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::Os efeitos do corona::

27/03/2020

Esse bichinho, o corona, já está virando nosso velho conhecido. Levantamos de manhã e ele ocupa nosso pensamento. Durante o dia, enquanto trabalhamos, damos uma paradinha ou outra pra checarmos como ele anda indo no mundo. À noite aqui em casa nos reunimos para ver o jornal e acompanharmos o que ele anda aprontando por aí. Já fiquei sabendo de gente que sonhou com ele. Com certeza muita gente teve também pesadelo por causa dele. Não deve ser nada fácil viver numa parte do mundo onde ele anda atuando feio. As únicas pausas são os memes, as brincadeiras e a vontade de rir, mesmo em situações difíceis, porque rir é sempre o melhor remédio.

Chegando ao fim da minha terceira semana de quarentena, em parte voluntária, comentamos aqui em casa que está sendo um pouco difícil ter noção dos dias da semana ou de manter uma rotina de horários. Pessoalmente, não tenho dormido bem, mas pelo menos um tremor interno que não queria me deixar foi passear em outro canto e deixou nosso apê, felizmente.

Tirando essas coisinhas e coisonas, aquelas listas enormes de mortes, curvas, análises sem fim, fiz uma lista esta semana de tudo o que a quarentena por causa do vírus fez comigo e o que tem acontecido nas últimas semanas pra mim e para a sociedade como um todo. Fiquei surpresa! Pelo menos no meu caso, a lista de coisas BOAS é pelo menos duas vezes maior do que a de coisas ruins. Minha amiga Alessandra confirmou o meu sentimento. Portanto pergunto: você já parou para pensar em como a crise atual tem lhe influenciado e em que aspectos você introduziu mudanças que lhe fizeram bem? Vale a pena listar! Você pode se surpreender com o resultado.

Para todos nós que moramos do outro lado do mundo como expatriados, temos que conviver agora com um fato que não temos e na realidade nunca tivemos como influenciar. Além de termos medo de perder familiares e amigos, sabemos que se isso acontecer, provavelmente não poderemos participar da despedida. Nos resta agora ter fé, focar em projetos positivos e ocupar nossa mente com coisas que esquentam nosso coração e nossa alma. Não podemos nos paralisar, porque o AGORA é precioso demais, vivemos como humanidade os mesmos perigos para enfrentar. Temos que tomar conta da nossa saúde física, mas também temos que alimentar nossa alma, nosso espírito: mens sana in corpore sano. Ninguém sabe o dia de amanhã e muito menos como será o mundo depois da pandemia. O momento é de perda e de dor, mas mesmo assim tenho um bom pressentimento quanto ao futuro depois da pandemia… você também? Ontem e hoje tivemos dicas importantes de dois dos líderes que nos ajudam a navegar na tempestade dos dias atuais:

“A única maneira de vencer esse perigo é agindo como uma humanidade.

Nós somos um. Uma só raça humana.”

Tedros Adhanom Ghebreyesus, WHO Director Geral

“Estamos todos no mesmo barco. Só avançaremos juntos.“

Papa Francisco, Missa Urbi et Orbit de hoje perante a Praça de São Pedro completamente vazia

Através de um artigo da Harvard Business Review, além de algumas observações minhas, sugiro pontos e perguntas a considerar durante a crise, quando estamos sendo convidados a deixar a corrida louca do dia a dia temos tempo para pensar em nós e de refletir sobre nossas vidas:

– Aprendizado: o que posso aprender com a crise?

– Jogo: a frustração faz parte do jogo. Ao invés de nos destruir por algo que não deu certo hoje, percebemos que podemos ter perdido hoje, mas podemos voltar a ganhar amanhã.

– Gratidão: devemos agradecer por tudo ao nosso redor, as pequenas e grandes coisas que fazem com que a vida valha a pena.

– Não temos controle de tudo: mesmo que tenhamos cultivado a ilusão de que podíamos controlar nossas vidas, a crise nos mostra que, em grande parte, estamos sujeitos àquilo que acontece conosco. Sucessos e insucessos nem sempre estão em nossas mãos, portanto nunca devemos desistir de tentar mais uma vez.

