távola

No princípio, Deus criou o homem, mas ao vê-lo tão fraco, deu-lhe o gato.
Warren Eckstein

De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.
Mark Twain

Mulheres e gatos agem como bem entendem. Homens e cães deveriam relaxar e acostumar-se com isso.
Robert A. Heinlein

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::Sustos & suspenses::

01/02/2014

Passamos um grande susto desde ontem porque nosso gato-vovô se machucou quando um livro pesado caiu nele e ele passou a andar se apoiando mal nas patas traseiras. Ele chorou e tremeu muito de dor.

Hoje de manhã liguei para o veterinário. Expliquei que era uma emergência, enquanto que a atendente me explicou que não tinha horário livre e eu teria que pagar de 2-3 vezes mais pela consulta. Depois me sugeriu que ligasse para outro veterinário, negando ajuda. Fomos ao outro veterinário, que prontamente nos ofereceu um horário. O Tiggi, enrolado num cobertor, fez xixi no corredor e chorou quando saímos de carro. Ele sabe que quando isso acontece, está sendo levado para um médico.

Depois de constatar que ambas as patas tinham sido afetadas, havia suspeita se o livro tinha atingido sua coluna. Ele foi levado para o raio X enquanto eu comecei a pesquisar na internet e li que, se tivesse mesmo acontecido o pior, ele teria uma vida difícil e dolorosa ou ficar muito doente, ou até morrer. Comecei a chorar. O Tiggre é nosso fiel companheiro há uns 15 anos, harmoniza nossa casa, cuida de todos e dividiu sua vida por todas as fases dos meninos. Ele sente quando algum de nós não está bem e faz massagens, fica sempre por perto quando precisamos dele. Nossa casa nunca está vazia. Pra mim ele é um ser muito evoluído. Há muitos seres ditos humanos muito menos evoluídos do que ele. As lágrimas escorriam…

O médico nos chamou pra vermos o resultado do raio X. Que alívio ao saber que ele não quebrou a coluna! Está com o nervo bem inflamado, recebeu uma injeção anti-inflamatória e outra de vitamina B. Amanhã, domingo, voltamos ao veterinário. Voltamos pra casa. A família está completa!

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::Diário de um alemão::

07/09/2011

Nasci numa família até legal, mas por falta de espaço na casa da minha mãe fui levado, junto do meu irmão, pr’um orfanato. Lá acabamos não ficando muito tempo. Por sorte uma outra família nos escolheu e nos levou pra casa deles. Porém, a sorte não nos acompanhou por muito tempo, pois pouco depois perdi meu irmão através de um acidente e fiquei sozinho naquele apê, logo durante um mês em que uma parte da família estava passando férias no Brasil. Quando voltaram, não suportaram minha tristeza e me apareceram com um novo camarada com quem tive que dividir meu pedaço, pra quem deram o nome de Aladar. Ele não conseguiu ficar muito tempo comigo, pois eu fiz a vida dele virar um inferno. Se ele achava que seria fácil tomar meu espaço, ele estava completamente enganado! Mostrei logo pra ele quem era o rei da praça. Depois de uma operação e um tempo no hospital, resolveram devolvê-lo pra casa de onde tinha vindo. Até cheguei a ouvir que lá ele se transformou e virou outro, calmo, saudável… também pudera, ele não tinha mais que dividir o mesmo teto comigo. Mas tudo isso não chegou a me importar muito, pois afinal eu tinha recuperado o que era meu.

Algumas vezes a vida voltou a ser dura pra mim. Quando tive que ir parar no hospital e voltei de lá sem um pedaço de mim, isso foi mesmo um grande trauma na minha vida. Me colocaram numa caixa e me levaram pr’aquele espaço de horror! Desde então, toda vez que vejo a caixa, parto do pressuposto de que o pior pode acontecer novamente. E isso tudo só por causa de uma pequena rebelião da minha parte! Minha família não entende mesmo nada de genética!

