Posts Tagged ‘economia’

::Reações dos governos brasileiro e alemão quanto à crise do coronavírus::

23/03/2020

Cada país está apresentando suas medidas com relação à crise do coronavírus, o que é natural devido à natureza disruptiva do que está acontecendo. Enquanto muitos se mostram preocupados com suas economias, a reação com relação ao ser humano por trás de cada empresa, de cada atividade produtiva, está acontecendo de forma bem diferente.

No Brasil, prevê-se que o produtor/empresário será apoiado por medidas do BNDS. Por outro lado, foi dada a entrada hoje de uma MP* (medida provisória) que permitirá ao empresário suspender o contrato e o salário do empregado durante quatro meses. Oi??? Eu me pergunto: e ele vai viver de que durante esse tempo, dentro de casa, e como ele vai colocar a economia para funcionar sem dinheiro??? Não consegui entender como uma economia vai poder ser reativada se o empregado não vai ter renda durante quatro meses… Será que uma MP dessas tem mesmo chance de ser aprovada ou eu entendi algo errado???

Aqui na Alemanha a ajuda veio, graças à social-democracia, de forma holística, não deixando praticamente ninguém de fora. O governo está injetando muitos bilhões de euros na economia e a princípio não se importa com o déficit interno que as medidas irão causar, pois o objetivo maior é colocar ordem no caos. Alguns exemplos:

– O empregado que tem que conviver com menos demanda no trabalho, ou não pode trabalhar no momento, recebe de 60-67% do salário através de um pacote dividido entre o empregador e o governo (Kurzarbeit).

– Pessoas com crianças de até 12 anos que não podem trabalhar por terem que tomar conta do filho, receberão 67% do salário ou até 2.016 EUR por 6 semanas, ao invés de terem que continuar compensando suas faltas com férias;

– Empresas de mais de 250 funcionários, como p.ex. a Lufthansa que só está podendo atuar com 5% de sua capacidade no momento, receberão grandes pacotes de financiamento, auxílio de capital de giro e algumas delas se tornarão a partir de então um misto de empresa privada e pública;

– Empresas de até 5 funcionários receberão um auxílio de 9.000 EUR e acima de até 10 funcionários receberão 15 mil EUR para poderem pagar o aluguel e custos fixos durante três meses;

– Autônomos e micro-empresários poderão pedir ajuda social ao governo (Hartz IV, Kinderzuschlag).

Em uma pesquisa feita pela revista Der Spiegel, a maioria dos leitores consideram que o governo está agindo bem e tomando as medidas certas na crise estrutural que ora se apresenta. Em parte, os auxílios que descrevi acima são empréstimos, mas o certo é que o governo não está economizando medidas, mesmo que isso torne o futuro mais difícil, para que o cidadão, independentemente de sua condição pessoal, não se sinta esquecido num momento tão difícil como o atual.

Mal as medidas foram anunciadas, recebi um telefonema da assistente da minha dentista: ela queria marcar novos horários comigo para julho (!), pois fechará o consultório até o final de junho. Pelo menos agora as pessoas podem continuar a quarentena com menos medo do que lhes espera no futuro!

P.S.-Em menos de 24 horas esta parte da MP foi cancelada, segundo minha amiga advogada Alice me contou. Obrigada, Alice! Bom, mas só desta MP ter sido colocada no papel com esta parte e o fato dela ter sido levada a público já dá uma noção boa da amplitude do perigo que corre pelas terras brasilis. Esse perigo não é só invisível como no caso do vírus, ele é visível e tem um nome: Jair Messias Bolsonaro, além daqueles que este senhor representa.

Fonte: artigo do jornal Der Spiegel de 23/03/20.

