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::O que é, afinal, Kurzarbeit e como está o mercado de trabalho alemão atualmente?::

01/05/2020

Kurzarbeit (ao pé da letra “trabalho curto”) é a redução temporária de horas trabalhadas causada por uma crise. A intenção é evitar demissões. O trabalhador passa a receber um salário reduzido, que é pago pela empresa e pelo governo de forma conjunta. Esse tipo de medida existe em alguns países europeus, tais como a Alemanha e a Suíça, por exemplo. A situação atual do coronavírus está levando a novas discussões e estão sendo estudados novos patamares para que as pessoas afetadas possam ter uma maior parte do seu salário pago durante a crise, apesar da redução de horas trabalhadas. Eu também faço parte deste time e estou de Kurzarbeit desde o começo de abril. Em maio passo a trabalhar uma porcentagem maior de horas e a expectativa é de que voltemos a trabalhar no escritório dentro do “novo normal“ com máscaras, sem elas adotando a distância mínima de 2m, etc.

Ao todo, 10,1 milhões de trabalhadores na Alemanha estão de Kurzarbeit. Desde março de 2020, empresas com pelo menos 10 funcionários podem dar entrada no pedido de ajuda governamental. No ano de 2009, quando eu mesma era responsável por organizar o Kurzarbeit dentro de uma empresa industrial, 3,3 milhões de pessoas precisaram reduzir a sua carga de trabalho para passar pela crise.

Atualmente há 308 mil desempregados a mais do que no mês anterior. Ao todo, a Alemanha conta no final de abril de 2020 com uma taxa de 5,8% ou 2,444 milhões de desempregados. Imaginem como estaria a situação se não houvesse a ferramenta do Kurzarbeit! Viva a social democracia! A título de comparação nos EUA, há atualmente mais de 30 milhões de pessoas desempregadas. O objetivo aqui na Alemanha é que a empresa mantenha seu quadro de funcionários atual e desafogue suas finanças através da ajuda governamental.

O número de vagas em aberto naturalmente caiu, ao mesmo tempo em que o número de desempregados está subindo. Em abril de 2020 há um total de 626 mil vagas a serem preenchidas, 169 mil a menos do que no ano anterior. Observo que apesar de ainda ser um número considerável, geralmente o perfil das vagas em aberto não combina com o dos desempregados, o que vem demonstrando a dificuldade do mercado de preencher determinadas vagas.

A pergunta sobre o Kurzarbeit me foi colocada durante o programa “Eu chego lá!”, do qual tive a honra de participar contribuindo para a seção “como fazer um CV na Alemanha”, a convite da Carla Scheidegger da Carlotas e da Chiara Vigoriti-Zeller. Fiquei muito grata pelo convite!

Se tiver curiosidade, veja aqui uma lista mais detalhada das ajudas governamentais direcionadas aos trabalhadores e às famílias dentro da Alemanha.

Se você, leitor do Mineirinha, tiver mais alguma dúvida com relação ao mercado de trabalho na Alemanha, não hesite em deixar a sua dúvida nos comentários!

Fontes: site da Wikipedia sobre Kurzarbeit, Familienportal (Portal da Família) e artigo do Management Magazin de 30.04.20.

::Diário de início da 5a. semana de quarentena::

06/04/2020

Devagar e sempre vou me acostumando de vez ao fato de viver entre as minhas paredes. Faço excursões do quarto pra sala, da sala pra cozinha, da cozinha pro banheiro, e por sorte temos uma varanda onde dá pra tomar um solzinho e ouvir os sons da natureza. Até agora estava frio, abaixo de 10 graus, e com a chegada da Páscoa as temperaturas sobem e daí vai ficar mais difícil de nos manter em isolamento…

Saio pra fazer compras, em média, a cada 10 dias. Sair virou algo estranho onde eu passei a desenvolver um outro tipo de olhar, observando ainda mais tudo à minha volta.

