Posts Tagged ‘violência doméstica’

::Encontro do Mulherio das Letras Paraná – Dia 1::

18/07/2020

O primeiro dia do encontro do Mulherio das Letras organizado pelo Mulherio das Letras Paraná já deixou marcas e boas lembranças.

Tivemos a Samantha Abreu falando sobre O Lugar do Poeta. Ela nos deu uma ideia de quantas escritoras, prosistas e poetisas brasileiras foram esquecidas e atacadas durante a História, que permitiu que poucas delas se sobressaíssem no cenário literário nacional, pois houve muitas vezes a tentativa de calar suas vozes, atacá-las diretamente ou sua família.

A Samantha nos ensinou que houveram até agora cinco ondas da literatura brasileira, a saber:

  • 1a. onda: 1830-1870 – educação básica, alfabetização da mulher, direito a ler e escrever;
  • 2a. onda: 1870-1920 – direito ao voto (sufragistas, jornalistas, militantes)
  • 3a. onda: 1920-1970 – sexualidade, desejo, literatura com temas femininos
  • 4a. onda: 1970-2020 – resistência e questionamento ao Golpe Militar e à Ditadura. Foi quando o movimento Mulherio que deu origem ao atual Mulherio das Letras foi fundado, em 1981 através da Fundação Carlos Chagas;
  • 5a. onda: começando em 2020, o período atual mostra um repuxe na História, onde a repressão impera de novo e tenta-se mais uma vez calar a voz da mulher e, muitas vezes, lhe negar o lugar de fala. A consequência tende a ser um tsunami ainda maior e mais forte, influenciando a produção feminina e feminista atual. Continuemos escrevendo e nos comunicando, apoiando umas às outras, em plena sororidade e reconhecimento de que nós temos e devemos falar sobre temas que estão diretamente ligados a nós.

A Samantha falou sobre várias escritoras brasileiras desconhecidas e perguntou, acertadamente, por que elas desapareceram da História e dos livros escolares.

A minha Roda de Conversa (disponível a partir de amanhã no YouTube) que tive o prazer de moderar a convite da Marilia Kubota, com a participação de Leida Reis (MG), Jeovânia Pinheiro (RN) e Vanessa Ratton (SP) tocou nos temas da expressão conjunta de coletâneas femininas. Falamos sobre com o encontro, a troca e a diversidade da expressão feminina é importante, discutimos o preconceito contra este tipo de literatura e por que ele não é (ainda) considerado para prêmios literários. Constatamos que desde 2017, o selo Mulherio das Letras já lançou várias coletâneas, algumas das quais tive o prazer de participar tanto como escritora e poetisa quando como curadora. Nós, como curadoras de coletâneas, levantamos a importância desse meio de expressão, lembrando que as trocas ficam ainda mais fortes quando saem do virtual para o real e que juntas, somos sempre mais fortes! Falamos sobre a literatura infantil, a literatura que dá visibilidade a mulheres (também negras) e da importância de incentivar a produção literária desde a tenra infância. Fomos unânimes em coro quando afirmamos que devemos apoiar as lideranças femininas e, através de nossos projetos, apoiar a arte e o trabalho feminino também no campo da correção, diagramação, produção, edição, impressão e distribuição de nossos livros, em um grande campo de sororidade que reverbera para todas e para o mundo. Comentamos também que o Mulherio das Letras tem conseguido se expressar também no exterior, já tendo contado por exemplo com coletâneas já produzidas na Alemanha e em Portugal. Falei bem rapidinho do meu projeto atual de livro, o HERstory – escreva a sua história!, informando que busco também a sugestão de temas e do que a mulher quer ler em um livro que quer empoderar mulheres para que elas vivam as vidas que elas queiram viver.

