Posts Tagged ‘sociedade’

::O movimento PEGIDA não é a Alemanha!::

23/12/2014

O movimento PEGIDA (europeus patriotas contra a islamização do país), através do qual estão sendo organizadas no momento passeatas com quase 20.000 pessoas em Dresden, me assusta e me preocupa muito. Detalhe: no Estado de Sachsen moram pouquíssimos estrangeiros! Um alemão com passado dubioso resolveu criar um grupo que luta contra a islamização da Alemanha, contra estrangeiros criminosos e contra asilados politicos no país. Acontece que todo e qualquer cidadão que está insatisfeito com relação a toda e qualquer coisa está indo às ruas no momento em Dresden. Nazistas, gente que não gosta de estrangeiros, alemães insatisfeitos com o número de asilados politicos na Alemanha, aposentados insatisfeitos com sua aposentadoria, gente que vive de ajuda do governo e está insatisfeito com o que recebe, desempregados, insatisfeitos por isso e por aquilo. Os politicos estão assistindo a este movimento e não sabem ainda como reagir a ele, ao mesmo tempo que os partidos de extrema-direita tentam se aproveitar do mesmo para tentar conseguir mais aliados, participando de todas as passeatas à paisana…

Enquanto casas que estavam prontas para receber refugiados foram queimadas na Baviera, o partido CSU afirma que todo mundo tem que falar alemão por aqui mesmo se estiver entre suas quarto paredes, muitos alemães criam associações para ajudar os asilados, para ensinar alemão, ajudar a procurar casa e emprego depois dos primeiros meses na Alemanha. Há uma grande movimentação na sociedade contra e a favor dos asilados, que lida com a atual transformação da sociedade alemã. O país está ficando cada vez mais internacional e a sociedade reage, responde a este fato, tanto do lado negativo, quanto do positivo. Em quase toda grande cidade alemã moram, atualmente, mais de 100 nacionalidades. Espero que o movimento PEGIDA desapareça do mapa da mesma maneira que surgiu, e que o extremismo não encontre razão real para se expandir.

Eure Feindbilder sind so real wie der Weihnachtsmann und nichts anderes als schlecht versteckter Rassismus. Und wenn man das Land verteidigt, dadurch dass rassistische Gedanken verteilt werden, was gibt es noch zu verteidigen.

“Os seus inimigos são tão reais quanto o Papai Noel e nada além do que racismo mal escondido. E se o país é defendido através da propagação de racismo, o que mais pode ser defendido.”

Claus von Wegner, comediante alemão

Veja o que ele diz sobre o movimento PEGIDA:

Fonte: Blog Campact

::Algumas verdades sobre meninos e meninas::

10/03/2014

Observem o homem na primeira fileira ao lado de uma mulher loira, ao longo da palestra. Todos deveríamos ser feministas!

::Onde está o mal?::

27/07/2011

O final de semana passado me marcou por vários motivos. O primeiro, o principal, pela mente insana do norueguês que passou quase 10 anos planejando um ato de terror, motivado pela fobia contra muçulmanos e estrangeiros que ocupam a Europa, que ele quer deixar “limpa” de novo sem nós (eu e você que está lendo este texto e mais alguns outros por aí). O que mais me deixou literalmente boba foi o fato dele ter resolvido matar tantos jovens só com o objetivo de se auto-promover. Por ter incluído no seu minucioso planejamento o fato de não ter se matado como todos os outros loucos anteriores e por ter escrito um “manifesto” de mais de 1.500 páginas, ele conseguiu lançar uma campanha de marketing das mais inusitadas e, infelizmente, cujo sucesso repercutiu em todo o planeta. Foi por isso que ele conseguiu afirmar que o ato cometido foi “cruel, mas necessário”. Como o tal do “manifesto” do rapaz foi espalhado por ele 7.000 vezes na net antes dele sair para matar pessoas a torto e direito, não foi difícil achá-lo e ler algumas partes do mesmo, onde ele explica que não há igualdade entre os seres humanos, dá uma aula de maldades e convoca outros loucos a seguir seu exemplo. Lendo aquela loucura toda, entendi que pra ele valeu a pena fazer o que fez, pois se projetou no “mundo do mal” para um dos primeiros lugares do planeta, e para nós, cidadãos do mundo, um dos últimos. Uma busca pelo nome dele no Google aponta: hoje há 10.400.000 páginas sobre ele. Que pena!… A Noruega ficou embasbacada ao perceber que o mal não vinha de fora, mas tinha nascido e tinha sido criado, educado e formado dentro do país. O mal já estava lá o tempo todo e eles não sabiam. Independentemente de sua origem, quem poderia imaginar que um ser humano pudesse ser capaz de uma barbaridade dessas, ainda mais cometida contra jovens inocentes, acertando em cheio o cerne de uma sociedade aberta, multicultural e democrática? A parte curiosa da coisa fica o nome do infeliz: ele se chama “Anders“, o que significa “diferente” em alemão. Põe diferente nisso!

