::A insegurança nossa de cada dia::

24/07/2017

Prometi pra mim mesma que vou voltar a escrever no blog com mais frequência. Logo hoje que comecei a observar que passavam muitos helicópteros na minha cabeça, durante o trabalho, e logo depois um colega veio me contar que um homem tinha invadido uma seguradora com uma motosserra, agredido cinco pessoas, deixando uma delas gravemente ferida. E isso bem perto da cidade onde trabalho.

Em poucos minutos eu já sabia detalhes do acontecido. O tragicômico é que se você busca por notícias em vários idiomas e em vários países, fica sabendo de detalhes diferentes da mesma notícia. Aqui na Alemanha ou na Suíça, por exemplo, muitas vezes não se anuncia o nome de uma pessoa que cometeu um crime, ou somente o nome com uma letra adicional do começo do sobrenome. Agora que estão buscando abertamente pelo foragido, decidiram anunciar o nome completo dele, data de nascimento, o máximo de informação de que dispunham. Mas antes disso na CNN o nome completo dele já estava sendo divulgado. Outra coisa curiosa foi como as primeiras pessoas ficaram sabendo do acontecido, lá no trabalho. Um colega, cuja mãe mora no Canadá, foi contatado por ela perguntando se estava tudo bem. Pouco tempo depois, o marido de uma colega francesa ligava preocupado.

Vi a foto da pessoa que tinha sido a autora daquela loucura, que foi fortemente informada como não ser um ataque terrorista. Ele estava foragido, fiquei sabendo da marca, cor e modelo do carro que dirigia, mostraram umas fotos suas, dizendo que ele tinha cortado os cabelos e estava careca. Ouvi uma representante da polícia dando detalhes do crime, e fiquei até um pouco orgulhosa de entender tudo, pois se tratava de alemão suíço, outro departamento pra quem fala alemão padrão.

Por um milisegundo pensei se poderia ir embora pra casa, se os trens não teriam parado de circular. Antes de sair, a notícia que eu não queria ler: talvez o foragido estivesse indo pra Alemanha… Exatamente pra onde eu estava indo!… Acabei tendo uma sorte danada, pois ao deixar o escritório, me encontrei com um colega, que me acompanhou até a estação de trem. Lá chegando, encontrei com um outro colega, que na realidade é meu vizinho e me acompanhou até eu chegar em casa. As reações, durante o caminho, foram mesmo assim inevitáveis: uma pessoa passou por mim correndo, fazendo esporte como mil e outras pessoas sempre fazem à beira do rio Reno, mas eu me assustei com ela. No caminho, começamos a conversar sobre o meu spray de pimenta e eu não o localizei na minha bolsa, mas imediatamente depois que entrei dentro de casa, e ele voltou pra dentro dela, por precaução. Dentro do trem e ainda na estação, eu observei todos os passageiros. E assim que cruzamos a fronteira, procurei pelos policiais alemães. Ao achá-los, com roupas à prova de bala e armas bem grandes, um alívio interno e um sentimento (falso) de segurança se instalaram. Na Suíça, a decisão da polícia tinha sido de ficar à paisana, para não afugentar o foragido, que era considerado perigoso e já tinha tido problemas por porte de arma ilegal por duas vezes nos últimos anos, mas que ainda não cumpriu pena, pois não tem endereço fixo e mora nas florestas…

Assim que coloquei a chave no cadeado da minha porta e entrei em casa, veio aquele alívio final: lar, doce lar!…

::Irgendwas – Alguma coisa::

03/06/2017

Tem muito tempo que não publico uma letra de música. Por acaso achei essa hoje à noite e sabia que tinha que fazer a tradução e publicá-la aqui no blog! Tem tudo a ver com o mundo atual. Tem duas versões muito bonitas dela. Uma aqui e outra aqui, essa última uma versão acústica. A Yvonne Catterfeld é uma cantora muito conhecida e famosa na Alemanha. O Benjio, o autor da letra e a voz masculina do dueto, ainda é um rapper desconhecido para o grande público alemão, mas promete!