Por sorte temos gatos em casa! Eles nos dão uma super aula de estar em paz, dormir, virar de costas e tomar sol na barriga, dormir de novo, dar uma voltinha, dormir, comer, dormir ou descansar. Gatos são excelentes companheiros de quarentena!

Pessoalmente, não me sinto presa ou isolada. Minha mente é muito livre e sou por natureza uma pessoa irrequieta. Muito pelo contrário, me sinto produtiva e fazendo muita coisa legal. Desde que minha empresa decidiu me colocar de molho por um mês, comecei a escrever um novo livro*, leio muito, escrevo aqui e em outros cantos, falo ou troco mensagens com Deus e o povo. Estou prestando consultorias para algumas pessoas buscando emprego na Alemanha/Europa e arrumei um grupo super interessante pelo Zoom de pessoas em quarentena espalhadas pela Europa. Fiz novas amizades e estou aprendendo muito com elas! A troca tem sido intensa! Vira e mexe faço um workshop ou um curso pela internet e com a quarentena me sinto mais conectada e tenho mais opções do que tinha antes, pelo menos com relação a tudo o que pode acontecer virtualmente. Minha professora de ioga gravou uma aula curtinha de 20 minutos e vira e mexe faço uma aulinha. Ah, e estou com um projeto surpresa com duas amigas, sobre isso eu falo mais tarde! Cenas dos próximos capítulos…

Estou em contato constante com minha família e ainda que não seja a mesma coisa que ver e abraçar, como expatriada já tinha esse costume de me unir às pessoas que amo apesar da distância. Tudo bem.

Vira e mexe dou uma andadinha nas redondezas mas o meu olhar observador me estressa um pouco. Em casa, posso fechar os olhos e mergulhar no som dos passarinhos sem paranoia. Acabo preferindo. Agora há pouco a vizinha do meu andar tocou a campainha. Ela estava preocupada conosco, disse que já não dormia há dois dias muito bem por causa disso. Perguntou se estávamos bem, se precisávamos de alguma coisa, que ela via nossos sapatos do lado de fora e nada se movia do lugar… Agradeci o carinho e ofereci o mesmo, que ela me avise se precisar de algo, já que vamos em dias diferentes às compras. Que conosco estava tudo bem. Achei bonita a preocupação dela!

E quanto ao que deliberadamente não quero fazer? Evito ver muitas imagens dos noticiários, vejo as notícias só uma vez por dia. Antes ficava olhando o tempo todo os números, agora pra mim eles são uma miragem, uma representação da realidade que não podemos quantificar exatamente – e muitos países nem querem por várias questões. Sinto muito pelos mortos e por aqueles que sofrem, mas de alguma maneira acredito que todos deixamos esta Terra quando chegou a nossa hora. Fico preocupada com meus amigos e familiares, mas procuro manter a paz interna. Ganhei máscaras costuradas por minha amiga Chris e continuamos conectadas, eu e minhas amigas, apesar de não nos vermos fisicamente. Torcemos pelo Brasil e que os brasileiros saiam bem dessa pandemia, assim como nós e os demais países. Adoraria que as Nações Unidas organizassem um ¨comando global¨, porque na minha opinião só vamos sair desta bem unidos, como Humanidade.

Sem ver, sinto um avanço espiritual no mundo. Muitos céticos me dizem que o mundo voltará a ser o mesmo assim que tudo voltar ao normal. Mas eu quero acreditar que o mundo estava desbalanceado e que depois da crise poderemos unir as forças femininas e masculinas para, juntos, criarmos um mundo mais solidário, mais reconfortante, que considere o todo holisticamente e não só os mais fortes, que cuide dos mais fracos e que divida de forma mais igualitária aquilo que já produzimos como planeta Terra, porque na realidade já temos tudo para vivermos bem, sermos felizes e avançarmos como Humanidade para um mundo melhor para todos. Eu quero ter fé de que isso é possível, porque nem o capitalismo ou o socialismo provaram ser a receita de bolo perfeita para os dias atuais. Enquanto os países estiverem lutando por máscaras de proteção e competindo entre si, não chegaremos na unidade necessária para as soluções complexas que todos temos que encontrar até que uma vacina seja desenvolvida e esteja disponível. Somos UM e deveríamos agir como tal. As linhas que dividem os países só existem nas nossas cabeças e temos que fazer algo bom juntos antes de mais alguns maus tomarem as rédeas e extrapolarem ainda mais na sua busca pelo poder…

E como tem sido a quarentena pra voc? Qual é a sua experiência? E qual é o mundo que você deseja depois dela?