O terceiro bloco que assisti foi sobre a Violência Doméstica e Felinicídio, tema apresentado por Daniella Rech e um grupo de peso que vive e atua no Paraná. Ficou claro que o feminicídio tem aumentado e que temos que, juntas, combatê-lo pela raiz, que (ainda) faz parte da cultura machista brasileira. Até então eu não tinha noção do quão agressivos os atos de feminicídio no Brasil são, pois geralmente a mulher é atacada no pescoço, rosto e coração, em regra por parceiros e ex-parceiros que desfiguram a mulher, destroem seus rostos na ideia de posse, ódio e no entendimento de que se não podem tê-las como seus objetos de uso pessoal, irão destruí-las também para outros… Ficou claro que ainda há muitas mulheres que têm medo de denunciar a violência que lhes acomete, que não é claramente só física, mas também psicológica, e acontece de várias formas tais como p.ex. coerção, manipulação, retirada de participação e de expressão, desconsideração no ambiente familiar e na educação dos filhos, assédio, etc., culminando com a violência visível física e, muitas vezes, com a morte.

O código penal brasileiro, através do artigo 139, que foi escrito em 1940, ainda limita muito a definição do que é a violência contra a mulher e temos que ficar constantemente alertas, denunciar casos e fazer valer a nossa voz através do voto e da participação política para ir, aos poucos, mudando esse quadro alarmante onde o Brasil aparece como líder em mortes por feminicídio e também de pessoas trans. Portanto, as punições deveriam ser ainda mais severas para ajudar a cortar o mal pela raiz e a nos tirar desta triste liderança mundial…

Mas por que a violência, muitas vezes, não é denunciada? Foram levantadas tantas razões pelas participantes! Vamos ver se eu consigo reunir algumas delas:

  • Desconhecimento pessoal da definição do que é um ato de violência;
  • Falta de recursos e/ou dependência financeira do parceiro;
  • Crença de que o ato foi isolado e de que se trata de um acontecimento pontual, de que o parceiro vai mudar;
  • Desconhecimento de seus direitos e de onde buscar ajuda contra a violência;
  • Medo de perder o emprego (quando a agressão acontece dentro da empresa onde trabalham);
  • Medo de que o companheiro ou marido perca seu emprego;
  • Medo de buscar ajuda e de não receber apoio p.ex. na delegacia, de ser ridicularizada;
  • Vergonha, medo de se expor, medo de mostrar a honra denegrida;
  • Medo de denunciar e ter que rever o agressor;
  • Opinião de que não adianta denunciar, porque nada irá ser feito efetivamente contra o agressor;
  • Sentimento de culpa da própria mulher que sofreu a agressão, tomando o lugar do agressor;
  • E muitos outros medos e receios, conscientes ou não.

Como uma pessoa que também já foi alvo de agressão, incentivo mulheres a terem consciência dos tipos de violência e de denunciar SIM, quer seja sozinhas, quer seja de forma coletiva. E a mostrar limites desde o início dos relacionamentos, não esperando que os sinais aumentem para agir, quando muitas vezes já pode ser tarde demais. O problema entre homem e mulher não é um problema dentro das quatro paredes, mas sim um problema da sociedade. A mulher retratada pelo olhar e fala do outro já é uma forma de violência! Quando nós mulheres nos expressamos na arte, muitas vezes falamos daquilo que povoa a nossa mente, como nossos medos (do machismo, de nos expressarmos, de usarem nosso corpo, medo de homem e medo de morrer, também por feminicídio, medo de opressão, estupro, apagamento, falta de lugar, perda ou ausência da conquista do lugar da fala)…

Falemos! Escrevamos! Busquemos nos expressar com sororidade e apoio mútuo! Hoje tem mais discussão no encontro do Mulherio das Letras Paraná! Todas acessíveis através do canal do YouTube. E a partir de amanhã as discussões de ontem também estarão disponíveis no YouTube. Continuemos as trocas! Já somos quase 7.000 escritoras brasileiras e provavelmente o maior encontro feminino brasileiro da atualidade. Temos que ter consciência da nossa força que não está limitada ao Brasil, mas ecoa no mundo.

