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::Feminicídio: Live de 28/12/20::

28/12/2020

Assisti a uma live neste instante que foi feita por uma colega de trabalho da Viviane do Amara Arronenzi, a juíza que foi morta recentemente pelo ex-marido às vésperas do Natal e perante as três filhas menores. Ela aconteceu entre a professora da Faculdade de Direito Debora Diniz e Adriana Ramos de Mello (Juíza, EMERJ), bem dentro dos assuntos discutidos no meu novo livro, HERstory – escreva a sua história!

Algumas questões centrais da live, em resumo:

O que é o feminicídio? É o desprezo à condição feminina, pois nele não basta matar, a vítima tem que ser mutilada e desfacelada. Sua beleza tem que ser destruída. Analisando casos de feminicídio ocorridos entre 2015 a 2019, percebe-se o requinte de crueldade, ódio, tortura pela raiva, jogo de poder, controle, dominação, desejo de ser o último a dizer um “não”.

A verdade é que no Brasil o término da relação é um momento crucial para um relacionamento e há uma ansiedade social de culpar a vítima.

  • O que se pode fazer para evitar um ato de feminicídio?

É necessário avaliar os riscos, não achar que isso só acontece com outros, lembrar que há o envolvimento emocional e o desejo de preservar a ligação do pai com os filhos, mas buscar preservar a própria vida.

É preciso retirar a atenção do agredido para o agressor, o machista que agiu de forma inesperada. O machismo é um sistema enraizado no Brasil e no mundo (Patriarcado, machismo, diferença de classes, patriarcado racista de classes).

  • Qual o diferencial entre um agressor contra mulheres e outros tipos de agressores?

O agressor de violência doméstica geralmente tem boa reputação, é bom vizinho, bom pai, bom funcionário, uma pessoa aparentemente doce, etc., e este é o diferencial do homicida, do ladrão, etc. O agressor mora dentro das quatro paredes da vítima.

  • Quais são os sinais de que a mulher está em uma relação abusiva?

A mulher geralmente para de procurar amigas, se isola da família, tem marcas no corpo, a mulher é minada pelo agressor e passa a ser uma presa fácil numa situação de vulnerabilidade, é manipulada por ele, seu corpo adoece através da violência psicológica, há uma fragilidade da alma, ressecamento da alma, a mulher vai se tornando uma vítima e presa fácil, isolada. A mulher não conta para ninguém por vergonha de se expor, de admitir que o maior perigo mora dentro de sua própria casa.

  • Por que mulheres com maior escolaridade tendem a se isolar e não buscar ajuda?

Mulheres com escolaridade mais alta geralmente têm mais vergonha de procurar ajuda, têm maior vergonha da sociedade, maior medo e maior probabilidade de desistir do registro policial (sofrimento por não ser um crime comum, por ser contra a pessoa com quem você divide a vida e os filhos, necessidade de exposição de intimidades).

  • Por que a mulher precisa lidar com esses temas e não os homens, os atores das mortes praticadas dentro do feminicídio?

A mulher precisa lidar com esses temas porque geralmente ela é a silenciada na sociedade, ela é que não tem o lugar de fala, lhe falta a voz para falar. Devemos dizer sempre: “Eu não me calo!”

É uma luta das mulheres mas deveria ser uma luta da sociedade como um todo! Os homens precisam também refletir e mudar ao lado das mulheres. Há muitos movimentos atuais, também de homens, para chegar a esta mudança cultural e da sociedade como um todo.

Temos que transformar o que está errado, prestar um tributo às que morreram, fazer um exercício de poder, o silêncio não é a opção.

  • Por que não valeria a pena simplesmente optar por leis mais rígidas e penas mais severas?

O Direito é masculino, ele foi feito por homens para defender homens, portanto não mudaremos o Brasil através de leis mais duras. Precisamos alterar o sistema educacional, para que a sociedade entenda que homens e mulheres têm os mesmos direitos e devem ter as mesmas oportunidades.

O sistema penal brasileiro é opressor, desigual e seletivo!

O patriarcado nos leva a buscar respostas na agredida, e não no agressor…

  • Quais são as esperanças?

Sororidade, apoio entre mulheres, estar atentas aos sinais, apoio de homens esclarecidos, discussão e debate na sociedade. Dar consciência às mulheres como agentes de educação de meninos e meninas. Transformação da sociedade buscando reflexão pela paz e pela igualdade de gênero, pois ninguém é dono de ninguém.

Toda mulher tem direito a uma vida livre de violência, onde quer que seja que ela viva e em todo e qualquer espaço. Nós somos donas dos nossos corpos e de nossas vidas. Não podemos aceitar dominação! Devemos buscar viver em paz e com autonomia, com respeito e dignidade. A violência contra a mulher no Brasil ainda é uma pauta pendente, devemos poder querer viver com cidadania!