::Onde você estava durante as últimas epidemias?::

02/03/2020

Eu mesma já andava pensando sobre o assunto: não me lembro de ter gastado tanta massa mental com uma epidemia como com a atual. Semana passada meu marido me disse mais ou menos a mesma coisa… e isso me colocou pra pensar ainda mais sobre isso. Portanto, aqui vai a pergunta – onde você estava, que lembranças tem e como se ocupou com as crises a seguir:

– 1999: vírus de Nipah (Malásia)

– 2002: SARS (China)

– 2003: gripe aviária H5N1 (China)

– 2009: gripe suína H1N1 (EUA/México)

– 2012: MERS (Arábia Saudita)

– 2013: gripe aviária H7N9 (China)

– 2014: Ebola (Congo)

Não me considero avessa às notícias do mundo, mas não tenho nenhuma recordação pessoal ligada a essas epidemias… Do contrário, no caso do coronavírus (COVID-19), sinto como se estivesse à beira de um tsunami, percebo como ele tomou os noticiários, nossas mentes e fomenta a cada dia que passa mais ainda o medo, além do preconceito, entre as pessoas.

Creio que a epidemia atual tem várias facetas a serem analisadas, a saber:

– Saúde Pública: é algo desconhecido e não estudado, que se alastra rapidamente e causa mortes que não se atém a pessoas com doenças prévias nem a uma certa idade. Parece que incide mais em homens acima de 60 anos e que não ataca as crianças, mas ainda não se sabe por quê. Não se tem certeza do período exato de incubação. Se uma pessoa ficar 6 semanas doente, ela pode propagar o vírus durante todo esse tempo. Uma pessoa que não percebe que tem o vírus, se sente saudável, pode propagar o vírus. Não existe vacina nem remédio para a doença. O interesse de retardar a propagação do vírus está ligado à necessidade de cuidar de pessoas realmente debilitadas por causa dele e dar mais tempo para a busca de remédios e/ou uma vacina.

– Econômica: uma razão pela qual as últimas epidemias não nos interessaram é que não houve consequência econômica para o mundo. No caso atual, já são notórias as consequências econômicas da epidemia. As bolsas de valores estão caindo, produtos deixam de ser produzidos e transportados, e com isso o consumo diminui, o PIB de cada país irá cair e a recessão deve se instalar. O supply chain de muitos produtos globalizados vai ser exposto à dependência da China, já que muitas empresas desconhecem sua real dependência de fornecedores ou subfornecedores vindos da China. Quanto ao que ando lendo por aí, o argumento de que se as pessoas não vão as ruas, elas não irão consumir, acho que hoje em dia não é tão fácil afirmar algo assim. Hoje em dia, dentro das nossas quatro paredes, com um computador na mão, podemos comprar o mundo… O turismo, esse sim, irá sofrer, já que praticamente 20% da renda desse setor vem da China, na atualidade. Hoje já li que a primeira empresa de cruzeiros no Japão já declarou falência, outras a seguir… Resumindo, a pandemia incomoda tanto porque ataca países em várias fases de desenvolvimento econômico e pode levar a economia mundial a uma recessão sem precedentes.

– Social: com o aumento do medo e da recomendação de manter 1m de distância das pessoas, e não encostar nelas nem para um aperto de mão, a tendência será que os contatos sociais diminuam drasticamente. Em alguns lugares já foi ou irá ser imposta a quarentena, que acarretará uma convivência com as quatro paredes e a convivência mínima em termos de trocas sociais. Mesmo que vivamos em um mundo globalizado, conectado e de certa forma aberto, os seres humanos têm medos intrínsecos que nem sempre podem ser solucionados pela racionalidade. Li que estudantes universitários alemães estavam tendo preconceito quanto a estudantes chineses ou asiáticos, mesmo sabendo que parte deles nasceu aqui na Alemanha ou vive aqui há anos sem ter viajado há pouco tempo atrás para a Ásia…. E agora, com a chegada do coronavírus à Alemanha, a situação do preconceito deve estar ainda muito pior. Em casos extremos, deve se reduzir ao extremo do „eu contra o mundo“… Uma jovem que foi à Itália e repassou o vírus aqui na Alemanha foi tratada mal e atacada em seu meio social, como se fosse uma pecadora, uma vilã. Pessoas que vêm de determinados países passam a ter dificuldade de conseguir vistos para viajar, o direito de ir e vir fica limitado. Uma curiosidade: quem saberia a tradução da palavra Aussätzige em português? Li que poderia ser leproso, mas a tradução não está correta no caso atual, claro.