*Um pouco sobre meu projeto de livro novo: estou escrevendo sobre mulheres e nossos desafios da vida moderna. Quem quiser sugerir tópicos ou leituras, sou TODA ouvidos!

::Os efeitos do corona::

27/03/2020

Esse bichinho, o corona, já está virando nosso velho conhecido. Levantamos de manhã e ele ocupa nosso pensamento. Durante o dia, enquanto trabalhamos, damos uma paradinha ou outra pra checarmos como ele anda indo no mundo. À noite aqui em casa nos reunimos para ver o jornal e acompanharmos o que ele anda aprontando por aí. Já fiquei sabendo de gente que sonhou com ele. Com certeza muita gente teve também pesadelo por causa dele. Não deve ser nada fácil viver numa parte do mundo onde ele anda atuando feio. As únicas pausas são os memes, as brincadeiras e a vontade de rir, mesmo em situações difíceis, porque rir é sempre o melhor remédio.

Chegando ao fim da minha terceira semana de quarentena, em parte voluntária, comentamos aqui em casa que está sendo um pouco difícil ter noção dos dias da semana ou de manter uma rotina de horários. Pessoalmente, não tenho dormido bem, mas pelo menos um tremor interno que não queria me deixar foi passear em outro canto e deixou nosso apê, felizmente.

Tirando essas coisinhas e coisonas, aquelas listas enormes de mortes, curvas, análises sem fim, fiz uma lista esta semana de tudo o que a quarentena por causa do vírus fez comigo e o que tem acontecido nas últimas semanas pra mim e para a sociedade como um todo. Fiquei surpresa! Pelo menos no meu caso, a lista de coisas BOAS é pelo menos duas vezes maior do que a de coisas ruins. Minha amiga Alessandra confirmou o meu sentimento. Portanto pergunto: você já parou para pensar em como a crise atual tem lhe influenciado e em que aspectos você introduziu mudanças que lhe fizeram bem? Vale a pena listar! Você pode se surpreender com o resultado.

Para todos nós que moramos do outro lado do mundo como expatriados, temos que conviver agora com um fato que não temos e na realidade nunca tivemos como influenciar. Além de termos medo de perder familiares e amigos, sabemos que se isso acontecer, provavelmente não poderemos participar da despedida. Nos resta agora ter fé, focar em projetos positivos e ocupar nossa mente com coisas que esquentam nosso coração e nossa alma. Não podemos nos paralisar, porque o AGORA é precioso demais, vivemos como humanidade os mesmos perigos para enfrentar. Temos que tomar conta da nossa saúde física, mas também temos que alimentar nossa alma, nosso espírito: mens sana in corpore sano. Ninguém sabe o dia de amanhã e muito menos como será o mundo depois da pandemia. O momento é de perda e de dor, mas mesmo assim tenho um bom pressentimento quanto ao futuro depois da pandemia… você também? Ontem e hoje tivemos dicas importantes de dois dos líderes que nos ajudam a navegar na tempestade dos dias atuais:

“A única maneira de vencer esse perigo é agindo como uma humanidade.

Nós somos um. Uma só raça humana.”