A lei Maria da Penha vale para todas as mulheres. Em uma situação de urgência, chame o 190, a Polícia Militar!

#nenhumaamenos @homensquerespeitam @superacaodaviolenciadomestica

::Atenção! Cenas fortes!::

26/12/2020

Segundo uma reportagem do G1, a cada 2 segundos no Brasil pelo menos 20 mulheres estão sendo espancadas. Aconteceram mais de 300 casos de feminicídio nos últimos 4 anos no Rio de Janeiro. O fato é que o Brasil sofre de um problema generalizado, enraizado no cerne de sua cultura e de sua sociedade, que precisa parar já. NUNCA mais a alegação de legítima defesa da honra, lei de 1940, deveria poder ser usada para evidenciar que no Brasil a vida de um homem tem mais valor do que a de uma mulher, simplesmente porque NÃO tem. Todas as vidas têm valor de forma igual. Somos todos merecedores de viver, independente da condição de como viemos ao mundo.

Segundo um estudo do Núcleo de Pesquisa de Gênero, Raça e Etnia da Escola de Magistratura do RJ, 94% dos casos de feminicídio surgem do fato de que o homem sente ciúme, não se conforma com o fim de um relacionamento, por medo de traição e por não aceitar uma relação de sua ex-parceira com outra pessoa, como se ela fosse sua posse ou um objeto que não pode mudar de mãos. Como se ela tivesse um dono e não fosse responsável por sua própria vida e por suas decisões. E como se tivesse menos valor numa sociedade machista que tenta muitas vezes fazer ficar difícil que a mulher enxergue seu próprio valor.

No RJ, seguindo a tendência geral, em 80% dos casos o agressor é o marido ou o ex-marido e em 90% dos casos o agressor morava com a vítima. Acreditem ou não, mas 74% das mulheres mortas no RJ eram mães, assim como a juíza Viviane Arronenzi que foi morta com 16 facadas no meio da rua pelo ex-marido, na frente de suas três filhas comuns, que têm entre 7 e 9 anos de idade. Leia mais sobre este caso, ocorrido às vésperas do Natal de 2020, aqui.

Mulheres, é necessário buscar ajuda logo no primeiro sinal de agressão, porque qualquer agressão é inaceitável! Precisamos saber identificar agressões (não só as físicas, evidentes) e não acreditar que podemos mudar alguém e dar ou aceitar desculpas para aquilo que não pode ser tolerado! O feminicídio é lamentável e pode ser evitado, porque na maioria das vezes ele é construído no dia a dia de um casal. Um dos objetivos do meu novo livro HERstory, assim como o das redes de apoio que existem para defender a vida da mulher, é o de levantar a bandeira da sororidade e de funcionar como mãos que se juntam para garantir uma questão simples: fortalecer a mulher para que ela reconheça o direito de fazer o que quiser e ser quem ela bem entender ser.

Todas as mulheres importam, todas as vidas importam. Há 5 mil anos atrás já vivemos em sociedades mais equalitárias, e voltar a viver em sociedade sendo parceiros um do outro, apoiando e dando as mãos uns aos outros é possível. Basta querer. O filho que vê o pai agredindo a mãe não deve se calar. O vizinho que ouve algo não deve se calar. Temos que enfiar mesmo a colher de pau. Tratam-se de vidas que podem ser salvas e atitudes que podem ser mudadas para o bem da sociedade brasileira, para mudar uma cultura machista que já deveria ter ficado para trás na história.

Agora, segure o fôlego para assistir algumas cenas fortes. Uma forma de conscientização é a de se expor à realidade e não ficar tampando o sol com a peneira. O Brasil é um país perigoso para a maioria das mulheres que habitam nele – e elas têm o direito de ir e vir assim como todo e qualquer cidadão do país.

Na minha opinião, os casos de feminicídio ao longo dos últimos anos dentro do Brasil deveriam ser contados e divulgados a nível nacional, para aumentar a conscientização do fato de que a sociedade brasileira tem que colocar um fim à violência exacerbada contra a mulher. Isso a meu ver é cultural e está enraizado na sociedade brasileira machista que precisa urgentemente mudar, porque toda vida importa, a minha e a sua também!

Veja uma lista aqui de onde mulheres vítimas de violência doméstica podem buscar ajuda no RJ.

P.S. – Nota de 27/12/20: Estou perplexa! Foram pelo menos 6 casos de feminicídio durante o Natal no Brasil e a desculpa é que o homem não pode ser contrariado??? Que tal criarem um banco de dados nacional de casos de feminicídio para que seja compreendida a gravidade da situação??? Leia mais sobre os 6 casos aqui.


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