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Posts Tagged ‘pediatra’

::Diversidade e inclusão: é normal ser diferente!::

18/04/2012

Há um tempo atrás fui numa palestra de uma pedagoga alemã incrível chamada Prof. Dr. Jutta Schöler, que discursou sobre a inclusão dentro de escolas alemãs.

34 escolas no país, dentre elas a escola do meu filho, estarão virando escolas de inclusão a partir do próximo ano letivo por decisão governamental e por obrigação também, porque a Alemanha assinou o artigo 24 da Convenção da ONU, que afirma o direito de educação inclusiva para crianças deficientes.

Mas acontece que a Alemanha ainda tem um sistema educacional muito divisor e por que não dizer segregador, onde muitas crianças (por mil e um motivos e às vezes até por nenhum motivo realmente existente) são retiradas das escolas normais e são colocadas em escolas especiais, chamadas aqui de “Sonderschule“. Em geral trata-se de crianças com algum tipo de deficiência ou uma combinação delas (visual / motora / audição, dificuldade emocional, de aprendizado, etc.), mas em alguns casos o problema é mais dos adultos do que das crianças. Estima-se que 60% das crianças alemãs tenha alguma deficiência no aprendizado(!), o que demonstra um certo desrespeito ao desenvolvimento individual. Enquanto que a Dra. Schöler acredita que somente 1/4 das crianças ditas deficientes sejam realmente deficientes! Ela notou muito bem que na maioria das vezes existe um problema com uma criança na escola principalmente quando dois adultos (no caso a professora/diretora e o pai/mãe) não se entendem. A Dra. Schöler afirma, e com muita razão, que “não devemos ver limites nas crianças, mas sim em nós adultos no que diz respeito à nossa capacidade de cooperação”. Ela mostrou através de vários exemplos que quanto maior for a deficiência da criança, maior será a necessidade dela de viver com outras crianças sem deficiência. Ela alerta para que uma criança não seja transferida a uma escola especial sem que os pais estejam de acordo com esta medida.

Levando-se também em consideração que a cultura alemã é a cultura da análise da falta (enxerga-se sempre o meio copo vazio e não o meio copo cheio), sempre haverá motivo de crítica e de expectativa com relação às crianças, ainda mais tratando-se de crianças estrangeiras ou mesmo alemãs, MAS filhas de estrangeiro(s). Escrevi “mas” com letras maiúsculas, porque para isso existe até um novo termo no vocabulário alemão: Menschen mit Migrationshintergrund (pessoas com passado migratório). Cabe a nós, pais, acompanhar nossos filhos e investir muito em carinho, elogios, observando aquilo que, dentro do nível de desenvolvimento do nosso filho, já melhorou e analisar o que mais pode ser feito para auxiliá-lo adequadamente. A sorte é que as terapias sugeridas (p.ex. fonoaudiólogo, ergoterapeuta, etc.) são todas pagas pelo seguro de saúde alemão através de guia médica expedida pelo pediatra da criança. O negócio é correr atrás! Em algumas cidades alemãs já é possível que os terapeutas visitem as escolas e ofereçam seus serviços em ambiente escolar, o que facilita a interação escola-aluno-terapeuta.

Na palestra aprendi um novo termo maravilhoso, que quero dividir com vocês e que aliás já faz parte do vocabulário norte-americano há muito tempo: inclusão x integração, termo último que é o ainda muito discutido aqui na Alemanha no momento. Mas qual é a diferença entre os dois termos?

A integração é a “teoria dos dois grupos” e parte do pressuposto de que a cultura vigente é superior às demais, e deve, no máximo, tolerar as demais culturas com quem convive. A inclusão, no entanto, parte do pressuposto de que todos são iguais com capacidades diferentes, que as as culturas são igualmente valiosas e nenhuma é maior ou mais importante do que a outra. Dentro desta linha de pensamento, é natural que cada indivíduo seja capaz de adicionar valor à comunidade e ao meio em que está inserido. Fantástico!