– Midiática: no mundo globalizado em que vivemos, e com tantas formas de comunicação existentes, uma epidemia como a atual chega a ser, por si só, altamente estressante. As notícias se alteram a cada segundo e não há constância no que é retratado, ainda há muitas suposições e dúvidas. Um prato cheio para as fake News! Os memes no Brasil continuam firmes e fortes, pelo menos até a doença se instalar de vez por lá!…

Mesmo tendo entendido racionalmente que a doença é menos forte do que o vírus da Influenza e que mata menos do que ela, pessoalmente fico tentando imaginar o futuro próximo, a semana que vem. Se ontem tínhamos aqui na Alemanha 100 pessoas contaminadas e hoje anunciaram que já são 150, demostrando o crescimento exponencial, pode ser que teremos mais de dois ou quatro mil doentes no final da semana, haverão mortos?!? No mundo, neste momento que escrevo estas linhas, já são mais de 80 mil casos da doença e mais de 3 mil mortos. Em 2019 foi avaliada mundialmente a capacidade de cada país de lidar com uma epidemia através da criação do index GHI (Global Health Index), onde 195 países foram analisados. A Alemanha ficou em 14. lugar. Menos mal, mas se o pessoal médico não tiver acesso a máscaras e roupa de proteção, que atualmente já falta em vários países da Europa e do mundo, quem tomará conta dos enfermos?

Conte abaixo os seus temores e pensamentos, vamos trocando figurinhas daqui pra frente…

P.S.-Por curiosidade, você tem lido ou assistido programas de ficção ligados ao tema? Um amigo me colocou nas mãos o consagrado livro do José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Recomendo! Estou lendo o livro e depois vou assistir o filme (Blindness), que foi dirigido por Fernando Meirelles.

::Novas decisões do governo alemão para a contenção do coronavírus::

01/03/2020

Hoje, 1. de março de 2020, temos mais de 100 casos do coronavírus na Alemanha, felizmente nenhum óbito e a feira internacional de turismo ITB, que aconteceria esta semana em Berlim, acaba de ser cancelada. O país se prepara ainda mais para tentar conter a expansão da doença, o que importante não só do ponto de vista da saúde pública, para contribuir para que se possa concentrar a atenção em casos mais graves e aumentar o tempo em busca de tratamento para a doença, mas também devido às consequências econômicas que a expansão dela podem causar.

Depois do Ministério da Cultura daqui do estado de Baden-Württemberg decidir que alunos e professores que tiverem visitado uma região de risco deverão ficar em casa durante os próximos 14 dias, independentemente de mostrarem sintomas ou não, o governo alemão acaba de tomar mais decisões com relação à contenção do coronavírus no país:

– Grandes eventos, acima de tudo internacionais, deverão ter seu risco analisado (número de participantes, proximidade entre eles, tipo de atividade, p.ex. dança pode aumentar a probabilidade de contaminação);

– Controle de passageiros de trem, com preenchimento de cartões com dados dos transeuntes (para facilitar o contato caso sejam identificadadas pessoas doentes entre eles);

– As companhias aéreas e empresas de navios deverão dar informação sobre a saúde de passageiros que estiverem vindo da China, Coréia do Sul, Japão, Itália e Irã. Estes passageiros também deverão preencher cartões com seus dados;

– Serão reforçados os controles policiais principalmente nos 30 km perto de fronteiras, em conjunto com os órgãos locais de saúde;

– Foi decidido que o governo comprará máscaras e roupas de proteção, não só para uso de pessoal médico (Pessoalmente acho que aqui estão se preparando para caso mais zonas de quarentena devam ser instaladas no país).

Medidas gerais que podem ajudar a conter a expansão do coronavírus:

– Lavar as mãos com frequência (usar álcool gel quando não seja possível lavar as mãos);

– Evitar tocar os olhos, boca e nariz;

– Evitar contato físico (p.ex. não se dar as mãos para se cumprimentar);

– Entrar em contato com o médico por telefone caso sinta sintomas da doença (febre, tosse, dificuldade de respirar);

– Usar um lenço descartável (que deve ser jogado fora em lixo fechado) ou tampar o rosto com o braço ao espirar;

– Manter boa higiene em casa;

– Evitar aglomerações de pessoas.

