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::Sistema educacional na Alemanha::

22/07/2015

O sistema educacional alemão é pra lá de complicado. Basicamente, em termos de 1° e 2° graus, há três tipos de escola, a Hauptschule, a Realschule e o Gymnasium. Falando de forma bem simplória, na 4ª. série as crianças são avaliadas e recebem uma sugestão de que escola deveriam cursar a partir dali, o que de certa forma já define o caminho de sua vida, a princípio. Aqui no estado de Baden-Württemberg há poucos anos atrás a decisão era unilateral por parte da escola e se os pais eram contra essa decisão, a criança teria que fazer uma prova para poder estudar em outro tipo de escola que não o recomendado pelos educadores. Mas isso felizmente mudou e a decisão foi colocada nas mãos dos pais.

Crianças com notas mais baixas, principalmente em matemática e alemão, são indicadas para cursar a Hauptschule, crianças com notas médias irão para a Realschule, podendo depois se candidatar para cursos profissionalizantes, e as crianças no Gymnasium serão, em regra, aquelas que farão um curso universitário. Isso falando de forma bem generalizada, porque na prática pode acontecer, ainda que seja uma exceção, que uma criança acabe a Hauptschule, passe pra Realschule e chegue até o nível do Gymnasium, podendo então cursar uma universidade. A ideia básica deste tipo de ensino é dividir as turmas em grupos mais ou menos homogêneos e assim, também as expectativas do que essas crianças tenderão a ter mais tarde na vida adulta. O sistema está também apoiado nos pais, o que já foi comprovado através de várias pesquisas, mesmo sendo uma forma de preconceito, pois filhos de pais que cursaram uma universidade têm bem mais probabilidade de receber uma indicação para o ginásio do que um filho de operários.

As notas na Alemanha vão de 1 a 6, sendo que 1 é a melhor é 6 a pior. O engraçado é que não é necessário acertar a prova inteira para tirar uma nota 1. A partir de 93% das respostas corretas, a nota será 1. Às vezes o professor pode também oferecer testes extras que poderiam melhorar a nota final, e se a criança acertar tudo, as questões básicas e as extras, ela recebe um 1***,  portanto ultrapassa os 100%.  Pra complicar mais um pouquinho, a partir da Oberstufe do Gymnasium (que são os dois últimos anos do ginásio, anos 11/12) as notas vão de 15 a 0, sendo 15 a melhor nota e 0 a pior, claro. Aqui tem umas tabelinhas tentando explicar as notas na Alemanha.

Cada estado alemão decide independentemente sobre as notas dadas nas escolas, sendo que o que substitui o vestibular na Alemanha, a nota do Abitur de Baden-Württemberg e de Bayern (Baviera) são os mais respeitados no país. Existem também vários tipos de ginásio, humanistisches Gymnasium, Sport- und Skigymnasium, Musikgymnasium, Technisches Gymnasium und Wirtschaftsgymnasium (Oberstufe anos 11/13, ginásios especializados em ciências humanas, exatas, esporte, música, etc.), enquanto que o ginásio normal vai até os anos 11/12. Isso significa que quem chega ao nível do ginásio vindo de outro tipo de escola vai precisar de um ano a mais para chegar ao Abitur.  Também existe um Abendgymnasium, um ginásio à noite, geralmente para quem está  terminando o 2° grau para mais tarde poder estudar na universidade, geralmente adultos que trabalham durante o dia e estudam à noite.

Bem nova é a idéia da Gesamtschule ou Gemeinschaftsschule, que reúne os três tipos de escola em um só grupo, como no Brasil, até a classe 10. As aulas são o dia inteiro e as crianças não têm aula frontal o tempo todo, se acostumam a trabalhar em grupo, ajudar outros colegas e podem receber tratamento individual para se desenvolverem de acordo com suas habilidades. As notas são mais inteligíveis, pois o máximo é 100, e no fim do ano 10 as crianças podem continuar em um ginásio até atingirem o Abitur, se quiserem estudar em uma universidade na Alemanha.

Há dois tipos de universidade, a universidade normal, chamada Universität, e a Fachhochschule, uma universidade de ciências aplicadas, sendo mais prática do que o curso mais teórico de uma universidade normal. Quem tem o Abitur, pode estudar tanto em um tipo como no outro de universidade, mas quem só tem Fachhoschulreife só pode estudar na Fachhochschule.