Tedros Adhanom Ghebreyesus, WHO Director Geral

“Estamos todos no mesmo barco. Só avançaremos juntos.“

Papa Francisco, Missa Urbi et Orbit de hoje perante a Praça de São Pedro completamente vazia

Através de um artigo da Harvard Business Review, além de algumas observações minhas, sugiro pontos e perguntas a considerar durante a crise, quando estamos sendo convidados a deixar a corrida louca do dia a dia temos tempo para pensar em nós e de refletir sobre nossas vidas:

– Aprendizado: o que posso aprender com a crise?

– Jogo: a frustração faz parte do jogo. Ao invés de nos destruir por algo que não deu certo hoje, percebemos que podemos ter perdido hoje, mas podemos voltar a ganhar amanhã.

– Gratidão: devemos agradecer por tudo ao nosso redor, as pequenas e grandes coisas que fazem com que a vida valha a pena.

– Não temos controle de tudo: mesmo que tenhamos cultivado a ilusão de que podíamos controlar nossas vidas, a crise nos mostra que, em grande parte, estamos sujeitos àquilo que acontece conosco. Sucessos e insucessos nem sempre estão em nossas mãos, portanto nunca devemos desistir de tentar mais uma vez.

– Foco: precisamos saber discernir o que é realmente importante em nossas vidas, e o que pode ser deixado de lado. O que eu sempre queria começar, o que me deixaria orgulhosa de mim mesma se eu conseguisse terminar?

– Fé: independentemente de que religião fazemos parte ou mesmo que não tenhamos uma religião, percebemos que somos uma humanidade e temos que estender nossas mãos e nossos corações para orar e contribuir com todo e qualquer pensamento e meditação para a superação da crise.

– Relacionamentos: de quem sinto falta, principalmente neste momento de reclusão? Como posso cuidar de mim e mostrar ser meu bom amigo? A quem posso oferecer uma palavra de conforto ou mostrar que a pessoa me é cara e que eu me importo com ela? Não posso abraçar com as mãos, mas posso abraçar com o coração.

– Solidariedade: o que posso fazer pelo meu semelhante? Se não posso contribuir com minha mão de obra, posso contribuir para algum projeto social que diminua a dor de outros menos afortunados?

– Missão: por que estou neste mundo? Qual era meu propósito de vida? Por que vim a este mundo e o que quero ter feito antes de deixa-lo?

Sejamos resilientes no nosso caminho! Podemos ver obstáculos como sinais de que estamos no caminho certo e podemos ajudar nosso semelhante com pequenas e grandes dificuldades que ora se apresentam em tempos de tantas incertezas. Sejamos luz! Enquanto a minha luz brilha, ilumino à minha volta e com isso outras luzes hão de brilhar também.

Fonte: artigo da HBR de 27/03/20.

::Como ser um bom líder em tempo de crise – uma reflexão sobre liderança::

25/03/2020

Segundo um artigo da empresa de consultoria Korn Ferry, um líder em tempo de crise deve ser:

– calmo

– confidente/positivo

– corajoso

– empático

– resiliente

Para tanto, ele deve:

– expressar uma visão

– saber se comunicar de forma clara

– agir quando necessário

– buscar clareza

– manter o foco na simplicidade e nos objetivos principais

De todos os líderes que andam tentando lidar com a crise por aí, há poucos políticos que conseguem atender esses requisitos, dentre eles, aqui na Alemanha, a Angela Merkel e o ministro da Baviera Markus Soeder. Na minha opinião, no momento, os melhores líderes têm sido aqueles que sabem do que estão falando: virólogos, epidemiólogos, médicos, etc., como p.ex. o chefe do Instituto independete Robert Koch (RKI), Prof. Dr. Lothar H. Wieler ou o chefe da virologia do hospital Berliner Charité, Prof. Dr. Christian Drosten. Acreditemos na ciência!

Fonte: artigo da consultoria Korn Ferry.

::Reações dos governos brasileiro e alemão quanto à crise do coronavírus::

23/03/2020

Cada país está apresentando suas medidas com relação à crise do coronavírus, o que é natural devido à natureza disruptiva do que está acontecendo. Enquanto muitos se mostram preocupados com suas economias, a reação com relação ao ser humano por trás de cada empresa, de cada atividade produtiva, está acontecendo de forma bem diferente.