Esqueci de alguma coisa? Complete nos comentários. Obrigada!

Fontes: artigo do jornal Der Spiegel de 01/03/20, página do Ministério da Cultura de Baden-Württemberg, página do Ministério da Saúde da Alemanha e página da Organização Mundial da Saúde.

::A Alemanha é o país mais popular do mundo::

12/11/2014

Pela segunda vez consecutiva a Alemanha deixou os EUA para trás e foi escolhida como o país mais popular do mundo. A pesquisa, feita pela empresa GfK (Gesellschaft für Konsumforschung), foi feita envolvendo 50 países, a opinião de 20.000 pessoas de 20 países desenvolvidos e em desenvolvimento. Além do sucesso no futebol, a Alemanha ganha pontos nos quesito “governo competente e honesto”. Nos quesitos “clima de investimento” e “igualdade social” a Alemanha atingiu os pontos máximos existentes nesta pesquisa. Outros fatores que contaram pontos para a Alemanha foram o sucesso no futebol, a liderança política na Europa, a responsabilidade política reconhecida internacionalmente e a economia forte do país.

Os 10 primeiros lugares na pesquisa foram ocupados pelos seguintes países: Alemanha, USA, Inglaterra, França, Canadá, Japão, Itália, Suíça, Austrália e Suécia.

Leia aqui neste artigo mais alguns pontos positivos da Alemanha, quando comparada ao Brasil. Eu só não concordo com o seguinte: acho que brasileiros são persistentes, flexíveis e demonstram constantemente ser capazes de se reerguer. Esta é uma característica nossa que pode sim contribuir positivamente para alavancar nossa economia, dentre tantos outros fatores pelos quais temos que trabalhar de forma bem árdua. Mas a proposta do artigo continua valendo, e muito, como citou a autora nos comentários: serve de inspiração para nosso crescimento.

Fonte: artigo da revista Stern de 12/11/14, artigo da Folha de São Paulo de 09/07/14.

::Algumas coisas que você deve saber antes de morar na Alemanha::

13/08/2014

Não concordo com tudo, mas com a grande maioria do que foi reunido nestas estatísticas sobre o país de Goethe. Por exemplo, não sou da opinião de que os alemães gostem de corrigir outras pessoas quando elas falam alemão como língua estrangeira. Mas, juntando tudo, achei o gráfico super informativo sobre a Alemanha, sua economia e cultura:

Fonte: Universia Brasil

::Science Tour December 2014 – Germany::

12/08/2014

Inscreva-se agora para uma excursão de uma semana às instalações de pesquisa de ponta na Alemanha, nas áreas de modelagem e simulação computadorizada. A turnê se concentrará nos temas atuais sobre ciências marítimas, economia, mudanças climáticas e epidemiologia e está aberta para pesquisadores estrangeiros e administradores de universidades e institutos de pesquisa. Inscrições aqui até 20 de setembro de 2014.

Fonte: website do DAAD Brasil.

::Como a Alemanha se tornou o novo país do futebol::

27/07/2014

Achei na VEJA e divido com vcs. Bom domingo!

°°°

Algumas partes do artigo:

“Obrigado a atrair talentos para sustentar seu crescimento econômico, o país passou a ser procurado por imigrantes qualificados, como engenheiros e cientistas. Quase um em cada três imigrantes entre 20 e 65 anos que entraram na Alemanha na última década tem nível superior. Entre os alemães nativos, menos de 20% têm diploma.”

“Em exportação de produtos de alta tecnologia, a Alemanha só perde para a China, que tem uma população dezesseis vezes maior.”

“A Alemanha de hoje quer ser vista como um país mediador, não como um agressor”, diz Rüdiger Görner, professor da Universidade de Londres e especialista em cultura alemã. “É uma democracia com um poderoso senso de responsabilidade coletiva.”