::Situações extremas durante a quarentena::

13/04/2020

Existem pessoas que não estão tendo uma vida fácil agora durante a quarentena… A título de exemplo, imaginem as mulheres que sofrem com maridos violentos dentro das quatro paredes do seu lar… Aqui números de contato para ajuda no caso de mulheres na Alemanha que porventura estejam passando por uma situação de violência doméstica durante a quarentena. Em caso de urgência, disque 110 ou 08000/116016.

Há mil e uma situações ligadas ao direito trabalhista na Alemanha também, algo que conheço relativamente bem por ser formada e ter anos de experiência na área como diretora de Recursos Humanos. Por exemplo, se você estiver GRÁVIDA e for mandada embora na Alemanha, mesmo que seja no período probatório e mesmo que o seu empregador ainda não tenha recebido a informação oficial do médico sobre sua gravidez, a recisão de contrato é INVÁLIDA. Basta apresentar atestado de gravidez dentre as duas semanas seguintes à sua recisão. Garanta seus direitos, que podem ser argumentados através da Lei da Maternidade, parágrafo 17. Conhecendo seus direitos, você pode reagir bem melhor e sair de situações desgastantes de cabeça erguida.

Caso tenha outra dúvida, escreva no comentário.

::Por que ser feminista?::

12/03/2017

Quando eu era criança, queria falar tantas línguas quanto o Papa João Paulo II, que falava 40 línguas, e visitar todos os países do mundo, como ele visitava. Com o tempo, descobri que o Papa da minha infância lia o som dos idiomas, mas não falava tantas línguas, e decidi também que não quero visitar países onde mulheres tenham menos direitos do que homens. Alguns poderiam argumentar que esses países são poucos, outros poderiam dizer que são “só” os países muçulmanos, mas acabo de achar uma lista enorme de países onde a mulher vale bem menos do que o homem… Assim fica difícil viajar!… Pensando pelo lado positivo, espero que essas discrepâncias diminuam com o tempo e que a igualdade entre os sexos seja cada vez mais alcançada! A verdade é que em pleno século 21, onde os homens querem conquistar o espaço e estabelecer vida em Marte, muit@s ainda questionam e perguntam sobre o sentido do feminismo, e ainda há muito por conquistar para nós, mulheres.

Muito do que podemos hoje e consideramos claros direitos adquiridos do sexo feminino, foram direitos conquistados com o passar do tempo, frutos de muitas discussões e lutas, como por exemplo: o direito ao voto, ao divórcio, a frequentar uma universidade, trabalhar, ter conta própria no banco, dirigir, decidir se queremos ou não fazer sexo (também dentro do casamento)… a lista seria interminável se contássemos as desigualdades que ainda existem nos dias de hoje, nos quatro cantos do mundo: desigualdade de gênero, de salários, na divisão do trabalho doméstico, no tempo investido (e não remunerado) com o cuidado de familiares, a dependência feminina até a aposentadoria, para aquelas que não têm um salário próprio…

Enquanto isso, na Suíça, li recentemente um artigo dizendo que a atuação feminista das mulheres, como p.ex. as ações durante o Dia Internacional da Mulher, deixa os homens inseguros. Muitos deles, por não saberem direito mais como se portar perante uma mulher, preferem assistir filmes pornográficos no lugar de manter um relacionamento!… Mas a resposta, na realidade, é bem simples: um “não” significa um “não”!… Como dizia a minha avó: “quando um não quer, dois não brigam (ou brincam)”!… Cada par define o que está bem para eles  e os deixa felizes, definindo suas regras e compromissos aceitos entre as partes.