A parte mais interessante desses mil e um caminhos é que as escolas alemãs são gratuitas desde a 1ª. série até o final do segundo grau. Na universidade se paga apenas um pequeno valor (tipo 60 euros) para efetuar a matrícula semestral. No estado onde moro, Baden-Württemberg, as crianças recebem todos os livros no início do ano letivo, tendo só que encapar os que forem novos e colocar o nome do aluno em uma listinha logo na contracapa de cada livro. Geralmente depois de alguns anos de uso consecutivo os livros são doados para os alunos daquele ano e livros novinhos em folha serão postos em circulação.

Na prática, claro, a vida não é tão simples como no papel. Já vi jovens deixando a universidade para tentar uma vaga em um curso profissionalizante, já vi muitos jovens terminando o Abitur e fazendo de tudo, menos universidade. No caso da turma da minha filha, que terminou o ginásio há um ano atrás e era um grupo de 130 pessoas, somente 10 foram estudar em seguida e a grande maioria foi viajar, fazer algum trabalho voluntário ou estágios que pudessem contribuir para eventualmente melhorar a nota do Abitur no processo seletivo para a universidade. Paradoxalmente, a Alemanha carece de profissionais de saúde, mas somente jovens cujo Abitur chega perto da nota 1 conseguem um lugar em uma universidade de Medicina, provavelmente a mais concorrida do país. Tem muito alemão indo estudar em países da Europa Oriental devido às dificuldades de conseguir um lugar em uma universidade alemã, o que não se aplica para todos os cursos.

O estado alemão tem soberania de definir os pilares da educação, as universidades têm soberania individual. O engraçado é que não há nada parecido como um ENEM ou um vestibular na Alemanha, e se o jovem tem interesse em estudar em 15 universidades diferentes, ele tem que se candidatar 15 vezes, e pode ser que cada universidade tenha pré-requisitos bem diferentes umas das outras. Como eu expliquei, a nota do Abitur vai decidir quem consegue uma vaga na universidade, mas há cursos, p.ex. na área criativia, que avaliam a aptidão do candidato além da nota através de trabalhos práticos, criativos, etc. Para cada caso, um caso, uma nova forma de tentar um lugar na universidade, novas regras.

Outros fatos curiosos: não existem uniformes. As crianças e jovens vão para escola como bem entenderem. Em geral celulares são proibidos dentro das escolas, que não têm nenhum muro ou tipo de controle na entrada. Durante o horário de funcionamento da escola entra e sai quem quiser. Se alguma criança é pega usando o celular, ela tem que entregá-lo ao professor e depois ir buscá-lo na secretaria… Não há chamada ou lista de presença, só na hora de entrega das notas de provas. O ano letivo começa em setembro e termina em julho (pode ser um pouco diferente de estado para estado, mas o ano letivo é sempre do meio de um ano até antes do final das férias do verão do ano seguinte).

Fui perguntada se acho que uma criança brasileira pode vir para a Alemanha e continuar os estudos aqui em uma escola alemã. Conheço crianças brasileiras e de várias outras nacionalidades que se mudaram pra cá e foram matriculadas em escolas normais da Alemanha, depois de um curso intensivo de alemão e de uma avaliação de que tipo de escola seria o mais adequado para elas. O mais importante mesmo é que a criança consiga receber uma boa base da língua alemã, para poder ter condições de acompanhar bem as aulas e de se enturmar na classe. As notas de alemão e de matemática são as mais importantes no currículo e ajudarão a decidir qual é o tipo de escola adequado para cada criança, mas se uma criança tem dificuldades de grafia e gramática, perderá notas em todas as outras matérias ao  fazer provas e cometer erros de alemão. Um fato interessante que li aqui e queria incluir neste post é que hoje em dia um terço dos estudantes na Alemanha tem pelo menos um pai de outro país, mas o número de estudantes filhos de imigrantes em ginásios é bem baixo. Na época da minha filha, praticamente só 5% tinham sobrenomes estrangeiros. Filhos de russos, judeus, chineses, coreanos ou vietnameses são matriculados com mais frequência no ginásio na Alemanha do que crianças alemãs, em termos percentuais.

A grande crítica ao sistema de ensino alemão é que na quarta série a vida de uma criança é definida em grande parte, e por outro lado o meio social dos pais influencia de forma considerável nesta decisão. A cultura alemã analisa o que falta, portanto uma criança tende a ser analisada pelo que lhe falta, não pelo que ela traz em abundância. Fico pensando o que é decidido no caso de crianças cujos pais não entendem bem o sistema ou mesmo o idioma alemão. Fico pensando o que teria sido de mim se tivesse crescido na Alemanha, se teria seguido a mesma trajetória que segui no Brasil. Todo ser humano deveria poder conseguir crescer tanto quanto sua potencialidade lhe permita e tentar transpor seus próprios limites.

