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Posts Tagged ‘cotidiano’

::Etapas da vida & poema de Hesse::

14/08/2014

Depois de levar o Daniel pra cama, com seus nove anos de idade, no meio de suas férias de verão antes de ir para o 4° ano do ensino fundamental, percebo mais uma vez como o tempo é implacável e passa rápido demais, incontrolável. Ainda mais agora que a Taísa, com seus 18 anos, já tenha começado a fazer planos para a decoração do próprio apartamento. Pelo menos planos imaginários. Agora entendo minha mãe, que sente saudades de nós quando pequenos, em casa, protegidos, em família. Temos filhos e nos alegramos demais com suas conquistas, com seu crescimento, mas ao mesmo tempo desejamos que eles fiquem eternamente pequenos e dependentes de nós.

Abri o FB e dei de cara com um comentário de uma brasileira, vivendo aqui na Alemanha há poucos meses, já estranhando que esteja perdendo um pouco do seu português, embaralhando a grafia das palavras. Eu comentei que ela não deveria ligar pra isso muito não, porque já fui ao Brasil e pedi para cortar meu cabelo em estufas (Stufen). A costumeira dúvida cruel de expatriada, de não ter certeza se tinha escrito a palavra corretamente ou não pegou de novo minha consciência pela raiz, fui ao Google, digitei “Stufen”, e dei de cara com este poema lindo do Hermann Hesse, que por acaso já morou aqui no lago de Constança, bem pertinho daqui de casa. E ele fala das etapas da vida, razão original deste post. O ciclo se fechou. Vamos a ele (tradução mais abaixo):

Stufen – Hermann Hesse

Wie jede Blüte welkt und jede Jugend
Dem Alter weicht, blüht jede Lebensstufe,
Blüht jede Weisheit auch und jede Tugend
Zu ihrer Zeit und darf nicht ewig dauern.
Es muß das Herz bei jedem Lebensrufe
Bereit zum Abschied sein und Neubeginne,
Um sich in Tapferkeit und ohne Trauern
In andre, neue Bindungen zu geben.
Und jedem Anfang wohnt ein Zauber inne,
Der uns beschützt und der uns hilft, zu leben.
Wir sollen heiter Raum um Raum durchschreiten,
An keinem wie an einer Heimat hängen,
Der Weltgeist will nicht fesseln uns und engen,
Er will uns Stuf’ um Stufe heben, weiten.
Kaum sind wir heimisch einem Lebenskreise
Und traulich eingewohnt, so droht Erschlaffen,
Nur wer bereit zu Aufbruch ist und Reise,
Mag lähmender Gewöhnung sich entraffen.
Es wird vielleicht auch noch die Todesstunde
Uns neuen Räumen jung entgegen senden,
Des Lebens Ruf an uns wird niemals enden…
Wohlan denn, Herz, nimm Abschied und gesunde!

°°°

Tradução do alemão pro alemão segundo a Wikipedia alemã:

Jede Lebensstufe, Tugend und Weisheit ist an sich zeitlich begrenzt und blüht zu ihrer jeweiligen Zeit. Der Mensch soll sich also bei jedem Ruf des Lebens mit Tapfer- und Heiterkeit sowie ohne Trauer von seinem alten Lebensstadium verabschieden und einen Neubeginn wagen. Er soll sich außerdem an keiner der Lebensstufen festhalten, da der Weltgeist für ihn keine Einengung, sondern eine Ausweitung von Stufe zu Stufe vorsieht. Hat man auf einer Stufe Heimat gefunden, so droht man in eine Erschlaffung und Lähmung zu geraten. Dieser Stufenprozess ist nicht zwangsläufig schon mit dem Tod abgeschlossen, weil das Leben fortwährend ruft. Somit soll der Mensch den Tod als Genesung betrachten, denn letztlich ist auch er nur der Abschied von einer Lebensstufe.

°°°

Tradução do português pro alemão:

Degraus – Hermann Hesse

Assim como as flores murcham
e a juventude cede à velhice,
Também os degraus da vida,
a sabedoria e a virtude, a seu tempo,
florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
para, com coragem e sem lágrimas, se
abrir a outras novas ligações.
Em todo o começo reside um encanto próprio
que nos protege e nos ajuda a viver.
Serenos transpomos o espaço após espaço,
não nos prendendo a nenhum elo, à nossa pátria;
O espírito do mundo não quer nos prender nem nos coibir,
mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Quando acabamos de nos acostumar com uma fase da vida,
íntimos, ameaça-nos o enfraquecimento.
Só aquele que está pronto a partir e se põe na estrada
consegue fugir à monotonia dos hábitos.
Talvez também a hora da morte
nos lance, jovens, para novos espaços,
o apelo da vida nunca chegará ao fim para nós…
Vamos, coração, despeça-se e cure-se!