Vamos às leis absurdas que ainda imperam no mundo contra as mulheres:

– Uma mulher tem que permitir “sexo ilimitado” ao marido, assim que ela completar 15 anos na Índia e 13 anos em Singapura! No Yemen, onde o casamento entre crianças é algo muito comum, não existe nem uma idade mínima para tanto. Isso quer dizer que se um homem violentar sua mulher nesses países, ele não cometeu nenhum crime perante a lei;

– Na Tansânia, uma menina de 15 anos pode se casar com o consentimento de seus pais, ou até com 14 anos através de decisão judicial, se “razões importantes “ puderem ser consideradas, enquanto que meninos  só podem se casar aos 18 anos;

– Na Jordânia ou no Líbano, só é dada a nacionalidade automática destes países a filhos cujo pai seja jordaniano ou libanês. A nacionalidade da mãe não é levada em conta e não é transferida automaticamente ao seu filho. Se uma mãe jordaniana for casada com um homem de outra nacionalidade, seus filhos não terão o direito de receber a nacionalidade da mãe e perderão direitos como o de concorrer a empregos públicos ou ligados ao sistema de saúde e escolar;

– Em Malta, se uma mulher for raptada e decidir se casar com o agressor, este não precisará ser julgado perante a lei e não irá cumprir pena de prisão;

–  No Líbano, se uma mulher for raptada ou estuprada e o agressor se casar com ela em seguida, ele também estará livre de julgamento;

– Ainda há 46 países do mundo que consideram que a mulher é um acessório masculino e que só pode agir na esfera do seu consentimento, não lhes oferecendo proteção contra a violência doméstica. Na Nigéria um homem tem até o direito de bater em sua esposa, com o objetivo de castigo e repreensão, desde que desse castigo não resultem “danos irreparáveis e permanentes”. Em muitos países, 25% ou mais acham justificável um homem bater na esposa (estudo de 2010 feito pela Asociación de la Encuesta Mundial de Valores). Atualmente, a violência doméstica mata cinco mulheres por hora (!) diariamente em todo o mundo;

– No Chile, na Tunísia e na Inglaterra, em caso de herança, o homem recebe mais do que a mulher. Na Tunísia, uma lei de 1956 prevê que um filho homem recebe o dobro da herança de uma filha mulher. Na Inglaterra, a casa da família será passada para o primeiro filho homem do casal, independente do número de filhas mulheres que tiverem nascido antes. Somente em 2012 (!) houve uma alteração na sucessão ao trono, que será dada ao primeiro filho do casal, independente de seu sexo;

– Na República dos Camarões, dentro um total de 18 países, um homem pode impedir que uma mulher trabalhe se ele for da opinião de que a atividade dela não irá contribuir para o bem da família. Uma lei como essa não é só discriminatória, mas impede que a mulher tenha renda independente e fuja da espiral da dependência e pobreza;

– Em 29 países do mundo, na Ásia e na África, o clítoris de meninas e mulheres é cortado como costume ancestral. Mais de 125 milhões de mulheres já foram vítimas dessa prática;

– A Arábia Saudita é o único país do mundo onde mulheres não podem dirigir carros!

O feminicídio é o ato máximo da violência contra a mulher, que não está só relacionado a violências externas (agressão, espancamento, estupro, assassinato, etc.) mas também a violências psicológicas (humilhação, coação, manipulação, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização, vigilância constante, limitação do direito de ir e vir, etc.). No ano de 2015, o Brasil foi classificado como o quinto país com maior taxa de homicídio de mulheres. Segundo pesquisa da Datafolha, 33% da população brasileira diz acreditar que a vítima tem culpa em casos de estupro. Uma tristeza mundial: uma em cada cinco mulheres de até 18 anos já foi vítima de violência. Veja todas as formas de violência contra a mulher aqui.

Se você conhecer mais alguma lei ou proibição absurda contra mulheres, não deixe de incluí-la nos comentários. Se tiver algo a completar ou corrigir, agradeço por sua contribuição! Repasse este post, para que mais e mais mulheres entendam que precisamos ser amigas e irmãs umas das outras, lutando e defendendo o feminismo e a sororidade (irmadade entre mulheres). Muito obrigada!