Fonte: artigo da VEJA de 26/07/14

::Divagações de sábado de manhã de meio-brasileira, meio-alemã::

26/07/2014

Inspirada pela minha revista alemã predileta aqui na Alemanha (Der Spiegel), que comprei há umas semanas atrás e que absolutamente não pode ser substituída pela versão online da mesma, que leio toda noite, volto a pensar sobre o Brasil, a Alemanha e o mundo.

O artigo “A nação que está mais leve” (Die entkrampfte Nation, alguém tem uma sugestão melhor de tradução?) comenta que os alemães estão se descobrindo e se reecontrando, a cada Copa, com o passar dos anos, tendo como marco das mudanças a Copa de 2006, que ocorreu em solo alemão.

O povo alemão está aprendendo a se reinventar e pode afirmar o que está bom no país, e reconhece ao mesmo tempo o que não anda bem. Tudo faz parte da nova identidade, que é mais leve e mais desprovida do peso do passado. Eles sabem quem são internamente, mesmo que tenham dificuldade de saber qual é o seu papel no mundo. Ainda que esteja claro que, com Angela Merkel como líder forte, respeitada e atuante, a Alemanha tenha posição de destaque na política internacional. Portanto, eles demonstram no momento um misto de leveza e importância.

O artigo “Viajar, mas não pra longe” (Bloß nicht so weit weg, tradução livre), também da revista Der Spiegel, afirma que apesar dos jovens alemães terem a oportunidade – e condições – de estudar no exterior, muitos deles preferem ficar no país. Para mim isso pode ser um sinal positivo, já que vejo nas novas gerações a leveza descrita no artigo e o reconhecimento de que o país vai bem, obrigado. Por outro lado, o país está ficando cada vez mais multicultural, ainda que temas como diversidade e integração continuem a ser altamente discutidos. Dos jovens que vão ao exterior, muitos voltam afirmando gostar de conhecer o mundo, mas preferem viver na Alemanha, onde uma vida de qualildade é possível para a maioria da população e as escolas são de graça até a universidade.

Antes da queda do muro, os alemães se definiam como alemães do leste, do oeste, orientais, ocidentais, social-capitalistas, comunitas… “Ossis” e “Wessis” falavam do lado de lá e de cá. O muro caiu sem guerras e o país voltou a ser um só, e pode se dar a liberdade desde a Copa de 2006 de mostrar sua bandeira e de mostrar sua felicidade como nação reunificada. No meio do caminho, depois da queda oficial do muro que dividia o país, um muro virtual continuou por vários anos na cabeça dos alemães, que reclamavam uns dos outros e do fato de que a parte ocidental (cada cidadão) teve que ajudar financeiramente a parte oriental a se reerguer, enquanto na parte oriental falava-se do desemprego, das dificuldades encontradas com a reunificação. Algumas décadas depois, algumas diferenças persistem, mas o país pode se orgulhar de ter passado por este processo sem guerras e sem revolução civil. O alemão virou um povo só, não tem mais que se definir pelo lado de onde vem. E isso ajuda no sentiment de leveza.

O povo alemão também virou um povo colorido e multicultural. Segundo dados do OECD a Alemanha é o segundo destino de imigração no mundo, ficando só atrás dos EUA. Atualmente, 400 mil pessoas têm o desejo de ficar por aqui por tempo indeterminado.

Os alemães também refletem sobre seus erros. O fato de um aeroporto ter sido iniciado e nunca ter sido terminado em Berlim, por motivos de corrupção, falta de planejamento e má administração da verba pública os fazem afirmar: sim, nós também somos isso tudo. Ao mesmo tempo que reconhece seus acertos, critica os erros e olha para o passado de forma consciente para evitar a repetição dos grandes erros de um passado tenebroso.

O que é típico da cultura alemã combina com o estado atual do país: em grande parte, o povo é trabalhador e esforçado, disciplinado, (nota minha: vive de forma humilde, simples e prática) e quer crescer, ou pelo menos manter o que atingiu. Uma economia que vai bem contribui para a leveza de seu povo. Atualmente, mais de 42 milhões de pessoas têm um emprego, a maior marca da história do país. Os salários são bons e o poder de compra cresceu. Os juros estão baixíssimos e as pessoas aproveitam para gastar, comprar imóveis, investir na qualidade de vida. Parece que o país vai crescer 2% neste ano de 2014, o que, para uma economia idosa e instalada feito a Alemanha, é um resultado excelente.