P.S.-Aqui um belo resumo da vida de Hermann Hesse em Gaienhofen (também em inglês), aqui no Lago de Constança, onde viveu dos 27 aos 35 anos de idade, de 1904 a 1912.

Fonte para posterior adaptação própria: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1319#ixzz3AP3AACr4
Demais fontes: http://www.lyrikwelt.de/gedichte/hesseg1.htm, http://de.wikipedia.org/wiki/Stufen

::Produtos “brasileiros” n’Alemanha::

21/05/2014

Esta fase pré-Copa tá muito engraçada aqui na Alemanha. Todo e qualquer produto virou produto do Brasil.

Semana passada vi uns chips de uma marca chamada “Mucho Gusto” que estavam sendo vendidos como chips brasileiros. Uai, e eu nem sabia que tínhamos algum tipo de chips que fossem legitimamente do Brasil! Havia também muitos produtos da Espanha, México e da América do Sul sendo oferecidos como produtos brasileiros… Morri de rir e ao mesmo tempo de vergonha, e também de medo dos alemães acreditarem naquela jogada de marketing de mau gosto.

Hoje achei uma nova leva desses produtos, tinha até mexido com frango e com peixe, até de um tipo que não temos no Brasil, mas isso não importa muito. Isso é detalhe. Tinha pizza de sabor feijoada (quem será que teve essa ideia magnífica que transformar a feijoada numa pizza?!?), além disso toalhas e lenços de papel em homenagem ao Brasil ou com motivos tropicais. Taí: gostei dos lencinhos de papel e finalmente a propaganda atingiu seu objetivo. Carreguei um pacote desses pra casa! 😉

::Verdades & máscaras::

13/02/2014

Conheci um casal de gêmeos no domingo passado no parquinho. Ambos de 6 anos, sozinhos, sem os pais, sem brinquedos. Vi que eles estavam em volta do Daniel e seus brinquedos, que estava brincando na areia, e cheguei perto deles, começando uma aproximação. Eram uma menina e um menino. A menina me pediu que a ajudasse a subir num brinquedo. Fiquei perto dela, ajudando-a a rodar no brinquedo, e em um par de segundos ela me contou grande parte de seus medos e problemas:

– “Meus pais são separados. Meu pai mora aqui neste bairro e eu moro com minha mãe na cidade x. Nós somos gêmeos, temos 6 anos e temos uma irmã de 10 anos. O meu pai está em casa com a minha irmã, está a ajudando a fazer o Para-Casa. A minha mãe já foi casada com meu pai, depois teve um namorado que se chamava x, e depois dele ela tem agora o terceiro, y. O y é muito nervoso e briga muito conosco. Minha mãe também briga. Nós não fazemos praticamente nada e eles vêm brigar conosco o tempo todo.”

Pensei em como ela tinha se expressado e em como os seres humanos mudam com o passar do tempo. Muitas pessoas têm uma necessidade tremenda de parecer ser algo que não são ou de não deixar transparecer nenhum medo ou dúvida, com medo daquilo que os outros vão pensar delas. Continuei a conversar com a menina. Alguns minutos me fizeram fazer uma reflexão. Perguntei onde estavam os brinquedos deles. Eles disseram que o pai não os tinha deixado tirá-los da garagem. Voltei em casa e busquei mais brinquedos de areia. Os três começaram a brincar juntos. Eu coloquei meu fone de ouvido e fiquei ouvindo música no Spotify, curtindo um pouquinho de sol, apesar do frio e do vento forte, e continuei pensando na vida…

::Sustos & suspenses::

01/02/2014

Passamos um grande susto desde ontem porque nosso gato-vovô se machucou quando um livro pesado caiu nele e ele passou a andar se apoiando mal nas patas traseiras. Ele chorou e tremeu muito de dor.