O tempo passou, e outra vez chorei inconsolavelmente quando tive que entrar novamente naquela caixa, mas percebi que todas as minhas lágrimas tinham sido em vão: daquela vez eles só queriam me levar para uma nova casa. Gostei de primeira do lugar, mas depois de algum tempo veio a próxima novidade: minha dona começou a ficar com a barriga cada vez maior, inchou que nem uma azeitona, virou um barril de água que parecia poder explodir a qualquer momento, e por fim ela sumiu por alguns dias, voltando com um ser indescritivelmente incomodante, que me tomou noites de sono e me enchia cada vez mais a paciência quanto mais ele crescia. Por fim acabei aceitando que com o passar dos anos os meninos da minha casa também têm direito a um lugar ao sol, apesar de achar que o sol deveria brilhar, por direito adquirido desde o nascimento, mais pra mim do que pra eles. E principalmente mais pra mim do que pr’aquele pestinha, com quem só consegui fazer amizade depois de vários anos de penúria.

Mas eu não posso reclamar mesmo da minha sorte. A minha família me trata bem, eles me dão comida duas vezes por dia, e se eu encher bastante o saco deles, fingindo que a idade não me permite mais saber se já comi ou não, e principalmente se encher o saco de um de cada vez, acabo ganhando comida mais vezes ao dia. Mas eu tenho que confessar que sou bem chato pra bebida, só gosto de água com sabão ou de privada, pois água “normal” é muito normal pra mim – e de normal eu não tenho nada. Eu passo os dias meditando e dormindo, sou independente e sei tomar banho sozinho. Cuido muito bem de mim e na realidade na hierarquia da minha casa só aceito o meu dono acima de mim, depois de mim vem minha dona e logo depois os filhos dela. Eu tive sorte de crescer ouvindo dois idiomas, alemão e português. Não é todo mundo que ganha um presente destes já de berço, né? Eu reconheço bem este fato. Com o tempo, além da meditação, aprendi um pouco de Reiki, e assim sei retribuir um pouco do carinho que ganho deles, fazendo massagem, prestando Primeiros Socorros e reorganizando o nível de energia da minha família. Sim, eu sou um pouco durão, mas eu tenho que admitir que amo esta família que me pegou no orfanato e desde então sempre me fez sentir uma parte integrante deles. Recebo suas visitas ao lado dos donos da casa, ganho carinho, tenho minha paz e meu espaço. Afinal, a vida até que é bela!

De vez em quando meus donos me aprontam uma ou outra, daí a decepção é às vezes bem grande, às vezes eu posso até suportar. Muitas vezes a decepção é grande para os dois lados, pois eles me deixam sozinho e quando voltam, se assustam com o que aprontei. Quando somem por alguns dias e deixam tudo organizado para o meu bem estar, não tenho muito o que reclamar. Mas quantas vezes já os recebi de cara fechada e precisei de alguns dias pra que eu pudesse voltar ao normal! Com o tempo eles aprenderam e ficaram mais experientes, e eu também fui ficando velho, e tenho a dizer que desta vez eles foram mais espertos do que eu.

A caixa apareceu novamente e eu não queria entrar nela de jeito nenhum, mas por fim não me restou outra alternativa. Eu já estava mesmo notando que eles estavam arrumando as malas, e já tinha entendido que eles iam me levar pra outro canto. Depois de algumas curvas e muito choro fui parar na casa de uma menina até legal, que tentou várias vezes puxar conversa comigo, mas pra mostrar pra ela e pro mundo meu descontentamento eu passei uns 5 dias sem comer. A greve de fome não adiantou nada: eles não voltaram. Por fim eu desisti de passar fome e voltei a comer como antes. A água dela não era a mesma como a lá de casa. A decepção pelo tratamento diferente do que eu antes estava acostumado foi grande, mas tive que me redimir e tomar água normal. Aaaaaarrrrrgggghhh! Não teve outro jeito. Com o tempo descobri que ela tinha uma varandinha e como minha família não voltava mesmo, resolvi ir dar uma espiada no que tinha lá fora pra observar. Durante os primeiros dias até que tinha sol, mas depois a chuva voltou e, como diz meu dono, “neste ano o verão foi numa quinta-feira”. Pensei na minha vida, meditei, fiquei puto, fiquei calmo, chovia, fazia sol, comia, dormia, meditava, dormia, comia, meditava, os dias passavam e minha família não voltava. Cheguei a desistir de voltar a vê-los. Será que eu tinha ido longe demais? Também eu deveria ter percebido a ação deles: a mudança foi feita com todos os meus pertences. Será que eles tinham desistido mesmo de mim? A dúvida chegou a me desorientar e as sessões de meditação foram ficando cada vez mais complicadas e superficiais. Saí do meu centro.