Irgendwas – Yvonne Catterfeld feat. Bengio (Tradução para o português logo abaixo – Sandra Santos)

Irgendwas, das bleibt, irgendwas, das reicht
Irgendwas, das zeigt, dass wir richtig sind
Bis wir etwas finden, was sich gut anfühlt
Was sich lohnt zu teil’n, würden gern sowas spür’n
Suchen überall, finden scheinbar nichts
Was uns halten kann, was uns das verspricht
Was wir wirklich woll’n, wonach wir alle suchen
Kriegen nie genug, denn wir woll’n immer mehr
Können uns erklär’n, wieso die Erde dreht
Schauen im Weltall nach, uns reicht nicht ein Planet
Bauen Denkmäler, wir wär’n gern für immer jung
Sammeln Fotos, aber uns fehlt die Erinnerung
Verkaufen uns für dumm und machen Geld daraus
Erfinden jedes Jahr was Neues, was die Welt nicht braucht
Denn es geht immer noch ein bisschen mehr
Auch wenn keiner mehr den Sinn erklärt

(Refrain – 2x)
Sind auf der Suche nach irgendwas
Sind auf der Suche nach etwas mehr
Sind auf der Suche nach irgendwas
Nur was es ist, kann keiner erklär’n
Hauptsache, ein bisschen mehr

Irgendwer, der bleibt, irgendwer, der zeigt
Dass er scheinbar weiß, wer wir wirklich sind
Wenn wir ihn dann finden, können wir nicht bleiben
Wollen uns nicht binden, weil wir dann vielleicht
Etwas verpassen könn’n, was irgendwo noch ist
Was wir sonst vermissen, weil es nicht uns gehört
Hinterlassen Abdrücke wie auf frischem Teer
Die nächste Generation kommt nicht mehr hinterher
Immer noch höher, wir müssen immer noch weiter
Wir werden immer noch schneller, denn uns läuft langsam die Zeit ab
Wir brauchen mehr, mehr, wissen nicht mehr, wer
Wir wirklich sind, verlieren die Ehrfurcht
Vor so viel Ding’n, wir haben verlernt
Wie man etwas teilt, obwohl wir alle so entstanden sind
Es geht immer noch ein bisschen mehr
Auch wenn keiner mehr den Sinn erklärt

(Refrain – 2x)

°°°°°

Alguma coisa

Alguma coisa que fique, alguma coisa que seja suficiente

Alguma coisa que mostre que estamos certos

Até que achemos algo que pareça ser bom

Que valha a pena dividir, adoraríamos sentir isso

Procuramos por todo lado, mas parece que não achamos nada

Que possa nos segurar, que nos prometa isso

Algo que nós queiramos de verdade, algo que todos nós procuremos

Nunca recebemos o suficiente porque sempre queremos mais

Podemos explicar porque a Terra gira

Olhamos no universo, pra nós não basta só um planeta

Construímos estátuas, gostaríamos de ficar jovens pra sempre

Juntamos fotos, mas nos falta a lembrança

Vendemos a ideia de que somos bobos e fazemos dinheiro através disso

Inventamos a cada ano algo novo de que o mundo não precisa

Porque sempre é possível ter um pouco mais

Mesmo que ninguém consiga mais explicar o sentido

 

(Refrão – 2 x)

Estamos buscando algo

Estamos buscando um pouco mais

Estamos buscando algo

Mas o que é, ninguém consegue explicar

O mais importante é que seja um pouco mais

 

Alguém que fique, alguém que mostre

Que parece que ele sabe quem somos de verdade

Quando o achamos, não podemos ficar

Não queremos nos prender, porque talvez

Iremos perder alguma outra coisa que esteja por aí

Algo de que ainda sentimos falta porque não nos pertence

Deixamos marcas como no asfalto fresco

A próxima geração não vai conseguir nos acompanhar

Sempre mais alto, nós temos sempre que continuar

Nós nos tornamos cada vez mais rápidos, porque o tempo voa

Nós precisamos de mais, mais, não sabemos mais quem

Somos de verdade, perdemos o respeito

Por tantas coisas, esquecemos

Como dividir algo, apesar de que todos nós tenhamos surgido dessa forma

Sempre vai ser possível ir um pouco além

Mesmo que ninguém consiga explicar o sentido

 

(Refrão – 2x)

::Viajando e pensando sobre a vida::