Fontes: Jornal 20 Minutos da Suíça de 10/03/17, artigoTreibt Feminismus-Hype Männer in die Porno-Falle?”; website Global Citizen, artigo10 völlig absurde, frauenverachtende Gesetze, die auch heute noch existieren”, website La Informacion, artigo “La ablacion del clítoris se practica en 29 países de Asia y África”; website http://www.compromissoeatitude.org.br, artigo “Em muitos países, 25% ou mais acham justificável um homem bater na esposa”; website http://www.agenciabrasil.ebc.com.br, artigo “Violência doméstica mata cinco mulheres por hora diariamente em todo o mundo”; página www.ultimosegundo.ig.com.br, artigo “Meus pais me ameaçavam com motossera”: veja casos de violência contra a mulher”, página www.cnj.jus.br, artigo “Formas de violência”.

::I Conferência sobre Questões de Gênero na Imigração Brasileira::

31/05/2015

Entre os dias 24 e 26 de junho de 2015 acontecerá em Brasília a

I Conferência sobre Questões de Gênero na Imigração Brasileira.

O objetivo desta conferência será tratar e discutir os temas de gênero que abrangem as comunidades brasileiras no exterior.

Alguns dos pontos a serem tratados:
– violência doméstica;
– imagem estereotipada da mulher brasileira;
– guarda de menores;
– saúde feminina;
– tráfico de seres humanos…

A Alemanha vai participar desta conferência através do Conselho de Cidadania, por ser uma comunidade significativa em relação a todos estes temas. Espera-se que com a conferência sejam implementadas iniciativas que beneficiem a vida do brasileiro no exterior e fomentem sua integração.

Todos os brasileiros residentes na Alemanha poderão dar a sua opinião através da pesquisa a seguir, bem como sugerir temas a serem tratados na I Conferência sobre Questões de Gênero na Imigração Brasileira.
Para participar da pesquisa, clique no seguinte link.

Agradecemos por sua participação!

::Depoimento de uma portuguesa no abrigo para mulheres na Alemanha – Frauenhaus::

16/03/2014

No dia 11.03.14 fui contactada por uma leitora do blog:

“Sou uma portuguesa a viver na Alemanha e gostaria de lhe dar o meu testemunho da minha vida neste país. Amanhã vou começar a viver num abrigo de mulheres e gostaria de partilhar consigo e com o seu site dado que pouco ou nada encontro na internet sobre testemunhos reais”.

°°
Concordei com a ideia dela e transformei o testemunho em uma entrevista. Vamos a ela:

Por que você quer dividir sua experiência com outras mulheres?

Eu quero escrever para poder guiar as milhares de mulheres que têm receio de dar este passo.

Como foram seus primeiros passos na Alemanha?

Vim para cá e comecei a trabalhar numa empresa de controle de qualidade onde permaneci um ano e meio. Nessa empresa o meu inglês era suficiente. Infelizmente essa empresa fechou e vi-me sem alemão à procura de trabalho. Recebi o seguro-desemprego apenas durante 6 meses.

O que aconteceu durante o tempo em que esteve desempregada?

No decorrer desse período conheci o meu namorado que depois de um mês de namoro me pediu em casamento e como eu aceitei decidimos dar início a uma vida em conjunto. O seguro-desemprego terminou em abril e nós começamos nesse mês a viver juntos. Ele não é alemão mas pertence à União europeia. Trabalhava e continua a trabalhar numa empresa de trabalho temporário (trabalho terceirizado).

O Arbeitsamt (Agentur für Arbeit, depto. de ajuda a desempregados) informou-me entretanto que deixei de obter qualquer tipo d ajuda social e que só poderia reavê-la se encontrasse um Nebenjob (um trabalho além da ajuda social pago por horas, onde o bruto é igual ao salário neto, no máximo 450 euros, chamado de Minijob ou 450,00€-Job). A razão não foi por eu ter meu companheiro a trabalhar mas sim porque disseram que eu tinha necessidade de encontrar esse trabalho para obter novamente ajuda social. Ocorre que sem alemão conseguir arranjar um trabalho foi missão quase impossível.