Ainda ontem a chanceler Angela Merkel se reuniu com representantes estrangeiros/filhos de estrangeiros de várias partes do país e estes por sua vez sugeriram que os meios de comunicação na Alemanha passem várias imagens de imigrantes, e não só a do ladrão, do corrupto, do malvado. A televisão deveria se esforçar para incluir em seus problemas mais pessoas de outras culturas, e os jornais/revistas deveriam noticiar também sobre bons exemplos de estrangeiros que deram certo no país e contribuem de forma positiva para a comunidade.

Minha prima Ciléia, que é interculturalista e faz um trabalho lindo nos EUA (St. Louis) promovendo a cultura latino-americana, passou-me um entrevista muito valiosa hoje da qual tirei o seguinte:

“Diversity without inclusion is like adding a few drops of vinegar to oil and calling it a great dressing. How can new people be expected to fit into old models and drive new value? The power of diversity shines in a culture of inclusion, where differences are valued and encouraged. Common values are the foundation, but different perspectives and behaviors lead to new understanding, ideas and growth”.
Erby L. Foster Jr. Diretor de Diversidade e Inclusão da The Clorox Company

Aqui a tradução: Diversidade sem inclusão é como jogar uns poucos pingos de vinagre no azeite e chamar a mistura de “molho excelente”. Como pode-se esperar que novas pessoas caibam em estruturas pré-existentes e adicionem valor a elas? A força da diversidade aparece através da cultura da inclusão, onde diferenças são reconhecidas e encorajadas. Os valores comuns são a fundação, mas perspectivas e comportamentos diferentes levam a novos entendimentos, ideias e crescimento.

Alguns links muito interessantes:
– Uma biblioteca de pedagogia inclusiva, na qual constam vários textos, dentre eles muitos da pedagoga Jutta Schöler.
– A íntegra da palestra de Jutta Schöler na minha cidade está aqui (clique em “Vortrag: Inklusion in der Schule”).
Campanha da ONG Caritas Kein Mensch ist Perfekt (Nenhum ser humano é perfeito).

::Consultas médicas / seguro de saúde na Alemanha::

11/01/2011

Na Alemanha todos têm obrigatoriamente um seguro de saúde. Ou ele vai ser o seguro de saúde regular, exigido por lei (gesetzliche Krankenversicherung) ou vai ser privado (private Krankenversicherung). O que determina se a pessoa faz parte de um ou outro tipo de seguro é um montão de leis e, por que não, outras tantas exceções. Falando em geral, o seguro privado é o seguro dos donos de empresa (Selbständige, Freiberufler), funcionários públicos, estudantes e também pode ser o seguro de um assalariado que trabalha na Alemanha e ganha acima de, atualmente em 2011, mais de 49.500€ (salário bruto) por ano, o que é a chamada Jahresarbeitsentgeltgrenze (JAEG): o limite de ganhos anuais para os assalariados que têm seguro de saúde regular do governo. Este valor muda todo ano, então pode ser que um assalariado tenha um seguro privado e depois tenha que voltar a fazer um seguro de saúde regular, de acordo com seu salário anual do ano anterior. Ainda assim, há um terceiro grupo de assegurados: aqueles que poderiam ter um seguro privado, mas ficam no regular por opção própria (freiwillige gesetzliche Krankenversicherung).

O tipo de seguro que a pessoa tem é que vai determinar como serão suas consultas médicas. Já que os médicos tem mais opções pra faturar em cima de assegurados privados, estes têm preferência em toda e qualquer consulta, o que não quer dizer que o nível do seguro regular seja ruim, muito pelo contrário. O nível do atendimento médico na Alemanha é altíssimo, deixa sim muito a desejar no quesito “bom atendimento ao cliente”, mas ainda assim é, em geral, de alto nível. O assegurado privado chega a enfrentar até o problema oposto: como ele é fonte de renda direta para os médicos, há uma tendência maior de “espichar” o atendimento deles, sendo pedidos exames que não são 100% necessários para o diagnóstico de uma doença, só como meio de faturar mesmo em cima da doença alheia.