E quanto a você, qual é a sua experiência com o sistema educacional alemão? Tem filhos que vão à escola aqui? Do que gosta, do que não gosta? Deixe seu comentário abaixo! Eu e os demais leitores agradecemos por sua contribuição!

::Algumas coisas que você deve saber antes de morar na Alemanha::

13/08/2014

Não concordo com tudo, mas com a grande maioria do que foi reunido nestas estatísticas sobre o país de Goethe. Por exemplo, não sou da opinião de que os alemães gostem de corrigir outras pessoas quando elas falam alemão como língua estrangeira. Mas, juntando tudo, achei o gráfico super informativo sobre a Alemanha, sua economia e cultura:

Fonte: Universia Brasil

::Estudar na Alemanha::

09/08/2014

Onde posso estudar na Alemanha? Qual é o custo de vida no país? Como é a vida de estudante na Alemanha e o que tem que ser observado? Leia respostas para estas e outras perguntas neste portal (em alemão e inglês).

::Contribua para uma pesquisa (mãe e filho) e ganhe 60€::

03/05/2012

A Fer, uma brasileira que estuda aqui no sul da Alemanha, está convidando mamães e filho(a)s de 12 a 20 anos para fazer parte da seguinte pesquisa da Universidade de Constança:

“Glück und Leid während der Schwangerschaft” (Alegrias e tristezas durante a gestação).
Importante: só pode participar quem morar em Baden-Württemberg. Quem tiver interesse, deve entrar em contato com a Fer deixando um comentário abaixo com e-mail para contato. Mais detalhes sobre a pesquisa Glück und Leid während der Schwangerschaft? É só clicar no link! 🙂

::Memórias dos alemães::

20/10/2011

Conversando com alemães, aprendemos muito com suas memórias. A Neusa d'”O Paraíso sem Bananas” que o diga! 🙂

Quando apresentei meu livro em Hildesheim e comentei sobre a existência de orgulho regional, e por outro lado da quase ausência do orgulho nacional no país, alemãs com atualmente uns 50 anos comentaram comigo que não tiveram aula de história da Alemanha depois da época de 30. Antes da crise econômica daquela década ter entrado em vigor, a aula de história parava abruptamente pra pessoas daquela idade, na época quando estavam na escola. Por sua vez, em casa pouquíssimos falavam sobre experiências e memórias das Guerras. Só a partir dos anos de 70 voltou-se a dar aula sobre toda a história alemã, o que elas constataram quando seus filhos foram para a escola. Não admira que as pessoas tenham tido muita dificuldade aqui na Alemanha de desenvolver um orgulho pelo país, o que foi substituído pelo orgulho regional, mesmo levando em conta que o país pôde bravamente se reerguer depois das Guerras.

Conversando com um professor de matemática vindo da Alemanha Oriental, comentei com ele que acho as possibilidades de pesquisa das crianças e jovens hoje em dia absolutamente fantásticas, pois eles têm fontes intermináveis pra buscar o saber, o que nós, pelo menos na minha geração, não tivemos. Contei pra ele que na minha época de universidade existia um só livro na biblioteca para uma sala de 40 pessoas, e antes mesmo que o professor acabasse de passar o nome do livro uma das minhas colegas de classe já estava esperando em pé na porta da sala pra sair correndo pra biblioteca e pegar o tal livro emprestado, deixando os outros colegas a ver navios… O jeito era pegar o livro emprestado dela por algumas horas e pagar por cópias horríveis de xerox, que se amontoaram ao longo dos anos de universidade. No final de 4 anos, tinha uma pilha de uns 40 cm de cópias! O alemão oriental, por sua vez, me contou que fazer cópias era proibido na Alemanha Oriental, pois tinha-se medo que se fosse feita propaganda contra o sistema. Os alunos foram criativos e inventaram um jeito de ganhar um dinheirinho: faziam suas anotações com folhas separadas por papel carbono e assim tinham cópias, que por sua vez eram vendidas para outros estudantes. Assim, tanto lá quanto cá, todos davam seu jeitinho de aprender!

::Feira em São Paulo: “Estudar e pesquisar na Alemanha”::

06/10/2009

O Serviço Alemão da Intercâmbio Acadêmico (DAAD) e o Goethe-Institut de São Paulo realizam em 24 de outubro, sábado, das 12 às 18h, sua tradicional feira “Estudar e Pesquisar na Alemanha”. O evento acontece no próprio Goethe-Institut, à rua Lisboa, 974, bairro Pinheiros e terá estandes informativos, palestras, aulas grátis de alemão e sorteio de prêmios.

