Posts Tagged ‘morte’

::Tributo ao Gilberto::

31/05/2020

Se você também é expatriado, se lembra de alguma coluna no jornal que adorava ler quando ainda morava no Brasil? Eu me lembro nitidamente de ler com grande frequência a coluna na Folha de São Paulo de alguém que formou minha opinião, me inspirou e me mostrou várias formas de ter uma opinião crítica quanto ao que acontece no Brasil e no mundo. O nome desse cara é Gilberto Dimenstein, que nos deixou tão cedo para outro plano ontem, dia 29 de maio de 2020.

Talvez alguém ache que ele morreu de coronavírus, mas na realidade morreu da doença que já o acometia há algum tempo, que era um câncer no pâncreas. Fiquei sabendo da morte dele pela Monja Cohen. As notícias correm meio mundo rapidinho, não é mesmo?

Além de mim, eu tenho certeza que ele plantou várias outras sementinhas por aí na cabeça de muitas outras pessoas preocupadas com a democracia e com uma sociedade mais justa, humanitária e mais crítica, em todos os sentidos. Salve, Gilberto! Que você esteja muito bem aí do outro lado, agora nos reconfortando do outro lado, do plano espiritual.

O Gilberto nos deixou aos 63 anos. Foi colunista da Folha de São Paulo durante 28 anos. Participou do programa de liderança avançada de Harvard e é o idealizador do site Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. Dentre vários prêmios que ele ganhou, está o Prêmio Nacional de Direitos Humanos junto com dom Paulo Evaristo Arns e o Prêmio Jabuti, por sua obra de não-ficção, com a obra O Cidadão de Papel – A infância, a adolescência e os Direitos Humanos no Brasil.

“Grande parte da minha vida foi marcada pelo culto a bobagens: ganhar prêmio, assinar matéria na capa, o tempo todo pensando no próximo furo. É como se estivesse passando por um lugar lindo num trem em alta velocidade, vendo tudo borrado.

Quando você tem um câncer (ainda mais como o meu, de metástase e de pâncreas, um tipo muito agressivo), não há alternativa. Ou vive o presente ou sua vida vira um inferno.

E aí começam a aparecer coisas incríveis. Gosto de andar de bicicleta, e comecei a sentir o vento no rosto, como se estivesse sendo beijado. Você vê seu neto deitado com você. Acorda com os bem-te-vis e escuta os bem-te-vis.“

“Ser feliz é ser livre”.

Que você esteja bem feliz e bem livre aí do outro lado, Gilberto! Muito obrigada por tudo!

Outra fonte: site da Wikipedia de Gilberto Dimenstein.

::Uma história de vida e de morte::

30/03/2020

Desde que entrei de quarentena, e já estou começando agora na minha quarta semana, algo que entrou na minha vida foi o uso constante de tecnologias para me conectar com pessoas, dentre elas o WhatsApp e o Zoom. Uso ambas na maioria das vezes com vídeo, e assim falo e vejo pessoas espalhadas por todo o mundo. Tenho que dizer que desde então estou tendo mais contatos, e com um número bem maior de pessoas do que antes. Nem quero imaginar como seria uma quarentena sem meios de comunicação como os atuais.

“Por acaso”, através de um convite em uma newsletter, me conectei com pessoas desconhecidas espalhadas por toda a Europa, que trocam entre si a solidão de estarem confinadas às suas quatro paredes, muitas delas realmente sozinhas. Alguma delas não vêem seres humanos durante 10 dias, até terem de ir ao supermercado para comprar alguns alimentos e voltar ao seu confinamento. Algumas delas só têm a permissão de fazer compras no máximo a 1.000 metros de suas casas e disseram se sentirem felizes ao ouvir que o supermercado da esquina estava fechado e que assim puderam ir a um supermercado maior e um pouco mais longe de suas casas. Esse tipo de limitação de só poder sair a 1 km da minha casa não existe aqui na Alemanha.

Neste grupo, temos encontros recorrentes por Zoom. No encontro de hoje, uma mulher contou que seu irmão esteve internado em um hospital por ter sido infectado com o coronavírus. Ele dividia seu quarto com um senhor de 80 anos que estava em situação muito pior do que a dele e que não conseguia passar uma noite sem a ajuda constante de enfermeiras, que tinham que visitá-lo a cada 1-2 horas.