Hoje de manhã liguei para o veterinário. Expliquei que era uma emergência, enquanto que a atendente me explicou que não tinha horário livre e eu teria que pagar de 2-3 vezes mais pela consulta. Depois me sugeriu que ligasse para outro veterinário, negando ajuda. Fomos ao outro veterinário, que prontamente nos ofereceu um horário. O Tiggi, enrolado num cobertor, fez xixi no corredor e chorou quando saímos de carro. Ele sabe que quando isso acontece, está sendo levado para um médico.

Depois de constatar que ambas as patas tinham sido afetadas, havia suspeita se o livro tinha atingido sua coluna. Ele foi levado para o raio X enquanto eu comecei a pesquisar na internet e li que, se tivesse mesmo acontecido o pior, ele teria uma vida difícil e dolorosa ou ficar muito doente, ou até morrer. Comecei a chorar. O Tiggre é nosso fiel companheiro há uns 15 anos, harmoniza nossa casa, cuida de todos e dividiu sua vida por todas as fases dos meninos. Ele sente quando algum de nós não está bem e faz massagens, fica sempre por perto quando precisamos dele. Nossa casa nunca está vazia. Pra mim ele é um ser muito evoluído. Há muitos seres ditos humanos muito menos evoluídos do que ele. As lágrimas escorriam…

O médico nos chamou pra vermos o resultado do raio X. Que alívio ao saber que ele não quebrou a coluna! Está com o nervo bem inflamado, recebeu uma injeção anti-inflamatória e outra de vitamina B. Amanhã, domingo, voltamos ao veterinário. Voltamos pra casa. A família está completa!

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::Quando um menino-bebê vira um garoto::

07/06/2008

Semana passada foi a despedida do Daniel no hotelzinho onde ele fica 6 horas enquanto vou trabalhar. Fiz dois bolos, comprei balinhas e preparei alguns enfeites para que ele pudesse também comemorar antecipadamente seu aniversário de 3 anos. Ele percebia que iria acontecer alguma coisa de especial, eu expliquei pra ele que a partir da segunda-feira ele iria para um jardim de infância maior, onde poderia brincar mais, e que o caminho para lá era diferente e que ele sabia (ele já esteve lá anteriormente 2 ou 3 vezes), o jardim ficava perto da casa da tia Sabine.

Na segunda ele colocou sua mochilinha nas costas e pegamos o outro caminho para o novo jardim. Ele foi me “ajudando” e mostrando o caminho até o jardim, pois ele se orienta bem na cidade e conhece vários caminhos. Chegando lá, ele foi apresentado às novas educadoras, escolheu seu “cantinho”, onde poderá colocar sua mochilinha, blusa, chinelo, etc. Fui trabalhar e fiz o mínimo necessário de horas para voltar logo pro jardim, querendo saber como tinha sido sua adaptação no 1° dia. A educadora me contou que foi super boa, ele acompanhou bem o grupo e observou também o que os outros faziam (p.ex. na hora de almoçar), repetindo o que os outros faziam, e portanto estava se adaptando rapidamente. Quando olhei pro lado, o Daniel já tinha calçado sua sandalinha sozinho (no outro jardim ele nunca tinha feito isso, sempre esperava para eu o fazer) e tinha colocado novamente sua mochilinha nas costas, me esperando para irmos para casa. Eu expliquei pra ele que ainda iria passar rapidinho no hotelzinho, pois tinha esquecido umas coisas lá, mas que seria bem rapidinho, pois eu tinha medo dele entrar e não querer mais sair e não queria ter problemas com isso. Ao chegarmos no hotelzinho, eu perguntei se ele queria entrar ou ficar no carro, e ele disse, pra minha surpresa, que queria ficar esperando no carro. Isso pra mim mostrou que ele, apesar de tão pequeno, já tinha fechado esse capítulo de sua vida e estava pronto para a nova fase que tinha inicado naquele dia. O elogiei muito naquele dia, contei pra Taísa e quando o papai chegou em casa ele também ficou todo satisfeito com as novidades. Para completar o dia com chave de ouro, ele fez questão de ir dormir sem fralda (já não precisa de fralda durante o dia mas ainda punhamos fralda nele todo dia pra ir dormir) e desde então dorme numa boa sem fralda sem nunca ter feito xixi na cama. Foi assim que o meu menino-bebê virou um menino de jardim em um só dia.

P.S.-Vou colocar foto nova no fotolog dele agora. Aguardo uma visitinha sua lá!


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