25/05/2017

Se você for notar em todo país que chegar, mesmo não entendendo o idioma local, vai ver que as pessoas agem e sentem da mesma forma que você e podem até estar grupadas da mesma forma do seu país de origem. Há os que servem e os que são servidos. Os que venceram na vida e os que vivem à margem da vida. Há as famílias, atarefadas no seu mundo de crianças, fraldas, correrias, parquinhos, balões, sorvetes, sujeiras e afins. Há os homens e mulheres de negócio, vendo o mundo sob seus óculos do luxo à la Louis Vuitton. Há os vendedores de rua e sua interpretação do que é típico de seu país, do que é vendível para os olhos do consumidor. Há velhinhos em seu passo manso, com tempo pra tudo. Há os jovens, impulsionando as cidades com seu vigor, cor e sabor, visualmente lindos com pouca história e rugas pra carregar. Há gente de todas as idades e crenças buscando o sol.

Todos esses grupinhos coexistem no mesmo local, mas muitas vezes nem se notam, cada um segue sua rota. Cada um interpreta a vida da sua maneira, carrega suas dúvidas e crenças, mas a verdade é que todos buscam as mesmas coisas: alguém que goste deles como são, um teto sobre suas cabeças, um trabalho que lhes dê o pão de cada dia, um sentido para suas existências. Daí entendemos rápido que somos todos irmãos, passageiros do mesmo barco chamado Terra, perdidos num pontinho do universo, enxergando a realidade sob nossa perspectiva individual e chamando-a de verdade. Existem muitos bilhões de verdades andando por aí!…

A Perfeição do Universo e a Lei Cósmica

12/05/2017

A perfeição do Universo é a própria Lei Cósmica em manifestação.

E nós muitas vezes, ainda que estejamos no caminho espiritual interpretamos ela de forma equivocada.

Por exemplo, se sempre que mudamos de emprego, ao chegar encontramos bagunça, confusão, brigas, ou qualquer que seja a situação que se repete em nossa caminhada, fiquemos alerta ao recado que o Universo está tentando nos passar…

É importante não cair na ilusão de que somos atraídos para esse “lugar/situação” comum para resolvermos, sermos os paladinos que leva a solução…

Não é sobre o outro, ou sobre o lugar, nunca é, é sempre sobre você…essa entropia que lhe atrai, é porque VOCÊ ainda não aprendeu a lição.

É porque VOCÊ ainda não conseguiu organizar sua vida, sua bagunça interior, ou da sua casa, que aliás fala muito sobre VOCÊ!

Fonte: A Perfeição do Universo e a Lei Cósmica

::Recorde no número de vagas em aberto na Alemanha::

12/05/2017

Saiu no jornal FAZ e vou fazer um pequeno resumo da reportagem: no momento há um recorde no número de vagas de emprego a serem preenchidas na Alemanha na área técnica de nível superior, o que aqui é resumido através da sigla MINT – Mathematik, Informatik, Naturwissenschaften und Technik (Matemática, Informática, Ciências Naturais e Técnica. Há um total de 237.500 vagas em aberto, 38,6% a mais do que em 2016. Desde 2013 a participação de mão de obra estrangeira nessa área cresceu 43%. Se não fosse isso, a falta de mão de obra qualificada na Alemanha estaria em patamares muitíssimo mais altos.

Fonte: artigo do jornal FAZ lido em 12/05/17: “Rekordlücke: 237.500 MINT-Arbeitskräfte fehlen”

::Por que ser feminista?::

12/03/2017

Quando eu era criança, queria falar tantas línguas quanto o Papa João Paulo II, que falava 40 línguas, e visitar todos os países do mundo, como ele visitava. Com o tempo, descobri que o Papa da minha infância lia o som dos idiomas, mas não falava tantas línguas, e decidi também que não quero visitar países onde mulheres tenham menos direitos do que homens. Alguns poderiam argumentar que esses países são poucos, outros poderiam dizer que são “só” os países muçulmanos, mas acabo de achar uma lista enorme de países onde a mulher vale bem menos do que o homem… Assim fica difícil viajar!… Pensando pelo lado positivo, espero que essas discrepâncias diminuam com o tempo e que a igualdade entre os sexos seja cada vez mais alcançada! A verdade é que em pleno século 21, onde os homens querem conquistar o espaço e estabelecer vida em Marte, muit@s ainda questionam e perguntam sobre o sentido do feminismo, e ainda há muito por conquistar para nós, mulheres.

