Posts Tagged ‘Dia Internacional da Mulher’

::Por que ser feminista?::

12/03/2017

Quando eu era criança, queria falar tantas línguas quanto o Papa João Paulo II, que falava 40 línguas, e visitar todos os países do mundo, como ele visitava. Com o tempo, descobri que o Papa da minha infância lia o som dos idiomas, mas não falava tantas línguas, e decidi também que não quero visitar países onde mulheres tenham menos direitos do que homens. Alguns poderiam argumentar que esses países são poucos, outros poderiam dizer que são “só” os países muçulmanos, mas acabo de achar uma lista enorme de países onde a mulher vale bem menos do que o homem… Assim fica difícil viajar!… Pensando pelo lado positivo, espero que essas discrepâncias diminuam com o tempo e que a igualdade entre os sexos seja cada vez mais alcançada! A verdade é que em pleno século 21, onde os homens querem conquistar o espaço e estabelecer vida em Marte, muit@s ainda questionam e perguntam sobre o sentido do feminismo, e ainda há muito por conquistar para nós, mulheres.

Muito do que podemos hoje e consideramos claros direitos adquiridos do sexo feminino, foram direitos conquistados com o passar do tempo, frutos de muitas discussões e lutas, como por exemplo: o direito ao voto, ao divórcio, a frequentar uma universidade, trabalhar, ter conta própria no banco, dirigir, decidir se queremos ou não fazer sexo (também dentro do casamento)… a lista seria interminável se contássemos as desigualdades que ainda existem nos dias de hoje, nos quatro cantos do mundo: desigualdade de gênero, de salários, na divisão do trabalho doméstico, no tempo investido (e não remunerado) com o cuidado de familiares, a dependência feminina até a aposentadoria, para aquelas que não têm um salário próprio…

Enquanto isso, na Suíça, li recentemente um artigo dizendo que a atuação feminista das mulheres, como p.ex. as ações durante o Dia Internacional da Mulher, deixa os homens inseguros. Muitos deles, por não saberem direito mais como se portar perante uma mulher, preferem assistir filmes pornográficos no lugar de manter um relacionamento!… Mas a resposta, na realidade, é bem simples: um “não” significa um “não”!… Como dizia a minha avó: “quando um não quer, dois não brigam (ou brincam)”!… Cada par define o que está bem para eles  e os deixa felizes, definindo suas regras e compromissos aceitos entre as partes.

Vamos às leis absurdas que ainda imperam no mundo contra as mulheres:

– Uma mulher tem que permitir “sexo ilimitado” ao marido, assim que ela completar 15 anos na Índia e 13 anos em Singapura! No Yemen, onde o casamento entre crianças é algo muito comum, não existe nem uma idade mínima para tanto. Isso quer dizer que se um homem violentar sua mulher nesses países, ele não cometeu nenhum crime perante a lei;

– Na Tansânia, uma menina de 15 anos pode se casar com o consentimento de seus pais, ou até com 14 anos através de decisão judicial, se “razões importantes “ puderem ser consideradas, enquanto que meninos  só podem se casar aos 18 anos;

– Na Jordânia ou no Líbano, só é dada a nacionalidade automática destes países a filhos cujo pai seja jordaniano ou libanês. A nacionalidade da mãe não é levada em conta e não é transferida automaticamente ao seu filho. Se uma mãe jordaniana for casada com um homem de outra nacionalidade, seus filhos não terão o direito de receber a nacionalidade da mãe e perderão direitos como o de concorrer a empregos públicos ou ligados ao sistema de saúde e escolar;

– Em Malta, se uma mulher for raptada e decidir se casar com o agressor, este não precisará ser julgado perante a lei e não irá cumprir pena de prisão;

–  No Líbano, se uma mulher for raptada ou estuprada e o agressor se casar com ela em seguida, ele também estará livre de julgamento;