O país vai bem e, se pudesse, iria congelar tudo o que tem no momento. Nada de novo, nenhuma nova chanceler no poder e o mínimo de política. Se o país se envolve de forma militar no mundo, então que seja para que soldados alemães se arrisquem ao mínimo e ajudem, podendo voltar depois para casa. Os alemães estão fartos de guerras.

O país se tornou mais leve, sim, mas ainda não sabe direito qual deve ser seu novo papel no mundo. Antes o país ocupava a liderança na Europa, sendo um dos melhores amigos dos EUA. Agora, com os escândalos dos últimos tempos de NSA e espiões tão próximos do poder alemão, tudo mudou.

Assim como os alemães, acho que nós brasileiros também podemos – e devemos – nos reinventar a cada dia. Não podemos ficar parados em cima do status quo de corrupção, egoísmo e da grande tentativa de manobrar massas da mídia brasileira, que representa os ricos desta nação que sempre souberam defender seus interesses. É necessário avaliar o que anda bem, e o que pode ser mudado. É necessário acreditar e apostar na liberdade de expressão dentro de um país dito democrático. Cada um de nós pode pegar na caneta, encostar os dedos no teclado, mãos à obra, em todos os sentidos! E acreditar que com o andar da carruagem o país vai se fazendo, o mundo vai mudando. Espero, pra melhor.

Mas a mudança começa de baixo para cima. Dos atos do dia-a-dia de cada um, em todo e qualquer canto do mundo. E só enxergamos aquilo que existe em nossa realidade. Aí está a razão pela qual vale a pena viajar e conhecer novas culturas, novas formas de resolver os mesmos desafios. Com a ampliação de nossas mentes, muitas coisas passam a existir, novas janelas vão sendo abertas. A perspectiva é válida para cada um nós. É válida para o mundo. Vão ser as trocas de experiência e de conhecimento que vão fazer deste mundo um lugar melhor para todos. Os animais, por exemplo os passarinhos e as borboletas, mais sabidos que nós, já nos mostram o caminho: eles não conhecem as fronteiras que colocamos no papel.

Fonte de inspiração: revista Der Spiegel número 29 de 14.07.14, artigos „Bloß nicht so weit weg“, página 46, e „Die entkrampfte Nation“, página 57.

::Seleção alemã: entre jogada de marketing e autenticidade::

13/07/2014

Tenho lido desde os últimos dias alguns comentários na internet sobre os presentes do time alemão à região onde esteve e sobre a suposta jogada de marketing bem pensada da seleção alemã durante a Copa no Brasil, que, muitos afirmam, está sendo feita para polir a má imagem no exterior da Alemanha de nazismo, frieza e calculismo. Os jogadores alemães, muitos deles de origem estrangeira (Turquia, Polônia, Gana), foram ao Brasil como representantes da Alemanha e demonstraram ser capazes de se comportar bem, interagindo positivamente com a população local.

Eu moro há 21 anos na Alemanha e posso afirmar que os jogadores não alteraram sua maneira de ser desde que estão no Brasil. Eles sabem que cada jogo é um jogo e que tem que ser vencido, não importando, naquele momento, os resultados do passado. A química entre muitos brasileiros e alemães sempre tendeu a ser boa, como já comentei em vários posts e também no meu livro, o que faz com que o alemão se sinta bem no Brasil, pois em muitos pontos somos antagônicos e em outros muito parecidos, mas a boa mistura é sempre a que prevalece. Tenho visto muitos brasileiros na Alemanha que são esforçados, buscam crescer profissionalmente e demonstram capacidade de integração, mesmo honrando sua pátria e nunca deixando suas raízes de lado, e isso contribui para o fato de que muitos alemães não tenham problemas com brasileiros, pensando muitas vezes em atributos positivos do nosso Brasil, como nossa beleza natural, nosso crescimento econômico dos últimos anos, nossas praias e nosso povo alegre, o Carnaval, mas também vendo coisas negativas que são retratadas sobre nosso país, como a desigualdade social, a corrupção, a pobreza. No final das contas acho que estamos aqui como embaixadores de nosso país e também de nossa cultura, e continuo acreditando que a mistura faz bem a ambos os lados.