– Foco: precisamos saber discernir o que é realmente importante em nossas vidas, e o que pode ser deixado de lado. O que eu sempre queria começar, o que me deixaria orgulhosa de mim mesma se eu conseguisse terminar?

– Fé: independentemente de que religião fazemos parte ou mesmo que não tenhamos uma religião, percebemos que somos uma humanidade e temos que estender nossas mãos e nossos corações para orar e contribuir com todo e qualquer pensamento e meditação para a superação da crise.

– Relacionamentos: de quem sinto falta, principalmente neste momento de reclusão? Como posso cuidar de mim e mostrar ser meu bom amigo? A quem posso oferecer uma palavra de conforto ou mostrar que a pessoa me é cara e que eu me importo com ela? Não posso abraçar com as mãos, mas posso abraçar com o coração.

– Solidariedade: o que posso fazer pelo meu semelhante? Se não posso contribuir com minha mão de obra, posso contribuir para algum projeto social que diminua a dor de outros menos afortunados?

– Missão: por que estou neste mundo? Qual era meu propósito de vida? Por que vim a este mundo e o que quero ter feito antes de deixa-lo?

Sejamos resilientes no nosso caminho! Podemos ver obstáculos como sinais de que estamos no caminho certo e podemos ajudar nosso semelhante com pequenas e grandes dificuldades que ora se apresentam em tempos de tantas incertezas. Sejamos luz! Enquanto a minha luz brilha, ilumino à minha volta e com isso outras luzes hão de brilhar também.

Fonte: artigo da HBR de 27/03/20.

::A sexta-feira 13 e o coronavírus::

15/03/2020

Ontem foi um dia doido, não é mesmo? Em termos de ansiedade quanto à evolução da doença aqui na Europa, líamos novas notícias praticamente a cada segundo que éramos bombardeados pelos meios de comunicação. E olha que eu adoro sexta-feira 13 e não estava com nenhum pressentimento ruim quanto a este dia!…

Dentre tantas outras notícias, esse foi o dia em que o coronavírus chegou na cidade onde moro… E que anunciaram que no estado onde moro, Baden-Württemberg, as aulas estão interrompidas até as férias de Páscoa a partir da terça que vem. A partir da semana que vem estaremos os três em casa: meu marido e eu trabalhando em home office e meu filho sem aulas, mas provavelmente em contato frequente com sua professora e com os colegas. Bendita tecnologia!

Confesso que tive dores na barriga de tanta apreensão, ao mesmo tempo em que me acalmava e pensava que tenho boa saúde, tenho familiares saudáveis e que vivo em um país cujo sistema de saúde pode ser considerado como um dos melhores do mundo. Felizmente não estou nos EUA, onde um teste pode chegar a custar algumas centenas de dólares, sem falar no tratamento. Aqui ninguém precisa de ter medo de não receber tratamento por não conseguir pagar a conta do hospital. A não ser que a doença evolua rápido demais… nesse caso, não há sistema de saúde que comporte tantos casos graves necessitando de tratamento intensivo.

É por essas e por outras que saí ontem à noite para comprar medicamento e ir ao supermercado com o entendimento de que a partir de agora estou entrando em quarentena voluntária.

Pensando hoje no assunto, acho que uma quarentena voluntária é recebida de uma forma totalmente diferente de uma imposta pelo governo. Por um lado, não estou doente e por outro eu mesma tomei a decisão de ficar em casa para contribuir para que a propagação da doença aconteça de forma mais lenta. Li um livro, tomei sol na varanda, fiz ioga, cozinhei, me informei… Passei o dia tranquila. Felizmente, as dores na barriga já tinham sumido quando acordei.

Hoje temos perto de 3.800 casos registrados na Alemanha e 8 mortes enquanto a Itália conta com 17.700 casos e perto de 1.300 mortos. No total, temos pouco mais de 156.000 casos de coronavírus no mundo e pouco mais de 5.800 mortos. Depois que entendi que estamos a uma semana do quadro italiano, minha percepção sobre essa doença mudou completamente. Quanto mais ficarmos em casa, melhor será para todos. Esse artigo aqui explica isso direitinho.