No Brasil, prevê-se que o produtor/empresário será apoiado por medidas do BNDS. Por outro lado, foi dada a entrada hoje de uma MP* (medida provisória) que permitirá ao empresário suspender o contrato e o salário do empregado durante quatro meses. Oi??? Eu me pergunto: e ele vai viver de que durante esse tempo, dentro de casa, e como ele vai colocar a economia para funcionar sem dinheiro??? Não consegui entender como uma economia vai poder ser reativada se o empregado não vai ter renda durante quatro meses… Será que uma MP dessas tem mesmo chance de ser aprovada ou eu entendi algo errado???

Aqui na Alemanha a ajuda veio, graças à social-democracia, de forma holística, não deixando praticamente ninguém de fora. O governo está injetando muitos bilhões de euros na economia e a princípio não se importa com o déficit interno que as medidas irão causar, pois o objetivo maior é colocar ordem no caos. Alguns exemplos:

– O empregado que tem que conviver com menos demanda no trabalho, ou não pode trabalhar no momento, recebe de 60-67% do salário através de um pacote dividido entre o empregador e o governo (Kurzarbeit).

– Pessoas com crianças de até 12 anos que não podem trabalhar por terem que tomar conta do filho, receberão 67% do salário ou até 2.016 EUR por 6 semanas, ao invés de terem que continuar compensando suas faltas com férias;

– Empresas de mais de 250 funcionários, como p.ex. a Lufthansa que só está podendo atuar com 5% de sua capacidade no momento, receberão grandes pacotes de financiamento, auxílio de capital de giro e algumas delas se tornarão a partir de então um misto de empresa privada e pública;

– Empresas de até 5 funcionários receberão um auxílio de 9.000 EUR e acima de até 10 funcionários receberão 15 mil EUR para poderem pagar o aluguel e custos fixos durante três meses;

– Autônomos e micro-empresários poderão pedir ajuda social ao governo (Hartz IV, Kinderzuschlag).

Em uma pesquisa feita pela revista Der Spiegel, a maioria dos leitores consideram que o governo está agindo bem e tomando as medidas certas na crise estrutural que ora se apresenta. Em parte, os auxílios que descrevi acima são empréstimos, mas o certo é que o governo não está economizando medidas, mesmo que isso torne o futuro mais difícil, para que o cidadão, independentemente de sua condição pessoal, não se sinta esquecido num momento tão difícil como o atual.

Mal as medidas foram anunciadas, recebi um telefonema da assistente da minha dentista: ela queria marcar novos horários comigo para julho (!), pois fechará o consultório até o final de junho. Pelo menos agora as pessoas podem continuar a quarentena com menos medo do que lhes espera no futuro!

P.S.-Em menos de 24 horas esta parte da MP foi cancelada, segundo minha amiga advogada Alice me contou. Obrigada, Alice! Bom, mas só desta MP ter sido colocada no papel com esta parte e o fato dela ter sido levada a público já dá uma noção boa da amplitude do perigo que corre pelas terras brasilis. Esse perigo não é só invisível como no caso do vírus, ele é visível e tem um nome: Jair Messias Bolsonaro, além daqueles que este senhor representa.

Fonte: artigo do jornal Der Spiegel de 23/03/20.

::Angela Merkel vê a crise do coronavírus como o maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial::

19/03/2020

Ontem a Angela Merkel falou na tevê durante 25 minutos procurando convencer os alemães a ficarem em casa e a manterem distância de outras pessoas ao sair de casa. Este foi o seu primeiro discurso ligado a uma crise durante seus 14 anos de governo, e somente pensando nisso já dá pra imaginar que a situação aqui é seria mesmo. O objetivo dela era de que todos sigam as recomendações dos especialistas, pensando em seus entes queridos e em pessoas doentes e idosas, e afirmou que se as medidas já adotadas não surtirem efeito, outras inevitavelmente virão (e daí ficaríamos mesmo confinados às nossas casas).