Enquanto pensava nisso tudo, no sábado o mal apareceu pra mim, ainda que bem de leve. Eu também nem pensava mais que ele morava bem ao lado e fui, como em todo sábado, fazer compras no supermercado com o Daniel, que me chamava aqui, me mostrava algo lá, como em todo sábado. No final das compras coloquei, com a ajuda dele, tudo na esteira e senti minhas pernas tremerem ao notar que minha carteira tinha sido roubada de dentro da minha bolsa! Lá se foram dinheiro, cartões de banco e documentos, e no lugar da carteira ficaram alguns telefonemas para bloquear os cartões, uma ida à polícia local e a certeza de que não voltarei a viver tão “leve, livre e solta” como antes. A preocupação com meus pertences tomou conta do meu sábado à tarde, ainda que por outro lado reconheci ter tido sorte no azar, pois tudo poderia naturalmente ter sido mil vezes pior. Desejei que o autor do roubo esteja realmente precisando do dinheiro, e desejei reencontrar meus objetos pessoais, fotos da família e lembranças da juventude que carregava comigo há tantas décadas.

Por fim, a notícia da Amy Winehouse me fez também pensar que o mal mora dentro de nós mesmos, muitas vezes na incapacidade humana de evitar ou parar coisas que não fazem bem ao corpo e ao espírito tais como cigarro, álcool e drogas, que matam e levam do mundo pessoas com um talento tão grande quanto o dela. Que ela esteja num lugar bem legal, cantando para os anjos e vivendo mais sossegada do que foi possível viver aqui, sortuda por ter alcançado tanto sucesso, mas sem sorte por ter sido vítima do mesmo.

O mal está em todas as partes. E quando menos esperamos, ele volta a dar as caras. Por outro lado, o mesmo se dá com o bem. Que pensemos nisto!

::Passeio Socrático::

29/09/2010

Autor: Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’. ‘Que tanta coisa?’, perguntei.. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias!

Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual… Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…

A palavra hoje é ‘entretenimento’. Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
 
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, ­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’

O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor..

Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas.

Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático’. Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:´Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!”

::Até que enfim posso ser eu::

17/05/2010

Vi no último final de semana o documentário “Até que enfim posso ser eu – o longo caminho até chegar a mim mesmo” que me ensinou muito em termos de sexualidade feminina e masculina. Existem no mínimo 50.0000 transexuais (em alemão: transexuelle / transgender) na Alemanha. A transexualidade caracteriza pessoas que nasceram biologicamente com um sexo, mas se sentem e querem viver no sexo oposto. Este número pode ser ainda maior, pois o fato não é tratado de forma aberta pela sociedade e várias pessoas afetadas temem a reação de suas famílias e amigos.