Acho também que temos que tomar cuidado com nosso próprio preconceito. Ninguém gosta de ser comparado com opiniões preconceituosas voltadas a seu país. O alemão com certeza também não, o brasileiro muito menos. Aqui, como em qualquer lugar no mundo, existem pessoas frias e calculistas, mas também existem pessoas boas e amorosas. Quando um estrangeiro visita a Alemanha, com certeza ele percebe que não é carregado nas mãos nas lojas e muito dificilmente recebe tratamento diferenciado, além de perceber que muitas vezes é tratado de forma ríspida e/ou impaciente. No princípio, quando isso acontecia comigo, achava que era porque eu era estrangeira. Depois aprendi que o tratamento dos alemães independe da pessoa com quem estão falando, pois, e quem acreditaria nisso, em geral todos são tratados da mesma maneira. E quando o tratamento não condiz com o que eu espero, em geral eu coloco a boca no mundo e lido com minha insatisfação na hora do ocorrido. Com relação a tratamento em lojas, eu já me sinto até meio sem graça quando estou no Brasil, pois não gosto de que todo o estoque de uma loja seja retirado do lugar só pra mim. E, se começo a já ir guardando as roupas depois de desaprová-las, se estiver por exemplo numa loja de vestiário, recebo um comentário da vendedora de que não devo fazer isso, pois este é o serviço dela. Nos EUA, por outro lado, o negócio é ainda mais complicado pro lado do consumidor, pois a vendedora chega a mentir, dizendo que se pudesse, se tivesse dinheiro para comprar, usaria este produto, que aquilo que estamos experimentando está perfeito, lindo, impecável em nós. Assim fica difícil acreditar no que estão dizendo… Nem tanto ao mar, nem tanto à Terra. Eu prefiro entrar numa loja e olhar tudo por mim mesma, e se precisar da ajuda de um vendedor, espero encontrar algum que tenha competência para me orientar, sem usar de meios indevidos para me vender alguma coisa. Aqui na Alemanha, em grandes lojas de departamento, o que faltam, porém, são vendedores disponíveis. Isso é verdade verdadeira. Mas quando achamos um, temos a atenção que precisamos. Acima de tudo,eu tenho a dizer que o respeito à privacidade na Alemanha é muito grande. Cada espaço individual é sempre muito respeitado. Como há poucos vendedores em grandes lojas, interpretamos logo como se não tivéssemos atenção alguma deles.

Bom, mas tem a parte boa do alemão também. Quando algo acontece, quer seja dentro ou fora do país, como uma catástrofe natural, eles estão lá pra ajudar, pois são conhecidos por participar de vários projetos sociais, dentro e fora da Alemanha. O que não gostam muito, é de ajudar aparecendo, nem o que está sendo ajudado gosta de aparecer. Ambos precisam de uma instituição no meio, que os torne invisíveis. Quando são convidados para visitar alguém, levam em geral um presentinho para o anfitrião. No final do ano então, os alemães são campeões de doações. Portanto, os presentes que a seleção alemã deixou para os anfitriões brasileiros combinam com sua cultura e sua maneira de ser. E não foram poucos, segundo um relato tirado do Facebook (autor desconhecido):

Os alemães vieram ao Brasil e…

– Compraram um terreno,
– Construíram um condomínio,
– Incentivaram a reforma de um centro de saúde,
– Construíram um campo de futebol,
– Doaram uma ambulância,
– Incentivaram a criação de um programa de escola em tempo integral,
– Contrataram as pessoas da cidade, gerando dezenas de empregos,

Mais tarde a seleção alemã chegou e…

– Quando não estavam treinando, estavam socializando com as pessoas na cidade e na praia,
– Participaram de festas com a população,
– Interagiram com os moradores locais e ouviram suas demandas,
– Vestiram a camisa de um time local,

Quando ganharam da nossa seleção…

– Nunca desrespeitaram os brasileiros,
– Supostamente combinaram no intervalo do jogo diminuir o ritmo para não desrespeitar a seleção anfitriã,
– Mostraram que seus ídolos são os nossos jogadores do passado,
– Foram humildes após a goleada e tiveram classe para ganhar,
– Postam nas redes sociais mensagens de incentivo ao povo brasileiro e agradecimento pela hospitalidade,

E vão deixar tudo que construíram no Brasil.