– Ainda há 46 países do mundo que consideram que a mulher é um acessório masculino e que só pode agir na esfera do seu consentimento, não lhes oferecendo proteção contra a violência doméstica. Na Nigéria um homem tem até o direito de bater em sua esposa, com o objetivo de castigo e repreensão, desde que desse castigo não resultem “danos irreparáveis e permanentes”. Em muitos países, 25% ou mais acham justificável um homem bater na esposa (estudo de 2010 feito pela Asociación de la Encuesta Mundial de Valores). Atualmente, a violência doméstica mata cinco mulheres por hora (!) diariamente em todo o mundo;

– No Chile, na Tunísia e na Inglaterra, em caso de herança, o homem recebe mais do que a mulher. Na Tunísia, uma lei de 1956 prevê que um filho homem recebe o dobro da herança de uma filha mulher. Na Inglaterra, a casa da família será passada para o primeiro filho homem do casal, independente do número de filhas mulheres que tiverem nascido antes. Somente em 2012 (!) houve uma alteração na sucessão ao trono, que será dada ao primeiro filho do casal, independente de seu sexo;

– Na República dos Camarões, dentro um total de 18 países, um homem pode impedir que uma mulher trabalhe se ele for da opinião de que a atividade dela não irá contribuir para o bem da família. Uma lei como essa não é só discriminatória, mas impede que a mulher tenha renda independente e fuja da espiral da dependência e pobreza;

– Em 29 países do mundo, na Ásia e na África, o clítoris de meninas e mulheres é cortado como costume ancestral. Mais de 125 milhões de mulheres já foram vítimas dessa prática;

– A Arábia Saudita é o único país do mundo onde mulheres não podem dirigir carros!

O feminicídio é o ato máximo da violência contra a mulher, que não está só relacionado a violências externas (agressão, espancamento, estupro, assassinato, etc.) mas também a violências psicológicas (humilhação, coação, manipulação, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização, vigilância constante, limitação do direito de ir e vir, etc.). No ano de 2015, o Brasil foi classificado como o quinto país com maior taxa de homicídio de mulheres. Segundo pesquisa da Datafolha, 33% da população brasileira diz acreditar que a vítima tem culpa em casos de estupro. Uma tristeza mundial: uma em cada cinco mulheres de até 18 anos já foi vítima de violência. Veja todas as formas de violência contra a mulher aqui.

Se você conhecer mais alguma lei ou proibição absurda contra mulheres, não deixe de incluí-la nos comentários. Se tiver algo a completar ou corrigir, agradeço por sua contribuição! Repasse este post, para que mais e mais mulheres entendam que precisamos ser amigas e irmãs umas das outras, lutando e defendendo o feminismo e a sororidade (irmadade entre mulheres). Muito obrigada!

Fontes: Jornal 20 Minutos da Suíça de 10/03/17, artigoTreibt Feminismus-Hype Männer in die Porno-Falle?”; website Global Citizen, artigo10 völlig absurde, frauenverachtende Gesetze, die auch heute noch existieren”, website La Informacion, artigo “La ablacion del clítoris se practica en 29 países de Asia y África”; website http://www.compromissoeatitude.org.br, artigo “Em muitos países, 25% ou mais acham justificável um homem bater na esposa”; website http://www.agenciabrasil.ebc.com.br, artigo “Violência doméstica mata cinco mulheres por hora diariamente em todo o mundo”; página www.ultimosegundo.ig.com.br, artigo “Meus pais me ameaçavam com motossera”: veja casos de violência contra a mulher”, página www.cnj.jus.br, artigo “Formas de violência”.

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::Dia Internacional da Mulher::

07/03/2016

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher e muitos dirão que uma data comemorativa como essa já está ultrapassada, mas é aí que muitos se enganam.

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Talvez digamos isso porque não temos consciência completa de que só existe data comemorativa para minorias, e somos claramente uma delas. Apesar de já representarmos na atualidade mais da metade das pessoas que frequentam uma universidade, seja em curso de bacharelado, mestrado ou doutorado, não formamos nem 15% do grupo de liderança das empresas, mesmo que vários estudos já tenham provado e todos saibam que empresas diversas, com mais de 30% de mulheres ocupando cargos de liderança, tendem a ter mais sucesso.