Muito do que podemos hoje e consideramos claros direitos adquiridos do sexo feminino, foram direitos conquistados com o passar do tempo, frutos de muitas discussões e lutas, como por exemplo: o direito ao voto, ao divórcio, a frequentar uma universidade, trabalhar, ter conta própria no banco, dirigir, decidir se queremos ou não fazer sexo (também dentro do casamento)… a lista seria interminável se contássemos as desigualdades que ainda existem nos dias de hoje, nos quatro cantos do mundo: desigualdade de gênero, de salários, na divisão do trabalho doméstico, no tempo investido (e não remunerado) com o cuidado de familiares, a dependência feminina até a aposentadoria, para aquelas que não têm um salário próprio…

Enquanto isso, na Suíça, li recentemente um artigo dizendo que a atuação feminista das mulheres, como p.ex. as ações durante o Dia Internacional da Mulher, deixa os homens inseguros. Muitos deles, por não saberem direito mais como se portar perante uma mulher, preferem assistir filmes pornográficos no lugar de manter um relacionamento!… Mas a resposta, na realidade, é bem simples: um “não” significa um “não”!… Como dizia a minha avó: “quando um não quer, dois não brigam (ou brincam)”!… Cada par define o que está bem para eles  e os deixa felizes, definindo suas regras e compromissos aceitos entre as partes.

Vamos às leis absurdas que ainda imperam no mundo contra as mulheres:

– Uma mulher tem que permitir “sexo ilimitado” ao marido, assim que ela completar 15 anos na Índia e 13 anos em Singapura! No Yemen, onde o casamento entre crianças é algo muito comum, não existe nem uma idade mínima para tanto. Isso quer dizer que se um homem violentar sua mulher nesses países, ele não cometeu nenhum crime perante a lei;

– Na Tansânia, uma menina de 15 anos pode se casar com o consentimento de seus pais, ou até com 14 anos através de decisão judicial, se “razões importantes “ puderem ser consideradas, enquanto que meninos  só podem se casar aos 18 anos;

– Na Jordânia ou no Líbano, só é dada a nacionalidade automática destes países a filhos cujo pai seja jordaniano ou libanês. A nacionalidade da mãe não é levada em conta e não é transferida automaticamente ao seu filho. Se uma mãe jordaniana for casada com um homem de outra nacionalidade, seus filhos não terão o direito de receber a nacionalidade da mãe e perderão direitos como o de concorrer a empregos públicos ou ligados ao sistema de saúde e escolar;

– Em Malta, se uma mulher for raptada e decidir se casar com o agressor, este não precisará ser julgado perante a lei e não irá cumprir pena de prisão;

–  No Líbano, se uma mulher for raptada ou estuprada e o agressor se casar com ela em seguida, ele também estará livre de julgamento;

– Ainda há 46 países do mundo que consideram que a mulher é um acessório masculino e que só pode agir na esfera do seu consentimento, não lhes oferecendo proteção contra a violência doméstica. Na Nigéria um homem tem até o direito de bater em sua esposa, com o objetivo de castigo e repreensão, desde que desse castigo não resultem “danos irreparáveis e permanentes”. Em muitos países, 25% ou mais acham justificável um homem bater na esposa (estudo de 2010 feito pela Asociación de la Encuesta Mundial de Valores). Atualmente, a violência doméstica mata cinco mulheres por hora (!) diariamente em todo o mundo;

– No Chile, na Tunísia e na Inglaterra, em caso de herança, o homem recebe mais do que a mulher. Na Tunísia, uma lei de 1956 prevê que um filho homem recebe o dobro da herança de uma filha mulher. Na Inglaterra, a casa da família será passada para o primeiro filho homem do casal, independente do número de filhas mulheres que tiverem nascido antes. Somente em 2012 (!) houve uma alteração na sucessão ao trono, que será dada ao primeiro filho do casal, independente de seu sexo;

– Na República dos Camarões, dentro um total de 18 países, um homem pode impedir que uma mulher trabalhe se ele for da opinião de que a atividade dela não irá contribuir para o bem da família. Uma lei como essa não é só discriminatória, mas impede que a mulher tenha renda independente e fuja da espiral da dependência e pobreza;

– Em 29 países do mundo, na Ásia e na África, o clítoris de meninas e mulheres é cortado como costume ancestral. Mais de 125 milhões de mulheres já foram vítimas dessa prática;

– A Arábia Saudita é o único país do mundo onde mulheres não podem dirigir carros!

