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::Caso de emergência em tempos de corona::

09/04/2020

Ficar doente em tempos de corona não é nada agradável… Menos agradável ainda é nossa tendência de nos deixarmos dominar pelo medo. Explico: se o assunto atual do momento é tomar conta da nossa saúde, é desagradável pensar que enquanto eu estiver visitando médicos ou hospitais, tenho também uma provável grande probabilidade de contrair o coronavírus. E isso acaba sendo contraprodutivo, porque sem saúde, como vamos nos preparara para a chegada do “bichinho”? No meu caso, para já ir me familiarizando com um vírus que provavelmente vai me pegar, mais cedo ou mais tarde, ele já ganhou até apelido e o chamo de bichinho…

Antes de ontem percebi que tinha uma bola se formando na minha bochecha, que começou a incomodar e doer se apertava nela. Era perto da boca, por dentro da gengiva eu podia ver a beiradinha dela. Como não poderia deixar de ser, fiz pesquisa na internet e comecei a achar que poderia ser um cisto ou coisa parecida. Tinha tido sinusite diagnosticada pela minha médica há quatro semanas atrás e poderia ter alguma ligação com isso.

Liguei pra minha médica, já que já conhecia os novos procedimentos adotados desde a chegada do bichinho: ligar, marcar horário, chegar no horário, avisar no interfone, fazer fila do lado de fora e esperar até ser chamado, lavar as mãos ao chegar, manter distância de pelo menos dois metros de outras pessoas dentro do consultório e ir para a sala de atendimento quando for chamada. Já que a sala fica aberta, eu não encosto em nada enquanto estou lá. Pois bem, liguei pra minha médica ontem, expliquei do que se tratava e me deram um horário para hoje, 08:20 h da manhã. De lá, depois de chamar sua colega médica para dar uma olhada naquela estranha coisa na minha bochecha, ela me mandou ir em um otorrinolaringologista. Disse pra eu ir imediatamente e para insistir que fosse atendida imediatamente. Pensei cá comigo: „ela não me conhece, eu vou pra lá e não saio enquanto não for atendida!“… A dor e a urgência falaram por mim, ainda mais porque a partir de amanhã temos o feriado de Páscoa! Só não gostei quando ela comentou que o médico ficava no hospital da cidade…. e o medo do bichinho?!? Ela me acalmou, explicando que o consultoria ficava do lado do hospital, com uma entrada lateral, e que não precisaria entrar dentro do hospital (o que no momento seria até difícil no momento porque visitas desnecessárias estão proibidas a qualquer instituição de saúde). A novidade na minha médica, que da última vez já andava com todo o material de proteção prescrito, é que ela mandou colocar um plexiglas (placa de acrílico) separando a assistente dos pacientes. Boa medida!

Peguei o carro, cheguei lá no otorrinolaringologista com a transferência em mãos, me desculpei por estar chegando sem horário e disse que precisava ser atendida com urgência por causa de um cisto que me doía na bochecha. O médico me atendeu em seguida, fez uma ultrassonografia, disse que o cisto não tinha ligação com o sinus mas estava por cima dele, na pele, e me deu uma transferência para um cirurgião-dentista. A minha dentista fechou até julho, o cirurgião-dentista que conheço está de férias, ir em um outro substituto eu não iria sem saber quem é, e por ficar na cidade do lado da minha fiz a famosa pesquisa na internet para achar outra opção. Achei uma cirurgiã-dentista na minha cidade, peguei o carro e fui direto pra lá.

Chegando lá, repeti o procedimento descrito acima e disseram que eu poderia ficar, que seria atendida em seguida.  Também me pediram para lavar as mãos, eu quis escovar os dentes, me ofereceram uma escova de dentes descartável e um copinho de plástico para poder fazer a escovação sem usar as mãos para pegar a água do bochecho. Fizeram uma tomografia de feixe cônico da minha boca toda e em seguida, depois de esperar um pouquinho, a dentista chegou. Ela anunciou que o cisto tinha se formado por causa de uma infecção dentro da raiz do dente e disse que teria que fazer um tratamento de canal. Perguntei se ela não ia tirar o cisto, e ela disse que geralmente ele poderia desaparecer depois do tratamento de canal. Disse que faríamos isso primeiro e depois eu voltaria para ela olhar o cisto novamente. Ela me deu uma anestesia que milagrosamente funcionou imediatamente, começou o trabalho e terminou em praticamente uns 15 minutos… Depois de abrir o dente, o pus saiu praticamente todo pelo canal, que foi tratado. Ela pôs um antibiótico local, fechou o dente de novo e me pediu para voltar lá no final do mês.

Saí aliviada do terceiro médico em série que tinha visitado hoje de manhã em praticamente duas horas e meia! Essa agilidade também se deve ao momento atual, mas tenho que dizer que estou extremamente satisfeita com o resultado, e muito aliviada! Saindo do consultório, é que fui ter tempo de ler um pouco sobre a experiência da dentista que tinha sido tão eficiente e tão rápida no tratamento daquilo que estava extremamente me incomodando… Por intuição, constatei que tinha feito uma excelente decisão! Antes dela me tratar, tinha fechado os olhos tentando me acalmar, comecei a respirar fundo e vi um labirinto preto com uma linha de neon verde. Pensei cá comigo que se estivesse com meu marido, ele saberia achar o caminho para fora daquele lugar bem mais rápido do que eu. Depois de algumas tentativas, cheguei em uma saída que era como um escorregador imenso, que dava para um clube de lazer feito o que conheço da cidade onde meus pais moram no Brasil, cheio de palmeiras, mas vazio. Fui para a praia e vi que estava em uma baia. Tive tempo de andar primeiro para o lado esquerdo, e depois para o lado direito da praia, ouvindo o mar e alguns pássaros que sobrevoavam o lugar. Senti que estava no lugar certo na hora certa. Sabia que tinha feito uma boa escolha por pura intuição. Abri os olhos novamente e a dentista chegou…