Desde ontem, 18/03/20, todas as lojas exceto supermercados e farmácias, além de alguns restaurantes e algumas filiais de bancos estão fechadas. Além destas, serviços de entrega, drogarias, bancos, posto de gasolina, comércio por atacado, lojas de bebidas, “Sanitätshäuser”*, Correios, cabeleireiro, lavanderia, venda de jornais, loja de construção, loja de jardinagem e lojas de produtos pra animais. Podemos por exemplo fazer compras pela internet e elas são entregues em casa. Já fiz algumas e, apesar de terem anunciado que as entregas iriam se atrasar, a maioria chegou aqui em casa dentro de 1-2 dias. Os Correios também continuam funcionando, mas fazem entregas sem contato físico e os carteiros passarão a assinar a entrega mesmo de encomendas registradas para evitar o contato. Todas as atividades de lazer estão fechadas: museus, teatros, bibliotecas, saunas, piscinas, etc. Todas as escolas estão fechadas, as crianças estão estudando sozinhas em casa, recebendo material dos professores por e-mail. Os parquinhos estão fechados, as crianças deveriam ficar a maior parte do tempo em casa, mas um passeio na natureza continua recomendado, desde que se respeite a distância social. Todas as pessoas que podem, estão trabalhando em Home Office. Aqui em casa, eu e meu marido trabalhamos de casa, enquanto meu filho de 14 anos fez um plano próprio com horários para estudar, pausas, e até para praticar ginástica em casa. Esta já é a segunda semana que estamos em casa, pois já tínhamos começado com nossa reclusão voluntária por conta própria na semana passada, depois que fiquei doente e a ficha caiu.

(more…)

::Onde você estava durante as últimas epidemias?::

02/03/2020

Eu mesma já andava pensando sobre o assunto: não me lembro de ter gastado tanta massa mental com uma epidemia como com a atual. Semana passada meu marido me disse mais ou menos a mesma coisa… e isso me colocou pra pensar ainda mais sobre isso. Portanto, aqui vai a pergunta – onde você estava, que lembranças tem e como se ocupou com as crises a seguir:

– 1999: vírus de Nipah (Malásia)

– 2002: SARS (China)

– 2003: gripe aviária H5N1 (China)

– 2009: gripe suína H1N1 (EUA/México)

– 2012: MERS (Arábia Saudita)

– 2013: gripe aviária H7N9 (China)

– 2014: Ebola (Congo)

Não me considero avessa às notícias do mundo, mas não tenho nenhuma recordação pessoal ligada a essas epidemias… Do contrário, no caso do coronavírus (COVID-19), sinto como se estivesse à beira de um tsunami, percebo como ele tomou os noticiários, nossas mentes e fomenta a cada dia que passa mais ainda o medo, além do preconceito, entre as pessoas.

Creio que a epidemia atual tem várias facetas a serem analisadas, a saber:

– Saúde Pública: é algo desconhecido e não estudado, que se alastra rapidamente e causa mortes que não se atém a pessoas com doenças prévias nem a uma certa idade. Parece que incide mais em homens acima de 60 anos e que não ataca as crianças, mas ainda não se sabe por quê. Não se tem certeza do período exato de incubação. Se uma pessoa ficar 6 semanas doente, ela pode propagar o vírus durante todo esse tempo. Uma pessoa que não percebe que tem o vírus, se sente saudável, pode propagar o vírus. Não existe vacina nem remédio para a doença. O interesse de retardar a propagação do vírus está ligado à necessidade de cuidar de pessoas realmente debilitadas por causa dele e dar mais tempo para a busca de remédios e/ou uma vacina.