O feminicídio é o ato máximo da violência contra a mulher, que não está só relacionado a violências externas (agressão, espancamento, estupro, assassinato, etc.) mas também a violências psicológicas (humilhação, coação, manipulação, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização, vigilância constante, limitação do direito de ir e vir, etc.). No ano de 2015, o Brasil foi classificado como o quinto país com maior taxa de homicídio de mulheres. Segundo pesquisa da Datafolha, 33% da população brasileira diz acreditar que a vítima tem culpa em casos de estupro. Uma tristeza mundial: uma em cada cinco mulheres de até 18 anos já foi vítima de violência. Veja todas as formas de violência contra a mulher aqui.

Se você conhecer mais alguma lei ou proibição absurda contra mulheres, não deixe de incluí-la nos comentários. Se tiver algo a completar ou corrigir, agradeço por sua contribuição! Repasse este post, para que mais e mais mulheres entendam que precisamos ser amigas e irmãs umas das outras, lutando e defendendo o feminismo e a sororidade (irmadade entre mulheres). Muito obrigada!

Fontes: Jornal 20 Minutos da Suíça de 10/03/17, artigoTreibt Feminismus-Hype Männer in die Porno-Falle?”; website Global Citizen, artigo10 völlig absurde, frauenverachtende Gesetze, die auch heute noch existieren”, website La Informacion, artigo “La ablacion del clítoris se practica en 29 países de Asia y África”; website http://www.compromissoeatitude.org.br, artigo “Em muitos países, 25% ou mais acham justificável um homem bater na esposa”; website http://www.agenciabrasil.ebc.com.br, artigo “Violência doméstica mata cinco mulheres por hora diariamente em todo o mundo”; página www.ultimosegundo.ig.com.br, artigo “Meus pais me ameaçavam com motossera”: veja casos de violência contra a mulher”, página www.cnj.jus.br, artigo “Formas de violência”.

::Trabalhar ou não trabalhar na Alemanha – eis a questão::

24/02/2017

Um texto escrito para brasileiras na Alemanha

Saiu um estudo recente da OECD mostrando que a Alemanha é um dos países onde as mulheres mais trabalham em período parcial. Na Alemanha, 70% das mulheres trabalham, e dentre elas, 30% em período integral e 40% em período parcial. Uma taxa de trabalho em regime parcial maior do que na Alemanha (dentre os países que fazem parte da OECD) só pode ser encontrada na Holanda e na Áustria. A bem da verdade, em alguns países como nos EUA ou na Suíça esta opção de trabalho parcial, além de muitas outras que facilitam a reinserção da mulher no mercado de trabalho, praticamente não existem, e muitas mulheres acabam parando de trabalhar por não terem condições de encontrar uma maneira de se reequilibrarem na corda bamba da vida como mães e profissionais.

Com relação à possibilidade de trabalho parcial na Alemanha, há muitas observações, a seguir:

– Esse é um direito garantido por lei na Alemanha para empresas acima de 15 empregados (Teilzeitgesetz). Uma mãe (ou pai) que requer, depois do Elternzeit (licença de 1-3 anos que se pode tirar para cuidar do filho), um regime de trabalho parcial, só pode ter seu pedido negado pela empresa por motivo de força maior;

– O mercado de trabalho alemão é realmente muito flexível e existem empregos de todos os tipos e constelações imagináveis, de poucas horas, algumas horas em alguns dias da semana ou no final de semana, com período limitado de duração, etc. – cada um monta seu esquema da maneira que lhe apetece;

– Observe-se que trabalhos em regime parcial são muito concorridos! Há muitas mães, muitas delas altamente qualificadas, buscando o mesmo tipo de trabalho: de preferência 4 horas por dia, durante o período da manhã;

– Como é de se esperar, o salário oferecido para trabalhos em regime de tempo parcial não é significativo e muitas vezes até menor (em termos de salário pago por hora) do que o salário pago para pessoas trabalhando em tempo integral. Portanto, caso apresente sua proposta de redução de carga horária, observe a regra de três!