Em algum momento, uma enfermeira disse que sua esposa tinha ligado para o hospital e mandado um recado para ele. O senhor de 80 anos pronunciou o nome de sua esposa e esta única palavra mudou por completo os sentimentos do irmão da minha nova conhecida. O nome da esposa transmitia todo o amor, todo o companheirismo e todas as experiências e anos vividos juntos, toda uma vida passada a dois. O companheiro de quarto passou a não ficar mais incomodado com o fato daquele senhor precisar de tantos cuidados, pois ele lhe tinha ensinado com uma única palavra muito mais do que ele podia imaginar. Ele era um professor universitário, que vivia viajando para muitos países, que não tinha tempo para parar e refletir muito sobre a vida, até que a doença o obrigou a parar.

Naquela noite, a enfermeira entrou no quarto e o avisou que o senhor de 80 anos talvez não fosse suportar as próximas horas. Deu-lhe um sedativo ou algum remédio paliativo e ambos dormiram. No outro dia, ele acordou e notou que o senhor não respirava mais. Ele tinha ido em paz. O irmão da minha nova conhecida, com 63 anos, recebeu alta em seguida e foi para casa, tendo aprendido qual era realmente o sentido da vida.  

::Somos gelo desprendido de um iceberg::

25/01/2014

Como tenho orgulho de ter tido a oportunidade de bater papo com um escritor “de verdade”! Foi a pura simpatia de conterrânea, além do orgulho de suas palavras certeiras no discurso da última Feira do Livro de Frankfurt, que me fizeram reconhecer o Luiz Ruffato no meio da multidão da feira e me permitiram elogiá-lo frente à frente.

Como se não bastasse aquela alegria, ele continua me brindando com textos cada vez mais lindos, publicados no jornal El País, desta vez sobre algo que nos permeia, a morte. Lindas que para mim se apresentam muito harmônicas e tão bem escolhidas como numa boa música:

Somos a ponta de um iceberg – Luiz Ruffato

Para Q., onde estiver.

Por volta de duas horas da manhã entreabri a cortina do ônibus-leito em que viajava de Juiz de Fora para São Paulo e me deparei com a lua, linda em sua palidez, banhando as montanhas que cercam a estrada sinuosa. Havia expendido o fim de semana em intensas conversas com meu amigo, o excelente poeta Iacyr Anderson Freitas, conversas que ainda reverberavam em minha consciência e não me deixavam dormir. Fechei a cortina, apenas o barulho monótono do motor acompanhava a solidão imensa que abraça a noite dos insones.

Lembrei então de quando tinha dezesseis anos e acabara de receber o diploma de torneiro-mecânico, emitido pelo Senai. Dezembro agonizava e eu trepidava atônito sobre minha bicicleta pelos paralelepípedos que forram as ruas de Cataguases. Intuía que algo definitivo ocorrera, mas não percebia que meu corpo frágil se desprendera da casa de meus pais e que, em breve, estaria boiando solto por um mar desconhecido e perigoso, ao sabor dos ventos e das ondas. Não era angústia ainda que corria em minhas veias, mas um difuso temor frente à enormidade do mundo.

No dia 31 de dezembro, fim de tarde, me encontrei com Marquinho “Taioba” e Jorginho “Peito-de-Pombo” na Praça Rui Barbosa, e juntos concluímos que, para crescer, precisávamos com urgência ir embora da cidade. E marcamos nossa viagem para daí a seis dias, uma viagem que, começando em Juiz de Fora, me levaria cada vez mais para longe de mim. Eu me sentei, então, sozinho, no banco de pastilhas brancas, próximo ao coreto modernista, mirei as sibipurunas que alardeiam pardais, aspirei o ar verde e quente do lusco-fusco, apertei com força o pacote vazio de pipoca, e acompanhei, com melancólico arrebatamento, o footing dos rapazes e moças que nada sabiam da conspiração do tempo. (Muitos anos depois descobriria a tradução daquele sentimento na Canción para Carito, interpretada por Mercedes Sosa, que tem, entre outros versos, esses: “Em Buenos Aires los zapatos son modernos / pero no lucen como en una plaza de un pueblo”).

Quando voltei para casa naquele dia, bêbado de tristeza, minha mãe, como sempre acordada, levantou-se e perguntou se queria que preparasse algo para comer. Respondi que não e falei, Mãe, vou embora daqui a seis dias. Vou procurar trabalho em Juiz de Fora. Ela, depositando na parede descascada os olhos dilacerados, comentou, Vai, sim, meu amor, você tem que ir. E saiu para o quintal. Fui atrás dela e não a identifiquei de imediato, mergulhada na noite sem lua. Mas um relâmpago, distante, iluminou debilmente sua silhueta magra. A mesma silhueta que de súbito ardeu minha memória imersa na escuridão do ônibus.