Tenho observado uma divisão da sociedade em cinco grupos: 


a) os que querem ignorar a pandemia tapando o sol com a peneira;


b) os que já entenderam que a situação é crítica mas não querem mudar seus hábitos, querem continuar tendo contato social, ignorar as medidas sugeridas, etc;


c) os que já entenderam que a situação é critica e que cada um tem que dar sua parcela de contribuição, praticando a higiene e reduzindo seus contatos aos mínimo necessário;

d) pelo menos parte desse grupo dos que já entenderam que a situação é crítica, vem se preparando há alguns meses ou semanas para o pior, comprando estrategicamente comida e água e se precavendo para caso a situação se agrave, mas sem alarde. São os chamados “preppers“;

e) tem também o grupo dos que adoram propagar pânico, enviando p.ex. fotos em mídias sociais de partes de supermercados com suas prateleiras vazias e repassando fake news ou memes, em parte atiçando o pânico, em parte ridicularizando ou minimizando a pandemia. São pessoas que estranhamente adoram desinformação e confusão. Pode até ser que alguma(s) outra(s) força(s) esteja(m) aí por trás também!

Espero que a Alemanha tenha mais pessoas pertencentes ao 3-4. grupos porque a diferença da evolução da doença entre países que adotam medidas severas a tempo (Taiwan) e outros que adotam essas medidas mais tarde é enorme: a mortalidade varia de 0,5 a 4% do total dos infectados!

P.S.-Alguém pode me explicar por que pessoas que chegam do exterior só têm que ficar sete (!) dias em quarentena, sendo que o período de incubação é de 14 dias?!?

Agradeço a leitura atenta do meu fiel leitor André de Schröder de Berlim, que contribuiu para a expansão dos grupos da pandemia de três para cinco, incluindo os preppers e os que adoram um pânico e espalhar desinformação. Obrigada, André!

Fonte: página na internet do Robert Koch Institut, consultada no dia 14/03/20.

::Onde você estava durante as últimas epidemias?::

02/03/2020

Eu mesma já andava pensando sobre o assunto: não me lembro de ter gastado tanta massa mental com uma epidemia como com a atual. Semana passada meu marido me disse mais ou menos a mesma coisa… e isso me colocou pra pensar ainda mais sobre isso. Portanto, aqui vai a pergunta – onde você estava, que lembranças tem e como se ocupou com as crises a seguir:

– 1999: vírus de Nipah (Malásia)

– 2002: SARS (China)

– 2003: gripe aviária H5N1 (China)

– 2009: gripe suína H1N1 (EUA/México)

– 2012: MERS (Arábia Saudita)

– 2013: gripe aviária H7N9 (China)

– 2014: Ebola (Congo)

Não me considero avessa às notícias do mundo, mas não tenho nenhuma recordação pessoal ligada a essas epidemias… Do contrário, no caso do coronavírus (COVID-19), sinto como se estivesse à beira de um tsunami, percebo como ele tomou os noticiários, nossas mentes e fomenta a cada dia que passa mais ainda o medo, além do preconceito, entre as pessoas.

Creio que a epidemia atual tem várias facetas a serem analisadas, a saber:

– Saúde Pública: é algo desconhecido e não estudado, que se alastra rapidamente e causa mortes que não se atém a pessoas com doenças prévias nem a uma certa idade. Parece que incide mais em homens acima de 60 anos e que não ataca as crianças, mas ainda não se sabe por quê. Não se tem certeza do período exato de incubação. Se uma pessoa ficar 6 semanas doente, ela pode propagar o vírus durante todo esse tempo. Uma pessoa que não percebe que tem o vírus, se sente saudável, pode propagar o vírus. Não existe vacina nem remédio para a doença. O interesse de retardar a propagação do vírus está ligado à necessidade de cuidar de pessoas realmente debilitadas por causa dele e dar mais tempo para a busca de remédios e/ou uma vacina.