E como isso influenciou no seu relacionamento com seu marido?

O nosso relacionamento devido a esta situação começou a andar mal. O dinheiro ajuda qualquer relação e nós não o tínhamos. A grande parte do nosso dinheiro ia para o pagamento de aluguel e eletricidade. Os problemas começaram. Descobri que meu companheiro com a aflição de não ter dinheiro começou a jogar em casinos. Ele jogava de forma tão desesperante que gastava e continuava a gastar o que nos restava.

E você conseguiu encontrar um trabalho?

Profissionalmente em setembro encontrei um Nebenjob e assim voltei a receber uma pequeno apoio social, abaixo do valor do Minijob. Comecei a ver uma luz no fim do túnel para meu relacionamento mas logo percebi que nada tinha mudado.

Em dezembro minha chefe me despediu porque alegou que meu alemão não era suficiente. Voltei a viver de ajuda social novamente.

E o que aconteceu no seu relacionamento depois de ficar desempregada pela segunda vez?

Depois de muita briga, com maus tratos físicos e psicológicos, decidi no início de março sair de casa pois sei que ele é viciado em jogo. Talvez já era antes, mas como namoramos pouco tempo não tinha percebido antes.

Comecei então a procurar uma WG (Wohngemeinschaft, um apartamento mobiliado onde cada um tem seu quarto mas divide a sala, cozinha e banheiro – fala-se “WêGê”). Foi assim que percebi que ninguém aluga porque não querem pessoas que vivam de ajuda social. Vi-me à procura de uma luz na internet e foi assim que encontrei o seu site! Frauenhaus (abrigo para mulheres)! Natürlich (claro)!

No começo desta semana visitei a Frauenhaus e contei sobre minha situação. Disseram-me que não tinham vagas mas um dia depois ligaram e disseram que já podia me mudar!

Que bom, e você já começou a estudar alemão?

Sim, desde janeiro deste ano estou fazendo um curso de alemão na AWO (Arbeiterwohlfahrt) apoiado pelo Job Center! Ele vai terminar em julho de 2015. Somos aproximadamente 22 alunos de todos os cantos do mundo: Vietnã, Colômbia, Peru, Itália, Romênia, Bulgária, Marrocos, Kosovo, Grécia, Irã e Turquia. Eu continuo a procura de um emprego, mas sem alemão fica mesmo tudo muito difícil!

E como era para você viver com um viciado em jogos?

Sempre tive muitos problemas com violência doméstica pois meu pai bebia e batia na minha mãe. Aos 19 anos saí de casa pois não aguentava mais ver minha mãe ser maltratada. Saí como saí hoje do meu casamento, somente com minhas roupas e sem um centavo.

Já encontrou uma moral da história pra sua própria história de vida?

Sempre tive bons empregos mas pouca sorte com os homens. Sempre tive queda por homens problemáticos que acabavam quase sempre me traindo.

E quais são as diferenças principais entre Portugal e a Alemanha, na sua opinião?

Portugal vai bem em termos de mentalidade, serviços, tecnologia. Mas agora com a crise os salários caíram pela metade e por isso decidi vir pra cá.
Quanto à burocracia, a única coisa que posso dizer é que tecnologicamente as repartições públicas são mais avançadas. Através de um número o atendente tem acesso a todo o seu histórico e quando alguma coisa modifica, é só inserir os novos dados no computador e pronto.
Aqui neste país tão à frente o processo é tratado como se fosse um novo atendente, como se ele não tivesse nenhuma informação a meu respeito…

(Nota da Mineirinha: a burocracia é proposital para dificultar o processo.)