Eu era contras as quotas de toda e qualquer espécie, contra as quotas que foram adotadas no Brasil para a entrada na universidade, e apesar de adotar uma posição feminista, também era contra as quotas que estão sendo discutidas e adotadas aqui na Europa com relação à mulher em cargo de liderança para empresas de capital aberto. Isso porque eu busco Justiça, trabalho na área de recrutamento e seleção e sempre fui a favor de que o melhor candidato ocupe uma vaga em aberto, seja ele homem ou mulher. Esta foi a minha postura até o dia em que troquei ideias com um colega de trabalho, que já acompanha há 30 anos as discussões acerca da mulher no mundo dos negócios e diz que já está cansado de presenciar tanta discussão e tão pouca ação. Ele é a favor das quotas por um determinado período de tempo, pois só uma medida drástica como essa poderá modificar o cenário existente onde as mulheres são responsáveis por 70% das decisões de compra, mas ocupam a maioria dos cargos com menor poder de decisão e chegam a ganhar menos pelo mesmo trabalho desempenhado por um homem. Enquanto nos esforçamos em ser boas funcionárias e em agradar a chefia, admitindo honestamente o que sabemos e o que não sabemos numa entrevista de emprego, muitos homens estão ocupados se catapultando ou se mantendo no auge do poder, mantendo o estatus quo que tão bem conhecemos.

the-intern-200x300Nós, mulheres, temos ainda um defeito horrível de procurar sempre em nós a culpa para tudo o que não anda bem. Como no caso da personagem Jules Ostin do filme “Um Senhor Estagiário” (The Intern), que apesar de ter sucesso como CEO de uma start-up de moda e driblar seus dias entre o sono, escritório, trabalho em casa e os papeis de profissional, esposa e mãe, se dá toda a culpa e começa a buscar um sucessor, propondo-se a se desligar em parte de seu grande sonho e do sucesso empresarial conquistado, quando descobre que o marido a está traindo. Sugiro que o filme seja visto pelo maior número possível de mulheres, pois precisamos de mulheres neste mundo que admitam ter sonhos e que lutem por eles, que não se escondam atrás deles ou o escondam debaixo dos cobertores, se fazendo menores do que são. Precisamos de investir um tempo revendo o que já conquistamos nas últimas décadas mas também precisamos de coragem pra abrir a boca quando algo não vai bem, dentro ou fora do ambiente de trabalho. O preconceito, as tramas do poder, os comentários maliciosos, as “chegadas pra lá” não são uma exceção e não vão parar de existir só porque nós as ignorarmos. E, acima de tudo, temos que admitir que não somos nenhuma Mulher Maravilha, mas sim pessoas de carne e osso com muitos erros e limitações. Não podemos querer ser perfeitas e nos cobrar o impossível como mães, mulheres e profissionais, pois isso só nos levará à amargura. Precisamos dividir os fardos e os prazeres dentro e fora de casa. Que saibamos comemorar o Dia Internacional da Mulher e esperemos que um dia não exista razão para uma data comemorativa como essa, pois a mulher terá alcançado o espaço que lhe é de direito. Que tenhamos coragem pra sonhar… como eu sonhei, por exemplo, em um dia poder ver a Madonna, o Papa Francisco ou a Angela Merkel ao vivo e a cores, e que tenhamos fé, persistência e resiliência pra acreditar que nossos sonhos podem se tornar realidade. Eu, ainda que tenha que admitir que seja um tanto quanto teimosa e fora do normal, vi os três e quero continuar a sonhar.

P.S. – Dicas de mulher pra mulher:

MAKERS – The largest video collection of women´s histories

20 Inspiring TED Talks every woman should watch

Male Champions of Change

Se tiver dicas, deixe-as por favor nos comentários. Eu e as outras mulheres agradecemos!