E como funciona o atendimento? Em geral a pessoa tem que ligar, citar seu seguro de saúde (se for privado) se nunca tiver ido ao dito médico, pedir um horário e o mais difícil: explicar por que precisa do médico e com que urgência. Não é necessário citar que algumas situações podem ser altamente embaraçosas… mas são “ossos do ofício” e quem mora aqui se acostuma com uma certa indiscrição de algumas atendentes. Isso porque as assistentes dos médicos decidem quanto tempo você vai ter que esperar – ou não – até conseguir seu horário. A duração deste tempo de espera pode durar entre algumas horas a alguns meses. Atualmente é necessário esperar-se dentre 2-4 meses para conseguir uma consulta em um médico especialista, e um psicólogo, psiquiatra ou similar tem listas de espera de muito acima de 6 meses.

Geralmente, cada pessoa tem o chamado “Hausarzt“, o médico “da casa”, portanto da família. É ele que cada cidadão aqui visita quando não se sente bem, sendo este o responsável por nos dar uma guia para o atendimento junto a um médico especializado. Isto, claro, caso a pessoa não tenha alta urgência de atendimento médico, quando irá (ou será levada) direto para o hospital (Krankenhaus). As crianças, por sua vez, vão ao “Kinderarzt” (pediatra) e nós mulheres vamos direto ao “Frauenarzt” (ginecologista) sem necessidade de guia anterior.

Para todos os participantes do seguro regular, tem-se que pagar 10 euros por trimestre para o primeiro atendimento no médico “da casa”, e daí lembrar de apresentar este comprovante em outros médicos pra evitar o pagamento dobrado da mesma taxa. Quando recebemos receitas médicas, estas são apresentadas nas farmácias (Apotheken) e pagamos só um valor médio determinado, segundo estou informada, pelo tamanho do remédio. Em geral gasto uma média de mais outros 10 euros com o pagamento de remédios, o que significa que a primeira consulta no trimestre irá custar em média 20 euros, 10 para a consulta e 10 para o remédio (falou a Mineirinha!) 🙂 Claro que há várias exceções, pois como o sistema de saúde é caríssimo e não cobre todos os gastos gerados pelos usuários, a Alemanha tem procurado cortar gastos e vários remédios hoje em dia têm que ser pagos por inteiro, não importanto se você foi ao médico anteriormente ou não. Exemplos deste grupo seriam remédios para doenças comuns tais como dores no corpo, grupe, etc. (p.ex. Aspirina, Paracetamol, Ibuprofen, etc.). Também óculos ou tratamentos dentários são pagos em parte pelo seguro, o restante é pago pelo assegurado. Para terem uma ideia de custos, os óculos do Daniel me custaram aproximadamente 120 euros.

E o que fazer se você tem dificuldades de se expressar em alemão? Em resumo: na dúvida, é melhor ir no “Hausarzt” e pedir pra ele a guia de transferência pro médico especialista, escolher qual será o médico que você vai querer marcar a consulta (por recomendação de amigos e/ou da nossa amiga internet) e dar uma passadinha lá com a guia, marcando a consulta. Há cidades que mantêm listas dos idiomas falados pelos médicos e/ou atendentes da região, e há também em outras cidades o serviço de pessoas que acompanham estrangeiros a atendimento médico para servir como intérpretes. Uma boa opção é pedir para uma amiga ou o marido ser o acompanhante, caso a conversa entre médico e paciente e os termos específicos sejam um impecilho em alemão.

No caso de assegurados privados, o procedimento é diferente: ele recebe as contas das consultas médicas pra pagar, compra seus medicamento pagando os valores completos e tem que coordenar o ressarcimento do valor junto ao seu seguro de saúde. Pra compensar, o seguro de saúde privado tem, em geral, mais regalias, tais como p.ex. atendimento pelo chefe médico no caso de uma operação, quarto individual no hospital, atendimento psicológico, melhor cobertura no caso de tratamentos dentários, etc. Os programas são bastante diversificados, assim como seus custos.

Poderia continar falando deste tema por muitas e muitas linhas… Mas acho melhor parar por aqui e perguntar se ainda ficou alguma dúvida em aberto, se vocês completariam mais alguma coisa muito importante que eu tenha esquecido, e se algum ponto ficou talvez mal explicado. Obrigada à minha leitora assídua, a Roberta, que sugeriu este tema! Agora é sua vez de deixar seu comentário! Obrigada a você também por sua participação!