– A consequência lógica, no caso de um salário baixo, é que as contribuições para a aposentadoria também serão baixas, e aí moram perigos bastante grandes! Há casos de separação onde a mulher fica desamparada no presente e a aposentadoria mais tarde terá um valor reduzido, muitas vezes não sendo suficiente para (sobre)viver. Acompanhei também o caso de uma senhora que sempre trabalhou em período parcial, seu marido faleceu aos 60 anos e ela se viu de um dia para o outro com uma renda bastante reduzida, pois como viúva tinha direito a parte da aposentadoria do marido, que ainda não tinha completado os anos necessários para uma aposentadoria normal, e o que ela recebia como salário em tempo parcial ainda era tomado em consideração para o cálculo de sua aposentadoria como viúva!

– Por último, acrescentaria a lógica de que um trabalho em período parcial ajuda a driblar o dia-a-dia, mas pode impedir o crescimento profissional, pois tarefas mais complexas geralmente exigem mais dedicação do funcionário. E sem o desenvolvimento profissional, o salário tende a ser o mesmo por muitos e muitos anos, com pouquíssima probabilidade de aumento de remuneração.

Mesmo tendo consciência de todos esses pontos, eu trabalhei durante os primeiros anos de vida do meu segundo filho no regime de 80% (de segunda a sexta, de 8 da manhã às 2h da tarde). Considero que foi um período muito bom, que me permitiu acompanhar meu filho de perto, me deu tempo para observar e realmente aprender a acompanhar as mudanças da natureza e me fez aprender a respeitar todas as mães: as que ficam em casa por opção, as que vão trabalhar em tempo parcial e as que, como eu, voltam a trabalhar em período integral.

As dificuldades encontradas por uma mãe que quer voltar ao trabalho, ainda mais em um país estrangeiro, são enormes. O idioma, a cultura, o sentimento de culpa, as dúvidas… A lista seria interminável. Eu diria que há vários pontos que contribuem para a decisão de voltar ao trabalho, mesmo tendo filhos pequenos:

– Você não perderá o contato com seus colegas e se manterá em dia com relação à tecnologia e aos sistemas empregados na empresa;

– Se manterá atualizada na sua área;

– Não terá que explicar um buraco no seu currículo mais tarde;

– Continuará contribuindo para sua aposentadoria;

– Terá chances contínuas de aumentos salariais;

– Manterá (nem que seja em parte) sua independência financeira;

– Encontrará, mesmo que depois de muita procura, paciência e grande antecedência de planejamento, uma rede para dar suporte ao dia-a-dia e aos períodos de emergência, formada por jardim de infância, creche, KiTa, Tagesbetreuung (cuidado diário depois do final das aulas com acompanhamento escolar e almoço), escola, professores, Tagesmütter (mães que se dispõem a cuidar de outros filhos, se formam e se organizam em associações), ajuda governamental nas férias escolares, parentes, amigos, etc. Já dizia um ditado africano que para se cuidar de um filho, precisa-se de um povoado inteiro! E mesmo o governo alemão dá bastante suporte através de programas como o Elterngeld, 10 dias de licença por ano no caso de filhos doentes (comprovadas pelo médico), previstos por lei tanto para mães quanto para pais, além de vários outros programas e leis.

