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Posts Tagged ‘sabedoria’

::Sêneca e a constância do sábio::

23/03/2015

Sigamos com a reflexão em torno do texto de Sêneca, A CONSTÂNCIA DO SÁBIO, buscando suas contribuições sobre a arte de enfrentar problemas nos relacionamentos humanos, especialmente as injúrias ou ofensas graves e as contumélias, ou insultos leves.

Comecemos pela lúcida assertiva abaixo:

“Não há nada, na Natureza, de tão sacro que não seja atingido por algum desrespeito”. (Sêneca: 2007, p. 25)

Sêneca nos afirma, em seu distante tempo histórico, que nem as coisas divinas estão fora do desejo de alguém intentar contra sua magnitude, fato ainda e tão mais presente nos dias de hoje, quer através da negação de Deus, do sectarismo religioso e até de posturas belicosas e destrutivas, em nome do sagrado.

O homem que busca ser virtuoso, claro, deve estar consciente de que está infinitamente mais exposto aos ataques daqueles que querem alvejá-lo, apenas porque movimenta-se para a luz, só por isso.

Para esse enfrentamento, Sêneca identifica como importante a atitude de reação perante injúrias e insultos como um exercício de paciência, ânimo e capacidade de armazenar energia para prosseguir e não se deixar abater.

No capítulo II, o autor busca distinguir entre injúria ou ofensa e a simples contumélia, ou seja, o insulto provocativo de pouca monta ou importância.

A injúria, esclarece, é mais grave do que o insulto, pois busca intencionalmente fazer o mal a alguém, diminuir esse alguém. Se esse alguém já se tornou sábio, no entanto, olhará o fato sem se alterar, convicto de que nada interior perde pois, se já tem a virtude, essa injúria não lhe atingirá em sua intimidade e profundidade. Ilustrando a idéia exposta Sêneca lembra o exemplo do filósofo Estilpão ao responder a Demétrio, conquistador de sua cidade, Megara, se havia sido espoliado de alguma coisa, ao dizer: “NADA PERDI. TUDO O QUE É MEU ESTÁ COMIGO”. Sábia resposta para quem tinha sido espoliado nas coisas materiais, mas que conservava, incólume, suas conquistas, seu verdadeiro tesouro: idéias, valores, virtudes.

Sêneca apresenta a afirmativa síntese de Estilpão, nos termos seguintes: “EU, DE MINHA PARTE, APESAR DE TUDO TER PERDIDO, MANTENHO-ME NA POSSE PLENA DO QUE ME PERTENCE.”

Continuando a apresentar seus argumentos a partir do exemplo de Estilpão, o autor considera que a injúria pode acontecer sempre, pois é fruto da ação deliberada de alguém, mas não significa que tenha ressonância junto àquele que é sábio, capaz de suportar golpes tais como: “acusador contratado, pedras caluniosas, poderosos irritados e roubalheiras…”(idem, p. 43).

Somos humanos e, por essa razão, Sêneca entende que ninguém recebe uma injúria sem alguma perturbação, ainda que rápida, mas se esse alguém já é um sábio, mantém-se firme, bem disposto e bem-humorado, paciente e com grandeza de alma.

A partir do capítulo VII, o filósofo estóico analisará a contumélia, ou insulto, uma ofensa menor, mais queixume do que maldade ou vingança.

Os melindres e os desejos de destaques não atendidos, quando interiorizados, tornam algumas pessoas alteradas emocionalmente e que passam a se apresentar como indivíduos soberbos e insolentes.

CONTUMÉLIA é palavra derivada do vocábulo “desprezo”, diz o autor em destaque. Os indivíduos que agem movidos por essa emoção são denominados de “adultos criançolas”, o que hoje chamaríamos de indivíduos imaturos, que mesmo se encontrando na fase adulta fisiológica, mantêm fortes traços comportamentais infantilizados.

O sábio reage a esses como quem enfrenta crianças que brincam de modo desagradável, exigindo corrigenda. A reação do sábio é como a do médico diante do paciente que manifesta sua fraqueza e criancice. O médico é seguro e o sábio reage com segurança às contumélias diversas, às grosserias, tentativas de corrupção e até bofetadas, por identificar a infantilização de seus autores.

Nos capítulos seguintes, Sêneca comenta a fragilidade do enlouquecido Imperador Calígula ao enfrentar e fomentar as contumélias e destaca as reações sábias dos gregos Sócrates e Antístenes.

