:: Como se sente uma pessoa que muda de país?::

Peguei no Fórum do Viver um pensamento da Lulu que diz o seguinte: “Mudar de pais é nascer de novo, temos tudo a construir e muitas barreiras a pular, depois de escalarmos as montanhas seremos vitoriosos”. Isso é verdade absoluta.

Lembrei-me imediatamente do meu poeminha intitulado “Cabral Moderna”, também parte desta coluna, que expressa o sentimento de quando cheguei aqui. Ao mesmo tempo em que estamos maravilhados com o novo, estamos perdidos como um peixe fora d’água: nos sentimos inseguros, dependentes, sem saber direito como o mundo lá fora funciona e só querendo “colo”.

Para animar aqueles que estão em processo de adaptação ou aqueles que ainda estão planejando ou pensando numa mudança, adaptar-se a um país hoje em dia pode ser muito mais fácil do que há 10 anos atrás, por exemplo, quando não havia ainda a internet e a globalização não tinha avançado tanto ainda como hoje.

Para vocês terem uma idéia, há 10 anos atrás tudo aqui era diferente do Brasil, as músicas que passavam no rádio eram outras, a moda, nada era tão igual, em sentido geral, quanto é hoje. E pior, eu dependia totalmente das cartas e da bondade dos Correios de transportá-las o mais rápido possível, pra não murchar de saudade nesse meio tempo. Mesmo assim, às vezes uma resposta chegava, me consolando, por exemplo, e meu estado de espírito já era outro completamente diferente. Obter informações do Brasil, em geral, também era muito difícil. Lembro-me de uma vez que recebi uma Folha de São Paulo ou Estado de Minas, não sei mais bem ao certo, e apesar das notícias estarem todas fora de época, eu li o jornal do começo ao fim com a avidez de tentar matar um pouquinho a minha fome de notícias do país…

Pois é, apesar de todas essas facilidades de hoje em dia, os quilômetros que separam o Brasil da Alemanha infelizmente não mudam e o fato é que a distância – e a saudade – doem! As quatro estações do ano, por mais bonitas que sejam, também continuam indo e vindo, e dentre elas o inverrrrrrrrrrno, nosso querido amigo. Os costumes e tradições daqui são, como não poderia deixar de ser, totalmente diferentes dos nossos e no começo a pessoa fica meio que decifrando os sinais externos e os codificando, pra aprender a viver (primeiro sobreviver) do lado de cá.

A pior barreira de todas, muito acima de todas as nossas diferenças culturais ou climáticas, foi e continuará a ser o idioma. Portanto, a dica que posso dar é que a pessoa invista de corpo e alma no aprendizado da língua alemã. Como todos sabemos, não é um idioma fácil, mas não deixa de ser bonito, rico, muito certinho e passa até a ter um som mais agradável para nossos ouvidos acostumados com a maciez do português. Uma curiosidade: se você souber inglês, no começo do aprendizado mais intenso do alemão, vai praticamente esquecer este idioma. Mas com tempo e calma, ele volta aos seus neurônios!

Por último, preservar as raízes e manter contatos com outros brasileiros aqui e no Brasil é super importante, mas a pessoa deve procurar também manter contato com muitos alemães, até por interesse próprio, pois isso ajuda muito na adaptação e no aprendizado do idioma. É melhor também pedir para os amigos corrigirem os erros, pois muitos alemães acham, muitas vezes, falta de educação corrigir outra pessoa e ficamos achando, erroneamente, que os erros estão diminuindo, quando na verdade não estão sendo corrigidos.

As comparações persistirão por toda a caminhada (tipo “aqui isso é assim, no Brasil é diferente”), mas não vale mesmo a pena ficar emperrado no por quê das coisas e insistir no fato de que o mundo externo se adapte à mim, quando quem tem que se adaptar sou eu em relação ao mundo externo. O melhor é aceitar nosso novo ambiente como ele é, não lutar contra ele, mas seguir com ele, acompanhá-lo e não virar as costas para ele.

Um último toque sobre a solidão, nossa velha conhecida: todos se sentem sozinhos, mesmo uma pessoa que já mora aqui há anos sente-se sozinha às vezes, pois ela não está mais em seu país, em seu meio. Mas lembre-se que tudo depende de você: invista em contatos, faça amizades, inscreva-se em cursos, faça a sua parte e com certeza a recompensa vai ser satisfatória.

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7 Respostas to “:: Como se sente uma pessoa que muda de país?::”

  1. Clarice Says:

    Oi, adorei seu comentario, foi de grande ajuda. em que parte da alemanha vc está?
    Alles gute für dich
    Clarice

  2. Raquel Says:

    Olá Sandra, amei seu texto. Minha curiosidade neste assunto é que talvez eu vá morar na Dinamarca no fim deste ano. Já senti o saborzinho de como é ficar 20 dias num ambiente totalmente diferente do nosso. Por incrível que pareça, foi exatamente o que vc escreveu: querer colo, ficar carente, sozinho, um peixe fora dágua e dependente! Nossa, e olha que foram apenas férias. Gostaria muito de manter contato com voce e quem sabe vc pode me dar umas dicas e conselhos sobre este assunto.
    Aguardarei. Beijos!!

    • Sandra Santos Says:

      Oi Raquel,
      Se vc gostou deste texto, vai gostar entao de ler meu livro, que reune muito do que aprendi ao longo de mais de 15 anos no exterior e que dou como dica sobre como ‘e morar no exterior, alem de dicas especificas sobre a cultura da Alemanha.
      Um abraco,
      Sandra

  3. Edna Says:

    Olá Sandra. Como vai? Esse texto foi escrito para mim. Estou morando na Alemanha há seis meses. E, tem hora que penso que estou enlouquecendo. Nao estou conseguindo me adaptar. Meu marido fala que os primeiros anos sao assim mesmo. Só nao sei se terei tanta paciencia. Nao entendo o que falam. Só algumas palavras. E, nao acho que irei aprender. Estou confusa, querendo colo, dependo sempre de alguém para ir ao médico ou fazer alguma coisa que exija comunicaçao oral. Me sinto em uma ilha. Sozinha, desamparada, longe dos que amo. Realmente está muito difícil para mim. Por favor, gostaria de nao perder o contato com voce. Obrigada pela força. Bjs

    • Sandra Santos Says:

      Oi Edna,
      Nada como um dia depois do outro para reverter esta situacao! Peca pro seu marido pra ir com vc no Ausländeramt (na prefeitura) e olhar quando comeca o próximo curso de integracao (Integrationskurs) na sua cidade. Quanto mais vc dominar o idioma, maior será a liberdade conquistada.
      Nao se desanime, lute por ela – e por vc!
      Um beijo,
      Sandra

  4. Edna Says:

    Bom dia querida Sandra. Obrigada por responder meu email. O tempo é o melhor remédio para curar feridas. Fico-lhe muito grata pela dica. Bjs no seu coraçao.

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