Eu não sabia que isso era possível. Da mesma forma não sabia que os travestis só querem se vestir como uma mulher, mas não querem passar a viver como uma mulher, do contrário dos transexuais, que se tiverem o desejo íntimo e o ímpeto de viver como uma mulher, farão de tudo para ser aquilo que consideram ser. Vi no documentário vários homens que se transformaram em mulheres e o contrário, sendo que a transformação de mulher para homem é a que mais envolve cirurgias. Uma moça teve que passar por 14 operações para deixar de ter seios, vagina e útero, e no lugar deles recebeu um órgão masculino capaz até de ereção mecânica, usando para tanto parte da pele/tecido dos seios e do braço.

Do contrário, apresentaram três casos de homens casados com desejos femininos. Um deles vivia uma vida de sucesso, era casado e tinha uma filha. Ele(a) fez todas as operações necessárias para se tornar uma mulher, recebeu apoio da mãe, mas perdeu o contato físico com a ex-esposa e a filha, que só querem manter contato por telefone e só a tratam pelo nome masculino. Ela se tornou uma mulher, encontrou um namorado e se casou alguns anos mais tarde, realizando seu sonho, de ser princesa por um dia. O outro também era casado e tinha uma filha, trabalhava como elétrico e um belo dia também resolveu dizer a verdade para sua esposa. Para ela o mundo caiu a princípio, mas com o tempo a esposa passou a aceitar o lado feminino do marido, que foi se transformando em mulher, e foi aceito também pela filha. Hoje eles continuam juntos, casaram-se novamente há alguns anos atrás como prova de seu amor, consideram que o amor ficou até mais forte e a elétrica, agora em corpo feminino, conseguiu manter seu emprego e sua vida intactos. Mostraram ainda um terceiro caso, o de um homem casado que um dia contou para sua esposa que adorava andar vestido como mulher. Esta resolveu aceitá-lo como ele era e hoje ele vive feliz, homem no dia-a-dia, e mulher durante parte de suas horas de lazer.


A transformação de mulher para homem não é menos fantástica. Quem aí ousaria dizer que este homem lindo acima, Bastian Buschbaum (mais fotos aqui), um dia já foi mulher e se chamava Yvonne?!? Ele escreveu um livro contando como foi o processo de deixar de ser uma atleta famosa e passar a ser um homem, intitulado Blaue Augen bleiben blau: Mein Leben (Olhos azuis continuam azuis: minha vida). No documentário foram mostrados vários outros casos, até o de um garoto de 13 anos, que desde há pouco tempo está podendo viver como menino apesar de ter nascido como uma menina, recebendo o apoio dos pais depois de um longo caminho de desencontros e desentendimentos e muita agressão para consigo próprio e para com a sociedade.

Por último, o documentário mostrou uma combinação que eu não sabia que existia: a de pessoas que vem ao mundo literalmente com ambos os sexos. No passado a família ou os médicos definiam qual seria o sexo da pessoa, na esperança de que ela se identificasse com a escolha. Mostraram alguns casos de pessoas que não puderam se identificar com a decisão feita por ocasião de seu nascimento, tendo passado a viver como homens ou mulheres, literalmente renascendo para o mundo no sexo oposto. O documentário procurou mostrar como a sociedade e a medicina estão mudando com o passar das décadas, se abrindo, aceitando casos diferentes e que a medicina vem se especializando para proporcionar a essas pessoas a possiblidade de viver com o corpo que consideram ser seus, tal como desejam.

Um caso chocante é mostrado no final: um homem hoje com 48 anos, Thomas, que nasceu com os dois sexos mas os pais nunca lhe contaram do acontecido. Ele foi obrigado a tomar hormônios sem saber o que estava tomando, e aos 19 anos fez uma operação para retirar seu útero, e só foi descobrir isso anos depois. Agora ele está movendo um processo contra o médico que fez a operação na época, entrou com um outro processo para poder alterar seu nome para Christiane, toma hormônios femininos mas mesmo assim não se sente feliz com seu corpo, por parecer um homem, resultado do tratamento de hormônios masculinos do passado. Ele disse não saber o que é um relacionamento, não tem amigos e se sente sozinho, mas finalmente descobriu quem é: uma mulher.

