Posts Tagged ‘racismo’

::Aprenda a argumentar contra o populismo de direita::

02/09/2020

Comprei este livro hoje depois de ler uma reportagem na revista Der Spiegel que uma pessoa física comprou o livro, o leu e resolveu dá-lo de presente para todos os 709 deputados do parlamento alemão. Detalhe: o dinheiro e o trabalho de empacotar e distribuir ficou por conta dessa pessoa!

Nem li muito ainda do livro, mas como o assunto é URGENTE e temos, como sociedade, que fazer algo ativamente contra o populismo de direita, aqui vai a minha dica do dia: compre, presenteie, empreste, pegue emprestado, entre na associação através da qual ele foi criado, discuta, aprenda, argumente – sempre com educação – contra um mal que parece estar nos matando de fininho nos dias atuais… Boa leitura!

::Balanço de fim de quarentena::

06/06/2020

Chegando ao fim da minha quarentena de 14 semanas, penso que é um bom momento para fazer uma avaliação de como foi viver praticamente só em casa durante 3 meses. Semana que vem volto a trabalhar no escritório, ainda que de forma reduzida e dentro do “novo normal”.

Partes boas da quarentena do coronavírus:

– Aprendi mais sobre mim, sobre o mundo, História, Geografia, Psicoterapia, Consultoria, etc.;

– Tive contato constante com amigos e familiares, me importei com muitos e muitos se importaram comigo. Mesmo distante, estive relativamente perto de entes queridos;

– Tive a oportunidade de fazer 3 cursos de desenvolvimento pessoal e espiritual com algumas experiências inesquecíveis!

– Fiz novas (ou fortaleci) amizades através desses cursos;

– Ganhei um quadro maravilhoso de uma das participantes!

– Dei o pontapé inicial ao meu projeto de uma plataforma de empregos na Europa, a CONNEXX (página em inglês);

– Dei 2 entrevistas (Celso da Batatolandia e Silvia Regina Angerami) e participei de 3 workshops e 2 encontros como facilitadora no mundo virtual (Carlotas, D.L. e Caravana Cloud) – com a repetição estou me acostumando com a câmera e aceitando que não tenho que ser perfeita para aparecer online;

– Participei de alguns eventos online que em tempos normais teriam sido presenciais. Em alguns deles eu não teria podido estar presente pela distância física, mas a distância virtual é mínima!

– Aprendi a mexer com novos sistemas como o Zoom, que agora uso diariamente;

– Atendi 7 coachees – um deles já conseguiu um emprego no meio da quarentena!;

– Comecei e avancei bem no meu novo projeto de livro (HERstory – escreva a sua história);

– Meu livro Mineirinha n’Alemanha foi escolhido pelo Celso do Batatolândia como um dos 6 livros mais importantes para entender a Alemanha e os alemães (fui colocada ao lado de João Ubaldo Ribeiro!);

– Escrevi uns 5 poemas, participei de um grupo lindo de poetas publicando poemas maravilhosos no Facebook;

– Escrevi para uma poeta americana e ganhei um poema de presente com as perguntas que tinha colocado pra ela;

– Entrei para 2 coletâneas (poesias, turismo no Brasil);

– Estou participando de um concurso de contos com um conto sobre a pandemia;

– Ganhei um novo local de trabalho com direito a vista e a ouvir e ver os passarinhos cantando lá fora;

– Voltei a fazer crochê (e estou amando!);

– Por incrível que pareça, eu emagreci uns 3 quilos!

– Fiz bons passeios pelas redondezas, voltei ao lago com maior admiração ainda, continuo admirando cada flor que passa por mim (ou eu por ela) e fiz algumas aulas de ioga pela internet (queria ter feito mais);

–  Tive alguns sonhos (dormindo e acordada) fantásticos!

– Ouvi muita música e dancei sozinha principalmente na cozinha;

– Participei pela 1ª vez de uma festa de aniversário pelo Zoom (em setembro tem mais! A minha própria!);

– Vi muitos nasceres do sol e tirei fotos lindas deles, fiz vídeos que vão ficar na memória porque, mesmo sem entender, dormia pouco e acordava várias vezes às 5h da manhã, às vezes com um poema inteiro na cabeça;

– Li alguns livros ótimos;

– Troquei 4 livros com autores brasileiros na Alemanha;

– Ganhei alguns livros do universo de estandes de livros para doação espalhadas pelo meu bairro!

– Constatei que os valores da empresa onde eu trabalho realmente batem com os meus! E fiquei muito feliz por isso!

– Contribuí da maneira que pude com as mazelas do mundo;

– Plantei algumas coisinhas na horta suspensa (Hochbeet) da minha varanda, iniciei um projeto de hidroponia;

– Tomei muito sol lá fora, protegida pela altura do meu apê;

– Arrumamos uma nova estante de livro em casa, com a grande ajuda da minha filha – ficou linda!