::Mãe é um bicho estranho::

25/11/2010

Desde há umas semanas atrás o Daniel começou a mover os olhos de um jeito estranho, a olhar pra frente virando a cabeça de lado, dentre outros movimentos. Tudo começou junto de uma infecção em um dos olhos e primeiro achamos que era só por causa disso, depois pensamos que era tique e por fim, depois de muito observar e pesquisar sobre o assunto, em um belo dia onde estávamos só eu e ele em casa, cheguei à conclusão de que o problema dele era eu. Explico: eu o tive aos 35 anos, quando uma gravidez já pode ser considerada “de risco”, ele não queria sair da barriga e nasceu por cesária 14 dias depois da data prevista e quando pequeno teve aquele acidente onde parou de respirar por alguns momentos e quase morreu. Por via das dúvidas, pensei que ele tinha alguma seqüela (sem trema a palavra fica estranha!), que tinha atingido seu cérebro, e como ele já tem uns probleminhas na linguagem, aumentei a coisa e identifiquei a “mea culpa” completa. Acho que quando uma mãe faz isso (o que eu acho ser super comum entre nós, bichos estranhos que ninguém entende), ela monta a coisa tão cheia de lógica que daí nenhum santo ajuda a desmontar. Quando o Matthias e a Taísa chegaram em casa, a armadilha já estava bem montada pra mim. Falaram que eu estava ficando doida, mas eu estava convencida do esquema que tinha desenvolvido depois de tanta leitura e observação. Bom, mas eu sabia que mais dia menos dia teria que ir a um especialista e pedir pra checar os olhos do Daniel. Por precaução, fizemos aqui em casa um filminho quando ele estava movendo bastante os olhos e lá fui eu conseguir uma via de transferência do pediatra pro oftalmologista. Depois de ter dado uma choradinha ao telefone pra atendente do médico (que sempre quer saber detalhes da vida da gente e tem o poder nas mãos, podendo dar um horário em breve ou dentre os próximos 3-4 meses, dependendo da especialidade), tive sorte de conseguir um horário um dia depois. Chegamos no médico bem pontuais e fui recebida por uma “anta” me dizendo de maneira bem mal-educada que teria que pagar 25€ pela consulta se o médico constatasse que o Daniel não t nada nos olhos. Respondi que ele tem sim, que nunca tive que pagar nada para consultas ou remédios para minhas crianças. A resposta dela foi contundente: “Então a senhora deveria se preparar, pois terá que pagar muito ainda para seus filhos de agora pra frente”. A prognose dela não foi mesmo nada boa. De quebra, ainda me pediu pra dar um passeio pela cidade e voltar uma hora depois, pra encurtar a espera que acabou demorando ao todo 2 horas. O médico nos atendeu e eu queria ter começado a falar, mas ele me cortou, dizendo querer falar só com o paciente. Pode? Mas de qualquer maneira ele me avisou em poucos minutos que o Daniel tem hipermetropia, com muito custo consegui mostrar uns 10 segundos do vídeo e ele se foi, pedindo pra marcar horário para outros testes de vista. Ao ir pra loja, ainda passei na prefeitura, onde me trataram mal pela terceira vez em um só dia. Depois disso foi fácil entender por que o Matthias vive ganhando gorjeta na loja!!! 😉 Muito aliviada, fui preparando o Daniel que ele iria provavelmente usar óculos e isso foi confirmado alguns dias mais tarde, quando foi confirmado que ele tem 1,75 graus de hipermetropia. O pequeno problema é que o Daniel é super-ultra-hiper vaidoso (puxou a vó materna!) e já sabia que seria super difícil ajudá-lo a escolher óculos, então chamei o Matthias pra ir conosco à ótica. A luta foi dura, no final ele escolheu a cor (aro preto fininho), nós escolhemos o modelo (retangular, com as pontas arredondadas). E a luta continua, pois daqui a 10 dias os óculos vão chegar e cabe a nós conseguir que ele os use com regularidade, pois do contrário uma das vistas pode enfraquecer ou ele corre o risco até de ficar vesgo. Acho até que ele vai ficar gatinho de óculos, com os cílios longos que ele tem. Eu, mãe-puxa-saco? Claro! Mas se bem que isso é melhor do que ser uma mãe-bicho-estranho. Bom, mas eu sou assim também. E quem não é?


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