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::Vida de estrangeiro – ou – alguns mitos e verdades sobre morar no exterior::

12/07/2004

Parei uma vez de frente para uma igreja. Nela, um quadro de avisos, e nele, uma verdade: “Onde quer que você esteja, sempre irá levar na sua alma suas inquietações, suas dúvidas, sua história”. Verdade absoluta.

Tem gente que vem pro exterior pra fugir de algum problema, acha que pode deixar preocupações para trás. Mero engano. As preocupações vão nos acompanhar, não importa onde quer que estejamos.

Posso sair do meu país com a ilusão de que lá fora tudo é perfeito e altamente organizado. As pessoas lá só agem sob as leis da ética. Tudo funciona. Outro engano. Os seres humanos são múltiplos e, bons e maus, preguiçosos ou eficientes, povoam todos os países deste mundo. Se no Brasil o político rouba descaradamente, aqui na Alemanha ele rouba por debaixo do pano, se achar que roubar é uma boa. E aqui muitas leis são seguidas não porque as pessoas são responsáveis o suficiente para segui-las, mas sim porque se não o fizerem, vão perder muitos e muitos euros pagando multas.

Tem gente que acha que tudo lá fora é melhor, até as pessoas são melhores. Na realidade não somos nem melhores nem piores que os outros, somos tão humanos quanto eles, com nossas qualidades e defeitos. No exterior existem muitos erros, muitos acertos. Muitos setorem onde estão avançados tecnologicamente, outros nem tanto. E nem só de bens materiais vive o homem…

Lá fora é que muitos ficam conhecendo melhor o país onde nasceram. Eu mesma fui uma que, através da liberdade de imprensa e da maneira direta de expor idéias dos alemães, praticamente sem meios-termos, conheci e li muito sobre o Brasil estando fora do meu país. Às vezes a gente tem que estar longe das nossas origens pra conhecer bem o lugar de onde viemos e quem realmente somos.

Uma coisa é certa: depois que tomar a decisão de sair do meu país, nunca mais voltarei a ter uma pátria, no sentido mais profundo da palavra, um lugar pra chamar de “meu”. Nunca mais vou me se sentir 100% bem, onde quer que eu esteja. Quando estou aqui, me falta o pedaço de lá. Se estou lá, me falta o lado de cá. Se estou aqui, sou brasileira. Lá, sou chamada de “alemã”.

Somos cidadãos do mundo e temos, afinal, o direito relativo de ir e vir. Escolhi um canto pra mim onde me sinto bem, dentro do possível, apesar dos pesares, e gosto de viver aqui. Que cada um de nós encontre um lugar onde sinta que leva uma vida com qualidade, ao lado de pessoas com as quais valha a pena dividir a vida, mesmo tendo que abdicar de muita coisa pra conquistar isso. A vida é feita de escolhas.

::Morando no exterior::

05/04/2004

Alguém aí já parou pra pensar que nós, brasileiros morando no exterior, somos todos representantes do nosso país? Tudo o que somos, como agimos, como tratamos outras pessoas, tudo isso contribui para que o “outro” forme sua imagem do que é ser brasileiro e a combine ou substitua aos seus “pré-conceitos” sobre o Brasil.

Da primeira vez que estive no exterior, participei de um congresso internacional de estudantes reunindo mais de 70 nações no mundo. Ali, as pessoas praticamente não tinham nomes próprios. Se alguém me via e queria falar comigo, gritava: “Brasil! Venha cá por favor!”.

Pois é, cada um de nós é o Brasil no exterior. Fico pensando se o Ronaldo sabe da responsabilidade que leva sobre seus ombros, pois na última Copa do Mundo, quando eu falava que vinha do Brasil, recebia simplesmente a seguinte resposta eufórica, uma associação imediata ao nosso país: “Ronaldo!”.

Ao mesmo tempo em que devemos ter consciência de que somos representantes do nosso país no exterior, não devemos nos esconder atrás de preconceitos ou deixar que nosso título de “estrangeiros” explique porque não chegamos onde queríamos estar, por que não fazemos aquilo que gostaríamos de fazer da nossa vida. Os preconceitos estão aí para serem discutidos e eliminados; as barreiras aparecem para ser quebradas! Ninguém pode determinar para mim onde eu deveria estar e que vida deveria estar vivendo, a não ser eu mesma, logicamente dentro de minhas possibilidades, levando em conta as verdadeiras limitações do meio em que estou inserida e não as que inventei como desculpa para “deixar como está para ver como é que fica”.

A sociedade em que vivemos, quer seja ela brasileira, alemã ou qualquer outra, teima em querer determinar para nós como devemos viver, qual é a maneira natural de uma pessoa existir, como um brasileiro deve ser, o que se espera de um alemão com tantos anos, etc. O que eu quero pra mim? O que me faz feliz? O que devo fazer da minha vida para que, aos 65 anos, olhe pra trás e pense que minha vida valeu muito a pena ser vivida? Estas são as questões básicas que devo colocar pra mim todo dia, lembrando de incluir uma pitadinha do nosso jeitinho brasileiro de ser, carinhoso, amigável, companheiro e solidário, se possível, pra dar mais cor às nossas atitudes diárias, o que faz uma grande diferença.


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