– Fiz várias boas comidas em casa;

– Passamos um ótimo tempo juntos em casa;

– A minha filha conseguiu seu primeiro emprego na sua área de estudos!

– A muito custo, mantive minha sanidade mental durante esse período… nunca senti tanta felicidade em rever pessoas como agora! Se eu pudesse, as encheria de beijos e abraços agora mesmo!

Partes ruins da quarentena do coronavírus:

– Sofrer triplicado: pelo mundo, pela Alemanha, pelo Brasil. Meu sofrimento começou já em janeiro na China, chegou ao nível máximo na época da Espanha e da Itália (porque inventei de ler um jornal em italiano e ver o sofrimento nu e cru de gente morrendo por lá por falta de leitos) e se abrandou com o tempo, tendo piorado de novo agora com os novos acontecimentos (morte do George Floyd nos EUA e aumento do número de mortos além da ocupação máxima em leitos no Brasil). Com o tempo, entendi que um certo controle no nível de notícias (e no formato delas, mais auditivo por rádio e menos televisivo por visão) me fazia bem.

– Temer por meus familiares e amigos principalmente no Brasil… Nossas mãos estão atadas!

– Voltei a consumir como há muito não consumia (provavelmente de ansiedade)…

– Não ter plena liberdade de ir e vir. Sinto falta de mar, do barulho do mar, da liberdade de poder viajar para onde quiser, mas sei que continuo com 100% de liberdade de pensar o que quiser.

– Perdemos uma viagem de férias à Espanha e deixamos de ver familiares por causa da pandemia;

– Principalmente quando a quarentena estava chegando ao fim notei em mim um certo nível de ansiedade ao ver estranhos vindo andando na minha direção (troquei de lado da rua várias vezes ao ver pessoas se aproximando);

– Acho que nunca vou me acostumar ao “novo normal”;

– Algumas vezes dormia mal, muitas vezes esquecia os sonhos ao acordar, mas a recompensa dos nasceres do sol foi algo que me acrescentou muito;

– Como toda pessoa normal nesse mundo, fiquei estarrecida ao ver fotos de uma morte de um negro nos EUA de maneira tão desumana (não tive coragem de ver o vídeo) e de certa maneira acho que o mundo está indo ladeira abaixo a passos larguíssimos em alguns pontos…

– Lamento que, por muitas vezes, os países tenham cooperado tão pouco entre si e que as linhas imaginárias entre eles estejam tão claras nas cabeças de tantos seres humanos…

– Lamento que muitos países não tenham uma liderança como a da Angela Merkel, que foi exemplar durante este tempo de crise!

Para ser sincera, tenho um pouco de medo do futuro mas ao mesmo tempo vejo essa experiência global como uma grande oportunidade de crescimento individual e coletivo. Pelo menos para mim, ela foi, ou ainda está sendo, sem sombra de dúvida, fonte de bastante crescimento em vários sentidos! Apesar de tudo, tenho uma premonição positiva para o mundo depois da crise do coronavírus! Na realidade sinto as duas frentes se debatendo, o bem e o mal, e espero, com imensa esperança, que o bem vença, e que saiamos desta crise mais fortes do que entramos.

::Um casal jovem, a Páscoa e O Mecanismo::

01/04/2018

DAK

Um casal jovem está feliz pela chegada do seu bebê – a propaganda foi altamente criticada no Facebook por um partido de direita na Alemanha, AfD, e seus adeptos. A resposta do Philipp Awounou, um jogador de futebol e jornalista esportivo nascido na Alemanha, que se tornou alvo de um shitstorm somente por ser moreno, dentro do contexto atual do país em parte revoltado pela ajuda aos refugiados, acontece à altura (tradução livre minha do texto logo abaixo):

 

“Na realidade não tenho tempo para o palavriado populista de partidos como AfD & Co. Quem não percebe as bobagens que estão sendo veiculadas nesses grupos, não pode ser atingido com argumentação baseada em fatos. Desde há alguns dias atrás, porém, estou sendo atingido pessoalmente, e não posso deixar isso passar sem um comentário da minha parte:

Um ou outro já deve ter percebido que eu e Regina aparecemos em algumas propagandas… na realidade uma história legal, que causou muitos, muitos retornos positivos. Muito obrigado por isso!

Infelizmente, na opinião da AfD Nordwestmecklenburg eu não sou “nativo“ o suficiente. Isso levou a comentários e posts que são em tantos níveis tão errados, cretinos e maldosos, que cheguei a perder a fala:  “propaganda de estrangeiros”, “corja suja“, “assassinos“, “estupradores“, “vontade de vomitar“, “inaceitável“… li muita coisa, isso sim, para mim inaceitável, muitos erros de grafia, muita coisa em torno de um partido que no momento atinge o mesmo patamar do SPD.