O documentário mostrou que a onda de pessoas que passaram a viver como gostariam aumentou com a advinda da internet. Foi através da internet que várias destas pessoas buscaram ajuda para se encontrarem com outros que passavam pela mesma situação e poderem entender melhor o que se passava com elas próprias. O documentário mostra que há mais verdades na Terra do que aquilo que conseguimos enxergar com nossos próprios olhos, que o Universo é mais complexo e diversificado do que imaginamos. Todos os exemplos apresentados servem para esclarecer, ensinar e apelar pela compreensão da sociedade, contribuindo para a diminuição do preconceito e da discriminação, pois a pessoa que nasce em outro corpo quer afinal aquilo que todos nós queremos: ser felizes e sentir que chegaram onde queriam ter chegado.

Para ver um pequeno resumo do documentário, clique aqui. Para ler mais sobre o documentário em alemão, clique aqui.

Fonte: documentário de 15/05/10 “Endlich ich – der richtige Körper für mein Leben” (Até que enfim posso ser eu – o corpo certo para minha vida), produção da Vox/Spiegel TV.

::O novo look da Susan Boyle::

25/04/2009


Eu vi hoje algumas fotos da transformação pela qual a Susan Boyle, participante do programa “Britain’s Got Talent” passou nos últimos dias. Eu não consigo ver uma transformação dessas só pelo lado positivo. Havia sido feita uma pesquisa de opinião na Inglaterra onde 52% das pessoas achavam que ela deveria mudar seu estilo e 48% das pessoas afirmaram que gostavam dela como ela é. Aí é que está a questão para mim: mudar de estilo por motivos internos está naturalmente 100% certo, mas eu sou contra a idéia de mudar para ser mais aceito ou mais respeitado ou caber mais dentro daquilo que a sociedade afirma ser a correta forma de agir, vestir, etc. Ela havia ganho minha simpatia não só por sua tremenda voz, mas também por sua autencididade. Que ela tenha mudado por vontade própria!

Enquanto isso, no Brasil, ela já virou Susan “Bola”… Consegue rir com uma charge dessas?

Fontes: Der Spiegel, Kleine Zeitung, msnbc, charges.com.br.

::A Alemanha é uma sociedade machista?::

03/02/2009

Recebi da Maira um link para um artigo da Globo, que interpreta as recentes mudanças na sociedade alemã (quanto à liçenca-maternidade, dentre outras) como uma redução do machismo existente no país. Mas será que a Alemanha é mesmo machista?

Nas escolas, os grandes problemas atuais são o fato de que as meninas sempre tiram notas maiores que os meninos, e que os meninos sofrem mais preconceito e enfrentam mais problemas dentro da sala de aula. O fato é que meninas são comumente mais calmas, mais aplicadas, menos rebeldes, e isso se reflete no relacionamento aluno-professor. Ponto pras mulheres. O outro problema independe de sexo, é o fato de que os filhos de imigrantes têm menos chances de conseguir continuar seus estudos em escolas que os permitam chegar até à universidade, pois um grande problema alemão é que a origem social influencia, e muito, o destino das crianças já na época escolar.

Com o fato de que as meninas serem mais aplicadas na escola, não resta sombra de dúvida de que há mais mulheres nas universidades alemãs do que homens. Ponto pras mulheres.

Aqui, como em qualquer lugar no mundo, a mulher costuma receber menos pelo mesmo serviço prestado por homens, o que não é portanto uma peculiaridade da Alemanha. Os postos de liderança são ocupados, em sua maioria, por homens, apesar de que a presença feminina vem aumentando a cada ano, mas isso também existe no mundo todo. Portanto, com relação ao ambiente de trabalho, zero a zero. Aliás, o que eu complementaria é que meus olhos brasileiros ainda se “assustam” aqui vendo mulheres dirigindo ônibus, caminhões, fazendo enfim todo e qualquer tipo de serviço considerado “serviço de homem”.

Há 13 anos atrás, quando voltei ao trabalho depois que minha filha nasceu, enfrentei um grande preconceito por parte das pessoas em geral pelo fato de querer (ter que) trabalhar depois de poucos meses que ela tinha nascido. Ao chegar na empresa, fui recepcionada por uma colega de serviço com a seguinte pergunta: “mas o que você está fazendo aqui?”. Isso já mudou muito com relação ao nascimento do Daniel. Todos na empresa sabiam que eu voltaria, e ninguém me perguntou por que quando isso de fato aconteceu.

Entre um nascimento e outro, passaram-se 10 anos. Nestes anos a Alemanha passou a depender mais de mão-de-obra qualificada, que muitas vezes tem que ser buscada no estrangeiro, e com isso lembrou-se de seu diamante não lapidado dentro do próprio país: das mulheres. Para mim está claro que a mudança de postura do país não se deveu ao fato de que que o país passou a ser menos machista, mas acima de tudo menos conservador e tradicional, pois se hoje o modelo de pai trabalhando e mãe em casa que existia há alguns anos está virando peça de museu, isso acontece muito mais por questões econômicas do que sociais. Na realidade, retrocedendo a existência da mão-de-obra feminina na história alemã, ela parece ser um coadjuvante importante, mas muitas vezes secundário, como um enorme urso polar fazendo sua soneca de inverno. Todas as vezes que ela é necessária, é incentivada ao trabalho (como agora e logo depois da Segunda Guerra). Todas as vezes que não é necessária, muda-se a postura com relação às mulheres. E o interessante é que como o país è muito tradicional, até a mulher parece acabar apoiando esta postura.

Resta saber se este “ioiô” com as mulheres vai continuar de agora para frente dentro da Alemanha, ainda mais levando-se em conta que hoje em dia o cargo mais importante no país (sendo a primeira vez que uma mulher chega a ele), o de chanceler e governante do país, é ocupado por uma mulher, a Angela Merkel (bastante masculina, isso sim, mas altamente inteligente e capaz – ainda que no momento perdida com a crise atual – e quem não está?).

P.S.-Mais sobre esta discussão entre machismo x tradicionalismo pode ser lido nos comentários deste post, quando eu e Maira trocamos umas idéias a este respeito.


::Sociedade de consumo::

05/02/2006

Não é exagero dizer que a igreja dos alemães são as lojas, onde eles se encontram, se observam, comentam um do outro, correm atrás da mercadoria melhor, da pechincha melhor, e acham que estão felizes quando voltam para suas casas. Como diz a propaganda da loja de aparelhos eletronicos Saturn: “Geiz ist geil” (pechinchar é um barato).

Aqui o que reina é o consumismo exacerbado, principalmente quando se trata de crianças. O efeito do consumismo é a falta da felicidade, ou a busca eterna da felicidade inatingível, pois quando criança, um novo brinquedo faz com que ela fique feliz e ocupada por dois minutos, e quando adulto, fica-se ocupado e feliz com a nova compra do dia também por alguns minutos. Passados esses momentos de felicidade, parte-se em busca da nova compra, do novo momento de felicidade.

Tudo é possível, não há limites. Cresci no Brasil com o limite de três presentes por ano: aniversário, dia das crianças e Natal, e às vezes um presentinho depois de me comportar bem no dentista. Enquanto que aqui na Alemanha, em termos de presentes, nao há limite. Se presenteia na Páscoa, no aniversário, no dia do Nicolaus, no Natal, na Comunhão (sim, Comunhão aqui é sinônimo de ganhos financeiros para muitas crianças), também como compensação por boas notas ou para a criança ficar quieta num final de semana, durante um passeio, por exemplo, e ficar satisfeita “só” com um presentinho… E um presente é pouco: é comum dar-se 3, 4 presentes ou mais para as crianças, que por sua vez acham tudo “normal” e “possível”.

A máxima da constatação de que aqui os presentes sao mais do que indiscutíveis e devem ser ilimitados aconteceu com a minha filha. No final do ano passado, foi feito um amigo oculto na escola dela e o valor a ser gasto com o presente foi definido em 3 euros. Pois bem, algumas crianças da classse gastaram esta quantia, enquanto que algumas outras compraram presentes muito acima deste valor. Resultado: na hora da troca dos presentes, umas crianças se sentiram “mal presenteadas”, em detrimento de outras, que ganharam canetas de marca, brinquedos eletrônicos, etc. Houve até criança que resolveu devolver o presente ganho, pois ele não era “bom o suficiente” na sua opinião e por fim ela disse não acreditar “que a família da outra criança nao tivesse dinheiro o suficiente para comprar um presente razoável”… Neste caso eu conversei muito com minha filha, disse pra ela que acreditava que tenha faltado educação na casa dessa criança e expliquei que presente é presente e não se pode colocar juízo de valor nele e muito menos expectativa. O ditado alemão já diz: “Einem geschenkten Gaul schaut man nicht ins Maul” (não se deve analisar a boca do cavalo ganho de presente*). E o mais importante na ocasião, o verdadeiro espírito natalino, foi esquecido no meio desse caminho…

No final das contas, os efeitos da globalização não são um acontecimento isolado aqui da Alemanha, mas que infelizmente é típico do nosso mundo capitalista atual, nao importa o país onde estejamos vivendo. Mas o que se nota é que isso está piorando de geração em geração, de ano em ano, a cada dia que passa… Fica aqui a responsabilidade dos pais de transmitir aos seus filhos os verdadeiros valores, aqueles que realmente importam, e de pelo menos tentar deter um pouco o consumismo das nossas crianças.

* em português – “Cavalo dado não se olha os dentes!”

::Morando no exterior::

05/04/2004

Alguém aí já parou pra pensar que nós, brasileiros morando no exterior, somos todos representantes do nosso país? Tudo o que somos, como agimos, como tratamos outras pessoas, tudo isso contribui para que o “outro” forme sua imagem do que é ser brasileiro e a combine ou substitua aos seus “pré-conceitos” sobre o Brasil.

Da primeira vez que estive no exterior, participei de um congresso internacional de estudantes reunindo mais de 70 nações no mundo. Ali, as pessoas praticamente não tinham nomes próprios. Se alguém me via e queria falar comigo, gritava: “Brasil! Venha cá por favor!”.

Pois é, cada um de nós é o Brasil no exterior. Fico pensando se o Ronaldo sabe da responsabilidade que leva sobre seus ombros, pois na última Copa do Mundo, quando eu falava que vinha do Brasil, recebia simplesmente a seguinte resposta eufórica, uma associação imediata ao nosso país: “Ronaldo!”.

Ao mesmo tempo em que devemos ter consciência de que somos representantes do nosso país no exterior, não devemos nos esconder atrás de preconceitos ou deixar que nosso título de “estrangeiros” explique porque não chegamos onde queríamos estar, por que não fazemos aquilo que gostaríamos de fazer da nossa vida. Os preconceitos estão aí para serem discutidos e eliminados; as barreiras aparecem para ser quebradas! Ninguém pode determinar para mim onde eu deveria estar e que vida deveria estar vivendo, a não ser eu mesma, logicamente dentro de minhas possibilidades, levando em conta as verdadeiras limitações do meio em que estou inserida e não as que inventei como desculpa para “deixar como está para ver como é que fica”.

A sociedade em que vivemos, quer seja ela brasileira, alemã ou qualquer outra, teima em querer determinar para nós como devemos viver, qual é a maneira natural de uma pessoa existir, como um brasileiro deve ser, o que se espera de um alemão com tantos anos, etc. O que eu quero pra mim? O que me faz feliz? O que devo fazer da minha vida para que, aos 65 anos, olhe pra trás e pense que minha vida valeu muito a pena ser vivida? Estas são as questões básicas que devo colocar pra mim todo dia, lembrando de incluir uma pitadinha do nosso jeitinho brasileiro de ser, carinhoso, amigável, companheiro e solidário, se possível, pra dar mais cor às nossas atitudes diárias, o que faz uma grande diferença.

::A Alemanha está envelhecendo::

08/03/2004

A Alemanha está com grandes problemas que estão interligados entre si: sua população está envelhecendo a velocidades assustadoras (no momento o grupo dos habitantes acima de 60 anos acabou de ultrapassar o grupo dos habitantes abaixo de 20) e as mulheres na Alemanha dão à vida, em média, só 1,37 crianças (essas estatísticas não deixam de ser engraçadas, apesar do fundo sério de verdade).

Já escrevi e repito que o país precisaria de 4milhões de imigrantes por ano, qualificados e participantes da população economicamente ativa, para equilibrar a estrutura demográfica do país e salvar o sistema social alemão.

A consequência, como não poderia de ser, é que não será possível manter o sistema da previdência e de aposentadoria tal como ele é mantido hoje em dia. Por um lado, a expectativa de vida está cada vez maior e, por outro lado, a sociedade alemã apóia as famílias de maneira insatisfatória, razão pela qual elas decidem ter poucos filhos. Na França existem escolas de período integral e na Escandinávia uma mulher pode ficar em casa com seu filho pequeno recebendo, se não me engano, 80% do salário durante os primeiros anos de vida da criança, enquanto que aqui na Alemanha, na minha opinião, o sistema contribui firmemente para que a mulher saia do mercado de trabalho e não volte nunca mais a participar dele, pelo menos em período integral.

A liçenca-maternidade é de dois meses antes e dois meses depois do nascimento da criança. Na teoria, tanto mães quanto pais podem tirar a liçenca-educação (válida para os três primeiros anos de vida do filho), mas a grande maioria das mulheres acaba ficando em casa, durante três anos. Depois deste período, muitas delas se acostumam à vida de mães e donas-de-casa e optam pelo segundo filho, deixando definitivamente de participar da população economicamente ativa.

Não há creches no estado onde moro, Baden-Württemberg, para crianças abaixo de três anos de idade, e na minha cidade há só uma creche em período integral para crianças acima de três anos. A escola então é uma grande batalha: os horários são totalmente desconectados, a cada dia as aulas começam num horário diferente e só com a ajuda de uma equipe extra de educadores, que oferece tipo uma creche no período da manhã, antes das aulas, e também depois das aulas, no período da tarde, além da ajuda da família que mora por perto, é que é possível ser mãe e trabalhar em período integral aqui na Alemanha.

O país não está preparado para receber estrangeiros em grande quantidade, esta é uma grande verdade. Se na Holanda existe um programa para receber os estrangeiros que vão morar no país, incluindo aulas do idioma, e em páginas oficiais de países escandinavos fazem propaganda aberta de que precisam de estrangeiros qualificados, aqui a verdade é a mesma, mas ninguém fala sobre o assunto.

As explicações para tanto são, de certa forma, históricas. Depois do fardo da Segunda Guerra Mundial e da perseguição aos judeus, os alemães acham que não podem ter sentimento nacionalista e quase nunca vêem o amor à bandeira como algo positivo. O governo alemão ajuda muitos estrangeiros tais como exilados políticos, dando casa, comida e ajuda financeira, tem uma política não declarada de imigração, mas não se vê no direito e nem no dever de divulgar as regras dessa política. A população em geral confunde a visão do estrangeiro: em sua maioria, ela acha que ele só irá “sugar” do sistema, não pagando impostos e não contribuindo para ele como um cidadão normal… Conclusão: seria bom que muitos imigrantes qualificados viessem para a Alemanha, mas não há uma política aberta que apóia e integra esses possíves imigrantes, eles não acontecem em grande número, o que acaba sendo ruim para o próprio país.

Por outro lado, em vista aos altos gastos com o sistema social alemão, parece-me que chegam a perceber que o sistema deixa a desejar em relação ao cuidado com famílias e suas crianças, mas como já estão gastando acima do que podem, não pensam em ampliar o sistema neste sentido. Ou se pensam, pelo menos no momento, fica só no pensamento. Estas duas medidas contribuiriam bastante para deixar o país prosperar de forma saudável, mas infelizmente elas parecem estar muito longe de se tornar realidade.


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