Quais foram suas primeiras impressões no abrigo de mulheres?

Hoje fui muito bem recebida mas fiquei sabendo que ninguém me ajudará a procurar um apartamento. Eu vou ter que fazer isso sozinha. Meu quarto está equipado, somente necessito da minha roupa. Temos televisão em uma sala, mas não temos internet. É proibida a entrada de homens de mais de 16 anos nas instalações do abrigo e nos jardins que circundam a casa. Isso quer dizer que meu irmão não vai poder vir me visitar aqui.

Como conseguiu encontrar forças para terminar tudo com meu ex-companheiro?

Não sei muito bem! Acho que gosto mais de mim do que dele. Essa é a razão. Quando temos baixa auto-estima é dificil deixar. Sabendo o nosso valor tudo é bem mais fácil. E também porque acredito que um relacionamento tem que ter mais coisas boas do que más e no meu não tinha. Isso quer dizer que não tinha nada bom a que me agarrar.
Por mais mal que uma pessoa esteja, ninguém tem o direito de nos tratar como objeto adquirido. Ninguém pertence a ninguém. Somos todos livres! Ninguém merece nascer de mães escravas! Ninguém quer isso!!

E como vai a procura a um novo emprego?

Fui ao Job Center informar que estava morando no Frauenhaus. Tive dificuldade de explicar o óbvio porque parecia que não me entendiam. Fiquei toda envergonhada e comecei logo a suar de nervoso! Foi difícil tornar claro que acabo de me separar e que agora vivo em um abrigo para mulheres. Todos os documentos que havia preparado há 4 meses não têm mais validade, vou ter que preencher tudo de novo.
Vou receber a partir de agora uma pequena ajuda mensal, abaixo do valor um Minijob, e quando conseguir um apartamento praticamente o valor dobrado se morar dentro da cidade. Fora da cidade o valor é menor.

E o seu ex, já voltou a fazer contato com você?

Sim, ele não pára de me escrever e tenta fazer alguma chantagem psicológica…. Não me toca minimamente porque me lembro de quantas lágrimas eu já derramei sem ter o mínimo apoio dele.

E o que você gostaria de deixar aqui como dica para outras portuguesas e mulheres em geral de língua portuguesa que pensam em vir tentar a vida na Alemanha?

Aconselho às mulheres a virem preparadas para encontrar muitas dificuldades se vêm sem alemão. Sugiro que tragam uma boa quantidade de dinheiro para pagar o aluguel e as despesas básicas nos primeiros meses. Se vierem para viver com familiares, que se preparem, porque isso tende a não funcionar.
Aconselho às mulheres a nunca se inibirem de dar sua opinião por mais contraditória que seja. Vivemos em sociedade livre!

::Pensativa::

18/08/2008

A reportagem de ontem me deixou muito pensativa. Conheço muitos relacionamentos binacionais que dão certo, mas o que me deixou pensativa foi ao me perguntar quantos relacionamentos violentos existem aqui e em outras partes do mundo, qual deve ser o verdadeiro nível de violência doméstica no mundo?

Achei aqui uma descrição perfeita dos direitos da mulher em seu relacionamento amoroso. E os círculos da violência (usar coerção e ameaças, usar intimidação, uso de abuso emocional, usar isolamento, minimizar, negar e culpar, usar as crianças, usar privilégio masculino, praticar abuso financeiro) e da não violência (negociação e justiça, comportamento não ameaçador, respeito, confiança e suporte, honestidade e responsabilidade, responsabilidade parental, compartilhar responsabilidade, parceria nas finaças) explicam bem a diferença entre um relacionamento onde não há, e onde há respeito entre os parceiros. Eu já passei por um e pelo outro, portanto reconheco tão bem a diferença. E muitos dos tipos de violência pelos quais já passei não eram reconhecidos por mim como um ato de violência, por isso considero esses círculos bastante educativos e esclarecedores.


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