Nunca poderia imaginar, nem nos meus sonhos mais longínquos, que uma foto como essa pudesse ser alvo de reações como as que li. Elas não combinam com a minha impressão pessoal sobre a Alemanha e seus cidadãos: meu dia a dia é marcado por pessoas tolerantes, de bom senso e abertas, pessoas de pele clara e escura, com passaporte alemão e estrangeiro – com o coração no local certo. Nos poucos meses em que estou sendo alvo de um ataque racista e alvo de um ataque contra estrangeiros, fico ainda mais feliz por ter amigos assim!

Portanto é importante para mim, neste post, poder agradecê-los por seus valores e normas, seu apoio e sua abertura. O fato de nós – a Regina também – termos nos tornado alvo de um ataque de direita radical me mostrou que o que acontece comigo infelizmente não é natural. E caso você mesmo seja alvo de um ataque racista: posts racistas podem ser relatados e comunicados nas mídias sociais como tais, caluniadores de direita podem ser denunciados. Eu também fiz uso desse direito.”

Philipp Awounou

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Eigentlich habe ich für das populistische Gerede von AfD & Co. nicht viel übrig. Wer nicht erkennt, wieviel Unsinn da verbreitet wird, der ist mit vernünftiger Argumentation vermutlich eh nicht mehr zu erreichen. Seit einigen Tagen bin ich jedoch persönlich betroffen, und das möchte ich dann doch nicht unkommentiert stehen lassen:

Der eine oder andere wird sicher mitbekommen haben, dass Regina und Ich zurzeit auf ein paar Werbeplakaten zu sehen sind… eigentlich eine witzige Geschichte, die viel, viel nettes Feedback hervorgerufen hat. Danke dafür😉

Leider bin ich einigen Menschen, unter anderem denen von der AfD Nordwestmecklenburg (siehe Bild), offenbar nicht „einheimisch“ genug. Das hat zu Kommentaren und Posts geführt, die auf so vielen Ebenen falsch, schwachsinnig und boshaft sind, dass es mir echt die Sprache verschlagen hat: „Kanaken-Werbung“, „Drek Gesindel“, „Mörder“, „Vergewaltiger“, „zum Kotzen“, „Pfui Teufel“… viel Kram unter der Gürtellinie, viele Rechtschreibfehler, vieles rund um eine Partei, die in aktuellen Umfragen beinah gleichauf liegt mit der SPD.

Nicht einmal ansatzweise hätte ich mir vorstellen können, dass dieses Bild solche Reaktionen hervorrufen würde. Sie passen absolut nicht zu meinem persönlichen Eindruck von Deutschland und seinen Bürgern: Mein Alltag ist geprägt von toleranten, vernunftbegabten und weltoffenen Menschen, Menschen mit heller und dunkler Haut, mit deutschem oder ausländischem Pass – mit dem Herz am rechten Fleck. In den wenigen Momenten, in denen ich doch einmal mit Rassismus und Fremdenhass konfrontiert werde, freut mich das umso mehr!

Es ist mir deshalb wichtig, mit diesem Post eure Werte und Normen, euren Rückhalt und eure Offenheit zu feiern🎉 Dass wir – auch Regina – wegen einem Werbebild Zielscheibe rechter Parolen geworden sind, hat mir nämlich einmal mehr gezeigt, dass das leider nicht selbstverständlich ist. Und falls du selbst von Rassismus betroffen bist: Rassistische Posts kann man melden, rechte Hetzer anzeigen. Von diesem Recht werde auch ich Gebrauch machen.

Philipp Awounou

 

°°°

 

E hoje é dia de Páscoa e de (auto)reflexão. Para mim foi um momento especial ver uma cruz sendo decorada por crianças com tulipas coloridas, me passou o sentimento de que da escuridão pode vir a luz, a esperança (não só de dias mais claros e menos sombrios mas também de dias melhores para o nosso planeta Terra).

