Posts Tagged ‘violência à criança’

::Situações extremas durante a quarentena::

13/04/2020

Existem pessoas que não estão tendo uma vida fácil agora durante a quarentena… A título de exemplo, imaginem as mulheres que sofrem com maridos violentos dentro das quatro paredes do seu lar… Aqui números de contato para ajuda no caso de mulheres na Alemanha que porventura estejam passando por uma situação de violência doméstica durante a quarentena. Em caso de urgência, disque 110 ou 08000/116016.

Há mil e uma situações ligadas ao direito trabalhista na Alemanha também, algo que conheço relativamente bem por ser formada e ter anos de experiência na área como diretora de Recursos Humanos. Por exemplo, se você estiver GRÁVIDA e for mandada embora na Alemanha, mesmo que seja no período probatório e mesmo que o seu empregador ainda não tenha recebido a informação oficial do médico sobre sua gravidez, a recisão de contrato é INVÁLIDA. Basta apresentar atestado de gravidez dentre as duas semanas seguintes à sua recisão. Garanta seus direitos, que podem ser argumentados através da Lei da Maternidade, parágrafo 17. Conhecendo seus direitos, você pode reagir bem melhor e sair de situações desgastantes de cabeça erguida.

Caso tenha outra dúvida, escreva no comentário.

::Pais e filhos::

21/04/2008

Seguindo o caso da menina Isabella no Brasil, me vieram à mente vários pensamentos: este caso é muito semelhante ao da Maddie, menina inglesa morta numa praia de Portugal (onde os pais podem ser os culpados); que todo pai tem sentimento de proteção mas ao mesmo tempo passa por momentos de raiva e de perda de controle com relação ao seu filho (vejam bem, não estou desculpando nada, só comentando, como nesta análise da psicanalista Castello Branco: “É normal ter o impulso de matar por raiva. Não fazemos isso por uma simples razão: a conseqüência é maior do que podemos suportar. É o peso da culpa, o medo de pagar pelo crime”); que chama a atenção como a população brasileira vem acompanhando o caso (“Eu entendo que, quando acontece uma situação dessas, as pessoas projetam todo o mal que elas não podem ver nelas mesmas naqueles dois. Historicamente, sempre foi assim. Quando as prostitutas eram apedrejadas, quando os assassinos eram castigados em praça pública, o ritual coletivo servia como expiação do que havia de mal em cada indivíduo”, palavras do psiquiatra Victor Palomo); que independente de quem quer que seja que cometeu o crime, que esta(s) pessoa(s) realmente é (são) capaz(es) de uma atitude altamente fria e calculista supostamente sem sentimento de culpa; que quem comete um crime destes já está condenado ao inferno, pois Deus vê tudo; e por último, pensando no meu caso pessoal, uma loucura dessas poderia ter acontecido com minha filha!

Talvez algumas pessoas pensem que casos loucos como este de agressão e morte a crianças só aconteçam em determinados níveis sociais ou mais em um país, menos em outros. Mas eu, que sigo tanto a imprensa brasileira quanto a alemã, posso dizer que há pessoas de todos os tipos, muito boas e muito más, espalhadas por todos os cantos deste mundo. Quantas vezes já noticiaram aqui terem encontrado corpos de bebês em freezers da casa de “mães” que ficaram grávidas várias vezes, tiveram vários filhos, mas nunca conseguiram assumir a maternidade?

Há poucas semanas atrás noticiaram aqui na Alemanha o caso de uma família separada, onde a mãe queria conseguir através de decisão judicial que o pai não só pagasse pensão para o filho, mas também que fosse exigido dele que visite e dê atenção ao filho. A decisão da Justiça foi muito sábia, na minha opinião, pois não se pode exigir isso de um “pai”, mesmo porque amor não pode ser imposto, ele tem que vir de dentro. A Justiça alegou que uma atitude dessas iria contra os interesses da criança. Concordo plenamente.