– Econômica: uma razão pela qual as últimas epidemias não nos interessaram é que não houve consequência econômica para o mundo. No caso atual, já são notórias as consequências econômicas da epidemia. As bolsas de valores estão caindo, produtos deixam de ser produzidos e transportados, e com isso o consumo diminui, o PIB de cada país irá cair e a recessão deve se instalar. O supply chain de muitos produtos globalizados vai ser exposto à dependência da China, já que muitas empresas desconhecem sua real dependência de fornecedores ou subfornecedores vindos da China. Quanto ao que ando lendo por aí, o argumento de que se as pessoas não vão as ruas, elas não irão consumir, acho que hoje em dia não é tão fácil afirmar algo assim. Hoje em dia, dentro das nossas quatro paredes, com um computador na mão, podemos comprar o mundo… O turismo, esse sim, irá sofrer, já que praticamente 20% da renda desse setor vem da China, na atualidade. Hoje já li que a primeira empresa de cruzeiros no Japão já declarou falência, outras a seguir… Resumindo, a pandemia incomoda tanto porque ataca países em várias fases de desenvolvimento econômico e pode levar a economia mundial a uma recessão sem precedentes.

– Social: com o aumento do medo e da recomendação de manter 1m de distância das pessoas, e não encostar nelas nem para um aperto de mão, a tendência será que os contatos sociais diminuam drasticamente. Em alguns lugares já foi ou irá ser imposta a quarentena, que acarretará uma convivência com as quatro paredes e a convivência mínima em termos de trocas sociais. Mesmo que vivamos em um mundo globalizado, conectado e de certa forma aberto, os seres humanos têm medos intrínsecos que nem sempre podem ser solucionados pela racionalidade. Li que estudantes universitários alemães estavam tendo preconceito quanto a estudantes chineses ou asiáticos, mesmo sabendo que parte deles nasceu aqui na Alemanha ou vive aqui há anos sem ter viajado há pouco tempo atrás para a Ásia…. E agora, com a chegada do coronavírus à Alemanha, a situação do preconceito deve estar ainda muito pior. Em casos extremos, deve se reduzir ao extremo do „eu contra o mundo“… Uma jovem que foi à Itália e repassou o vírus aqui na Alemanha foi tratada mal e atacada em seu meio social, como se fosse uma pecadora, uma vilã. Pessoas que vêm de determinados países passam a ter dificuldade de conseguir vistos para viajar, o direito de ir e vir fica limitado. Uma curiosidade: quem saberia a tradução da palavra Aussätzige em português? Li que poderia ser leproso, mas a tradução não está correta no caso atual, claro.

– Midiática: no mundo globalizado em que vivemos, e com tantas formas de comunicação existentes, uma epidemia como a atual chega a ser, por si só, altamente estressante. As notícias se alteram a cada segundo e não há constância no que é retratado, ainda há muitas suposições e dúvidas. Um prato cheio para as fake News! Os memes no Brasil continuam firmes e fortes, pelo menos até a doença se instalar de vez por lá!…

Mesmo tendo entendido racionalmente que a doença é menos forte do que o vírus da Influenza e que mata menos do que ela, pessoalmente fico tentando imaginar o futuro próximo, a semana que vem. Se ontem tínhamos aqui na Alemanha 100 pessoas contaminadas e hoje anunciaram que já são 150, demostrando o crescimento exponencial, pode ser que teremos mais de dois ou quatro mil doentes no final da semana, haverão mortos?!? No mundo, neste momento que escrevo estas linhas, já são mais de 80 mil casos da doença e mais de 3 mil mortos. Em 2019 foi avaliada mundialmente a capacidade de cada país de lidar com uma epidemia através da criação do index GHI (Global Health Index), onde 195 países foram analisados. A Alemanha ficou em 14. lugar. Menos mal, mas se o pessoal médico não tiver acesso a máscaras e roupa de proteção, que atualmente já falta em vários países da Europa e do mundo, quem tomará conta dos enfermos?

Conte abaixo os seus temores e pensamentos, vamos trocando figurinhas daqui pra frente…

P.S.-Por curiosidade, você tem lido ou assistido programas de ficção ligados ao tema? Um amigo me colocou nas mãos o consagrado livro do José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Recomendo! Estou lendo o livro e depois vou assistir o filme (Blindness), que foi dirigido por Fernando Meirelles.


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