Não excluindo a corrupção que existe em outros países (o caso da Volkswagen e a da indústria automobilística alemã está aí pra servir de exemplo…), passei parte do meu feriado de Páscoa assistindo o seriado “O Mecanismo“ na Netflix, contando parte da história da Lava Jato em forma de ficção. Cheguei a esse seriado pelo tanto que li em mídias sociais com relação às críticas feitas com relação a ele, de que distorce fatos, que tem interesses políticos e não retrata a realidade… Bom, por ser obra de ficção e não um documentário, não me assusta o fato do seriado não ter seguido exatamente o decorrer dos fatos no Brasil. O que me assusta muito mais, e me embrulhou a barriga, me deu vontade de vomitar e de afundar a cara num buraco, pensando que esse seriado está sendo mostrado para 190 países no mundo, foi simplesmente imaginar que aquilo tudo é baseado realmente em fatos reais, o tal do mecanismo que o José Padilha quis mostrar que existe em vários níveis econômicos no nosso país, se repetindo ad infinitum em várias esferas, independentemente do partido político, da ideologia ou do tamanho do rombo… cada um rouba como e quanto pode. Mesmo não deixando de admirar a trama em si, o seriado em si como produção 100% brasileira, e o fato dele estar mostrando bons atores como a Carol Abras e o Selton Mello, que aliás fizeram suas próprias dublagem em inglês e ela não ficou nada mal!

Como um primo meu comentou, espero também que isso fique só num seriado e não vire uma novela interminável… felizmente a História dá voltas! Continuo esperando que outras Mariellas surjam na política brasileira pra ter coragem de denunciar e lutar contra o sistema, fazendo o que deveriam fazer como representantes do povo e não buscando um posto público simplesmente com o objetivo de auto enriquecimento. Alguém aí sabe se o Padilha já está rodando a segunda temporada do seriado?

P.S.-Conversando com um amigo, o André, logo depois que escrevi esse post, concluí junto dele que o joguinho de esquerda x direita no Brasil, ou democráticos x extrema direita na Alemanha, ou qualquer disputa de grupos dentro de uma determinada sociedade, é também PARTE do Mecanismo! Enquanto as pessoas se formam em grupos e se atacam entre si, eles lá em cima monopolizam o poder e fazem o que querem com ele! Não há lado ideológico quando se trata de uma sociedade, há UM povo e nós cidadãos temos que buscar aquilo que for melhor para o povo em conjunto, a sociedade em que estamos inseridos. Não podemos cruzar os braços e fazer parte do Mecanismo em prol dos mais ricos, alimentando ainda mais sua riqueza!

Meu irmão comentou também que dentre poucos meses nós brasileiros teremos a tarefa de votar naqueles que poderão mudar o quadro político brasileiro.

Que toda essa discussão em cima do seriado sirva para mudar algo pra melhor no Brasil e no mundo, e sirva de conscientização para as pessoas, acima de suas crenças políticas, de que a intenção e o caráter de um ser humano é que pode levá-lo a fazer algo bom, se ele tiver bons objetivos, agir de forma altruísta em prol da sociedade!…

Fonte: artigo da revista Der Spiegel de 31/03/18.

::O movimento PEGIDA não é a Alemanha!::

23/12/2014

O movimento PEGIDA (europeus patriotas contra a islamização do país), através do qual estão sendo organizadas no momento passeatas com quase 20.000 pessoas em Dresden, me assusta e me preocupa muito. Detalhe: no Estado de Sachsen moram pouquíssimos estrangeiros! Um alemão com passado dubioso resolveu criar um grupo que luta contra a islamização da Alemanha, contra estrangeiros criminosos e contra asilados politicos no país. Acontece que todo e qualquer cidadão que está insatisfeito com relação a toda e qualquer coisa está indo às ruas no momento em Dresden. Nazistas, gente que não gosta de estrangeiros, alemães insatisfeitos com o número de asilados politicos na Alemanha, aposentados insatisfeitos com sua aposentadoria, gente que vive de ajuda do governo e está insatisfeito com o que recebe, desempregados, insatisfeitos por isso e por aquilo. Os politicos estão assistindo a este movimento e não sabem ainda como reagir a ele, ao mesmo tempo que os partidos de extrema-direita tentam se aproveitar do mesmo para tentar conseguir mais aliados, participando de todas as passeatas à paisana…

Enquanto casas que estavam prontas para receber refugiados foram queimadas na Baviera, o partido CSU afirma que todo mundo tem que falar alemão por aqui mesmo se estiver entre suas quarto paredes, muitos alemães criam associações para ajudar os asilados, para ensinar alemão, ajudar a procurar casa e emprego depois dos primeiros meses na Alemanha. Há uma grande movimentação na sociedade contra e a favor dos asilados, que lida com a atual transformação da sociedade alemã. O país está ficando cada vez mais internacional e a sociedade reage, responde a este fato, tanto do lado negativo, quanto do positivo. Em quase toda grande cidade alemã moram, atualmente, mais de 100 nacionalidades. Espero que o movimento PEGIDA desapareça do mapa da mesma maneira que surgiu, e que o extremismo não encontre razão real para se expandir.

Eure Feindbilder sind so real wie der Weihnachtsmann und nichts anderes als schlecht versteckter Rassismus. Und wenn man das Land verteidigt, dadurch dass rassistische Gedanken verteilt werden, was gibt es noch zu verteidigen.