Finalmente, com grande sabedoria, o filósofo estóico recomenda que não nos fixemos nessas pequeninas coisas sob pena de comprometermos nossa tarefa de realizar as coisas necessárias à aquisição da sabedoria, pois não há quem não esteja apto a desferir a contumélia, já que ela está ao alcance de todos.

De modo brilhante, conclui que há o aspirante a sábio e o verdadeiro sábio diante das injúrias e insultos. O primeiro é o homem, o segundo é o sábio. O primeiro luta, o segundo já desfruta da vitória.

O recado final de Sêneca fica para meditação de todos nós:

“CUIDA ENTÃO DE DEFENDER O LUGAR QUE A NATUREZA TE OUTORGOU.”

Que lugar é esse? A sabedoria.

PALAVRAS FINAIS

Nesses tumultuados dias onde em nossa comunidade as acusações, ofensas e contumélias se apresentam entre nós, somos todos chamados, absolutamente todos, a meditar em torno das nossas atitudes e sentimentos nos relacionamentos que travamos no interior das Casas e do próprio Movimento como um todo. As recomendações do Evangelho à luz da Doutrina Espírita aí estão a nos esclarecer quanto ao melhor caminho a seguir nos difíceis e intrincados processos de convivência social, naturalmente reveladora de conflitos, porque humana. Evidente que devemos, por outro lado, desenvolver estratégias e criar espaços de discussão em torno de questões sobre as quais precisamos de esclarecimento ou possuímos pensamento divergente. Isso, porém, é responsabilidade de todos, a ser construída coletiva, fraternal e sabiamente, como diriam os estóicos.

Bibliografia:
JAPIASSÚ, H. & MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. 3ª ed. RJ: Jorge Zahar ed., 1996.
SÊNECA. A Constância do Sábio. SP: ed. Escala , 2007.

Fonte: site do Divaldo Franco.

::Sinais de velhice e de alguma sabedoria::

25/12/2013

Você percebe que está ficando velha quando descobre, sem aviso prévio, mais um cabelo branco na cabeça. Quando reclama sobre isso com suas amigas, muito decepcionada como o fato, percebe que na realidade você deveria agradecer por ter tão poucos deles e por não precisar pintar suas mechas, enquanto todas elas já pintam há anos…

Você percebe que está ficando velha, mas acima de tudo agradece por isso, porque sua filha começa a te sugerir bons filmes e livros. E o lado bom da coisa é que você sabe que ela te conhece muito bem, sabe aquilo que te interessa e as dicas acertam mesmo em cheio! Desta vez foi a vez do filme THE HELP, boa pedida pra todo mundo que gosta de filmes instigantes e que te fazem pensar em desigualdades, muitas vezes consideradas naturais, infelizmente ainda nos dias de hoje.

Bonito também, e já meio nostálgico, foi o fato de ter acompanhado praticamente o último ano em que meu filho ainda acredita no Papai Noel. Ele, binacional e filho de expatriada, foi esperto e duplicou as crenças, fazendo um pedido pro Christkind, o menino cristão que é quem traz presentes pros alemães, juntando a um pedido para o Papai Noel, assegurado por preces ao Papai do Céu pra ter certeza absoluta mesmo de que algo iria ser ouvido, onde quer que o velhinho estivesse. Este ano também foi talvez o último que meu filho andou de carrossel, pois ano que vem pode ser mesmo que a vergonha seja tão grande que ele não se atreva a andar de novo. Enquanto ele andava no brinquedo, meus olhos sorriam e meu coração se enchia de amor…

Os anos passam… e com eles novas alegrias e muitas vivências. Mas acima de tudo, bem acima de tudo, muita coisa para agradecer. Agradeço por tanto… E quero continuar a caminhada espalhando, sempre que possível, paz e amor, ou pelo menos se não for correspondido, pelo menos respeito pelo ser humano, que muitas vezes me surpreende com todas as suas facetas, tanto as mais nobres, quanto como com as mais podres. Uma meia frase, ou mesmo algumas palavras, te reportam pra algum cantinho que julgava estar superado e sepultado na sua memória, e feridas antigas correm o risco de voltar à tona. Se voltam, tem que ser trabalhadas de novo, tem-se que fazer de novo a paz com o passado e também com os desafios do presente. Bom assim, também algo por agradecer, pois do contrário eu seria uma morta-viva. Se pensamos direitinho, até em coisas ruins há algo bom. As histórias de nossas vidas estão aí pra ser analisadas e contadas, e cada um analisa e conta aquilo que quer – ou que consegue, ou quer, entender.

Escrito no Natal de 2013 – enquanto ouvia um super CD pela internet, o “Frank and Back to Black” da Amy Winehouse.


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