Saindo de lá, fui visitar uma farmácia, uma das poucas lojas abertas na Alemanha no momento, mesmo assim com o famoso plexiglas separando o cliente do funcionário. Minha intenção era comprar um remédio para meus olhos e para meu nariz por causa da minha alergia a feno que vem em diferentes níveis no começo da primavera. Saí de lá com uma bolsa de papel com dois remédios, uma meia de compressão para viagens (muito bonita por sinal!), um creme para as mãos, pastilhas de eucalipto e lencinhos desinfetantes (excelente pedida para desinfetar a parte do carrinho onde pomos as mãos nas compras de supermercado). Ganhei ainda um pacote de lencinhos descartáveis de papel. Disse para a funcionária da farmácia que estava me sentindo como no supermercado e ela riu, comentando que quase não há lugares abertos (com contato humano) onde as pessoas possam fazer compras no momento..

Fiquei pensando sobre isso, em como será a vida pós-corona. O que você acha? Teremos a capacidade de depositar nossa confiança em alguém que nunca vimos hoje, como fui obrigada a fazer hoje, ou teremos a tendência de desconfiar de tudo e de todos?

Logo depois de escrever este texto, me levantei para ir ao banheiro e de lá, diretamente em frente à minha janela, vi duas borboletas amarelas voando juntas, o que é sempre o significado de um bom sinal para mim. E olha que moro no terceiro andar! Tudo acabou bem. Gratidão!

::Admiração é pouco pra expressar o que sinto!::

28/06/2019

media

Se tem algo que eu admiro MUITO na Alemanha, e que eu adoraria que fosse replicado no mundo todo, é o trabalho da Polícia alemã.

Explico: há dois dias atrás, no dia 26 de junho, uma menina de 11 anos foi estuprada em plena luz do dia em Munique, no bairro de Obergiesing. Ele estava usando uma máscara de lobo no rosto e luvas de látex nas mãos. A menina voltava pra casa de trem da escola, algo comum em todas as cidades alemãs. Mesmo os policiais mais experientes ficaram aterrorizados com o acontecido, que foi levado à Polícia assim que a menina chegou em casa e contou o ocorrido para sua mãe, que por sua vez denunciou o caso.

O homem com a máscara de lobo atacou a menina no caminho pra casa, quando ela passava por um parque da cidade, arrancou a mochila de suas costas, a levou para um canto, a jogou no chão, tampou seu rosto com a jaqueta dela e a estuprou. Depois, pediu que ela ficasse cinco minutos quieta e deitada e que não contasse nada do ocorrido para ninguém, senão ele a mataria, além dos pais dela. Ele disse que sabia onde ela morava. Algumas pessoas noticiaram à Polícia que viram uma pessoa usando uma máscara naquele parque, mas não perceberam o estupro.

Foi criada uma comissão denominada „Lobo”, que contava com 10 policiais com experiência em delitos dessa natureza. O curioso era que nos dias anteriores dois filmes tinham aparecido na TV alemã com pessoas usando máscaras, o que poderia estar relacionado ao ocorrido. A Polícia se voltou para a população e pediu que a informasse sobre todo e qualquer detalhe relacionado ao caso. 60 pistas surgiram daí também, além do local do crime, onde foram coletadas outras pistas relacionadas ao caso. A Polícia trabalhou incansavelmente para encontrar o culpado.

Hoje, 28 de junho, o criminoso Christoph K. já foi detido! Ele foi identificado com 100% de certeza através de seu DNA, que por sua vez foi retirado das partes íntimas da menina. Ele é um pedófilo alemão, tem 43 anos e foi capturado dentro de seu trabalho. Ele é um estuprador que tinha saído de uma prisão psiquiátrica no final de 2018 e tinha sido condenado em 2010.

A questão principal é que se pode confiar na Polícia alemã. Policiais alemães são respeitados por sua simples presença, mesmo sem estar portando armas, só por causa do uniforme e de ser quem são. A população acredita que o policial está lá para mediar, servir, ajudar, proteger, cuidar, enfim acredita em todos os verbos que deveriam imediatamente surgir na mente de todo o ser humano quando se pensa em „Polícia”. Claro que a Alemanha tem poucos crimes, tem uma boa quantidade de policiais, que por sua vez têm tempo e recursos para se envolver com os acontecimentos, mas sem o apoio da população, a coisa seria totalmente diferente. Talvez a menina não tivesse tido coragem de confidenciar o acontecido para a sua mãe. Talvez a mãe, mesmo sabendo do que aconteceu, tivesse decidido não levar o caso à Polícia. Talvez 60 pessoas não tivessem ligado para a Polícia, passando as 60 pistas. Talvez esse caso não tivesse sido esclarecido e essa pessoa teria agredido muitas outras crianças, além das que ele já agrediu no passado… Agora, só espero que essa menina consiga transpor esse trauma, e que as crianças continuem a ir e vir no seu caminho para a escola como sempre!

Fontes: vários jornais e noticiários da Alemanha e da Suíça de 26 a 28 de junho de 2019. Foto: reportagem de 26 de junho de 2019 da Focus Online.

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