“Os seus inimigos são tão reais quanto o Papai Noel e nada além do que racismo mal escondido. E se o país é defendido através da propagação de racismo, o que mais pode ser defendido.”

Claus von Wegner, comediante alemão

Veja o que ele diz sobre o movimento PEGIDA:

Fonte: Blog Campact

::Onde está Amarildo?::

03/05/2014

Há uma loucura instalada no cotidiano brasileiro que se refere ao fato da Polícia achar que pode matar. O policial é representante do povo e é pago para protegê-lo, e não amendrontá-lo, muito menos matá-lo. Depois de mais uma morte sem sentido, quando Oscaldo Zarantini, um gerente de uma loja foi morto em São Paulo por supostamente ter “algo em punho” (um celular), li esta excelente reportagem na Yahoo afirmando que um negro tem três vezes mais chance de ser morto pela polícia no Brasil que um branco.

Estou profundamente triste e indignada com esta situação. #mudaBrasil #nãoaoracismo

Fonte: Yahoo Notícias de 24.04.14.

::GNTM – sobre o racismo na TV e internet na Alemanha::

26/04/2014

GNTM é a sigla do concurso “Germany’s Next Top Model” promovido pelo canal de TV alemã Pro7 e liderado pela modelo Heidi Klum. Apesar de eu ter meus poréns com relação ao programa, assisto-o com frequência há anos junto com a minha filha adolescente.

Atualmente há uma candidata que participa do programa e está sendo atacada na internet por ser negra: Aminata Sagona. Enquanto vários telespectadores confirmam sua beleza, outros a chamam de gorila. Segundo o artigo da revista Spiegel, enquanto os comentários racistas são apagados na página do Facebook da emissora Pro7, a própria aspirante a modelo decidiu não apagar os comentários em sua própria página, pra mostrar pras pessoas que tipo de racismo ainda existe nos dias atuais.

Fui dar uma conferida por mim mesma na página da Pro7 e achei o seguinte comentário, com 49 Likes, feito por um tal de Franz S. no dia 22.04.14 às 13:41 horas:

“Desculpem-me, mas essa mulher não é bonita. Eu não digo que eu seja bonito, mas a maioria dos telespectadores da Alemanha e da Áustria acham que ela não é bonita. O fato de que uma pessoa negra seja considerada feia e seja comparada com bichos é talvez um ato maldoso, mas não racista. Há muitos brancos que são comparados com bichos e ninguém acha que este seja um ato racista. Racismo é a discriminação de uma etnia ou o endeusamento de um povo. E o que está acontecendo aqui e está sendo promovido por brancos, é um ato de racismo, porque eles acham que essa mulher não pode ser comparada com um bicho só porque ela é negra. Isso quer dizer que ninguém pode rir a cara dela só pelo fato de sua cor estar sendo exposta. Se o Gareth Bale é comparado a um macaco, todos vão achar graça disso. Se uma modela for comparada a um macaco, isso vai ser racista. Parece que os esquerdistas sociais/políticos fazem uma diferença entre brancos e pretos, o que pode também ser considerado como um ato racista.”

Tut mir leid, aber diese Frau ist einfach nicht schön. Ich behaupte nicht, dass ich gut aussehe oder irgendwas in der Art, aber ein großer Prozentanteil der deutschen und österreichischen Zuschauer von GNTM finden sie nicht gut aussehend. Eine Person mit dunkler Hautfarbe hässlich zu finden und sie mit Tieren zu vergleichen ist vielleicht gemein, rassistisch aber nicht. Auch Weiße werden oft mit Tieren verglichen und niemand findet das rassistisch. Rassismus ist die Diskriminierung einer Ethnie oder die Vergöttlichung eines Volkes. Und das was hier geschieht und von vielen Weißen betrieben wird, ist Rassismus, weil sie finden, dass diese Frau nicht mit einem Tier verglichen werden darf, nur, weil sie schwarz ist. Sprich, man darf sich aufgrund ihrer Hautfarbe nicht über sie lustig machen, was einer Hervorhebung Maximalpigmentierter gleichkommt. Wenn Leute den weißen Fußballer Gareth Bale wegen seines Aussehens mit Affen vergleichen, lachen alle. Wenn man ein schwarzes Model mit einem Affen vergleicht, ist es rassistisch. Anscheinend differenzieren also genau gesellschafts-politisch Linke sehr wohl zwischen Weißen und Schwarzen, was streng genommen rassistisch ist.

Outro internauta, Benjamin S., fez o seguinte comentário, ganhando 20 Likes:

“Talvez os brancos achariam menos graça em brincadeiras de mau gosto se a grande maioria da população tivesse sido escravizada e oprimida.
Infelizmente brancos e negros não são “iguais”, e portanto algumas declarações são menos grosseiras para brancos do que para negros. Isso é o que pode ser chamado de racismo, querido Franz.”