Li um artigo muito bom hoje sobre o assunto no jornal “Die Zeit” (O Tempo), datado de 03.04.08. Vamos ver se vou conseguir fazer um resumo dele. O título é o seguinte:

“Rabenväter – Wieso kann man Männer nicht zwingen, sich um ihre Kinder zu kümmern. Antes de começar com a tradução, queria comentar que acho interessante que a língua alemã tenha um substantivo próprio para pais (ou mães) que não cuidam bem de seus filhos: Rabenvater para o mau pai, e Rabenmutter para uma má mãe. Rabe significa corvo em alemão.

Maus pais – porque não se pode exigir deles que cuidem de seus filhos

A Justiça perde para a tristeza dos dias atuais. Neste caso não há parágrafo que ajude, pois o mundo já está mesmo caindo aos pedaços. Como no caso em que o Tribunal de Justiça Federal acaba de tomar uma decisão. As partes: uma mãe de Brandenburg, que entregou seu filho para um orfanato, pois ela é sozinha, desempregada e pobre. Um pai que nunca viu o filho, que paga pensão, mas se nega categoricamente a ver este menino, mesmo que fosse de vez em quando, pois procura evitar problemas com sua segunda esposa. A atual esposa, que ameaça pedir a separação caso seu marido demonstre um mínimo de afeto pela criança, originada de um caso perdido no tempo. E no meio de tudo isso um menino, a criança que ninguém quer: quatro pessoas, uma tragédia. E o dia-a-dia na Alemanha.

Muitos pais neste país não dão a seus filhos a atenção que eles deveriam dar, todo dia, uma vida inteira. Alguns pagam pelo menos pensão, outros nem isto e esperam que sua atitude anti-social seja compensada pelo governo, que em muitos casos assume suas dívidas.

Será que se deve exigir que eles tomem conta de seus filhos, além da parte financeira? Uma pergunta mais concreta: o menino estará se sentindo melhor se seu “pai” o visite de vez em quando, contra sua vontade, porque juristas exigem isto dele? Claro que não, neste caso a Justiça tem razão, pois não se pode exigir que um pai assuma responsabilidades para com seu filho contra sua vontade, acima de tudo levando-se em conta os interesses da criança. Não se pode exigir o amor, nem através do pagamento de uma multa ou por exigências da Justiça.

Mas o que dá vontade de fazer é de pegar essas quatro pessoas de Brandenburg, que vivem infelizmente um jogo familiar, ao mesmo tempo muito triste e muito real – e todas as outras pessoas, que estragam suas vidas com tanto veneno – dá vontade de pegá-las e sacudi-las para que o raciocínio volte a funcionar: O que vocês estão fazendo? O que estão fazendo com vocês mesmos?

Nove anos, o menino já tem nove anos e durante este tempo ele viveu sem o pai e o pai sem ele. Ele perdeu seu primeiro choro, os primeiros passinhos. Ele não estava presente quando o menino aprendeu a andar de bicicleta, não jogou futebol com ele ou devorou um porção de batatas fritas com ele. Nove anos perdidos. Mas ainda sobra tempo suficiente, para que um conheça o outro, com todo o cuidado possível. E há a possibilidade que não é tão impossível, de que um até goste do outro.

Uma grande parte dos mistérios – e da felicidade – da paternidade é o fato de que a pessoa aceita iniciar um caminho totalmente desconhecido. Quem não tem filhos não pode saber o que significa ter filhos. Ninguém deve ser forçado a esta aventura. Mas quem é pai (ou mãe, a afirmativa vale para ambos), deve cuidar de seu filho. Isto é fato. Mas acima de tudo é um privilégio. Quem não entende isso, não vai agir diferente por causa de uma multa ou de uma decisão judicial. Mas deve-se pelo menos ter o direito de xingá-lo de “Rabenvater” (Nota da tradutora: o que virou “pai filho de uma mãe” ou “pai de meia-tigela” pra mim, agora).



%d blogueiros gostam disto: