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::20 anos depois da Queda do Muro de Berlim::

09/11/2009


A música “Wind of Change”, da banda alemã The Scorpions, virou símbolo da reunificação alemã.

A primeira vez que fiquei sabendo que havia um muro dividindo a Alemanha, ainda mais com Berlim fazendo o papel de uma “ilha” meio socialista e meio capitalista bem no meio do lado socialista, foi no 1° grau, acho que na 8a. série, lá pelos idos de 1982. Era difícil de imaginar que isso fosse possível existir. Na época, numa aula de história ou geografia, deveríamos escolher entre o sistema socialista e o capitalista para formarmos grupos para uma discussão na aula, e meu irmão, que é 2 anos mais velho do que eu, e percebendo que eu tinha me interessado pela ideia de um sistema onde as pessoas tivessem as mesmas oportunidades, me alertou: “Escolha o capitalismo, pois ele sempre ganha!”. Ele teve razão. Em parte digo: infelizmente.

Anos mais tarde, já na Alemanha “não” mais dividida, visitei Berlim, vi como o muro era de verdade (na realidade chegava a ser composto de 2 muros com um espaço vago entre eles) e vi casas na fronteira onde não podiam existir janelas, pois os dois mundos deveriam ficar incomunicáveis por muito tempo. No Museu do Checkpoint Charlie fiquei conhecendo várias tentativas frustradas de alemães do lado oriental que tentaram de tudo, de várias formas altamente criativas, para conseguir fugir para o lado ocidental. Uma das maneiras de punir os “desertores” do sistema era tirar deles os filhos, se fossem famílias, e estas crianças eram repassadas para famílias mais quietinhas e conformadas, “adotadas” por elas. Os adultos, os desertores, eram então “expulsos” para o lado ocidental. Assim muitas famílias na Alemanha Oriental foram separadas para sempre – ou por muito tempo – pelo sistema totalitário, que só aceitava o conformismo.

Uma pesquisa recente do Leipziger Insitut mostra que 12% dos alemães sentem falta do tempo antes da Queda do Muro, na parte oriental da Alemanha 50% das pessoas reclamam que hoje há mais desigualdade social do que antes. Eu acho que deve ser provavelmente porque, apesar dos pesares, o nível de vida até a década de 80 aqui era melhor: Na Alemanha ocidental ele era altíssimo, enquanto que na Alemanha oriental não era alto, mas ainda assim era “igual” pra todo mundo. “Igual” entre aspas porque todos os que faziam parte da cúpula do sistema ou tinham relacionamento constante com o ocidente dispunham de regalias que o resto da população não tinha acesso. E lá não havia desempregados. O sistema de creche era bem instalado e até a população feminina estava bem integrada como mão-de-obra, parte da população economicamente ativa. Em troca, este povo não tinha liberdade. Mas como não existe só certo e errado, só preto e branco, mas sim mil tons de cinza neste meio, e como o sistema capitalista também demonstra não ser o ideal, ninguém pode argumentar que o sistema socialista era só ruim e negativo. Apesar de toda a loucura de colocar um muro dividindo um país, famílias e amigos, em troca de uma ideologia…

Segundo a pesquisa acima, 8 em cada 10 alemães associam hoje a Queda do Muro como tendo sido um acontecimento positivo. 2/3 dos alemães acham que o processo de reunificação foi bem sucedido. Até hoje todo trabalhador do lado ocidental paga impostos para apoiar o lado oriental (Solidaritätszuschlag, descontado na fonte, na folha de pagamento), na realidade todo cidadão alemão contribui através de impostos que são transformados em ajudas sociais para o lado oriental, mas as discrepâncias entre os dois lados, principalmente com relação a desenvolvimento industrial e ao número de desempregados, continua grande. No lado oriental, os partidos mais extremistas têm mais facilidades de avançar frente a dificuldades econonômicas. O mesmo acontece com a tolerância para com estrangeiros – ou a falta dela.

Durante os anos que moro na Alemanha percebi que tanto a construção quanto a queda do Muro se deu em um determinado espaço de tempo, mas na cabeça dos alemães (e de outras nacionalidades também, claro) o “muro” tem demorado décadas para cair. Li por exemplo no jornal da minha cidade que uma menina de 14 anos, filha de pais da Alemanha oriental, é comumente tratada na escola pelos “Wessis” (os que nasceram do lado ocidental da Alemanha) como sendo a “Ossi” (originária da Alemanha Oriental, apesar dela nem ter nascido lá!…). Pode parecer absurdo, mas talvez seja um reflexo das desiguldades do mundo capitalista “moderno”: a pesquisa do Leipiziger Institut mostrou que 12% dos alemães (dentre eles em grande maioria desempregados, trabalhadores braçais e eleitores de esquerda), gostariam que o Muro fosse construído novamente.

A Queda do Muro tem um valor histórico, prático pra quem “renasceu” lá ou do outro lado da Alemanha e, muito mais importante, simbólico para todo e qualquer ser humano na Terra. O lado triste da coisa é que HOJE existem outros muros em outros cantos do mundo, já construídos ou em fase de construção. A comemoração dos 20 anos da Queda do Muro de Berlim mostra que o mundo tem que se aproximar, as pessoas têm que chegar perto uma das outras e parar com essa classificação e divisão desenfreadas, buscando por um mundo mais solidário e humano. Somos todos UM e só funcionamos de forma interdependente. Não importa de que lado viemos, o que importa é para onde vamos. Irgendwann fällt jede Mauer (em algum momento todos os muros vão cair).

Fontes: Revista “Der Spiegel”, jornal “Südkurier”, BBC News, YouTube.

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Deixo a dica do blog “The Wall Memories“, escrito por uma jornalista brasilera, que estará comemorando hoje o dia inteiro a Queda do Muro de Berlim. Passem por lá! Leiam também na página da Deutsche Welle (em português) “Tudo sobre o Muro de Berlim”.


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