P.S. 2 – Leia também aqui “Os direitos da mulher” e aqui “A Alemanha é uma sociedade machista?”

::Comemoração do Dia Internacional da Mulher – Evento Mulheres pela Paz em Augsburgo::

12/03/2015

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Participei no sábado passado, dia 07/03/15, pela segundo ano consecutivo, do evento em comemoração ao Dia Internacional da Mulher em Augsburgo, organizado pela escritora brasileira infanto-juvenil e Embaixadora da Paz Alexandra Magalhães Zeiner. O tema desta vez era Mulheres pela Paz.

Enquanto as crianças se divertiam com atividades recreativas, o chefe do Departamento de Meio Ambiente, Integração e Intercultura, Reiner Erben, representante da cidade de Augsburgo, explicou que há 365 anos comemora-se naquela cidade da Baviera a Festa da Paz (Friendensfest). De acordo com a programação enviada pela curadora do evento, dentre as grandes cidades alemãs, somente em Augsburgo existe um feriado para festejos sobre a  PAZ! Assim em 2015 este foi o tema escolhido para celebrar o Dia Internacional da Mulher: Mulheres pela Paz – Frauen für den Frieden. Apresentaҫões e exposições sobre o tema escolhido fizeram parte do programa, com a presenҫa de mulheres, crianças e também de alguns homens, de escritoras vivendo em várias partes do mundo e de associações internacionais que divulgam a cultura brasileira no exterior.

Um dia antes, 06/03/15, as celebraҫões tinham sido iniciadas com um Sarau da Paz, que ocorreu na biblioteca municipal de Göggingen, onde artistas e escritores convidados apresentaram seus trabalhos para a comunidade local. Infelizmente não pude estar presente a este evento, mas ouvi dizer que tinha sido um sucesso.

No evento do sábado passado, enquanto as crianças presentes se divertiam com atividades recreativas, a escritora e embaixadora do Panamá na Áustria, Gloria Young, falou tão bem do papel da mulher latino-americana, as conquistas políticas, comentando que atualmente quatro mulheres ocupam os cargos de presidência em seus países latino-americanos e também citando vários exemplos de movimentos sociais liderados por mulheres. Ela deixou bem claro que a busca por participação social não deve ficar na cúpula do poder, mas deve ser buscada a cada dia, no local onde a mulher se encontra inserida. Já a terceira palestrante, Rosemarie Mantel, professora de música clássica em Augsburgo, falou sobre o tema Artes e Paz interior. Ela citou o exemplo de sua mãe, que cresceu em uma família erudita, que tocava piano e fazia saraus de literatura e música, quando a Segunda Guerra a fez ter que recomeçar uma nova vida em uma pequena cidade da região de Allgäu, naquela época já com sua própria família de 7 cabeças, afirmando que o fato de ela ter mantido o hábito de tocar piano a fazia ter consciência da necessidade de ter, a cada dia, um momento reservado só para si, quando ela recarregava as baterias, não tinha que se ocupar em dar desculpas por não estar cuidando de outra coisa que não dela mesma como ser humano, e do hábito permitir que a família respeitasse seu limite auto-imposto na busca da paz interior.

Depois da pausa, onde saboreamos vários salgadinhos brasileiros feitos pela também mineira Marlice Boese, que por sinal estavam muito gostosos, tivemos três mesas de discussão, a saber:

– Artes e Paz (Marcia Mar, atriz e escritora, de Londres);

– Educaҫão (Casa Brasil de Lichtenstein e a Imbradiva de Frankfurt);

– Empreendedoras (Rosani Erhart Schlabitz, de Munique).