Vielleicht würden Weiße es auch weniger lustig finden, wenn sie von einem Großteil der Weltbevölkerung über Jahre versklavt und gedemütigt worden wären.
Leider waren und sind für viele Menschen Weiße und Schwarze eben nicht “gleich”, und deshalb sind auch manche Äußerungen für Weiße weniger beleidigend als für Schwarze. Das nennt man dann Rassismus, lieber Franz.

Ao que eu comentei, logo em seguida:

Muito bem escrito, Benjamin S., hoje em dia uma demonstração de coragem cívica infelizmente não é uma atitude óbvia. Rir da cara de outras pessoas, não importa se forem brancas ou pretas, amarelas ou verdes, NÃO é uma atitude correta!

Bravo Benjamin Seegers, Zivilcourage heutzutage zu zeigen ist leider nicht selbstverständlich! Andere Menschen zu beleidigen, egal ob weiß oder schwarz, gelb oder grün, ist einfach NICHT in Ordnung!

E para fechar com chave de ouro, um comentário em outro artigo, publicado no jornal Die Zeit:

“E parece ser difícil de aceitar para determinados telespectadores que possa existir em um concurso de televisão uma pessoa que queira ter alguma ligação à palavra Germany e não venha nem na oitava geração da região de Unterfranken (Baviera).”

Und mancher Zuschauer scheint mit zunehmenden Verlauf dieses Fernsehwettbewerbs immer weniger zu ertragen, dass jemand, der etwas mit Germany im Namen sein will, nicht in achter Generation aus Unterfranken kommt.

O artigo acima tem também seus poréns com relação ao programa, mas afirma que ele seja importante por ressaltar a diversidade dentro da Alemanha atual e eliminar ressentimentos do passado. De qualquer maneira é duro constatar, mas infelizmente há ainda muito preconceito no mundo! Importante ressaltar porém: a Alemanha definitivamente (e infelizmente) não está sozinha neste barco!…

Site da candidata Aminata Sagona no Facebook.

Fontes: artigo da revisa alemã Der Spiegel de 24.04.14, artigo do jornal Die Zeit die 25.04.14.

::Reportagem da Veja sobre o Sarrazin::

24/10/2010

Em anexo uma reportagem da Veja sobre o livro do Thilo Sarrazin que a leitora Talia teve a bondade de escanear e me enviar por e-mail. Obrigada, Talia! Notem bem no finalzinho um detalhe interessante sobre a ironia do significado do sobrenome Sarrazin, que vem do árabe e significa “muçulmano”…. E quem é que ele combate mesmo? Isso está me cheirando a Hitler!…

Boa semana!

Fonte: reportagem “Uma tese perigosa”, edição da Veja de 15/09/10.

::361°C de Tolerância / 361°C Toleranz::

29/08/2009

O Youtube lançou uma campanha junto do movimento “Laut Gegen Nazis” (Falando alto contra os nazistas) para que estudantes aqui na Alemanha façam vídeos a favor da diversidade, da tolerância e contra o racismo.

A campanha conta com o apoio da chanceler Angela Merkel e de muitos artistas e personalidades, dentre eles a banda de rock alemã Silbermond. Os prêmios são atrativos: um concerto da banda na escola do grupo ganhador da campanha, uma viagem a Berlim e distribuição de câmeras para produção de vídeos entre os participantes ganhadores. Mas o mais bonito é o sentido da campanha. Ela afirma o seguinte:

Façam seu filme a favor da tolerância – contra a discriminação e o racismo!

Como pode ser que a intolerância e a discriminação, também entre jovens e nas escolas, estejam crescendo na Alemanha?

Com a campanha “361°C de Tolerância” vocês podem mostrar que são contra este desenvolvimento e que não querem apoiá-lo. Façam seu filme a favor da tolerância e o entreguem para o concurso. Podem ser feitos filmes de curta duração, uma reportagem ou um vídeo de música relacionado ao tema. O grupo Silbermond vai cantar na escola do grupo vencedor em novembro!

Dêem uma olhada nos vídeos da campanha aqui. Principalmente o vídeo com várias personalidades comentando o que significa a campanha “361°C de Tolerância” e o que significa ser tolerante vale muito a pena ser visto!

***

Dreht euren Film für Toleranz – gegen Ausgrenzung und Rassismus!

Wie kann es sein, dass Intoleranz und Diskriminierung in Deutschland auch unter Jugendlichen und an Schulen wieder zunehmen?

