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::De volta pra casa::

23/11/2009

Nossa! Há muito tempo não me sentia tão bem como no curso que fiz em Munique na semana passada! Dormia bem, não sentia dores no corpo (marcas do cansaço dos últimos tempos…) e levantava da cama todos os dias super bem disposta e animada para mais 12 horas de aprendizado intensivo. Aprendi muito, anotei muitas dicas, e pra minha felicidade também recebi elogios de gente que tem 20-25 anos de experiência no mercado. Pra coroar a semana deliciosa, minha mana (obrigada, Rê!) ainda cozinhou cada jantar mais gostoso e bonito de se ver, eu pude brincar com meu sobrinho “Bärlie”, ouvir as músicas lindas do Rô (meu cunhado), visitar uma feira de livros, conhecer a família binacional lindinha da Paola, rever a Rosanna Gebauer num encontro do Conselho de Cidadãos feito no consulado brasileiro em Munique e, de quebra, ainda conheci uma pessoa lindíssima, a Zahira, que tinha me achado na internet e que me encheu, assim de graça, de presentes e me fez sorrir tantas vezes… Ah… quase esqueci de contar: fui daqui de casa até Munique batendo papo no trem: a cada novo trem que pegava (3 conexões), conhecia novos viajantes cheios de história pra contar. Assim o tempo foi passando e só 15 minutos antes da chegada a Munique é que percebi que a viagem tinha chegado ao fim… Foi um barato mesmo! Eu estava totalmente no meu centro, todos os dias, e aproveitei ao máximo, enquanto o Matthias tomava conta da casa e dos meninos (obrigada, Xuxu!). Tudo estava ótimo, a não ser em um lugar: na U-Bahn (metrô subterrâneo) de Munique…

É debaixo da terra que eles perdem suas almas…

Lá no metrô subterrâneo de Munique parece mesmo que as pessoas perderam suas almas, ou pelo menos elas parecem as terem esquecido em casa. Todos andam pálidos, super apressados, apáticos, parecendo ser comandados por uma “força maior” que os faz andar pra lá ou pra cá. Toda a hora me vinha aquela música na cabeça: “Eh, oh, oh, vida de gado… povo marcado, eh, povo feliz!” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho). É o Brasil na Alemanha:

Você olha pro rosto de uma pessoa e ela desvia, acho que deve ser a “síndrome do elevador”. O sentimento pelo menos é o mesmo. A partir do segundo dia eu passei a ganhar um jornal ótimo de graça, logo na entrada do metrô, o Welt Kompakt. E como o conteúdo do jornal era jóia, ele fez com que as viagens por lá ficassem menos incomodantes, mas mesmo assim passei de segunda a sexta analisando as pessoas “debaixo da terra”.

Pensei naqueles que moram sozinhos em Munique. Como deve ser sair de um trabalho (ainda mais se for chato e as pessoas do tipo pouco ou quase sempre pouco falantes), entrar na U-Bahn e cair num apartamento sem ninguém a não ser você mesmo? Pelo menos aqueles que têm famílias chegam em casa e acham suas almas de novo: seus filhos, suas esposas, sua vida. Tudo bem que Munique tem muito para oferecer, mas a não ser pelo fato de que a U-Bahn leva tanta gente de um canto pro outro de forma rápida e prática, você tem que estar de acordo com “as regras do anonimato” se quiser ir passear por lá… He he he he…

Os sinais da viagem

Eu tive mesmo a oportunidade de conhecer pessoas ótimas durante a viagem. Não só no curso em si, mas também fora dele. Foram vários sinais, se você me entende (se é uma pessoa que acredita neles). 🙂

Apesar de que houve um contratempo: na volta de Munique pra casa desci sem querer, atordoada pela neblina e pela escuridão da noite, uma parada antes daquele que era pra ser meu antepenúltimo trem e acabei perdendo o último trem pra minha cidade. Peguei um taxi, ainda tentei pegar o trem, corri igual a uma desesperada, mas não teve outro jeito: tive que ligar e pedir pro Matthias ir me buscar (coitado: quase não dava pra ver nada na estrada de tanta neblina!…). Por falta do que fazer, enquanto esperava por ele, estava sentada na entrada da estação de trem da cidade lendo um livro de psicologia. Estava um puta frio e eu estava sentada num jornal (pra bunda não congelar), com as mãos fechadas por baixo do livro de uns 5 cm de espessura, com um casaco bem fechado e com os cabelos quase tampando o rosto e o escondendo até o nariz para dentro do cachecol, tentando deixar sair o mínimo de calor pra fora… e de repente, meia noite e meia na entrada desértica da estação uma pessoa pára na minha frente e pergunta, em inglês:
Can you read my mind? (Você pode ler minha mente?)
Eu respondi:
– Não, a única pessoa que pode ler sua mente é você mesmo.
– Você pode fazer com quem eu sorria?
– Eu posso fazer perguntas para que você encontre um sorriso dentro de você. Mas a única pessoa que pode fazer você feliz é você mesmo.
– O que você está lendo?
– Um livro de psicologia.
– Você está estudando para se tornar uma psicóloga ou já é uma psicóloga?
– Nem um, nem outro. Estou estudando para me tornar um coach?
– Coach? Para quem?
– Para estrangeiros. Where do you come from (de onde você vem)? – foi a última pergunta que fiz em inglês. Ele respondeu:
– De Moçambique.
– Ah, então podemos conversar em português!
Ele deu um passo pra trás e pôs a mão no coração. Comentou:
– Nossa, eu nem acredito! O meu nome é Carlos. Me desculpe, minha mão está fria – estendendo sua mão para me cumprimentar, satisfeito. Continuou:
– Eu nem sei por que comecei a conversar com você… Estava indo para pegar meu “comboio” (trem) e vi você, senti vontade de puxar papo… Se você não tivesse dado papo, teria continuado meu caminho até a plataforma…
– E como você sabia que eu falava inglês?
– Não sei responder… Mas você me recebeu com um sorriso aberto, você é uma pessoa de bom coração. Há outras pessoas… ah, deixa pra lá!
– Eu sei, tem pessoas que nos recebem de cara fechada. Mas eu não desisto de receber as pessoas com um sorriso no rosto!
– Nossa, é isso. Outro dia estava mexendo na minha música, e achei no meio dos meus cassetes uma fita do Djavan, você sabe quem ele é?
– Claro, eu gosto muito da música dele. Como você veio para a Alemanha?
– Ah, se eu for contar, vou ficar falando umas 24 horas sem parar…
– Você tem um emprego?
– Tenho. Tenho um emprego, uma cama, uma cozinha, minha música, três amigos com quem posso conversar sobre tudo, tenho a Deus, o ar que respiro…
– Então está ótimo, eu fico feliz por você!
Nos despedimos. Ele levou o endereço da minha página. Quem sabe ele aparece aqui um dia desses? 😉 Depois de tê-lo conhecido, entendi que até o fato de eu ter perdido o trem fez sentido. Uma viagem perfeita, do começo ao fim.

P.S.-Dica para quem for passar uma semana em Munique e precisar usar transporte público como eu usei: compre um “IsarCard” para poder passear uma semana (ou um mês) despreocupado por Munique (o cartão pode ser também usado por outras pessoas).


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