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::Qual é a ligação de abatedouros de animais com o coronavírus?::

13/05/2020

Até há poucas horas atrás eu responderia esta pergunta como se não houvesse nenhuma ligação entre uma coisa e a outra mas… o mundo gira em poucos segundos na atualidade, não é mesmo?

Foi divulgado que 260 de 1.200 funcionários da empresa abatedoura (matadouro ou açougue) Westfleisch em Coesfeld na Alemanha testaram positivo quanto ao coronavírus. Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?

O chefe do sindicato do setor alimentício na Alemanha, Mohamed Boudih explica direitinho onde está a razão de tal associação: segundo ele, o problema não é novo. Esse tipo de contrato (na Alemanha conhecido como Werkvertrag) é uma forma de contratar mão de obra barata vinda p.ex. do Leste Europeu. Essas empresas têm tido, desde os anos 90, o costume de se apoiar nesse tipo de contrato para alcançar bons preços de venda dentro do mercado alimentício alemão, que é bastante concorrido. Mas isso ocorre às custas do trabalhador do Leste Europeu, que nem sempre tem os direitos mínimos protegidos (salário mínimo, férias, etc.) e vira um verdadeiro escravo moderno desse sistema, se submetendo a condições de trabalho e de vida péssimas. E quem contribui para esse sistema todo, venhamos e convenhamos, somos nós que compramos carne baratinha no supermercado…

Eu não tinha a mínima noção de que isso tudo acontece, mas o chefe do sindicato disse que o problema é muito conhecido. A empresa acima tem entre 70-80% de seus funcionários contratados através desse tipo de contrato, os abriga em dormitórios de 5-6 pessoas, que dividem um só banheiro. Se recebem o salário mínimo estipulado por lei, têm que assinar papéis em branco onde serão anotadas as horas trabalhadas, e não há controle de quantas horas eles verdadeiramente trabalham para manter seu trabalho… Para piorar a situação, os donos dos dormitórios são, em geral, os próprios empregadores, o que faz com que os funcionários que se submetem a esse tipo de contrato sejam duas vezes mais dependentes deles.

Sinceramente? Fiquei triste ao ler essa notícia! Eu, que já como super pouca carne, não pretendo voltar a comprar carne em supermercado tão cedo!… Não posso contribuir para este sistema de exploração! Por outro lado, tenho consciência de que a riqueza de um país se faz em cima da exploração de outros… Bom, deixa pra lá. Não serei eu quem alterarei os rumos da humanidade. Mas onde eu posso fazer a minha parte, apoiando p.ex. o açougue local que vende carne de origem conhecida, eu farei.

Em tempos de pandemia há poucas coisas que podemos fazer hoje em dia que estão em nossas mãos. Concentremo-nos nelas!

P.S.1-Para quem quiser entender a teoria do que significa um Werkvertrag na Alemanha, é só clicar aqui.

P.S.2-Para quem quiser ler como esse sistema é vendido para o empregador alemão, quais são as “vantagens” sob a perspectiva do empregador, clique aqui.

P.S.3-Para quem quiser entender a diferença entre um contrato de trabalho normal e um Werkvertrag dentro da Alemanha, clique aqui.

Fonte: reportagem de 13/05/20 do jornal alemão Süddeutsche Zeitung.

::Como lutar contra a crise?::

19/02/2009

Estou muito curiosa pra saber que medidas têm sido adotadas pelos governos/empresas pelo mundo afora para conter parte dos efeitos da crise atual.

Aqui o governo alemão tem um instrumento muito interessante (“Kurzarbeit” ou trabalho reduzido) que se resume à redução da jornada de trabalho com o pagamento de uma compensação salarial equivalente a 60/67% (dependendo se a pessoa tiver filhos ou não), que é relativa à diferença entre o salário anterior e a carga horária reduzida. Se um funcionário trabalha 10% a menos, recebe um salário líquido de só 3% menor, se ele fica metade do tempo em casa (50% de redução da jornada de trabalho), recebe, dependendo de sua “classe de impostos”, aproximadamente 16-17% do salário líquido anterior. Há ainda empresas que estão reduzindo adicionalmente a carga horária semanal e planejando pausas na produção durante fases específicas (férias prolongadas no Natal, Carnaval, etc.).

O governo também está oferecendo vários cursos de formação profissional, para que os funcionários se qualifiquem durante este tempo em que estão trabalhando menos. O governo chega a pagar 80% do custo dos cursos, e o empregador também economiza com esta medida, com relação aos encargos trabalhistas da compensação relativa à redução da jornada de trabalho. É, portanto, uma medida onde todas as partes saem ganhando.

O instrumento da redução da jornada de trabalho com o subsídio do governo pode durar, segundo as leis, até 18 meses. A combinação entre subsídio e qualificação da mão-de-obra me parece uma excelente combinação. Acho que não existe nada parecido no mundo, pelo menos não conheço (ainda) nada parecido. Existe um sistema parecido com este na Suíça e na Itália. O governo daqui está, portanto, investindo pesado para evitar as demissões em massa.

Muitas outras medidas no sentido de aquecer o mercado interno estão sendo implementadas aqui também, mas só o imposto de renda foi reduzido até agora. A decisão do Brasil de reduzir os impostos sobre a produção de carros (IPI) me parece uma das mais acertadas até o momento. Aqui tiveram a idéia de oferecer 2.500 euros para quem quiser trocar de carro e este tiver 9 ou mais anos de idade, mas o alemão analisa as ofertas a fundo e muitos chegaram à conclusão que nao vale a pena, ainda mais porque um carro de 9 anos de idade ainda vale os tais 2.500 euros oferecidos…

E no seu país/na sua região/na sua empresa, que medida está sendo tomada e está mostrando resultados positivos?


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