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::Métodos manipulativos e um ano sem comprar::

22/09/2019

No final de julho passado fiquei tão indignada por ter caído seguidamente em alguns dos muitos métodos manipulativos que causam o consumismo desenfreado em que vivemos, que resolvi ficar um ano sem comprar nada pra mim.

Só que minhas férias na Espanha ainda estavam por vir!… No primeiro dia, fomos a um mercado e a única peça que realmente quis, de 4€, acabou sendo paga pelo Matthias, meu marido. Outro dia eu dei um presente pro Daniel, meu filho, e outro pro Matthias, e ganhei um dele, de um valor pequeno, também. Mas percebi que o ato de ganhar, mesmo tendo escolhido o presente, engrandece a alma. Depois de alguns dias, achei um anelzinho que é realmente a minha cara. Esse eu me dei de presente mas disse pra mim que não contava e nem cortava o meu propósito, porque custava só 5€. Por fim, depois de quase uma semana de sobrevivência não consumista nas férias, resistindo a todas as tentações, decidi me dar de presente dois vestidinhos vendidos na praia, em parte pra ajudar a vendedora, que andava na areia fazendo do braço dela o cabide para muitos e muitos vestidos, e em outra parte porque gostei deles mesmo, e além do mais eram baratos demais, cada um custava só 10€. E ficaram de lembrança pra mim do meu propósito de viver bem com menos. A partir daquele dia, 23 de agosto de 2018, disse pra mim que ficaria um ano sem comprar nada pra mim, propósito que venho seguindo com gosto e atenção.

O que aprendi com esse exercício até agora? Muita coisa:

  • Eu tenho praticamente tudo o que preciso para ser feliz, não preciso de quase nada além do tanto que já tenho
  • Além do mais, a maioria das coisas, as mais bonitas e mais prazerosas mesmo, não custam nada, custam a minha atenção
  • Quando ganhei um presentinho, ao invés de comprá-lo, o objeto ganhou mais sentido, foi envolto de amor do presenteador
  • Prestando atenção no que tenho vontade de comprar e me relembrando da minha intenção de não comprar nada para mim, revejo se preciso mesmo, mais mesmo, daquilo que acho pela frente. Claro que se precisar mesmo, vou comprar. Mas estou gostando do resultado da experiência até agora.

E quais são suas atitudes não-consumistas, quais são os métodos manipulativos dos quais você tem plena consciência?

Abaixo alguns deles, mas é só o comecinho da lista…

  1. Perfumes e sprays – as lojas perceberam que determinados perfumes e sprays incentivam o consumidor à compra. Pesquisadores de consumo indicam que cheiro de baunilha e cheiros silvestres influem na decisão de compra de mulheres e homens, respectivamente. De acordo com um estudo, os consumidores ficam mais tempo em lojas cheirosas e as vendas sobem, em média, em 6%. Essa estratégia é altamente usada na Ásia, pelo que notei.
  2. Liquidação e redução de preços – os preços aparecem em etiquetas de preço na cor vermelha porque nosso cérebro as associa a algo barato. Citar que o artigo faz parte de uma promoção ou de uma propaganda pode induzir o cliente a achar que ele é mais barato.
  3. Música de fundo – as músicas de fundo se assemelham ao nosso batimento cardíaco, 72 batimentos por minuto. Quando músicas lentas e agradáveis são tocadas, tendemos a ficar mais tempo em uma loja.
  4. Distribuição dos artigos na loja – os produtos mais caros do supermercado estão sempre na altura dos olhos, os mais baratos ficam mais abaixo nas prateleiras. Produtos refrigerados são colocados na saída dos supermercados para que os clientes tenham que passar por eles antes de chegar ao caixa. Bem na saída, vem a oferta de chocolates, chicletes, e tudo o mais que uma criança vai querer comprar e os pais vão acabar concordando, enquanto esperam sua vez de pagar suas compras.
  5. Iluminação e temperatura – se dá um grande valor à iluminação, para copiar a iluminação do dia. Além do mais, carne pode ser iluminada na cor vermelha, peixe em azul, legumes em verde e pães em uma cor amarelada. A temperatura é mantida em torno de 19 graus, pois estudos mostram que o consumidor permanece mais tempo em lojas refrigeradas.
  6. Manipulações em vendas online – as informações da quantidade disponível para um determinado produto, um reloginho informando até quando a compra pode ser feita, ou até um desconto que aparece na tela assim que o cliente fica na página sem fazer nenhuma compra, esses e muitos outros tipos de manipulação, além das ofertas que casam com nossas buscas ou até com aquilo sobre o que conversamos nos últimos dias… As manipulações online são as mais refinadas, na minha opinião.