Porém, quando eu não tinha mais esperanças, eles reapareceram! Entrar novamente naquela caixa não foi um problema grande pra mim, o choro no meio do caminho era por causa do meu trauma do hospital. Eu nunca sei se vão me levar pra lá de novo… Mas não: no meio do caminho já pude me reorientar, estava escuro mas eu sabia que estava voltando pra casa. Enquanto voltava, ouvia deles os relatos sobre as férias na Espanha: bom apartamento, boa praia, comida gostosa, visita ao castelo da esposa de um pintor famoso, bons vinhos, bons passeios…. Nem se admira que minha família estivesse mais calma e acima de tudo: com a pele mais escura! Mas eles nunca chegarão ao meu brilho, isso não. Por fim, resolvi deixar todas as mágoas do passado pra trás: ao entrar novamente no meu lar, só sei destribuir carinho pra todo lado, dormir nos meus lugares prediletos, a minha água é a melhor do planeta, a meditação voltou a surtir efeito. De volta pro lar, sou Tiggre, ou Tiggi para os íntimos, o gato mais feliz do planeta!

::Domingo de neblina forte::

16/01/2011

A Taísa me pediu pra levá-la na casa de uma amiga. O gatinho da amiga morreu ontem à noite, ela está inconsolável e ainda tem que preparar uma tradução do inglês pro alemão pra escola e precisa da ajuda da minha filha.

No caminho, brinquei com minha filha e disse que na realidade quem tinha que ser levada e buscada lá pra casa seria a amiga e não ela, pois é ela que precisa da Taísa, e não o contrário. Mas os pais desta amiguinha da Taísa são meio complicados e não a ajudam em muita coisa, o gatinho dela morreu, eu gosto muito dela… Então saí de casa, no meio de uma neblina sem visão nenhuma a mais de 10 metros de distância, pra levá-la de carro na casa da amiga do outro lado da cidade. Que presente! Ao sair, o sol era uma bola branca, escondida por trás da neblina que envolve no momento a região do Lago de Constança. Um pouco mais a frente, vi o céu azulzinho despontando do lado direito, oposto ao lago. No caminho, eu e a Taísa conversamos sobre animais. Ela disse que imagina que vai chorar muito mais do que sua amiga quando o Tigre nos deixar. Eu disse que o Tigre (ou Tigger, seu nome em alemão, nosso gatinho) me ensinou muita coisa, dentre elas que um animal é sim tão importante quanto um ser humano, o que pra mim, fruto da minha educação no Brasil, antes dele não era verdade. A Taísa comentou que pra ela vale o que o filme “Marley & Eu” mostra: que os bichos amam sem esperar nada em troca, sem analisar antes se a pessoa é ou não digna de seu amor, independente da condição social, roupas, atitudes, etc. Ela concluiu que vendo-se por este lado, um animal é mais até do que um ser humano, porque somos cheios de preconceitos. Meus olhos se encheram d’água com este comentário dela!

Ao voltar pra casa, fiz o que sempre gosto de fazer: me deixar levar pela minha vontade do momento, e voltei por um caminho que não era o principal, na expectativa de conseguir sair um pouquinho da neblina. Alguns metros à frente, a surpresa: sol por todo lado, céu azul, lua brilhando do outro lado. Pensei, feliz, em como a vida e a natureza se misturam: quando menos esperamos, e muitas vezes se mudarmos só um pouquinho de perspectiva, sairmos da “fumaça” do momento e já teremos uma outra perspectiva, muitas vezes até 100% diferente da anterior.

Cheguei em casa feliz. Às vezes, quando pensamos que estamos ajudando outras pessoas, estamos muitas vezes fazendo algo de bom para nós mesmos.

P.S.-Por “acaso”, este e este foram os textos que li ao fechar meu blog, logo depois de ter escrito este texto. Bom domingo!


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