Bei „361° Toleranz” könnt ihr ein Zeichen dafür setzen, dass ihr diese Entwicklung nicht hinnehmen wollt und anders seid. Dreht euren eigenen Film zum Thema „Toleranz” und reicht ihn hier beim Videowettbewerb für Schüler ein. Schnappt euch eine Kamera, motiviert eure Freunde und Mitschüler und produziert einen Kurzfilm, eine Reportage oder ein Musikvideo zum Thema. Für die Gewinner des Wettbewerbs spielen SILBERMOND im November exklusiv an deren Schule!

::Racismo na Alemanha::

26/03/2009

As conclusões de um estudo (Jugendliche in Deutschland als Opfer und Täter von Gewalt – Jovens na Alemanha como Vítima e Origem da Violência) encomendado pelo Ministério do Interior e divulgado na última terça-feira, dia 17.03.09, são assustadores e preocupantes. Foi feita uma pesquisa com 20.000 jovens alemães entre 14 e 16 anos, e nela foi constatado que 40,4% tem tendência racista e 2/3 deles (64,5%) concordam total ou parcialmente com a afirmação de que existem estrangeiros demais na Alemanha. 45% deles acham que os estrangeiros que vivem na Alemanha não enriquecem a cultura local. Em geral, os meninos são bem mais racistas do que as meninas. Quanto menor o nível de estudo, maior o preconceito.

Se os jovens alemães têm tendências xenófobas, qual será o nível da xenofobia entre os adultos na Alemanha? É sabido que toda criança nasce sem preconceitos. Somos nós, os pais, que passaremos para a criança o conceito do que é “certo” e do que é “errado”, pois elas aprendem a ver e a interpretar o mundo (até uma determinada idade) através de nossos olhos. Mais tarde, o círculo de amizades e as opiniões das mídias locais, que certamente em grande parte têm aqui uma tendência excludente com relação ao estrangeiro, completam este círculo vicioso.


Mas muito mais importante do que ficar questionando o nível da xenofobia no país, a meu ver, é não se deixar paralisar por este tipo de notícia e buscar maneiras positivas de interagir com a população local. Na troca os preconceitos se vão e a semente da amizade pode ser plantada, crescer e se enraizar neste solo. Hoje por exemplo fui convidada para participar de um fórum chamado “Café del Mundo”, onde pessoas de mente aberta, de qualquer nacionalidade, cidadãs do mundo, discutem sobre os ideais do respeito ao próximo, a outras maneiras de ver o mundo, buscando conhecer-se entre si com o intuito de aprender (e crescer!) conjuntamente. Há várias maneiras como podemos interagir positivamente com o meio onde estamos. E é isso que importa. Que o resultado desta triste pesquisa de hoje não perdure no futuro. A Alemanha de hoje, na qual 25% da população é estrangeira ou de origem estrangeira, já é há muito um país multicultural.

::Ataque racista em Potsdam::

29/04/2006

Semana passada durante a Páscoa dois homens agrediram um engenheiro alemão de origem africana de 37 anos, pai de dois filhos, casado com uma alemã. Até hoje ele se encontra no CTI daquela cidade, em estado de coma. Por sorte, ele conseguiu que parte das agressões por ele sofridas fossem gravadas na secretária eletrônica de sua esposa, pois ao perceber que a situação estava ficando séria para o lado dele, ainda teve controle para apertar no botão do seu celular, que refez sua última ligação. Ao descobrir este trecho da conversa, cheio de agressões do tipo “negro” e da pergunta “você não tem pátria?”, a polícia montou uma comissão de 25 investigadores que passaram a oferecer 5.000 euros para pessoas que pudessem identificar os agressores. Alguns dias depois foram presos dois alemães, ambos apresentaram alibis de que estavam em outro lugar no momento do ataque. Mas pelo menos um deles está provavelmente envolvido no crime, pois foram encontradas provas do seu DNA em uma garrafa de cerveja quebrada encontrada no local onde este ocorreu.

Depois que o inadimissível aconteceu, já se passaram vários outros episódios relacionados à notícia. Primeiro o governo alemão decidiu que o caso não seria tratado pela polícia de Potsdam mas sim a nível nacional, pois um caso como este põe em risco a segurança do país. Várias mil pessoas em Potsdam foram às ruas e realizaram passeatas contra os neonazistas e contra o racismo. Políticos comentaram e tentaram justificar o fato, tentando evitar que se tirem “conclusões precipitadas” sobre o mesmo, um deles dizendo que “há também pessoas loiras de olhos azuis que se tornam vítimas de atos de violência, em parte, cometidos por pessoas que possivelmente não têm a cidadania alemã. Isso também não é melhor” (triste afirmação, do começo ao fim). Por fim, neste final de semana o jornal sensacionalista BILD levantou várias informações desnecessárias e lançou dúvidas sobre o motivo racista dos agressores. Este jornal afirmou que tanto o engenheiro atacado quanto seus agressores se encontravam alcoolizados, e do contrário do que se supunha no início, o agredido não teve fraturas nas costelas mas caiu ao ser atingido por seus agressores por um “único” soco em seu olho, e por estar alcoolizado “não foi capaz” de se sustentar em pé! Disseram que a gravação encontrada como prova do crime dava mostra somente de pessoas alcoolizadas com dificuldade de fala (o que é praticamente uma mentira, pois eu ouvi a gravação várias vezes e ela está quase perfeita). Por fim, hoje li que o prefeito da cidade de Potsdam considera, de forma sensata, que não se deve ficar especulando sobre o caso enquanto o agredido continua no hospital à beira da morte, em estado de coma. E ainda afirmou que “em Potsdam há racismo, e nós temos que lidar com ele”.