Entre os expositores, o grande destaque é a presença de representantes de quatro universidades de excelência da Alemanha, a de Göttingen e as técnicas de Munique (TUM), Aachen (RWTH) e TH Karlsruhe, estas três através da associação TU9 de universidades tecnológicas. Também estarão na feira as universidades de Marburg e Passau, a TU Bergakademie Freiberg e a Jacob University de Bremen.
Novidade será a estreia da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da Abipe (Associação Brasileira de Intercâmbio Profissional e Estudantil), representando a IAESTE, organização mundial de estágios. Um terço dos estudantes brasileiros mediados pela Abipe obtém estágio na Alemanha.
A feira é uma excelente oportunidade para estudantes, principalmente universitários, informarem-se sobre pós-graduações na Alemanha, principalmente doutorado. Possibilidades de bolsas e de fomento a cooperações universitárias e científicas, bem como de pós-doc (pós-doutorado) na Alemanha, também fazem parte da oferta dos expositores, especialmente do DAAD, da DFG (Fundação Alemã de Pesquisa Científica) e da Fapesp. O evento também se dirige àqueles que desejam aprender o idioma alemão, seja no Brasil ou na Alemanha.

O leque de expositores conta também com a Lufthansa, a Senator Turismo e a emissora internacional Deutsche Welle, que oferece cursos de alemão online, além de sua programação jornalística em rádio, tevê e internet. O Consulado Geral da Alemanha terá seu estande para esclarecer sobre as novas regras de visto vigentes desde o início de 2009 para estudantes e doutorandos brasileiros. Como convidada, participa a CampusFrance, para orientar sobre as bolsas Erasmus Mundus para cursos de pós-graduação feitos na Alemanha e na França.

Para concorrer a um dos vários prêmios oferecidos pelos expositores (inclusive bolsas de estudo do Goethe-Institut), basta comparecer e preencher uma ficha na entrada.

Fonte: Julia Zuanella Fernandes
Assistente de Marketing e Comunicação
DAAD – Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico

::Discriminação nas universidades alemãs::

04/12/2008

Estou lendo um artigo praticamente inacreditável com relação ao racismo, à discriminação e à solidão, além de dificuldades com a burocracia que os estudantes estrangeiros sofrem aqui na Alemanha. Parei no meio para vir comentar aqui. Isso me deixou muito triste, pois como o próprio artigo diz, a Alemanha depende de estudantes estrangeiros não somente pelo interesse de promover o melhor entendimento entre as culturas ou para que exista uma troca internacional nas universidades, mas acima de tudo por interesses próprios, para que os estudantes talvez se decidam ficar por aqui e trabalhar na Alemanha, pois o país precisa urgente de pessoal qualificado em várias ramificações da engenharia, dentre outras áreas. Um estudante negro teve que ir à justiça para ter direito de entrar numa discoteca de sua cidade que tinha colocado um aviso na entrada “Proibida a entrada de estrangeiros”. A tal discoteca teve que pagar 500 euros de multa pelo ato de racismo ao estudante. Outra estudante chinesa foi xingada no meio da universidade por um estudante alemão, mandando ela voltar para o país de onde veio. O mesmo estudante africano apresentou um excelente trabalho e recebeu como pergunta: “Que alemão o ajudou a fazer o seu trabalho?”. O texto, da revista alemãUniSpiegel” comenta, com razão, que o ambiente universitário é um espelho da sociedade onde está inserido e que o número de estudantes estrangeiros vem decaindo na Alemanha desde 2003.

Thiago Guimarães, 30 anos, Brasil, está cursando o curso de mestrado em Planejamento de Cidades na Universidade HafenCity de Hamburgo.

Por fim, o caso de um brasileiro, Thiago Guimarães, que veio para estudar em Hamburgo:

“Se eu pudesse decidir novamente, não teria vindo estudar em Hamburgo. Sete dias antes do início do semestre ninguém da universidade sabia me informar se eu tinha conseguido a vaga ou não. Eles nem entenderam como é difícil um estudo no exterior: visto, organização da viagem de avião, despedida de casa. Eu tive que escrever muitos E-Mails até que a confirmação da vaga na universidade chegasse. Na Alemanha fui recepcionado por uma funcionária da universidade com as seguintes palavras: “Você então é o brasileiro que nos deu tanto trabalho”.

***

Eu particularmente tive poucos problemas na universidade. Claro que uma vez ou outra notei não ser bem quista por uma ou outra pessoa, mas atribuí esses problemas a dificuldades normais de relacionamento e não perdi tempo “batendo como água em pedra dura”, sempre busquei relacionamentos frutíferos, independentemente da nacionalidade das pessoas. Quanto à burocracia e solidão eu concordo com o que foi colocado, mas os sinais de racismo e discriminação aberta me deixaram perplexa!


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