Assim que tiver tomado a decisão do que é melhor para a sua vida, junto do seu parceiro, e de como irá organizar seu dia a dia, como e quando irá trabalhar, terá por certo que ter respostas afiadas e treinadas para todo tipo de pessoa que quiser se intrometer em sua vida e lhe ensinar o jeito «certo» de viver. Quando eu trabalhava em tempo parcial, vivia recebendo comentários de funcionários que queriam também sair mais cedo do trabalho, e me diziam que eu tinha uma «vida boa». Até que eu disse que todo funcionário tinha o direito de solicitar um trabalho em meio período, mas tinha também que aceitar metade do salário. Pronto, os comentários chatos se foram!… E quando trabalhava em tempo integral e meus filhos ainda eram pequenos, recebia comentários do tipo «coitada de você, que tem que trabalhar!» e minha invariável resposta era «coitada por que, se eu trabalho porque gosto?» Terá que organizar seu dia a dia para dias normais e alguns tantos anormais, tais como doenças, imprevistos, etc. Alguns dias não vão dar certo e seus planos vão ir por água abaixo, portanto será necessário aceitar que não há planos sem falha e não há perfeito sem defeito. Terá que relativizar seu sentimento de culpa, crescer na adversidade e descobrirá que todo ser humano tem suas dúvidas, mesmo as mães que ficam em casa, não só as que deixam seus filhos na escola todo dia para ir trabalhar. Terá que se organizar para garantir a comunicação dentro de casa, os momentos qualitativos (e não quantitativos) com seus filhos e a divisão de tarefas com seu parceiro. Não será uma questão dele lhe «ajudar» em casa, pois divide o mesmo chão com você, assim como seus filhos. Juntos, em casa, serão um time cooperativo onde todo mundo tem que ajudar.

Eu tenho plena consciência de que escolhi um caminho árduo, mas que vejo ser recompensado pela independência dos meus filhos e pelo meu desenvolvimento profissional. Tenho plena consciência também de que vários caminhos levam a Roma e não há um jeito único e certo de viver e de educar filhos. Respeito todas as opções, ao mesmo tempo que dou grande força para as mulheres que querem crescer profissionalmente e conquistar seu lugar ao sol como mães e profissionais, pois tempo trabalhado significa maior independência financeira hoje e sempre, além de garantia de aposentadoria mais tarde.

Fonte: Artigo do jornal Die Zeit sobre o estudo da OECD datado de 20/02/17, primeiramente lido e discutido no grupo Mães Brasileiras na Alemanha do Facebook.

::Sororidade::

09/02/2017

A palavra sororidade não existe nos dicionários. Mas existe em um lugar sagrado chamado força interna feminina. Sóror quer dizer irmã. Sororidade é a capacidade que as mulheres possuem em se reconh…

Fonte: SORORIDADE

::Paixão alemã::

25/10/2016

tigre

Lá pelos idos do ano de 2000, depois que cheguei a ter medo de que o mundo iria acabar na virada do ano, ao voltar de uma viagem do Brasil fui intimada pelo meu marido de outrora para ir escolher um gato pra nossa família. Até então, gato não era o que eu exatamente poderia chamar de “amigo”: tinha tido alergia a gatos quando criança e não consegui me aproximar de animal nenhum durante toda a minha infância e adolescência – eles lá, eu cá. Tinha aprendido que nós, humanos, estávamos (muito!) acima deles.

Os gatos chegaram na nossa casa, irmãos, bem nenenzinhos, e como dupla permaneceram por muito pouco tempo, pois um deles morreu em seguida. Por ter pena do gato sozinho, tentamos arrumar companhia para o gato principal, mas a primeira tentativa não deu certo. Perdi meu peso na consciência depois de entender que gato gosta de ficar sozinho e, além do mais, dorme durante grande parte do dia. Durante esse período de peso na consciência, chegamos a tentar levar o gato, que era essencialmente de apartamento, pra passear, mas não funcionou. Nem coleira, nem passeio. O gato rastejou no chão e parecia carregar mil livros no lombo… Quando queria passear, ele subia no telhado da casa e poderia ser visto do outro lado, tomando sol ou caçando passarinhos…

Nosso gato principal viveu vários momentos legais conosco. Foi fantasiado numa festa de Halloween e ganhou uma lanterna na cabeça pra correr atrás do próprio ponto de luz. Corria e batia na parede atrás de um reflexo de relógio e foi lançado da cama para nosso armário no quarto quando meu marido se sentiu incomodado por ele (e eu cheguei a pensar que era nosso filho voando pelo quarto)…

Meditava e tomava muito sol. Soube aproveitar a vida, ao lado de muitos que o amaram. Fazia massagens e praticava reiki. Era terapeuta! Antes mesmo de sabermos de um ponto que doía no nosso corpo, ele mostrava o local, fazia massagem e aplicava energia curativa.