°°°

Complemento meu:

– Um cheque de 10 mil euros (30 mil reais) para os índios da tribo Pataxó de Coroa Vermelha, que será investido na compra de um carro que será usado no transporte de pessoas que precisem de assistência médica;
– Deram de presente as 25 bicicletas que trouxeram da Alemanha e não puderam usar por motive de segurança, cada uma no valor de 1.000 euros
– Parece que vão deixar o Campo Bahia para ser transformado em uma escola.

Realmente, parece que fizeram tudo certo em termos de marketing. Leia aqui o que podemos aprender com eles em termos de técnicas de marketing.
Mas o que seriam as técnicas se eles tivessem sido arrogantes, tivessem se transformado logo após chegar no Brasil, perdendo sua autenticidade, tivessem trazido só profissionais da Alemanha para trabalhar no Campo Bahia para servi-los, tivessem usado de técnicas de marketing sem acreditar nas mensagens que estavam transmitindo, sem nenhum comprometimento com aquilo que estavam fazendo? A Alemanha está mudando muito e as gerações mais jovens não carregam consigo o peso do passado. Houve uma mudança substancial marcada durante a Copa aqui na Alemanha em 2006. Se quiser ler mais sobre este tema, clique aqui.

A última acusação que li foi que por trás do time alemão estão grandes empresas alemãs que patrocinam o time, tais como Adidas e Mercedes Benz, e que elas estão ganhando com o sucesso da seleção alemã, como não poderia deixar de ser. Esta é, afinal, a razão pela qual uma empresa aposta em patrocínio. Apesar de eu não ser fã do capitalismo e reconhecer nele muitas injustiças, acho que não vamos mudar o sistema de um dia pro outro. Então, se todos os times tivessem vindo ao Brasil, se comportado bem e tivessem feito algo pela região onde estiveram, acredito que a Alemanha não teria se sobressaido tanto assim como no momento.

Pessoalmente fiquei muito impressionada com a reação dos alemães logo depois de termos perdido de 7×1 pra eles. Eles perguntaram como eu estava, se já tinha me recuperado do jogo, como eu tinha me sentido, como tinha sido em casa com o marido e os filhos… Ninguém chegou rindo da minha cara nem fazendo brincadeiras de mau gosto. Ganharam meu respeito também com relação a este episódio. E foram muitos brasileiros que moram aqui que dividiram experiências semelhantes.

Por ultimo, por mais que me doa no coração, acho que o time alemão se sobressaiu tanto no Brasil devido à nossa decepção com o time brasileiro. Se nosso time tivesse convencido na competição, não teria deixado muito espaço para os demais. Mas no Brasil se joga bola em cada esquina, e devido à nossa natureza e nossa garra acredito que nos relevantaremos e em breve mostraremos um futebol, que no momento, muitos dos que entendem de futebol afirmam que está sendo jogado pelo time alemão…

Bom, esta é minha opinião, ainda acreditando que presentes são presentes e não se deve ficar analisando o tamanho de cada um, como já dizia um bom ditado alemão. Ainda assim fico curiosa com o que você pensa a respeito de tudo isso. Agora é sua vez de deixar sua opinião nos comentários. Se eu tiver esquecido algo ou deixado algo de fora, tanto com relação aos presentes quanto sobre as argumentaçõoes, agradeço por correções e acréscimos. Um bom domingo e um bom jogo para todos hoje à noite!

::Quem sabe quantos anos se passaram entre estas duas capas da The Economist?::

03/06/2014


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