Escolhi o tema da Educação e achei muito interessante a discussão tomada na nossa mesa. A intenção era analisar qual era o papel da educação na busca da paz, não só a paz na sociedade, mas também a paz interior. No final, chegamos a uma conclusão bonita, que fechou bem nosso dia: toda mulher precisa do seu próprio “piano”, de algo que a descanse, seja só dela, onde ela possa recarregar as baterias e se permita estar só consigo mesma, sem culpa. Quem se dá esta permissão, está em paz consigo mesmo, e por consequência, estará apto a buscar a paz a um nível mais amplo.

Eu acabei demorando alguns dias para escrever este texto, e por coincidência ganhei hoje um presente com relação ao meu “piano” principal, a escrita e leitura, que combina bastante com o tema do evento. Uma leitora, a Keila, deixou uma mensagem linda, que me honrou muito, e que pra mim é um verdadeiro presente de final do dia:

“…Querida Sandra, por favor um pão de queijo e uma xícara de café 🙂 Obrigada!!!! Não existe expressão maior que eu possa começar esse comentário, que não seja: Muito obrigada!
Seu livro esteve comigo durante alguns meses, recebi, e o guardei em minha gaveta, porque atualmente tenho algumas prioridades estabelecidas, dentre elas, renovar em mim o hábito da leitura. Tenho 3 filhos, a rotina de mãe integral não me permite tanto tempo à minha própria disposição, a maternidade é algo muito sério pra mim. Mas confesso que sinto falta de um mundo particular, por algumas vezes. Por essa razão, estou reorganizando minha rotina, tentando redescobrir como posso ser um pouco de mim, mesmo após 3 filhos na Alemanha. Foi nesse processo, que fiz um desafio particular, comigo mesma de ler e escrever, como fazia antes do casamento e tantas mudanças que aconteceram em mim após embarcar pra Alemanha. Nessa busca por tempo, finalmente consegui abrir minha gaveta, que guarda algumas de minhas prioridades como leitura. Nessa semana na segunda-feira, comecei com você. Em cada página, a leitura se tornava mais e mais convidativa, e emocionante, porque ler sempre fez parte de mim, mas hoje minhas prioridades estão direcionadas quase que totalmente aos filhos. Lamentavelmente, li seu livro em pouco menos que 24 horas, foi incontrolável não se emocionar contigo, e mesmo comigo por ler e ter um tempo pra si outra vez. Que venham mais livros, mais capítulos em forma de mais páginas, porque sua linguagem singela, alcança de forma única o coração do leitor. Um abraço de uma manauara na Alemanha, Keila”

Não é linda esta mensagem? E foi um sentimento parecido que tive como escritora durante o evento do sábado passado. Vendi e troquei todos os livros que levei, vendi até livro a mais do que tinha levado, sobraram comigo só as propostas de capas para meus próximos livros que tinha levado para mostrar no evento, conheci outras escritoras lindas, recebi convites para apresentar meu livro em Frankfurt, com a Imbradiva, e em Lichtenstein, com a Casa Brasil. Foi muito proveitoso mesmo! Conheci e revi muita gente fina. Como num momento mágico, ouvi de relance o nome de uma cidade mineira onde tenho família, Ipatinga. Comentei que tenho família lá, no Horto, uma prima tem uma floricultura, meus primos são dentistas. E qual não foi minha surpresa quando a Polliana perguntou se a Denise era minha prima! Achei no meio da Alemanha uma amigona da minha super amigona-prima Dê! Não é incrível?!? Tiramos uma foto juntas e mandamos pra ela conferir!… O dia continuou com coincidências porque comprei uma revista qualquer pra ler e dei de cara com um dos melhores artigos que já li sobre a busca do eu interior, e portanto da paz interior. Eu e Daniel encontramos na viagem de volta com algumas famílias que tinham vindo nos mesmos trens para Augsburgo, agora esperando pelo mesmo trem que nos levaria de volta para casa. Dentro do último trem, a última supresa do dia: dentre tantos vagões, caímos por acaso em um onde duas brasileiras estavam ao nosso lado, que logicamente conheciam alguém que eu conheço… O mundo é um ovo. A paz pode estar em todo lugar, mas tem que ser buscada, com afinco e dedicação, todo dia, o tempo todo.