Junto de um novo gatinho que recebemos depois que ele já era vovô, fez cocô pela casa toda, até no meio dos colchões da minha cama de casal e debaixo do tapete que tinha ganhado de presente de casamento. Os dois pintaram o sete, fizeram xixi por todo canto, espalharam partes do lixo pela casa e destruíram parte dos meus móveis. Depois de destruir grande parte deles, o Tigre, Tigrinho, “Tigger” ou Tiggi em alemão, ganhou um novo local para afiar suas unhas…

Ficou traumatizado depois que o levamos no veterinário pra ser castrado. Teve duas casas. Acompanhou muitas mudanças, altos e baixos, achou que tinha ficado sozinho pra sempre toda vez que viajamos, viu um neném vir ao mundo e fez greve de fome porque não queria aceitar dividir a atenção de sua dona com ele (ou será que ele era o verdadeiro dono do pedaço?). Passou vários anos em pé de guerra com meu filho e depois de uns cinco anos os dois finalmente fizeram amizade.

Teve uma saúde de ferro, que só foi abalada por um livro grosso que, por azar, caiu nas suas costas e machucou seus nervos. Lutou contra a homeopatia prescrita pela dona, cuspindo cada bolinha dificilmente enfiada em sua boca, e, sem querer, quase foi morto por Paracetamol. Por sorte olhei antes no Google: gato + Paracetamol = morte.

Foi e sempre será um gato insubstituível, companheiro de meus filhos e de toda a família, leal, caridoso, sábio, terapeuta, zen. Tem cadeirinha cativa na primeira fileira do meu coração e pra mim vale muito, muito mais do que muitos seres de duas patas, senhores de si, espalhados por este mundo lindo e cruel.

Mostrava o caráter das visitas. Recepcionava meu filho na porta de casa. Esquentou as mãos da minha irmã por vários dias seguidos no inverno. Cuidava da gente quando estávamos em casa. Sentava em cima do celular ou do teclado pra ganhar carinho. Refazia a energia do ambiente. Sumia quando lhe dava na telha. Caiu do telhado ou fugiu pela porta algumas vezes, mas sempre voltou pra casa.

Viveu por 17 anos e nos acompanhou por quase 16 anos e meio, durante quase toda a minha vida na Alemanha. Morreu de morte natural, depois que conseguiu se despedir de todos os cantos da casa e de todos os integrantes da família, e vai viver pra sempre na nossa memória. Somos muito gratos por sua existência e por termos podido dividi-la com ele! Que ele esteja em um lugar especial reservado aos bons, quer sejam homens, quer sejam animais.

°°°

Aqui um pouco mais de suas peripécias. Aqui algo para rir um pouco, especialmente para aqueles que têm gatos em casa.

°°°

Há dois meios de refúgio contra as misérias da vida: música e gatos.
Albert Schweitzer

Gatos são poemas ambulantes.
Kligerman Murray

Eu conheci muitos pensadores e muitos gatos, mas a sabedoria de gatos é infinitamente superior.
Hippolyte Taine

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção.
Artur da Távola

No princípio, Deus criou o homem, mas ao vê-lo tão fraco, deu-lhe o gato.
Warren Eckstein

De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.
Mark Twain

Mulheres e gatos agem como bem entendem. Homens e cães deveriam relaxar e acostumar-se com isso.
Robert A. Heinlein

::10 Confissões de Terça-Feira::

25/10/2016

corazonseco_1

Já saí em matéria de jornal no Japão

Tenho vários amigos virtuais (e reais!) pelo mundo

Tinha um gato sábio e terapeuta (ele me tinha em seu reino)

Conheço gente que vê aura (de várias cores e tamanhos)

Às vezes, penso numa pessoa e ela aparece

Já encontrei por acaso uma chinesa que conhecia, totalmente sem planejar, num parque em São Diego nos EUA (logo depois de ter pedido pra escrever os nomes do povo daqui de casa em chinês pra uma outra chinesa desconhecida…)

Vejo sinais em borboletas, borboletas como sinais

Abro livros no meio, procuro e leio “recados”

Leio vários livros ao mesmo tempo

Minha multiplicidade me faz ser voada (e aceitar que sou um simples ser humano cheio de pontos enigmáticos e erros diários)

 


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