– Econômica: uma razão pela qual as últimas epidemias não nos interessaram é que não houve consequência econômica para o mundo. No caso atual, já são notórias as consequências econômicas da epidemia. As bolsas de valores estão caindo, produtos deixam de ser produzidos e transportados, e com isso o consumo diminui, o PIB de cada país irá cair e a recessão deve se instalar. O supply chain de muitos produtos globalizados vai ser exposto à dependência da China, já que muitas empresas desconhecem sua real dependência de fornecedores ou subfornecedores vindos da China. Quanto ao que ando lendo por aí, o argumento de que se as pessoas não vão as ruas, elas não irão consumir, acho que hoje em dia não é tão fácil afirmar algo assim. Hoje em dia, dentro das nossas quatro paredes, com um computador na mão, podemos comprar o mundo… O turismo, esse sim, irá sofrer, já que praticamente 20% da renda desse setor vem da China, na atualidade. Hoje já li que a primeira empresa de cruzeiros no Japão já declarou falência, outras a seguir… Resumindo, a pandemia incomoda tanto porque ataca países em várias fases de desenvolvimento econômico e pode levar a economia mundial a uma recessão sem precedentes.

– Social: com o aumento do medo e da recomendação de manter 1m de distância das pessoas, e não encostar nelas nem para um aperto de mão, a tendência será que os contatos sociais diminuam drasticamente. Em alguns lugares já foi ou irá ser imposta a quarentena, que acarretará uma convivência com as quatro paredes e a convivência mínima em termos de trocas sociais. Mesmo que vivamos em um mundo globalizado, conectado e de certa forma aberto, os seres humanos têm medos intrínsecos que nem sempre podem ser solucionados pela racionalidade. Li que estudantes universitários alemães estavam tendo preconceito quanto a estudantes chineses ou asiáticos, mesmo sabendo que parte deles nasceu aqui na Alemanha ou vive aqui há anos sem ter viajado há pouco tempo atrás para a Ásia…. E agora, com a chegada do coronavírus à Alemanha, a situação do preconceito deve estar ainda muito pior. Em casos extremos, deve se reduzir ao extremo do „eu contra o mundo“… Uma jovem que foi à Itália e repassou o vírus aqui na Alemanha foi tratada mal e atacada em seu meio social, como se fosse uma pecadora, uma vilã. Pessoas que vêm de determinados países passam a ter dificuldade de conseguir vistos para viajar, o direito de ir e vir fica limitado. Uma curiosidade: quem saberia a tradução da palavra Aussätzige em português? Li que poderia ser leproso, mas a tradução não está correta no caso atual, claro.

– Midiática: no mundo globalizado em que vivemos, e com tantas formas de comunicação existentes, uma epidemia como a atual chega a ser, por si só, altamente estressante. As notícias se alteram a cada segundo e não há constância no que é retratado, ainda há muitas suposições e dúvidas. Um prato cheio para as fake News! Os memes no Brasil continuam firmes e fortes, pelo menos até a doença se instalar de vez por lá!…

Mesmo tendo entendido racionalmente que a doença é menos forte do que o vírus da Influenza e que mata menos do que ela, pessoalmente fico tentando imaginar o futuro próximo, a semana que vem. Se ontem tínhamos aqui na Alemanha 100 pessoas contaminadas e hoje anunciaram que já são 150, demostrando o crescimento exponencial, pode ser que teremos mais de dois ou quatro mil doentes no final da semana, haverão mortos?!? No mundo, neste momento que escrevo estas linhas, já são mais de 80 mil casos da doença e mais de 3 mil mortos. Em 2019 foi avaliada mundialmente a capacidade de cada país de lidar com uma epidemia através da criação do index GHI (Global Health Index), onde 195 países foram analisados. A Alemanha ficou em 14. lugar. Menos mal, mas se o pessoal médico não tiver acesso a máscaras e roupa de proteção, que atualmente já falta em vários países da Europa e do mundo, quem tomará conta dos enfermos?

Conte abaixo os seus temores e pensamentos, vamos trocando figurinhas daqui pra frente…

P.S.-Por curiosidade, você tem lido ou assistido programas de ficção ligados ao tema? Um amigo me colocou nas mãos o consagrado livro do José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Recomendo! Estou lendo o livro e depois vou assistir o filme (Blindness), que foi dirigido por Fernando Meirelles.