Eu, da minha parte, fiquei irada com tudo isso. Por que uma pessoa negra é agredida neste país e ao invés de especularem tanto sobre as razões dos agressores não se tenta aprender com o ocorrido, não se enfrenta o problema de frente? O racismo existe sim, os problemas de integração de estrangeiros são muitos, há resistência tanto por parte de alemães pouco esclarecidos quanto do lado de certos grupos estrangeiros que já estão aqui há muito tempo e se negam a aceitar vários princípios democráticos e/ou dos Direitos Humanos. Por que não se aproveita o ocorrido, à beira do início da Copa do Mundo em solo alemão, quando tantas pessoas das mais variadas nacionalidades estarão visitando este país, e não se inicia uma campanha pró-multicultural, levantando e dando exemplos dos tantos fatores positivos da mistura de culturas, não se discute que tipo de qualificação será incentivada pelo governo e bem-vinda para que se possa preencher os vários cargos que continuam vagos por não haver mão-de-obra qualificada dentro do país, não se inicia uma campanha esclarecedora de que não existe uma resposta simples para os complicados problemas atuais do pais (p. ex. o alto nível de desemprego) e que esta resposta simples não pode ser só a presença de estrangeiros e que estes, trabalhando e vivendo aqui, contribuem para que o sistema social e a economia do país continuem em funcionamento?

No começo de minhas leituras sobre o caso uma coisa que muito me chamou a atenção foi o fato da própria imprensa ter tido dificuldade de noticiar o fato, dando várias conotações a este homem, chamando-o de negro etíope com passaporte alemão, alemão negro de origem etíope, alemão-africano, alemão de origem africana, e ainda sobre sua profissão, qualificando-o como engenheiro do meio-ambiente perto da Promoção, colocando que ele estava desenvolvendo pesquisas que pretendia colocar em prática em trabalhos posteriores junto ao 3° Mundo. Uma coisa positiva que citaram logo de cara, se não fosse a tristeza do ocorrido, foi que se os políticos andavam procurando por exemplos de integração bem sucedidos no país, este homem era um exemplo impecável de alguém que veio aqui para estudar, mora aqui há 19 anos, adquiriu a nacionalidade alemã, casou-se com uma alemã, teve dois filhos, trabalha aqui e fazia sua Promoção. Mas isso tudo não justifica nem deixa de justificar o maltrato dado a esta pessoa. Independentemente de sua posição social, era uma pessoa como outra qualquer que queria se locomover dentro de uma cidade e foi agredido, roubado e maltratado (quase) à morte.

Pois é. Olhar para uma pessoa e tomar conclusões precipitadas de quem ela é é fácil. Estou dizendo isso pra mim também. É preciso evitar o preconceito latente e ver em cada ser humano uma pessoa com direitos e deveres, onde quer que ela se encontre nesta face da Terra, como cidadã do mundo. E se ela for imigrante, provavelmente estará em busca de melhores condições de vida, para si e para sua família. Hoje eu sou imigrante num país estranho. Ontem foram meus antepassados, que emigraram da Europa para o Brasil, também em busca de muito daquilo do que vim buscar aqui.

É possível dar respostas plausíveis e reais sobre questões complicadas tais como a integração e procurar soluções praticáveis para os problemas econômicos enfrentados pela Alemanha nos dias de hoje. Se isso foi possível nesta reportagem da “Deutsche Welle”, por que não é possível realizar-se uma campanha nacional neste sentido, dando “nome aos bois” e procurando alertar, informar, esclarecer o cidadão e frear o avanço de movimentos da extrema direita tais como o do partido NPD?

Pós-escrito: há excelentes jornais na Alemanha que não fogem da realidade do país e fazem jornalismo de primeira categoria. Um exemplo é o Süddeutsche Zeitung (jornal do sul da Alemanha). Esse artigo é absolutamente imperdível (em alemão)!!!


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