Em todas as ocasiões que a vida se entremostra mais incompreensível que o normal – porque a vida é naturalmente incompreensível –, evoco minha mãe, com quem compartilhava dúvidas, inquietudes, decepções. Sinto necessidade de pegar o telefone e ligar para ela, mas então me recordo de que essa é uma atitude inútil, ela está morta há mais de doze anos. Como morta agora também está Q., que visitei pela última vez num outro dezembro, separado no tempo por mais de três décadas. Deitada em seu quarto flutuando na tarde luminosa do verão portoalegrense, incomodada por dores imensas, Q. ainda achava lugar para comentar, com frases epigramáticas e categóricas, os assuntos em pauta. Frente à iminência do fim, ela, de tudo incrédula, desafiava com altivez o infinito ignorado.

A única certeza indiscutível com a qual podemos lidar é a de que vamos todos morrer um dia, pois somos seres para a morte, ao nascer começamos a morrer. Mas é também verdade que, paradoxalmente, nossa vida só se completa no fim, ou seja, somente com o advento da morte nos tornamos uma história individual no tempo. A morte de Q. se junta a várias outras minhas mortes, ausências que corroem meus dias e minhas noites. Não pude, como queria, comparecer à cerimônia de sua cremação. Por isso, deixo aqui, neste breve espaço, minha homenagem, modesta, mas sincera, de alguém que ainda trepida atônito sobre uma bicicleta pelos paralelepípedos que forram as ruas do mundo.

Coluna da semana no El País, 22/01/14.

::Homenagem a Steve Jobs::

06/10/2011

Muitas vezes penso sobre os relacionamentos humanos e chego à conclusão de que deve existir alguma ligação invisível entre as pessoas, um fio invisível de uma imensa teia de aranha que nos atrai uns aos outros. Dando como exemplo o meu livro, ele liga pessoas que, em regra, virariam amigas se pudessem se conhecer entre si. Acho isso incrível! É mesmo como um imã invisível que puxa o semelhante ao semelhante.

Eu nunca vi nenhuma apresentação do Steve Jobs, este é o 1° vídeo que vejo dele, pois hoje uma parte do que ele falou foi divulgado numa rádio local, por ocasião da sua morte. Mas eu o admiro, tenho um certo carinho, respeito e penso que, como diz uma linda musiquinha de jardim aqui da Alemanha, o mundo teria sentido falta dele se ele não tivesse vindo ao mundo.

Claro que a Apple, assim como qualquer outro empreendimento, não tem só significados bons e o status e hype que se criou em volta da marca é certamente exagerado. Mas se pensarmos que este cara começou a empreender em uma garagem e hoje muitos de nós carregam consigo um modelo que ele criou, ou uma cópia inspirada em suas visões, que a empresa dele emprega muitos mil funcionários e que uma visão de um só ser humano revolucionou nossa maneira de nos comunicar é o máximo pra mim. Eis aqui todas as capas de revista em que ele apareceu durante sua carreira e um post maravilhoso dedicado ao Steve Jobs aqui.

Sinto por ele ter morrido um dia depois do lançamento do iPhone 4S (“for Steve“) e desejo que ele não tenha ficado sabendo das muitas críticas e do fato de que as ações da empresa caíram logo depois da apresentação do novo modelo. Agora ele vai ficar fazendo a ligaçã satélite entre nós, cá embaixo, com o mundo lá de cima.

No vídeo acima ele demonstra ter uma visão muito bonita da morte e fica claro que usou a morte como fonte de inspiração para seguir os chamados do seu coração. Ele a enfrentou sempre de frente, e muitas vezes ela resolveu o deixar viver mais algum tempo. Ele sugere que outros façam o mesmo que ele fez. Mudar pra deixar entrar coisa nova na vida da gente, viver o que temos pra viver e não perder tempo em ficar copiando ninguém, nem aceitando dogmas que não são os nossos. Amém! Que Deus (o universo) o tenha!

E qual é a sua opinião a respeito da morte?