Complete abaixo nos comentários outras estratégias manipulativas que você conhece, que impulsionam o consumismo. As acima, em grande parte, eu tirei daqui da página do meu banco, artigo de 17 de setembro deste ano (Von Düften bis Hintergrundmusik).

::Passeio Socrático::

29/09/2010

Autor: Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’. ‘Que tanta coisa?’, perguntei.. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias!

Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual… Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…

A palavra hoje é ‘entretenimento’. Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
 
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, ­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’

O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor..

Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas.

Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático’. Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:´Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!”

::Colapso x Utopia::

25/08/2008

Tocando muito bem em assuntos atuais e de interesse para todo ser humano deste planeta, Rafael Reinehr descorre neste texto sobre uma teoria muito interessante e que promete: a desaceleração da produção e do consumismo em nome do meio-ambiente, da afirmação da importância dos relacionamentos humanos e do “savoir vivre”, o Decrescimento Sustentável. Imperdível!!!!

Gostaria de ler aqui seus comentários, para discutirmos juntos as idéias descritas no texto do Rafael.

::Sociedade de consumo::

05/02/2006

Não é exagero dizer que a igreja dos alemães são as lojas, onde eles se encontram, se observam, comentam um do outro, correm atrás da mercadoria melhor, da pechincha melhor, e acham que estão felizes quando voltam para suas casas. Como diz a propaganda da loja de aparelhos eletronicos Saturn: “Geiz ist geil” (pechinchar é um barato).

Aqui o que reina é o consumismo exacerbado, principalmente quando se trata de crianças. O efeito do consumismo é a falta da felicidade, ou a busca eterna da felicidade inatingível, pois quando criança, um novo brinquedo faz com que ela fique feliz e ocupada por dois minutos, e quando adulto, fica-se ocupado e feliz com a nova compra do dia também por alguns minutos. Passados esses momentos de felicidade, parte-se em busca da nova compra, do novo momento de felicidade.

Tudo é possível, não há limites. Cresci no Brasil com o limite de três presentes por ano: aniversário, dia das crianças e Natal, e às vezes um presentinho depois de me comportar bem no dentista. Enquanto que aqui na Alemanha, em termos de presentes, nao há limite. Se presenteia na Páscoa, no aniversário, no dia do Nicolaus, no Natal, na Comunhão (sim, Comunhão aqui é sinônimo de ganhos financeiros para muitas crianças), também como compensação por boas notas ou para a criança ficar quieta num final de semana, durante um passeio, por exemplo, e ficar satisfeita “só” com um presentinho… E um presente é pouco: é comum dar-se 3, 4 presentes ou mais para as crianças, que por sua vez acham tudo “normal” e “possível”.

A máxima da constatação de que aqui os presentes sao mais do que indiscutíveis e devem ser ilimitados aconteceu com a minha filha. No final do ano passado, foi feito um amigo oculto na escola dela e o valor a ser gasto com o presente foi definido em 3 euros. Pois bem, algumas crianças da classse gastaram esta quantia, enquanto que algumas outras compraram presentes muito acima deste valor. Resultado: na hora da troca dos presentes, umas crianças se sentiram “mal presenteadas”, em detrimento de outras, que ganharam canetas de marca, brinquedos eletrônicos, etc. Houve até criança que resolveu devolver o presente ganho, pois ele não era “bom o suficiente” na sua opinião e por fim ela disse não acreditar “que a família da outra criança nao tivesse dinheiro o suficiente para comprar um presente razoável”… Neste caso eu conversei muito com minha filha, disse pra ela que acreditava que tenha faltado educação na casa dessa criança e expliquei que presente é presente e não se pode colocar juízo de valor nele e muito menos expectativa. O ditado alemão já diz: “Einem geschenkten Gaul schaut man nicht ins Maul” (não se deve analisar a boca do cavalo ganho de presente*). E o mais importante na ocasião, o verdadeiro espírito natalino, foi esquecido no meio desse caminho…

No final das contas, os efeitos da globalização não são um acontecimento isolado aqui da Alemanha, mas que infelizmente é típico do nosso mundo capitalista atual, nao importa o país onde estejamos vivendo. Mas o que se nota é que isso está piorando de geração em geração, de ano em ano, a cada dia que passa… Fica aqui a responsabilidade dos pais de transmitir aos seus filhos os verdadeiros valores, aqueles que realmente importam, e de pelo menos tentar deter um pouco o consumismo das nossas crianças.

* em português – “Cavalo dado não se olha os dentes!”


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