Alexandra, muito obrigada novamente pelo convite! Já estou feliz hoje pelo evento do ano que vem!

P.S.-Quem tiver ficado curioso sobre o evento, pode dar uma passada na página da Mineirinha n’Alemanha no Facebook e dar uma olhada nas fotos.

::Dia Internacional da Mulher – evento em Augsburgo, Alemanha::

09/03/2014

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Há alguns anos atrás, logo antes de me mudar para meu apartamento atual, percebi que no celeiro do prédio havia uma bomba de água e que a altura da entrada da minha garagem tinha sido alterada por alguns tijolos a mais. Ficou a dúvida de que para que tipo de serventia isso tudo teria, pergunta que foi solucionada quando um belo dia, depois de uma chuva forte, fomos alarmados pelo fato de que a garagem e nossos quartinhos no celeiros tinham sido alagados. Achei que tinha sido ironia do destino eu ter perdido um par de álbuns de fotos do final dos anos 90, como se o destino quisesse apagar algumas recordações, algumas delas um tanto quanto desagradáveis.

Mas o mundo dá muitas voltas e como diz um ditado alemão as pessoas vêem-se pelo menos duas vezes durante a vida. E foi assim que eu e o Daniel saímos ontem de casa com destino a Augsburgo, para onde tínhamos sido convidados a participar da comemoração do Dia Internacional da Mulher. Durante o caminho de trem, enquanto lia um livro autobiográfico de uma escritora, pensei que tipo de expectativas teria com relação ao encontro. Rapidamente abafei meus pensamentos, pensando que o simples fato de estar indo para um encontro que prometia muito já me bastava como expectativa, sem querer concretizar qualquer desejo específico.

O encontro, organizado por Alexandra Magalhães Zeiner, que contou com a participação especial do cônsul brasileiro e do prefeito de Augsburgo, acabou por rapidamente superar qualquer expectativa que eu pudesse ter com relação ao mesmo. Enquanto o Daniel aprendia um pouco de capoeira e desenhava com outras crianças também binacionais, nós participávamos de discursos muito interessantes e apresentações de todas as participantes e associações brasileiras, vindas dos quatro cantos do Brasil e de várias cidades da Alemanha, Áustria e Lichtenstein. A garra e a demonstração da capacidade transformadora de cada uma de nós foi motivo de inspiração e motivação para outros projetos que certamente estão por vir.

Qual não foi minha surpresa quando fui abraçada por uma pessoa em cujos olhos vi um turbilhão do meu passado, uma das minhas primeiras amigas dos primeiros anos de Alemanha, que não via há quase 20 anos!!! Assim como nos perdemos nos tropeços da vida, recebemos ontem o presente de nos reencontrarmos. Ela fazia parte de muitas daquelas fotos que foram destruídas há alguns anos atrás pelo poder da água. E o poder transformador da vida nos mostrou que assim como desencontros são possíveis, os reencontros podem ser ainda mais bonitos e motivo de felicidade instantânea.
O Dia Internacional da Mulher foi fechado com chave de ouro. Trocamos muitos livros, vendi alguns também, houve um sorteio de livros para todas as participantes, para o qual doei um meu, recebemos e demos força umas às outras, inspiramos e fomos inspiradas, cantamos, tiramos fotos, comemos quitures deliciosos do Brasil, rimos, trocamos ideias, planejamos novos projetos. Quero mais uma vez agradecer à Alexandra Magalhães Zeiner pela organização do evento e pelo convite!

Na volta de Augsburgo, com tantos horários de trem e tantas rotas para voltar pra casa, tive ainda a agradável surpresa de constatar que voltaria uma parte da viagem com minha amiga, sentada lado a lado dela, ainda tendo tempo para mais algumas risadas e trocas de fotos e de recapitulação a jato de tantos anos e experiências.
Fica um agradecimento às chances que a vida nos dá e aos acasos, que parecem aleatórios, mas que mostram que não há coincidências na vida, só momentos que mostram que tudo acontece na hora certa.