::A vida é bela – Das Leben ist schön – Sarah Connor::

14/05/2018

Pra falar a verdade eu particularmente não gostava muito dessa cantora alemã, a Sarah Connor, por um lado porque até 2015 ela cantava só em inglês, por outro porque achava que suas músicas eram só um pop leve, sem muita profundidade. Mas em 2015 ela começou a cantar em alemão e a coisa mudou de figura pra mim. Constatei que ela, além de ser uma cantora pop, mãe de 4 filhos, tem uma voz maravilhosa, profunda e parece ser uma pessoa de muito bom coração.

Eu li, surpresa, que ela acolheu uma família síria em 2015 durante seis meses, uma mãe com cinco filhos. Um grande ato de solidariedade! Naquela época, ela disse:

“Entendo que não é todo mundo que pode ou quer acolher um refugiado em sua casa. Porém, há algo que todo mundo pode dar, sem ter medo de que possa lhes ser tomado: um pouco de calor, proximidade, consolo e amor.”

“Ich kann verstehen, dass nicht jeder Flüchtlinge bei sich aufnehmen kann oder will”, schreibt sie. Es gebe allerdings etwas, was jeder Mensch geben könne, ohne fürchten zu müssen, dass ihm etwas weggenommen werde: “Ein bisschen Wärme, Nähe, Trost und Liebe”.

Com vocês, Sarah Connor em um exemplo de como pode cantar lindamente em alemão:

Fonte: artigo do jornal Süddeutsche Zeitung de 15/10/15.

::Hitler e a crise dos refugiados::

07/10/2015

O jornal alemão Tagesspiegel cometeu ontem um faux-pas com relação ao tema mais atual da Alemanha: a crise dos refugiados. Hoje tiveram que pedir desculpas por terem misturado na primeira página uma foto de um ator alemão, que ocupa o papel principal na sátira sobre Hitler chamada “Er ist wieder da” (Ele está de volta), mostrando ao lado da foto do ator a frase “Der schon wieder” (Ele de novo…) e logo abaixo a notícia sobre a crise dos refugiados de que Angela Merkel decidiu tomar a liderança sobre esse assunto e retirá-lo da alçada do Ministro da Defesa de Maizière. Explicaram que intencionavam colocar outra notícia abaixo do artigo sobre o filme, mas em último minuto ela foi alterada pela novidade com relação à crise dos refugiados… e pediram desculpas pelo mau gosto.

Os comentários explodiram na internet, rádios e demais meios de comunicação e foram implacáveis: “exemplo de péssimo layout”, “que estagiário fez a capa do jornal desta vez?”, “Infelizmente, muito engraçado”, “o Tagesspiegel teria merecido melhor liderança durante a escolha do melhor layout para o jornal de ontem”…

Fonte: artigo do Tagesspiegel de 07/10/15.

::A síndrome da volta pra casa::

27/03/2014

Acabo de ler uma reportagem interessante na Folha sobre como se sentem pessoas que voltam pro seu país de origem, indicada por minha amiga Aline. Você sabia que a crise dos países desenvolvidos está levando muitos brasileiros a fazerem as malas de volta para casa? Segundo o Itamaraty, 20% dos que moravam nos EUA e um quarto dos que moravam no Japão já retornaram desde o começo da recessão, em 2008. Leia a matéria completa aqui.

“A adaptação em um país diferente acontece em seis meses, já a readaptação ao país de origem demora dois anos.”
Kyoko Nakagawa

“Um português me disse não querer voltar por saber que Portugal já não estaria lá.”
Caroline Freitas

“Adicionar outros países na balança ajuda a ver que toda cultura tem pontos baixos.”
Marina Motta

Fonte: matéria “Síndrome da volta pra casa” da Folha de São Paulo de 06/03/12.


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