::Onde está o mal?::

27/07/2011

O final de semana passado me marcou por vários motivos. O primeiro, o principal, pela mente insana do norueguês que passou quase 10 anos planejando um ato de terror, motivado pela fobia contra muçulmanos e estrangeiros que ocupam a Europa, que ele quer deixar “limpa” de novo sem nós (eu e você que está lendo este texto e mais alguns outros por aí). O que mais me deixou literalmente boba foi o fato dele ter resolvido matar tantos jovens só com o objetivo de se auto-promover. Por ter incluído no seu minucioso planejamento o fato de não ter se matado como todos os outros loucos anteriores e por ter escrito um “manifesto” de mais de 1.500 páginas, ele conseguiu lançar uma campanha de marketing das mais inusitadas e, infelizmente, cujo sucesso repercutiu em todo o planeta. Foi por isso que ele conseguiu afirmar que o ato cometido foi “cruel, mas necessário”. Como o tal do “manifesto” do rapaz foi espalhado por ele 7.000 vezes na net antes dele sair para matar pessoas a torto e direito, não foi difícil achá-lo e ler algumas partes do mesmo, onde ele explica que não há igualdade entre os seres humanos, dá uma aula de maldades e convoca outros loucos a seguir seu exemplo. Lendo aquela loucura toda, entendi que pra ele valeu a pena fazer o que fez, pois se projetou no “mundo do mal” para um dos primeiros lugares do planeta, e para nós, cidadãos do mundo, um dos últimos. Uma busca pelo nome dele no Google aponta: hoje há 10.400.000 páginas sobre ele. Que pena!… A Noruega ficou embasbacada ao perceber que o mal não vinha de fora, mas tinha nascido e tinha sido criado, educado e formado dentro do país. O mal já estava lá o tempo todo e eles não sabiam. Independentemente de sua origem, quem poderia imaginar que um ser humano pudesse ser capaz de uma barbaridade dessas, ainda mais cometida contra jovens inocentes, acertando em cheio o cerne de uma sociedade aberta, multicultural e democrática? A parte curiosa da coisa fica o nome do infeliz: ele se chama “Anders“, o que significa “diferente” em alemão. Põe diferente nisso!

Enquanto pensava nisso tudo, no sábado o mal apareceu pra mim, ainda que bem de leve. Eu também nem pensava mais que ele morava bem ao lado e fui, como em todo sábado, fazer compras no supermercado com o Daniel, que me chamava aqui, me mostrava algo lá, como em todo sábado. No final das compras coloquei, com a ajuda dele, tudo na esteira e senti minhas pernas tremerem ao notar que minha carteira tinha sido roubada de dentro da minha bolsa! Lá se foram dinheiro, cartões de banco e documentos, e no lugar da carteira ficaram alguns telefonemas para bloquear os cartões, uma ida à polícia local e a certeza de que não voltarei a viver tão “leve, livre e solta” como antes. A preocupação com meus pertences tomou conta do meu sábado à tarde, ainda que por outro lado reconheci ter tido sorte no azar, pois tudo poderia naturalmente ter sido mil vezes pior. Desejei que o autor do roubo esteja realmente precisando do dinheiro, e desejei reencontrar meus objetos pessoais, fotos da família e lembranças da juventude que carregava comigo há tantas décadas.

Por fim, a notícia da Amy Winehouse me fez também pensar que o mal mora dentro de nós mesmos, muitas vezes na incapacidade humana de evitar ou parar coisas que não fazem bem ao corpo e ao espírito tais como cigarro, álcool e drogas, que matam e levam do mundo pessoas com um talento tão grande quanto o dela. Que ela esteja num lugar bem legal, cantando para os anjos e vivendo mais sossegada do que foi possível viver aqui, sortuda por ter alcançado tanto sucesso, mas sem sorte por ter sido vítima do mesmo.

O mal está em todas as partes. E quando menos esperamos, ele volta a dar as caras. Por outro lado, o mesmo se dá com o bem. Que pensemos nisto!

::Modelo brasileira morre aos 20 anos::

25/01/2009

Foi com enorme pesar que li sobre a morte da modelo capixaba Mariana Bridi da Costa, que era uma jovem de 20 anos muito, muito bonita e que teria tido uma provável carreira internacional de sucesso como top model. Ela teve morte fulminante depois de ter sido infeccionada pelas bactérias pseudomonas aeruginosa e staphylococcus aureus (resistentes a antibióticos) e de ter tido pés e mãos amputados, na tentativa de se salvar da infecção. Grande parte da imprensa alemã (aqui Spiegel / Focus / Welt Online / Stern / Bild) noticiou sua morte. Vi um noticiário da Globo muito esclarecedor, explicando que uma infecção urinária, como a da modelo, é comum e pode ser facilmente tratada. Mas se o caso se descontrolar, como aconteceu com Mariana Bridi, todo o corpo pode ser acometido pelas bactérias. Por isso, é importante cuidar de infecções sempre no menor espaço de tempo. Aqui uma reportagem importante sobre os principais vírus e bactérias que podem causar grandes danos ao ser humano.


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