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

(Parte da letra de “O que é, o que é? de Gonzaguinha)

::Os direitos da mulher:

08/03/2009

Há dia comemorativo pra tudo, principalmente para aquilo que se lembra em um dia e se tende a esquecer nos outros 364 dias do ano. Assim é, pelo menos ainda, no caso do Dia Internacional da Mulher. Se já tivessemos chegado a uma posição realmente equalitária em relação aos homens, este dia já teria se tornado desnecessário. Eu, pelo menos, não tinha conhecimento, mas o Dia Internacional da Mulher surgiu há 98 anos através da iniciativa da alemã social-democrata Clara Zetkin. Por influência dela, mulheres da Alemanha, Dinamarca, Áustria, Suécia e Suíça se reuniram em março de 1911 para exigir o direito de decisão política, salários iguais e mais direitos para as mulheres nos campos do trabalho e da saúde.

Os direitos iguais entre homens e mulheres existe na Alemanha há 50 anos. No dia 01/07/1958 foram implementadas as primeiras leis de igualdade entre homens e mulheres no país. Até então, ao homem cabia sempre a última palavra. Ele decidia se ela podia trabalhar fora ou se envolver politicamente. Mesmo se a mulher ganhasse algum dinheiro trabalhando fora, o homem tinha o direito de administrar sozinho as finanças da família e só ele podia abrir uma conta de banco. A partir de 1958 a mulher obteve a permissão de administrar seu próprio dinheiro e passou a poder abrir uma conta de banco sem a necessidade de autorização prévia do marido ou do pai. A mulher obteve também o direito de trabalhar fora, contanto que essa atividade estivesse “de acordo com seus deveres como mãe e dona-de-casa”. Até aquela época o homem tinha o direito de pedir demissão – sem necessidade de obedecer prazos contratuais – em nome da mulher. Só desde 1977 foi decidido por lei que as finanças do casal deveriam ser administradas em conjunto pelo homem e pela mulher e que a mulher podia trabalhar fora sem pedir permissão para seu marido. A partir daquele ano passou a não existir mais a divisão de tarefas do casal delimitada por lei.

Com as leis de igualdade foi decidido também que a mulher tinha o direito de continuar a ter o sobrenome de solteira junto do sobrenome do homem. Até 1994 era exigido que a família se decidisse por um sobrenome comum. Desde 1976 foi decidido que o sobrenome da família poderia também ser o sobrenome da mulher. Até hoje as mulheres casadas na Alemanha tendem a assumir o sobrenome do marido, retirando seu sobrenome de solteira. O sobrenome do marido costuma agir como denominador comum para todos os membros da família. Famílias com sobrenomes diferentes costumam enfrentar um certo preconceito na sociedade.

Quanto ao direito de voto, a mulher o obteve por exemplo na Alemanha e na Áustria no ano de 1918, no Brasil desde 1932 e na Suíça só no ano de 1971!

Apesar de tantas leis e tantas decisões com relação à igualdade entre homens e mulheres, não se pode afirmar que vivemos em total igualdade de direitos e deveres. O mundo atual se tornou bastante complexo e o homem também está tendo que se readaptar em seu papel na sociedade, tendo deixado de ser aquele que cuida exclusivamente do sustento da família, tendo passado a buscar por seus direitos de cuidar dos filhos e em muitas vezes querendo dividir os deveres dentro de casa. O certo é que enquanto o Dia Internacional da Mulher existir, haverá desigualdade entre os sexos, pois o final das desigualdades tornaria a data comemorativa completamente desnecessária.

Fontes: Gedanken zum Frauentag (Pensamentos sobre o Dia da Mulher), jornal Südkurier Nr. 55 de 07/03/2009, páginas do SPD-Bochum, Wikipedia, Women’s Suffrage e 1Live.


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